ISSN 1678-0701
Número 65, Ano XVII.
Setembro-Novembro/2018.
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18/09/2018ESTUDO DO AMBIENTE PRODUTIVO DA CANA DE AÇÚCAR EM MATO GROSSO E O BIOMA CERRADO DE 2000-2016  
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ESTUDO DO AMBIENTE PRODUTIVO DA CANA DE AÇÚCAR EM MATO GROSSO E O BIOMA CERRADO de 2000-2016

Danielle da Silva Batista1, Carlos Antonio Batista2, Jonathan Willian Zangeski Novais3

1Mestranda em Ciências Ambientais, Universidade de Cuiabá (UNIC) -MT

2Bacharel em Direito, Universidade de Cuiabá (UNIC) –MT

3Docente do Mestrado Ciências Ambientais, Universidade de Cuiabá (UNIC)-MT



Resumo

A expansão territorial da área plantada de cana de açúcar no estado de Mato Grosso é 280,191 ha em 2016, em comparação com do Brasil que chega ao total de 10.245,102 ha/2016, pelo outro lado encontra-se o bioma Cerrado com dois milhões de quilômetros quadrados, correspondendo a 24% do território brasileiro. O cerrado é o segundo bioma com maior degradação e desmatamento, perdendo somente para o bioma Pampa. Nesse cenário vários estudos buscam reduzir esse crescimento desenfreado do desmatamento nessas áreas de conservação. Entretanto a crescente busca pela otimização do biocombustível está sendo um dos grandes problemas. Diante disso, esse artigo tem por objetivo estudar e comparar o ambiente produtivo da cana de açúcar e bioma cerrado em Mato Grosso, no período de 2000-2016, com intuito de relacionar essas duas variáveis e identificar até que ponto a área plantada de cana de açúcar contribui para o desmatamento do bioma Cerrado. Este estudo é baseado por pesquisa qualitativa e quantitativa com dados fornecidos pelo INPE, UNICA e IBGE. Para analise estatística utilizou-se correlação de Sperman. O resultado dessa correlação foi significativo ρ<0,01 porem inversamente proporcional, ou seja, conforme a área desmatada diminui a área plantada de cana aumenta e vice-versa. Isso é justificado com medidas preventivas e intensivas do governo federal com as criações de órgãos fiscalizadores. Com isso foi possível reduzir de forma significativa o avanço do desmatamento na região, porem pode ser destacado que o fator principal do desmatamento é a utilização da madeira do cerrado para fabricação de carvão.

Palavra-chave: Vegetação, plantação, desmatamento.

ABSTRACT

The territorial expansion of the sugarcane plantation area in the state of Mato Grosso is 280,191 ha in 2016, compared to Brazil that reaches a total of 10,245,102 ha / 2016, on the other side is the biome Cerrado with two million square kilometers, corresponding to 24% of the Brazilian territory. The cerrado is the second biome with the greatest degradation and deforestation, losing only to the Pampa biome. In this context, studies have sought the unbridled growth of deforestation in conservation areas. However, the search for biofuel optimization is one of the major problems. Therefore, this article aims to study and compare the productive environment of sugarcane and cerrado biome in Mato Grosso, in the period of 2000-2016, in order to relate these two variables and the point of contact to the area planted with sugar cane for the deforestation of the Cerrado biome. This study is based on qualitative and quantitative research based on INPE, UNICA and IBGE. Analyze statistics using Sperman. The resulting driver was significant because of inversely proportional cause, ie as a deforested area decreases the area planted increases cane and vice versa. This is justified with preventive and intensive measures of the federal government as the creations of oversight agencies. With this, it is possible to reduce the advance of deforestation in the region, because it can be highlighted the main deforestation factor for the wood of the cerrado for the manufacture of coal.

Key Words: Vegetation, planting, deforestation.



