ISSN 1678-0701
Número 65, Ano XVII.
Setembro-Novembro/2018.
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16/09/2018NA CONTRAMÃO DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL: A IDEOLOGIA DO AGRONEGÓCIO NA ESCOLA  
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Na contramão da educação ambiental: A Ideologia do agronegócio na escola



Emerson Ferreira da Silva1

1Professor do Instituto Federal do Paraná-IFPR- Campus Avançado Quedas do Iguaçu. Mestrando em Desenvolvimento Rural Sustentável na Universidade Estadual do Oeste do Paraná-UNIOETE. E-mail: emerson.ferreira@ifpr.edu.br

Resumo

Este trabalho tem como objetivo refletir sobre os obstáculos para a educação ambiental, representados pelo discurso ideológico do agronegócio por meio de projetos educacionais aplicados em escolas públicas que atuam no sentido de apresentar uma visão parcial do conceito de sustentabilidade. É baseado em pesquisa bibliográfica em artigos científicos, teses e dissertações que abordam o uso ideológico de materiais educacionais com o intuito de promover a legitimação das ações das empresas do agronegócio, ao mesmo tempo em que ocultam práticas sustentáveis de agricultura. Observou-se que tais projetos acabam ocultando práticas sustentáveis de agricultura que não estejam alinhadas com seus interesses financeiros.



Palavras-chave: Ideologia; Educação; Agronegócio; Educação Ambiental; Sustentabilidade.

abstract

This paper aims to think about the difficulties for Environmental Education from the ideological discourse of agribusiness through educational projects. When these educational projects are applied in public schools they present a partial view of the concept of sustainability. This work is based on bibliographical researches in scientific articles, theses and dissertations that deal with the ideological use of educational projects with the objective of legitimizing the actions of agribusiness companies and also time to hide sustainable farming practices. It has been observed that such projects conceal sustainable farming practices that are not aligned with their financial interests.

Keywords: Ideology; Education; Agribusiness; Environmental education; Sustainability.

introdução

Atualmente, o agronegócio é o modelo hegemônico de agricultura no Brasil. Agronegócio, no entanto, não é apenas uma forma de agricultura, mas refere-se a toda uma cadeia que vai desde a produção de insumos (maquinários, sementes, fertilizantes, agrotóxicos etc.) até a agroindústria, passando, obviamente, pela agricultura. A consolidação desse modelo, no Brasil, teve início na década de 1970, com fortes investimentos do governo civil-militar na modernização da agricultura, processo que não incluía as pequenas propriedades e que, por isso, culminou com um enorme êxodo rural.

A agricultura atual, alinhada com a cadeia do agronegócio, caracteriza-se por ser extremamente dependente de insumos externos à propriedade, os quais são fornecidos por um número reduzido de empresas multinacionais, que não medem esforços para manter a agricultura submetida aos seus interesses financeiros. Para isso, essas empresas lançam mão de uma série de recursos, como a construção de um discurso que legitime o uso de seus produtos, ao mesmo tempo em que silencie sobre os impactos ambientais causados por eles.

Neste sentido, o objetivo deste trabalho é refletir sobre os obstáculos para a educação ambiental, representados pelo discurso ideológico do agronegócio, principalmente na educação no campo. Esta, frequentemente, é alvo de projetos educacionais, muitos deles vindos de grandes empresas do agronegócio, cujos efeitos negativos são mascarados ao mesmo tempo em que desprestigiam formas alternativas de agricultura, como a agroecologia.

A estrutura deste trabalho divide-se em três partes, sendo que na primeira são discutidos os conceitos de sustentabilidade e de agricultura sustentável. Na segunda parte, analisam-se o conceito de ideologia e sua utilização para a compreensão da realidade. Em seguida, é feita uma análise das ações dos setores ligados ao agronegócio, as quais buscam construir uma imagem do setor que oculte suas contradições, seguida das considerações finais.

