ISSN 1678-0701
Número 60, Ano XVI.
Junho/Agosto/2017.
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Entrevistas

04/06/2017
ENTREVISTA COM DANIELA VIEIRA COSTA MENEZES PARA A 60ª EDIÇÃO DA REVISTA VIRTUAL EDUCAÇÃO AMBIENTAL EM AÇÃO  
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ENTREVISTA COM DANIELA VIEIRA COSTA MENEZES PARA A 60ª EDIÇÃO DA REVISTA VIRTUAL EDUCAÇÃO AMBIENTAL EM AÇÃO – Por Bere Adams

 


Apresentação: A entrevistada desta edição é Daniela Vieira Costa Menezes. Ela é professora concursada no Município de Novo Hamburgo/RS, licenciada em Pedagogia, Especialista em Educação: espaços e possibilidades da formação continuada, Especialista em TIC aplicadas à Educação e também Especialista em Educação Ambiental. Atua como responsável pelo Projeto de Educação Ambiental da EMEF Maria Quitéria, na Roselândia/NH, desde 2010. Daniela tem desenvolvido atividades que podem ser replicadas em outras escolas. A sua dedicação para a Educação Ambiental é exemplar. Agora, vamos conhecer um pouco mais da sua história!

 

Bere – Olá Daniela, é um grande prazer tê-la conosco para compartilhar um pouco da sua experiência com o público desta revista. Para começar, te faço a pergunta que normalmente faço aos meus entrevistados e minhas entrevistadas. Teve algum momento, acontecimento ou há algo específico que te motivou a tomar o caminho da Educação Ambiental?

 

Daniela – Olá, Bere! É uma grande honra poder compartilhar algumas das minhas experiências. Aprendi que a Educação Ambiental é um espaço para solidariedade. Bem, algumas coisas foram bem significativas para que a minha trajetória me direcionasse para a Educação Ambiental. Primeiro, tive o privilégio de visitar uma exposição da Rio-92. Naquela época eu estava na 7ª série, estudava em uma escola pública do município do Rio de Janeiro, e minha escola promoveu uma saída de estudos para um dos eventos paralelos que aconteciam no Aterro do Flamengo. Só pude sentir a dimensão do que vi ali algum tempo depois, como estudante da graduação. Outro fato motivador importante foi a minha mudança para Ivoti/RS. Até então, só havia morado em apartamentos. Em Ivoti pude ter um grande espaço que estreitou meu contato com os elementos naturais. Meu marido Cristiano iniciou um movimento para termos uma horta, jardim, cachorro de estimação… Então, eu fui entrando nesse mundo meio sem querer e acabei ressignificando minhas vivências através dessa porta que se abriu.

 

Bere – Qual é, para você, o maior desafio de um educador ambiental?

 

Daniela – Parece que estamos “remando contra a maré”. Em uma realidade cultural cheia de ações sem reflexões, vivemos instigando uma atuação no mundo e com o mundo que seja cheia de significados. Como fazer as pessoas ao nosso redor pararem um pouco em busca da reflexão? Como ajustar o nosso discurso para que as pessoas se sensibilizem com a questão ambiental? Acho que os meus desafios como educadora ambiental são os mesmos desafios que tenho como educadora, como mãe: oferecer o que tenho de melhor para que os outros possam fazer suas escolhas.

 

Bere – Como você percebe a aplicação da Educação Ambiental dentro do nosso sistema educacional?

 

Daniela – Minha experiência está na Educação Ambiental Escolar. Tenho percebido uma grande dificuldade de se contextualizar as questões ambientais com o cotidiano escolar. Vejo que os professores abordam temáticas relacionadas ao lixo, à água, ao consumo, mas como se fosse algo distante da realidade dos alunos. Um exemplo é a questão das lixeiras coloridas para a separação do lixo. É ótimo ensinar que cada tipo de resíduo tem uma cor, melhor se a escola tiver essas lixeiras para a devida separação. Mas, acho que essa estratégia só poderá contribuir significativamente para a diminuição do lixo se o consumo for questionado; se técnicas de reutilização e reciclagem forem experimentadas; se estratégias de separação forem construídas… Enfim, os conteúdos precisam ser vivenciados e não apenas abordados.

 

Bere – Você considera que os professores de todos os níveis da educação estejam aptos ou instrumentalizados para aplicar a Educação Ambiental (EA) de forma interdisciplinar, como estabelece a Lei Nº 9.795/99 que institui a EA no Brasil?