INTRODUÇÃO

A cultura da cana-de-açúcar (Saccharum officinarum L.) destaca-se no Brasil, pela sua importância econômica e social como fonte de energia. Esta cultura vem apresentando significativa expansão em sua área cultivada, assim aspectos como produção, eficiência, lucratividade e sustentabilidade, são itens da maior relevância para quem deseja obter sucesso em sua produção (REIS,2013).

Nos últimos anos, os biocombustíveis têm sido considerados por inúmeros setores da sociedade como uma das mais promissoras alternativas de energia renovável capaz de diminuir a dependência por combustíveis fósseis e consequentemente diminuir também a emissão de gases de efeito estufa (FARRELL et al. 2006; RAGAUSKAS et al. 2006).

No estado de Mato Grosso a expansão da cana foi estimulada pelo programa Proálcool que buscou incrementar a plantação da cana de açúcar no estado, várias destilarias foram implantadas na região, entretanto para isso faz-se necessário terra, com esse argumento iniciou-se o processo desenfreado do desmatamento do bioma cerrado.

Com todo esse processo de aumento do desmatamento do cerrado, perda da fauna e flora, alterações climáticas no estado de Mato Grosso, foram criados vários projetos do governo federal entre eles está o zoneamento agroecológico da cana de açúcar (ZAE).

Dessa forma, esse estudo procura verificar a expansão da área plantada de cana de açúcar sobre o bioma cerrado no estado de Mato Grosso, nos períodos de 2000-2016. Os dados foram fornecidos pela União da indústria de cana de açúcar (UNICA), Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE).

A metodologia utilizada foi à da pesquisa descritiva e documental, fundamentada numa pesquisa de referência bibliográfica, com dados secundários e de informações obtidas em artigos. Ainda se utilizou-se o método histórico para descrever o processo de desenvolvimento do setor sucroalcooleiro e desmatamento do bioma cerrado, para que fosse possível realizar a comparação entre elas. Para modelagem estatística utilizou-se correlação de Sperman a nível de significância de ρ<0,01, para identificação da relação entre as variáveis desmatamento do bioma Cerrado e área plantada de cana de açúcar no estado de Mato Grosso.



REFERENCIAL

Após a Revolução Industrial, a energia passou a exercer um papel fundamental no desenvolvimento dos países e no bem-estar da sociedade. Com a utilização do carvão mineral, o mundo saiu do artesanato para a produção mecanizada e, a partir de então, desenvolveu novas formas de produção e de utilização de diferentes fontes de energia para suprir a demanda de uma população que teve boa parte de sua totalidade deslocada para as cidades, tendo também suas necessidades de consumo transformadas (MALUF, 2014). É nesse cenário que a produção de etanol obteve destaque, o início da substituição da energia produzida por combustível fosseis, por energia limpa.

O etanol, em meados da década de 1970 houve uma grande ascensão no setor de produção com o surgimento do Programa Nacional do Álcool (Proálcool). Esse programa foi criado para diminuir a dependência das importações do petróleo (KOHLHEPP, 2000) e trouxe importantes inovações para a produção de bioetanol no país, na genética das plantas e produção de sementes adaptadas, em tecnologias utilizadas nas usinas e destilarias e no desenvolvimento da indústria automobilística (RODRIGUES; ORTIZ, 2006).

Desde a introdução da cultura no Brasil, as indústrias que usam a cana-de-açúcar se multiplicaram. Novas técnicas foram introduzidas, e o país alcançou altos índices internacionais, fornecendo matéria-prima para as agroindústrias do açúcar, etanol e aguardente (SILVA et al., 2010). Mas seus subprodutos e resíduos também são utilizados para fabricação de ração animal, fertilizante para as lavouras e cogeração de energia elétrica (NOCELLI, et al.,2017).