A base de dados para este trabalho consiste em pesquisa bibliográfica, pois, conforme Gil (2002, p.45), “A principal vantagem da pesquisa bibliográfica reside no fato de permitir ao investigador a cobertura de uma gama de fenômenos muito mais ampla do que aquela que poderia pesquisar diretamente”. Neste sentido, realizou-se uma busca em artigos científicos e também em teses e dissertações que abordassem o uso ideológico de materiais educacionais com o intuito de promover a legitimação das ações das empresas do agronegócio.

Agricultura sustentável

O conceito de sustentabilidade vem ganhando cada vez mais espaço na sociedade atual. Se, no passado, questões relacionadas ao meio ambiente eram consideradas iniciativas de ambientalistas, hoje cada vez mais pessoas tomam consciência de que a questão ambiental é um problema de todos, de forma que toda a sociedade deve fazer parte das mudanças em direção a uma civilização sustentável. No mundo todo, vem crescendo o uso de fontes limpas de energia e busca por transportes alternativos; entretanto, mudanças estruturais que conduzam a humanidade rumo a um futuro sustentável ainda estão longe de se tornarem realidade.

A sociedade moderna pautou seu desenvolvimento em um modelo de economia que tende ao crescimento infinito. Os economistas clássicos formularam suas teorias em uma época em que a abundância de recursos naturais era mais que suficiente para suprir as necessidades da população mundial, que no início do século XIX era de cerca de um bilhão de pessoas. Isso é impossível de ser continuado no mundo contemporâneo, que tem uma população sete vezes maior.

Seguindo essa lógica, a economia foi pensada para ter seu crescimento atrelado à produção e ao consumo de mercadorias, sem considerar a finitude dos recursos naturais necessários para tal. No século XX, essa fórmula foi intensificada, no mundo ocidental, no pós-guerra, quando começou a ganhar força o conceito de obsolescência planejada, segundo o qual a vida útil das mercadorias é reduzida de forma intencional para gerar mais consumo e, consequentemente, mais ganho. O estilo de vida consumista, no entanto, é insustentável frente às limitações quanto ao uso de recursos naturais e aumento da população mundial, que, atualmente, é de 7 bilhões de pessoas, e tende a continuar aumentando até chegar a 10 bilhões, em 2050, quando se estabilizará (BOFF, 2012).

Portanto, não é difícil perceber que o estilo de vida ocidental não pode ser estendido a toda população mundial sem um colapso ambiental. Se o atual padrão de consumo dos Estados Unidos, considerado, por muitos, como um exemplo de nação, fosse seguido pelos demais países, seriam necessários mais quatro planetas como a Terra para suprir tal necessidade. Como existe apenas um planeta Terra, o estilo de vida dos cidadãos estadunidenses, assim como dos países ricos, é mantido à custa da exclusão de uma grande parcela da população dos países pobres, a qual, nessa conjuntura, fica impedida de acessar itens básicos para a sobrevivência (SACHS, 2009). Esse modelo econômico é, portanto, injusto e excludente (POLANYI, 2000).

Logo, o modelo de desenvolvimento propagado pelos países ricos é insustentável e deve ser repensado, sob o risco de o planeta ser conduzido para um colapso ambiental. É necessário, portanto, que se crie outro padrão de consumo, no qual as mercadorias sejam adquiridas pelo seu valor de uso e não apenas como forma de obter prestígio social. Governos e sociedades precisam investir em formas de transportes alternativas, que evitem o uso individual do automóvel e privilegiem o transporte coletivo e a bicicleta (LÖWY, 2014).

A sociedade também precisa reduzir drasticamente a quantidade de lixo que é jogado na natureza, investindo em formas de reciclagem que tenham, como meta, 100% do lixo produzido, mas, principalmente, reduzindo o consumo de mercadorias supérfluas.