 

Daniela – Alguns poucos professores se apropriam da legislação vigente. Outros poucos conseguem construir uma prática pedagógica a partir de conceitos. Vejo na minha realidade muitos professores preocupados em realizarem um bom trabalho, mas com uma formação e/ou condições de trabalho muito aquém do que está estabelecido pela Política Nacional da Educação Ambiental.

 

Bere – De tempos em temos surge uma questão polêmica, quanto a interdisciplinaridade da EA, quando alguns órgãos governamentais ou alguns políticos tentam implementar a EA como uma disciplina obrigatória, dentro dos currículos. Qual é o seu posicionamento diante desta questão?

 

Daniela – A legislação é algo que precisa de muito investimento, vontade política e tempo para transbordar no cotidiano das escolas. Penso que nada disso foi considerado, pois as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Ambiental foram publicadas em 2012. Pensar na EA como uma disciplina é dizer que todo o movimento feito desde a Constituição de 88 foi inútil. Passamos por muitos movimentos políticos, dentro e fora do Brasil, que corroboram a nossa legislação. Mudar agora esse “detalhe” é retroceder diante dos poucos avanços que temos. Estou convencida de que a EA não existe sem a interdisciplinaridade.

 

Bere – Na edição passada desta revista você publicou um relato de experiências incrível, intitulado: O protagonismo dos educandos a partir das demandas socioambientais da escola: a experiência de educação ambiental da EMEF Maria Quitéria Em Novo Hamburgo/RS. Considerei o seu artigo de fundamental importância por inserir a pesquisa científica aliada à EA, aos alunos do EF, e pelo projeto possibilitar aos educandos serem protagonistas nos seus processos de aprendizagem. Fale um pouco de como surgiu este projeto e seu desenvolvimento.

 

Daniela – Eu trabalho com EA desde 2010, quando entrei na Rede Municipal de Novo Hamburgo. Comecei mais para ajudar a Equipe Diretiva da escola, pois havia um projeto em andamento que não tinha professor responsável. Como eu não sabia bem o que estava fazendo, fui buscando leituras, cursos, palestras, enfim, tudo o que pudesse me inspirar para realizar esse trabalho. Houve uma evolução natural e tive a oportunidade de fazer uma especialização na área. Esse projeto foi a finalização da minha especialização. No ano de 2014, pude assumir um projeto de Educação Ambiental na escola, onde as 14 turmas, entre Faixa Etária 5 anos e 5º ano das séries iniciais, tinham um horário semanal comigo. Nessas etapas de ensino trabalhamos com ensino globalizado e o meu trabalho foi se mesclando ao trabalho das minhas companheiras titulares das turmas. Eu tinha que fazer um projeto de ação para o meu curso, então eu decidi que o meu projeto seria colocar os alunos para construírem projetos de ação! Desde a graduação em Pedagogia, venho me preocupando com a questão do protagonismo discente e me pareceu uma boa oportunidade de iniciar a construção de uma prática pedagógica que juntasse tudo que eu acredito ser fundamental para a formação integral das novas gerações. Então, montei um projeto com um planejamento aberto, onde a EA foi apresentada a partir da integração entre arte e ciência, através da observação da realidade socioambiental da escola e de seu entorno. As descobertas das turmas foram incríveis e eu pude aprender com eles muito mais do que ensinei.

 

Bere – Por que você considera importante trabalhar a EA utilizando projeto de pesquisa com alunos do EF?

 

Daniela – Porque a interdisciplinaridade da EA passa pela realidade socioambiental vivida. A criança valoriza sua experiência construindo conceitos que farão parte de suas relações com a realidade. A pesquisa vai valorizar a construção das respostas, através da elaboração de perguntas. Esse movimento precisa se alimentar do coletivo para ser individualizado. Os alunos vão interagindo, trocando suas percepções sobre as vivências e vão fornecendo uns aos outros os elementos necessários para a construção de suas respostas, de suas “verdades”.

 

Bere – Quais foram as maiores dificuldades encontradas no decorrer da aplicação do projeto?

 

Daniela – Antes da aplicação, precisei organizar bem o projeto. Ajustei o cronograma ao calendário escolar e tive o apoio integral da minha Equipe Diretiva. Mas, nem sempre consegui cumprir com o cronograma, por várias questões relacionadas à dinâmica escolar. Precisei de muitos ajustes e isso me deixou um pouco frustrada no início. Também tive que lidar com a morte repentina do meu pai, o que me afetou em muitos sentidos.

 

Bere – E o que você destaca de mais significativo, ou positivo?