Na safra 2014/2015, o Brasil produziu aproximadamente 630 milhões de toneladas, das quais 36 milhões foram destinadas à produção de açúcar, que por sua vez teve cerca de 20 milhões de toneladas exportadas – quantidades equivalentes a 20% da produção global e 40% da exportação mundial, respectivamente (UNICA, 2015). Dados da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (UNICA, 2015) também indicam que o Brasil é o segundo maior produtor mundial de etanol, atrás apenas dos Estados Unidos da América, sendo que, na safra de 2014/2015, a produção foi de 28 bilhões de litros.

A produção de cana-de-açúcar é de 694,54 milhões de toneladas. O crescimento está avaliado em 4,4% em relação à safra anterior. A área a ser colhida está estimada em 9.110,9 mil hectares, aumento de 5,3%, se comparada com a safra 2015/16. A produção de açúcar deverá atingir 39,8 milhões de toneladas, 18,9% superior à safra 2015/16 devido a preços mais rentáveis, (CONAB, 2016).

Assim como, o restante do Brasil, o estado de Mato Grosso também foi beneficiado com os incentivos como o Proálcool, conforme afirma Costa (1995) que a história da atividade canavieira no estado do Mato Grosso recebeu forte incentivo do Proálcool, o que proporcionou o cultivo em larga escala da cana no Estado, apresentado crescimento e conquistando o mercado internacional através da Bacia do Paraguai/ Prata.

Inserido no cenário da expansão da cana-de-açúcar no país, o estado do Mato Grosso também fez a adoção pela atividade canavieira, onde muitos dos incentivos de colonização do Estado acabaram beneficiando, principalmente, os grandes projetos agropecuários e madeireiros na região, bem como a fundação de várias cidades ancoradas nesse processo de colonização, como: Tangará da Serra, Nova Olímpia, Barra do Bugres, Sinop, Campo Novo do Parecis, Juína e outros. Algumas dessas cidades, por estarem integradas à política brasileira de colonização apoiaram a instalação de usinas de açúcar e álcool no Estado (COSTA, et al.,2010).

Em Mato Grosso a área plantada é de 280,191 ha em 2016, em comparação com do Brasil que chega ao total de 10.245,102 ha/2016. (TABELA 1), conforme dados da União da indústria de cana de açúcar (UNICA,2016).

Tabela 1- Área Plantada de cana-de-açúcar, por hectares nos estados do Brasil em 2016.

Estado/Hectare

2016

Acre

3.079

Alagoas

311.641

Amapá

135

Amazonas

3.600

Bahia

108.441

Ceará

16.123

Distrito Federal

296

Espírito Santo

71.733

Goiás

931.342

Maranhão

45.633

Mato Grosso

280.191

Mato Grosso do Sul

658.282

Minas Gerais

911.614

Pará

13.359

Paraíba

122.770

Paraná

656.429

Pernambuco

260.195

Piauí

15.353

Rio de Janeiro

56.770

Rio Grande do Norte

60.489

Rio Grande do Sul

17.828

Rondônia

4.965

Roraima

246

São Paulo

5.590.586

Santa Catarina

7.628

Sergipe

58.499

Tocantins

37.875

Fonte: Elaborada pela UNICA a partir de informações do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE),2016.



A modernização das usinas em Mato Grosso coincidiu com o processo de transformação que as áreas tradicionais e produtoras de açúcar no Brasil estavam passando. O Nordeste, os Estados de São Paulo e Rio de Janeiro disputavam os mercados internacionais, buscando maior produtividade e com isso necessitavam expandir os canaviais. Sendo assim, a usina mato-grossense teve relevância apenas no sentido da conquista do mercado interno e de fronteira (COSTA, et al.,2010).

Industrias instalaram-se no interior do estado, contribuindo para a economia local e incentivando o aumento populacional nessas regiões. Conforme informações do Sindicato das Indústrias Sucroalcooleiras do Estado de Mato Grosso (Sindálcool/MT), atualmente há onze usinas filiadas, sendo que, cinco delas produzem açúcar e álcool e seis produzem apenas o álcool.