Há um item, no entanto, cuja redução não é possível:  a produção de alimentos (salvo em casos de desperdício). A forma que a sociedade moderna encontrou para atender às necessidades alimentares da crescente população mundial é a agricultura industrial, que, no Brasil, assim como em diversos outros países, é inserida na cadeia do agronegócio. Ela incrementou uma série de inovações que ampliaram a oferta de alimentos de forma sem precedentes na história da humanidade.  Todavia, toda essa produção é amparada em tecnologias que geram altos impactos ambientais, além de ter sua continuidade impossibilitada, devido ao fato de utilizar muitos recursos não renováveis (WEID, 2009)

Exemplo disso é o petróleo, item fundamental para a manutenção da agricultura industrial, mas que é uma matriz energética bastante poluente, além de ser um recurso natural não renovável, ou seja, no futuro não será mais possível contar com essa fonte de combustível (WEID, 2009).

Os fertilizantes químicos industrializados, outra base da agricultura industrial, também provêm de fontes cujo tempo de uso é limitado. Exemplo disso são as reservas de fósforo, um dos principais componentes usados na indústria de fertilizantes, e cujas fontes naturais, de acordo com previsões, devem durar menos de 80 anos.

A agricultura industrial também se desenvolveu sob os moldes do capitalismo, fato pelo qual sua manutenção, atualmente, atende aos interesses financeiros de diversas corporações. A economia capitalista tem uma lógica de crescimento constante e, na agricultura, esse crescimento tem sido engendrado pela adição de quantidades cada vez maiores de insumos químicos industrializados, produzidos por grandes corporações, e pela abertura de novas terras a partir da derrubada de florestas. É nesse sentido que a agricultura convencional é insustentável a longo prazo, apesar de todo o resultado financeiro que seus arautos costumam ostentar.

A essa insustentabilidade soma-se a crise ambiental, que surge como o grande desafio deste milênio e para a qual é urgente a busca de saídas a fim de resistir aos efeitos deletérios, que se mostram cada vez mais visíveis. É nesse contexto que a agroecologia aparece como uma saída para os desafios apresentados pela atual conjuntura ambiental (BOFF, 2012).

Por outro lado, a crescente preocupação com estilos de vida mais saudáveis tem levado um número cada vez maior de pessoas a mudarem seus hábitos alimentares, optando por alimentos menos processados. É muito difícil para o modelo de agricultura dominante atender à demanda de alimentos que a sociedade está passando a exigir (WEID, 2009); por isso, faz-se necessário pensar em outra forma de agricultura. É nesse contexto que a agroecologia apresenta-se como uma saída promissora para a conjuntura atual. Os agricultores camponeses, muito longe de serem sujeitos anacrônicos, prestes a serem eliminados pela modernidade, são os que mais se qualificam para atender às demandas pela produção de alimentos que os novos consumidores exigem (ALTIERI, 2010).

Vários trabalhos científicos já demonstram que a agricultura orgânica é capaz de alimentar o mundo, como é o caso do artigo de Reganold e Wachter (2016), publicado na revista Nature, e dos trabalhos de Miguel Altieri. Assim, é preciso um esforço muito grande por parte de toda a sociedade no sentido de ampliar o conhecimento sobre a produção e o consumo de alimentos de forma sustentável e, para isso, a educação tem um papel fundamental. Os defensores do modelo dominante de agricultura já perceberam isso e vêm desenvolvendo uma série de ações no sentido de promover uma “educação ambiental às avessas”, a qual, em vez de promover a sustentabilidade, atua para legitimar um modelo degradante de agricultura.

Educação e Ideologia

O termo “ideologia” faz referência a um dos conceitos mais debatidos nas Ciências Sociais. A partir do marxismo, o conceito de falsa consciência se consolidou como uma forma de denunciar as contradições presentes na classe social oponente, no caso, a burguesia.

Originalmente, o termo foi cunhado pelo enciclopedista francês Destutt de Tracy, na tentativa de construir uma ciência das ideias. Mesmo em sua época, de Tracy não era um pensador muito influente, sendo que sua presença na história ficou marcada por sua relação com Napoleão Bonaparte.