 

Daniela – Certamente, a participação dos alunos. A cada dificuldade, eles encontravam uma solução. Mesmo com diferentes desempenhos, cada turma assumiu seu projeto, deixando um legado para a escola, que ainda faz parte do nosso cotidiano. Para citar alguns exemplos significativos, temos em funcionamento uma cisterna que coleta água da chuva, resultado da pesquisa do 4º ano A, que se questionou se era correto lavar potes de iogurte ou caixinhas de suco, levados pelos alunos para o lanche, com água potável; a direção da escola comprou um bebedouro com torneiras para uso exclusivo com garrafas ou copos, depois que o 2º ano A mediu o desperdício de água do bebedouro de boca; todas as árvores da escola foram nomeadas pelo 4º ano C; temos um jardim que sempre é renovado em função do trabalho do 1º ano A com as flores… enfim, muitas aprendizagens que os alunos que ainda estão na escola demonstram até hoje.

 

Bere – Você percebeu resistências, ou as crianças sentiram-se à vontade para lidarem com a metodologia de pesquisa?

 

Daniela – As crianças são pesquisadoras natas! Nem todos sabiam como usar o espaço de protagonista na aprendizagem que foi oferecido durante o projeto. Muitas tiveram dificuldade em decidir coletivamente, em expressar e defender sua posição ou opinião. Mas todas produziram e colheram frutos de suas produções.

 

Bere – Muitas professoras e muitos professores acadêmicos falam sobre as dificuldades que alguns de seus alunos têm para realizarem pequenos projetos de pesquisa, e esta dificuldade prossegue até chegar aos trabalhos de conclusão. Você acha que, se a metodologia científica fosse trabalhada com maior ênfase no Ensino Fundamental e Médio, isto contribuiria para uma melhor e mais qualificada formação acadêmica?

 

Daniela – A metodologia científica é fundamental para a qualidade do ensino-aprendizagem em todas as etapas escolares. Mas, acredito que mais do que o formato da pesquisa científica, é preciso dar ênfase à relação entre crítica e criação presente nesse modelo metodológico. Para se fazer pesquisa é preciso conhecer o que existe, mas é preciso desenvolver um olhar crítico em relação aos problemas observados e uma postura criativa em relação às possibilidades de solução. Por isso, acho os princípios da pesquisa, devem estar presentes na metodologia científica, só assim haverá qualificação para as produções acadêmicas futuras.

 

Bere – Já tive a oportunidade de ser jurada, por diversas vezes, em prêmios educacionais para alavancar projetos de educação ambiental e constatei que a maioria dos professores e das professoras têm dificuldades para elaborar projetos de pesquisa. Como você percebe esta questão? Os professores estão preparados para proporem este tipo de projeto para os alunos?

 

Daniela – O aluno-pesquisador é fruto de um professor-pesquisador. O professor também precisa se assumir como protagonista de sua formação continuada, colocando sua prática pedagógica como objeto de pesquisa. Acredito que a formação para o trabalho com projetos de ensino-aprendizagem através da pesquisa científica deve estar pautada na reconstrução da prática docente por cada professor. Assim, primeiro o professor deve iniciar um processo de observação, questionamentos, leituras, reflexões e registro para depois iniciar seus alunos nessa caminhada.

 

Bere – O que mais te inspira ao trabalhar com a Educação Ambiental e quais os autores que você poderia indicar para o nosso público?

 

Daniela – A potência e a fragilidade da vida me intrigam. O constante movimento entre o coletivo e o individual também. Atualmente, estou estudando alguns textos do Edgar Morin, como o Livro “Ensinar a Viver: manifesto para mudar a educação” (2015), que estão me provocando várias reflexões pedagógicas e socioambientais. Foi muito importante pra mim conhecer o trabalho da Profª Isabel Cristina de Moura Carvalho e reler textos do Prof. Carlos Frederico Bernardo Loureiro. Mas, reconhecer Paulo Freire como um Educador Ambiental me abriu muitas portas conceituais e metodológicas.

 

Bere – Deixa uma frase, uma palavra, uma mensagem de incentivo e motivação para quem segue pelos difíceis, mas maravilhosos caminhos da EA:

 

Daniela – A Educação Ambiental é como a própria vida: indefinida, dolorosa e cheia de obstáculos, mas potencialmente capaz de se transformar a cada alegria, a cada descoberta, a cada superação.

 

Bere – Daniela, nós, da revista Educação Ambiental em Ação, te agradecemos muito pela sua disponibilidade em compartilhar tão ricas ideias e experiências. Tenho certeza de que teus exemplos serão um grande incentivo para muitos educadores e educadoras. Desejamos-lhe muito sucesso nesta jornada tão envolvente e importante para o aprimoramento da Educação Ambiental! Muito obrigada!



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