Essas destilarias são abastecidas por cidades circunvizinhas como Barra do Bugres, Nova Olímpia, Denise, Arenápolis, Lambari do Oeste, Tangará da Serra e outras cidades menores. A cada ano a produção cana está ganhando espaço em no território mato-grossense, a pecuária por sua vez dominante, acaba se tornando atividade secundaria.



A EXPANSÃO DO SETOR SUCROALCOOLEIRO NO MATO GROSSO

O setor sucroalcooleiro é um dos setores mais dinâmicos dentre as diversas cadeias produtivas existentes. Trata-se de um setor que se caracteriza pela verticalização produtiva, em virtude da forte agregação de valor característica ao setor. Em Mato Grosso, representa umas das poucas atividades que apresentam uma integração vertical mais desenvolvida, este fato se dá em razão da observância da concentração das usinas de beneficiamento nas propriedades que apresentam grandes extensões de cultivo de cana (DAL PAI, et al. 2008).

A cada ano a área plantada de cana de açúcar aumenta-se, o que torna visível a sua expansão ao longo de rodovias no interior do estado, isso se deve pela sua alta capacidade de adaptação ao solo do cerrado e giro financeiro, documentos oficiais, como o PNA (Brasil, 2006) e o ZAE Cana (Brasil, 2009), apontam para o Cerrado como área adequada à expansão da atividade canavieira. Desde de 1980 a 2016 área plantada de cana no estado cresce gradativamente (Figura 1) e no ano de 2015 atingiu a marca de 291.100 ha, de acordo com dados fornecidos pela UNICA.

Figura 1- Área Plantada de cana de açúcar em hectare, no período de 1980-2016, no estado de Mato Grosso. Fonte: Elaborada pela UNICA a partir de informações do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).



Em virtude do desenvolvimento econômico decorrente do comércio de produtos procedentes da cana-de-açúcar, em consonância com a importante acumulação de capital ocasionada pela transação destes produtos, sua cultura se disseminou sobremaneira, acelerando cada vez mais o seu crescimento, contudo, subordinado à fomentação de novos tipos de produtos, com perspectivas de avaliação contínua, modificando o conceito do mercado à sociedade, acarretando o processo de profundas modificações no cenário econômico brasileiro, salientando a existência da preocupação constante com a elevação dos níveis qualitativos do produto e procurando a busca da excelência da qualidade, com o firme propósito da absorção e ganho de mercado, sempre com a meta do foco no consumidor final (THEODORO, 2011).



CARACTERÍSTICA DO BIOMA CERRADO

Com dois milhões de quilômetros quadrados, o Cerrado corresponde a 24% do território brasileiro e abrange os estados de Goiás, Tocantins, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Distrito Federal, Minas Gerais, Bahia, Maranhão, Piauí, Rondônia, Paraná e São Paulo (INPE, 2017).

O clima predominante no Cerrado apresenta uma estação seca, com três a sete meses de duração, e outra de chuvas constantes, pluviosidade média anual na faixa de 800-1.800 mm, temperatura média anual entre 20°C e 27°C e médias anuais de umidade relativa do ar de, aproximadamente, 60%. A maior parte da área é livre de geadas (ADÁMOLI et al. 1986, NIMER & BRANDÃO,1989).

O bioma Cerrado no Estado de Mato Grosso, encontra-se entre as latitudes 09°45'S e 18°10'S e as longitudes 50°00'W e 60°25'W, (SILVA, et al., 2010), figura 2.

Figura 1 - Bioma Cerrado no Estado de Mato Grosso. Fonte: adaptado: Silva, et al, 2010.

O bioma Cerrado, desempenha uma função ecológica que assegura a qualidade de agua, a integridade do solo e abriga diversas comunidades de animais e variedades de plantas vasculares (ALHO, 1993; EITEN, 1993; SILVA, 1995; MENDONÇA et al., 1998).