Quando Napoleão chegou ao poder, o enciclopedista fez parte do grupo que o sustentava, mas, ao ver que as ações do imperador francês não condiziam com suas promessas, rompeu com o governo bonapartista. Nesse contexto, em um discurso, Napoleão se referiu a de Tracy como um ideólogo, no sentido de que era defensor de ideias falsas (CHAUÍ, 1980).

O termo “ideologia” passou, então, a ser usado, principalmente na imprensa francesa, como sinônimo de falsa consciência. É provável que Marx o tenha encontrado na imprensa de sua época e passado a utilizá-lo, com a mesma definição, em sua famosa obra “A ideologia Alemã”, escrita em 1846 e publicada somente em 1933. Foi com esse sentido que a palavra ficou conhecida no marxismo.

Cabe ressaltar que outros autores de corrente marxista também utilizaram o conceito de ideologia, mas sem prenderem-se aos limites de falsa consciência. Lenin, por exemplo, afirma que há não só uma ideologia da classe dominante; para ele, também a classe trabalhadora era capaz de produzir uma ideologia. No mesmo sentido, Gramsci trabalha com o a possibilidade de construção de uma forma de pensar que opere na construção de uma sociedade que não seja pautada pelos princípios da desigualdade, presentes no capitalismo.

Já para a filósofa Marilena Chauí (1980), a ideologia é uma forma de escamotear, ou ofuscar, o real, de maneira que as escolhas feitas pelos indivíduos atendam aos interesses das classes dominantes, ou seja, “é um dos instrumentos da dominação de classe e uma das formas da luta de classes. A ideologia é um dos meios usados pelos dominantes para exercer a dominação, fazendo com que esta não seja percebida como tal pelos dominados. ” (CHAUÍ, 1980 p.33). A ideologia, portanto, é um discurso cheio de lacunas e sustenta-se por meio delas, ocultando parte da realidade.

Em Paulo Freire (1987), a ideologia vai assumir significado semelhante, visto que o autor entende que as classes dominantes mantêm a hegemonia não apenas através da exploração do trabalho, mas também por meio da dominação cultural (CAMACHO, 2014).

Para o educador pernambucano, a ideologia produz uma realidade falsa, o que não permite que os oprimidos enxerguem a realidade como ela é. O autor aponta, ainda, para a necessidade de “desideologizar” por meio da superação da opressão:

Se, para manter divididos os oprimidos se faz indispensável uma ideologia da opressão, para a sua união é imprescindível uma forma de ação cultural através da qual conheçam o porquê e o como de sua “aderência” à realidade que lhes dá um conhecimento falso de si mesmos e dela. É necessário desideologizar. (FREIRE, 1987, p.108).

Freire era um defensor da mudança social a qual, segundo ele, teria como obstáculo a ideologia opressora, que, ao obscurecer a realidade, não permitiria que a classe oprimida desenvolvesse meios para superar a opressão.

Ideologia na escola

A agricultura, alinhada com a cadeia do agronegócio, ao ter como objetivo principal a obtenção de lucro, acaba causando diversos impactos ambientais. Muitas vezes, em busca da lucratividade a qualquer preço, florestas são derrubadas, solos são usados até o limite e agrotóxicos são aplicados de forma deliberada. Somam-se a isso os impactos sociais, pois, para a viabilização da produção em larga escala, muitas famílias são expulsas do campo e territórios indígenas são invadidos. É verdade que o agronegócio gera muitas riquezas para o país, mas é necessário considerar, também, o fato de que essas riquezas acabam ficando concentradas nas mãos de um número reduzido de pessoas, o que contribuiu para que aumente uma das maiores chagas do Brasil, que é a desigualdade.

São muitas as evidências de que esse modelo de agricultura não é sustentável a longo prazo; então, é mais que urgente incentivar formas alternativas de produção de alimentos. Diante disso, os defensores do agronegócio procuram criar um discurso que legitime a existência desse modelo de agricultura e que, ao mesmo tempo, esconda os aspectos negativos a ele inerentes.