Entretanto o bioma Cerrado sofre com o desmatamento de forma agressiva, o que provoca mudanças tanto no seu microclima como na sua estrutura ecológica. Com estudo identificaram que este bioma vem sendo gradativamente substituído por áreas de pastagens e culturas agrícolas. Sendo que no período de 1970 a 1975, o desmatamento médio no Cerrado foi de 40 milhões de hectares (ha) por ano (KLINK; MOREIRA, 2002). Nas ˙últimas décadas, as taxas anuais de desmatamento têm variado entre 22 e 30 milhões ha/ ano (MACHADO et al., 2004).

Figura 3- Total de área desmatada do bioma cerrado em hectare (ha) no estado de Mato Grosso no período de 2000-2016. Fonte: O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), 2018.

Depois da Mata Atlântica, o Cerrado é o bioma brasileiro que mais sofreu alterações com a ocupação humana. Com a crescente pressão para a abertura de novas áreas, visando incrementar a produção de carne e grãos para exportação, tem havido um progressivo esgotamento dos recursos naturais da região. Nas três últimas décadas, o Cerrado vem sendo degradado pela expansão da fronteira agrícola brasileira, notadamente na região do oeste baiano, sul de Goiás e a região de Sinop, no Mato Grosso, sendo o oeste da Bahia a região que mais vem evoluindo, no tocante ao uso antrópico do solo no Cerrado, em especial, na Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco (SANTOS et al., 2009; BORGES & SANTOS, 2009; VIANA & BAUCH, 2009). Além disso, o bioma Cerrado é palco de uma exploração extremamente predatória de seu material lenhoso para produção de carvão (MMA, 2017).

ÁREA PLANTADA DE CANA DE AÇÚCAR EM MATO GROSSO E BIOMA CERRADO

O Zoneamento Agroecológico da cana e açúcar (ZAE), foi criado em 2009 e surgiu da necessidade estratégica de se avaliar, indicar e especializar o potencial das terras para a expansão da produção da cultura da cana de-açúcar em regime de sequeiro (sem irrigação plena) para a produção de etanol e açúcar como base para o planejamento do uso sustentável das terras, em harmonia com a biodiversidade (EMBRAPA SOLOS, 2009).

A cana-de-açúcar tem grande relevância econômica e inúmeras são as vantagens na sua produção, como por exemplo, a redução de CO2, fator este fomentado pelas políticas públicas na contenção das mudanças climáticas. Outro fator é ser vista pelos empresários do agronegócio como uma grande chance de crescimento econômico (COSTA, et al., 2010).

O bioma cerrado por sua vez, possui apenas 7,44% de sua área protegida por unidades de conservação, federais, estaduais e municipais, sendo que aproximadamente 2,91% do Cerrado é protegida na forma de unidades de conservação de proteção integral, tais como os parques nacionais (SILVA, et al.,2012).

O Cerrado é um dos biomas brasileiros mais ameaçados em função de sua conversão para usos alternativos do solo, o que implica a perda de cobertura vegetal nativa. A dinâmica de substituição, que inclui tanto o desmatamento quanto os incêndios florestais, ocasiona alteração da paisagem, fragmentação dos habitats, extinção de espécies, invasão de espécies exóticas e pode levar à erosão dos solos, à poluição dos aquíferos, ao assoreamento dos rios e ao desequilíbrio no ciclo de carbono, entre outros prejuízos conforme o Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento e das Queimadas no Cerrado, realizado pelo Ministério do Meio Ambiente, (2011).

Políticas de ocupação e o desenvolvimento de tecnologias para o aproveitamento agropecuário do solo permitiram que, em poucas décadas, enormes áreas de vegetação nativa fossem suprimidas, apesar do aumento da produtividade de algumas culturas nos últimos anos (MMA,2011).

Entretanto a partir dos anos de 2005 com políticas de sustentabilidade e a criação do ZAE em 2009, foi possível reduzir o avanço do desmatamento no cerrado, apesar de ainda existir, porém de maneira reduzida se comparar com os de 2000, conforme figura 4.