Uma das formas mais explícitas desse trabalho de legitimação das ações do agronegócio são as campanhas apresentadas nos meios de comunicação, como a campanha da Associação Brasileira do Agronegócio da Região de Ribeirão Preto (ABAG/RP), que tem como slogan a frase “Agronegócio, sua vida depende dele”. A peça publicitária da ABAG/RP conta com a participação de pessoas de grande destaque nacional, como atletas, políticos e artistas; além disso, seus vídeos são apresentados na televisão e disponibilizados no site da entidade (ROMÃO, 2009). No entanto, certamente a ação de maior destaque na mídia é a campanha “Agro é pop, agro é tech, agro é tudo”, veiculada pela maior emissora de televisão aberta do Brasil. Tal peça publicitária, veiculada em horários de grande audiência, mostra sequências de imagens que apresentam a grandiosidade dos diversos setores do agronegócio, mas, em nenhum momento são mencionadas as contradições a ele inerentes.

Mas, indubitavelmente, é na escola que a ideologia do agronegócio está penetrando de modo cada vez mais frequente, chegando, inclusive, a modificar currículos. Os principais promotores dessas ideologias são entidades ligadas ao agronegócio, como o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (SENAR) e a Federação da Agricultura do Estado do Paraná (FAEP), além de empresas do setor, inclusive fabricantes de agrotóxicos.

Uma dessas formas de inserção da ideologia do agronegócio na escola ocorre por meio do programa Agrinho, que consiste em um conjunto de materiais elaborados pelo SENAR, em parceria com outras entidades (inclusive com setores do Estado, como secretarias de educação) voltadas para o ensino fundamental em escolas públicas. Tal projeto, de acordo com sua página na internet, envolve mais de 1,5 milhão de crianças e cerca de 80 mil professores todos os anos, números que são ainda mais significativos quando se considera que o projeto é desenvolvido desde 1996.

Rossi e Vagas (2017) analisaram os fascículos do programa educacional Agrinho, destinados ao ensino fundamental, e concluíram que o material apresenta uma imagem do espaço rural que omite as contradições sob as quais o modelo agrícola brasileiro se constitui, ignorando fatos importantes, como concentração de terras e a questão indígena.

Já com relação à sustentabilidade, o material também apresenta pouca criticidade, abordando esse conceito apenas sob o caráter preservacionista, sem problematizar as várias dimensões que ele abarca. Mesmo acentuando a necessidade de preservação, o material ainda é omisso quanto ao fato de que grande parte do desmatamento que ocorre atualmente é devido ao avanço do agronegócio. Além disso, quando trata a questão da água, o tema é abordado de forma superficial, sem qualquer menção ao consumo excessivo desse recurso natural pelo agronegócio (ROSSI; VAGAS, 2017).

Outro tema bastante relevante relacionado à agricultura, que é o uso excessivo de agrotóxicos, não encontra espaço no material do Agrinho, o que faz com que se deixe de abrir uma importante janela para que esse assunto seja debatido já que, de acordo com publicação do próprio projeto educacional, 75% dos alunos da rede pública do Paraná disseram que já tiveram o material trabalhado em suas salas de aula (TORRES, 2015). O Agrinho, de acordo com Rossi e Vargas,

Apresenta o agronegócio como “o” melhor e mais benéfico “modelo de desenvolvimento” agrário que deve ser defendido e aceito por todos já que se trata do mais “moderno”, “inclusivo” e “harmônico” sistema de estruturação da agricultura perante a sociedade atual (ROSSI; VARGAS, 2017, p.219)

Outra iniciativa que apresenta uma visão muito questionável sobre sustentabilidade é o projeto Escola no campo, da multinacional Syngenta, em parceria com a Associação Brasileira dos Fabricantes de Brinquedos (ABRINQ). De acordo com a ABRINQ, só em 2016 o projeto chegou a 16.750 crianças e adolescentes, tendo como um dos principais meios de divulgação uma cartilha que é distribuída na escola para ser trabalhada com os alunos durante as aulas.

Figura 1: Cartilhas distribuídas nas escolas do campo de Cascavel-PR

Fonte: www.pauloporto.com.br. Foto: Flavio Ulsenheimer



A cartilha da Syngenta traz várias informações sobre o cuidado com o meio ambiente, mas sempre sem problematizar as verdadeiras causas dos problemas ambientais. No capítulo dedicado à água, por exemplo, o material dedica um grande espaço para mencionar o desperdício de água nas residências, enquanto cita muito discretamente a informação de que a agricultura é a maior consumidora de água doce do planeta, fato que poderia ser abordado mais profundamente, considerando que o material é destinado à educação no campo.

No que diz respeito aos agrotóxicos, o tema ocupa a maior parte da cartilha, cerca de 12% de suas 78 páginas, iniciando-se em um capítulo com o subtítulo “O segredo é usar certo”, frase que dá o tom de como o assunto é tratado no material. Praticamente todos os três capítulos dedicados aos agrotóxicos concentram-se em apresentar maneiras de aplicar corretamente tais substâncias, como as recomendações para o uso de Equipamentos Individuais de Segurança (EPIs) e formas seguras para o transporte e armazenamento desses produtos. Há, ainda, orientações quanto ao descarte das embalagens de agrotóxicos.

Em nenhuma página da cartilha da Syngenta é mencionada a necessidade de redução do uso de agrotóxicos, ou formas alternativas de controle de insetos ou plantas espontâneas. É como se o uso excessivo desses produtos fosse a única alternativa para a agricultura, ignorando-se o fato de que há milhares de anos a humanidade produziu alimentos sem a necessidade de tais substâncias e que há diversas pesquisas que demonstram a viabilidade da produção orgânica, inclusive em grande escala (ALTIERI, 2010; ANDRIOLI, 2016).

A única menção que a cartilha da Syngenta faz à agricultura orgânica está no capítulo 10, no qual, em uma pequena nota, usa-se uma retórica sem nenhuma fundamentação para desqualificar essa forma de produção, afirmando que “a agricultura orgânica não oferece soluções para os problemas urgentes causados pelas atuais tendências de produção e consumo de alimentos ” (grifo nosso).

Entretanto, o discurso do agronegócio não entra na escola apenas por meio de projetos e materiais complementares, mas também como conteúdo obrigatório propriamente dito. Em 2006, foi firmado um convênio entre a Secretaria de Estado da Educação do estado de São Paulo e a ABAG/RP para incluir no currículo a disciplina "Agronegócio", de modo que ela fizesse parte do conjunto de disciplinas de 106 escolas, em 54 municípios do estado (ROMÂO, 2006). Já no ano seguinte, a abrangência do projeto saltou para 141 escolas, de 83 municípios, chegando a envolver 1.800 professores e 24.500 alunos (JUNQUEIRA, 2015).

Para Romão:

Entrar na grade escolar com a representatividade de uma disciplina do conhecimento, estar no horário da agenda de estudantes da rede pública, apresentar-se como tema de estudo na mesma posição em que estão Matemática, Português, Geografia, História, Ciências etc, é, no mínimo, ser considerado um campo científico merecedor de crédito e pesquisa. Assim, o agronegócio assegura-se como tema fundamental na escola, lugar privilegiado de poder, em que os saberes são institucionalizados e instituídos como oficiais (ROMÃO, 2006, p.13).



Todas essas ações contribuem para a legitimação da agricultura alinhada com a cadeia do agronegócio com única forma de produzir alimentos, fazendo com que esse pensamento se incorpore à visão social de mundo de milhares de estudantes, dentre os quais muitos podem passar a vida toda sem ter acesso a informações isentas sobre a agricultura. Esse fato torna-se ainda mais grave se for considerado o fato de que boa parte dos materiais abordados neste trabalho é direcionada às escolas no campo, ou seja, aos filhos de agricultores. Partindo-se da ideia de que muitos desses alunos se tornarão agricultores no futuro, eles crescem considerando que sustentabilidade limita-se apenas a aplicar agrotóxicos corretamente.