Figura 4- Comparação da área desmatada do bioma cerrado (ha) e área plantada de cana de açúcar (ha) no estado de mato grosso, no período de 2000-2016. Fonte: O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), 2018 e UNICA e Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O estudo estatístico mostrou uma correlação inversamente proporcional entre as variáveis área desmatada do bioma Cerrado e área plantada de cana de açúcar no estado de Mato Grosso no período de 2000-2016, ao nível de significância (ρ <0,01). Conforme a tabela 2.

Tabela 2 – Correlação de Sperman entre área desmatada do Bioma Cerrado (ha) e área plantada de cana de açúcar (ha) no período de 2000-2016, no Estado de Mato Grosso-MT.


Área desmatada do Bioma Cerrado (ha)

Área plantada de cana de açúcar (ha)

Área desmatada do Bioma Cerrado

1

-0,824*

Sig


0,000

*Nível de significância a ρ <0,01

A correlação entre a área desmatada do bioma cerrado com a área plantada de cana de açúcar foi de negativa, porém significativa, ou seja, foi inversamente desproporcional então dessa forma, conforme a área desmatada diminui, a área plantada de cana aumenta e vice-versa.

A redução da área desmatada, pode ser atribuída as novas tecnologias empregadas nas áreas de plantios e nos replantios de cana de açúcar no estado de Mato Grosso, a troca de áreas de pastagens por plantação de cana, além disto uns dos maiores responsáveis para o desmatamento da área do cerrado, segundo estudos da MMA, (2011), foram: o uso ilegal da vegetação nativa para produção de carvão vegetal e lenha, impunidade dos ilícitos ambientais, existência de áreas subutilizadas, degradadas e abandonadas; baixo reconhecimento do valor dos serviços ambientais e baixo percentual de área protegida (unidades de conservação e terras indígenas), sendo várias outras causas precursoras dessas.

De acordo com Duboc et al. (2007) 34,5% do carvão vegetal produzido no País é oriundo da vegetação nativa do Cerrado. Os incêndios por sua vez que ocorreram em agosto de 2010 e queimaram aproximadamente 90% do Parque Nacional da Emas (GO), e cerca de 50% do Parque Nacional da Serra da Canastra (MG) (MMA, 2011).

Isso é reforçado pelas estimativas que indicam que o País, mesmo com a crescente demanda por biocombustíveis, não necessitará incorporar áreas ainda com vegetação nativa ao processo produtivo. Prevê ainda que será possível expandir a área de cultivo com cana-de-açúcar sem afetar diretamente as terras utilizadas para a produção de alimentos (MMA, 2011).

CONCLUSÃO

Os impactos da expansão da plantação de cana de açúcar sobre o bioma cerrado, deu se no iniciou-se após os incentivos do programa Proálcool que em 1992 impulsionou consideravelmente a plantação e produção de etanol em mato Grosso.

Cada vez mais as industrias buscar maiores índices de produtividade, colocando em questões de decisões que vislumbrar as visões dos negócios internacionais, ou ter responsabilidades ambientais e adequação de inovações tecnológicas entre outros.

Entretanto a partir da criação do Zoneamento Agroecológico da cana e açúcar (ZAE) em 2009, foram criadas diretrizes que impedia o desmatamento de novas áreas dos biomas para ampliação de plantação de cana no estado de mato grosso, isso garantiu redução significativa e possibilitou a estagnação de derrubada provado pelos produtores de cana de açúcar.

Entretanto um estudo realizado pela MMA em 2010, que buscou-se identificar o que realmente afeta no dinamismo do cerrado e conclui-se que o desmatamento no cerrado nos dias atuais não está sendo provocado diretamente com a expansão canavieira, mas pelo mal-uso desordenado da terra do cerrado, além a extração ilegal da madeira para produção de carvão, onde que 35% do carvão fabricado é oriundo da vegetação nativa do cerrado, seguido pelos fortes queimadas existentes no estado do Mato Grosso.

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