Em face disso, é necessário que os profissionais da educação, assim como toda a sociedade, criem alternativas para disseminar o acesso a informações, como forma de combater a proliferação de ideologias que apenas distorcem a realidade em favor da continuidade do lucro de grandes corporações.

Considerações finais

O objetivo deste trabalho foi contribuir para o debate sobre a forma distorcida com que a sustentabilidade é apresentada nas escolas por meio de projetos educacionais desenvolvidos por empresas ligadas ao setor do agronegócio. Entende-se que o conceito de ideologia, tal qual é apresentado por Marilena Chauí (1980) e Paulo Freire (1987), apesar de algumas limitações, é pertinente para contribuir com as reflexões sobre os fatos aqui levantados. Ao tentar manter a hegemonia sobre a agricultura, o agronegócio constrói todo um discurso que conduz para o ocultamento de parte da realidade, fazendo com que esse modelo seja visto como modelo ideal, conduzindo para a consolidação de suas ações, como uso de agrotóxicos, como única forma de praticar agricultura.

Por isso, é necessário desconstruir esse discurso e “desideologizar” a educação no campo para que esta seja capaz de formar sujeitos conscientes de seu papel na sociedade e capazes de olhar criticamente para as questões que envolvem a construção de uma verdadeira agricultura sustentável.

Mesmo com todo o esforço que as empresas ligadas ao agronegócio fazem para manter seu poder e a continuação da utilização de seus produtos, as demandas por alimentos saudáveis, bem como a crise ambiental, demonstram que não há mais lugar para formas predatórias de agricultura. Nesse sentido, faz-se necessária a promoção de debates mais profundos nas escolas, os quais que levem os alunos, principalmente os do campo, a serem sujeitos de uma nova sociedade e que entendam que a sustentabilidade é um processo que vai além do uso de equipamentos de proteção individual para a aplicação de agrotóxicos.

Referências

ALTIERI, M. A. Agroecologia, agricultura camponesa e soberania alimentar. In: Revista NERA – ANO 13, n.º. 16 – JANEIRO/JUNHO DE 2010. Disponível em: <http://www.ft.unesp.br/nera>. Acesso em 15 de ago, 2017.

ANDRIOLI, Antonio Inácio. Soja orgânica versus soja transgênica: um estudo sobre tecnologia e agricultura familiar no noroeste do Estado do Rio Grande do Sul. Chapecó: UFFS, 2016.

BOFF, Leonardo. Sustentabilidade: o que é: o que não é. Petrópolis: Vozes, 2012.

CAMACHO, Rodrigo Simão. Paradigmas em disputa na educação do campo. Tese (Doutorado em Geografia). UNESP, Presidente Prudente: 2014.

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FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 17. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.

GIL, Antônio Carlos. Como elaborar projetos de pesquisa. - 4. ed. - São Paulo: Atlas, 2002.

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LÖWY, Michael. O que é o ecossocialismo? São Paulo: Cortez, 2014.

POLANYI, Karl. A grande transformação. 2.ed. Rio de Janeiro: Campus-Elsevier, 2000.

REGANOLD, J. P.; WACHTER, J. M..Organic agriculture in twenty-first century. Nature Plants, v.2, n.2. 2016.

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ROSSI, Rafael; DE VARGAS, Icléia Albuquerque. Ideologia e educação: para a crítica do programa Agrinho. Revista Nera, n. 40, p. 206-224, 2017.

SACHS, Ignacy. Caminhos para o desenvolvimento sustentável. Rio de Janeiro: Garamond.ano

TORRES, Patrícia Lupion. Redes e Conexões para compor os liames do conhecimento. In: Patrícia Lupion Torres. (Org.). Metodologia para a produção do conhecimento: da concepção à prática. 1ed.Curitiba: SENAR, 2015, v. 1, p. 25-40.

WEID, Jean Marc. Um novo lugar para a agricultura. In: PETERSEN P. (Org). Agricultura familiar camponesa na construção do futuro. Rio de Janeiro: AS-PTA, 2009.







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