ISSN 1678-0701
Número 65, Ano XVII.
Setembro-Novembro/2018.
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16/09/2018DIFERENTES PERFIS DE ESTUDANTES BRASILEIROS FRENTE AOS DESAFIOS AMBIENTAIS: RESULTADOS DE UMA PESQUISA EM LARGA ESCALA  
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DIFERENTES PERFIS DE ESTUDANTES BRASILEIROS FRENTE AOS DESAFIOS AMBIENTAIS: RESULTADOS DE UMA PESQUISA EM LARGA ESCALA

  1. Daniel Morin Ocampo¹, Gracieli Dall Ostro Persich², Michele de Souza Fanfa³, Luiz Caldeira Brant de Tolentino Neto4

1Doutorando do PPG Educação em Ciências: Química da Vida e Saúde da Universidade Federal de Santa Maria;

2 Mestre em Educação em Ciências, Professora da Universidade Federal da Fronteira Sul Campus Cerro Largo;

3 Mestranda do PPG Educação em Ciências: Química da Vida e Saúde da Universidade Federal do Rio Grande do Sul;

4 Doutor em Educação, Professor do Departamento de Metodologia do Ensino do Centro de Educação da Universidade Federal de Santa Maria.



Resumo: A bem-vinda inclusão de temas de educação ambiental nos currículos escolares e na formação docente traz consigo a necessidade de se conhecer as pesquisas na área e o que pensam e como se posicionam os jovens estudantes brasileiros. Neste sentido, a pesquisa aqui relatada busca relacionar dados de estudos que descrevem correntes da educação ambiental e dados vindos expressão de 2368 jovens brasileiros de 15 anos de idade, coletadas por meio de um questionário validado internacionalmente, sobre importantes questões ambientais. Esta amostra é oriunda de cálculos amostrais, gerando uma amostra representativa para a população de jovens brasileiros nessa faixa etária com um grau de confiança de 95%. Chega-se a quatro diferentes perfis que interagem, com intensidades variadas, com algumas correntes: um grupo de estudantes (23,5%) que se percebe como protagonista nas soluções para os desafios ambientais; um grupo (32,5%) com perspectiva conservacionista e preocupada com a gestão dos recursos ambientais; um grupo (24%) crítico e cético em relação às questões ambientais, suas origens e soluções; e um grupo (20%) que credita à ciência e, consequentemente, aos países mais ricos, a solução para tais questões. Conhecer os diferentes perfis dos jovens brasileiros frente às questões ambientais auxilia a fundamentar tanto políticas públicas quanto iniciativas individuais em direção à satisfazer a inclusão deste debate no campo da educação.

Palavras-chave: Educação Ambiental; Voz do estudante; Educação Básica; Educação para a Sustentabilidade.

Abstract: The welcome inclusion of the environmental education theme in the scholar curriculum and in the teacher training bring the necessity to know the research in this area and what the Brazilian young people think and stand front the theme. In this sense, this research try relate environmental education chains with data about 2368 young Brazilians with 15 years old, collected with an international questionnaire about important environmental questions. This sample is deriving of sample calculation, generation an representative sample of young Brazilians with this age, generation a confidence grade of 95%. We find four different profiles how interact with some chains: one group of students (23,5%) who perceive like protagonist in the solutions for the environmental challenges; One group (32,5%) with a conservationist perspective and worried with environmental resources management; an group (24%) critics and skeptical in relation of environmental questions, it origins and solutions; and one group (20%) how believe in the science, and in consequence, in the more rich countries, to solute that questions. Know the different young Brazilian profiles front the environmental questions help to make public policies and make individual initiatives to make the inclusion of this theme in the education.

Keywords: Environmental Education; Student Voice; Basic Education; Education to Sustainability.



Introdução

As questões relacionadas a educação ambiental são cada vez discutidas no nosso dia a dia, quer seja por ONGs e instituições ambientais, mas também por professores, pelos meios de comunicação, e, até mesmo, nas conversas entre familiares e amigos. Essa crescente preocupação é fruto de um aumento pouco ordenado nas formas de consumo e uso dos recursos naturais, geradas pelo avanço do mundo globalizado e das constantes inovações tecnológicas.

A relação do ser humano com o meio ambiente, do qual é parte fundamental enquanto ser social e espécie biológica, é historicamente caracterizada como de dominação. Pautada nesta relação de dominação e exploração exacerbada, a temática das questões ambientais e do desenvolvimento sustentável passou a ganhar importância econômica, política, social e cultural, para além das discussões em âmbito com viés exclusivamente ambiental ou voltadas para a conservação.

De acordo com Leff (2011), o princípio da sustentabilidade surge como uma resposta à fratura da razão modernizadora e como uma condição para construir uma nova racionalidade produtiva, fundada no potencial ecológico e em novos sentidos de civilização a partir da diversidade cultural do gênero humano. Trata-se da reapropriação da natureza e da reinvenção do mundo; não só de um mundo no qual caibam muitos mundos, mas de um mundo formado por uma diversidade de mundos, abrindo o cerco da ordem econômica-ecológica globalizada.

O uso descontrolado dos recursos da natureza causa um impacto ambiental que, na maioria das vezes não tem volta. O desequilíbrio nas relações ecológicas, a diminuição da biodiversidade, a supressão de habitats pelo desenvolvimento urbano, as mudanças climáticas e o esgotamento destes recursos naturais são respostas às ações antrópicas de ocupação territorial e uso dos recursos para a geração de energias. Tais ações têm causados profundos impactos que revelam descaso em relação à preservação do ambiente natural e conservação da natureza. Nesse sentido, Leff (2011) dialoga que a crise ambiental instalada tem motivado questionamentos sobre a racionalidade e os paradigmas teóricos que impulsionaram e legitimaram o crescimento econômico, negando a natureza. A sustentabilidade ecológica aparece, assim, como um critério normativo para a reconstrução da ordem econômica, ou seja, uma condição para a sobrevivência humana e um suporte para chegar a um desenvolvimento duradouro.

Para Roos e Becker (2012) a educação ambiental pode estimular em cada indivíduo a consciência sobre suas ações e o interesse pela preservação do meio em que vive e, consequentemente, começar a praticar sustentabilidade adequada e verdadeira. Nessa via, a educação ambiental voltada para a sustentabilidade procura valorizar o convívio e a harmonia entre o homem e os outros seres que habitam o nosso planeta. É necessário perceber que a natureza não é uma fonte inesgotável de recursos, sendo preciso utilizá-la de maneira inteligente para que não se esgotem as possibilidades de uso, considerando que acontecem trocas cíclicas de energia e matéria.

Nesse sentido, a educação ambiental torna-se imprescindível e vem adentrando os espaços educativos formais e não formais no Brasil. O Plano Nacional de Educação Ambiental (1999), Lei nº 9.795, em seu Artigo 1º descreve a educação ambiental como: “processos por meio dos quais o indivíduo e a coletividade constroem valores sociais, conhecimentos, habilidades, atitudes e competências voltadas para a conservação do meio ambiente, bem de uso comum do povo, essencial à qualidade de vida e sustentabilidade” (Brasil, 1999).

Além desse documento, a Política Nacional do Meio Ambiente de 1981, a Constituição Federal de 1988, os Parâmetros Curriculares Nacionais de 1997 , a Resolução nº 2 de 15 de junho de 2012 do Conselho Nacional de Educação e a Base Nacional Comum Curricular,  são alguns dos documentos oficiais que inserem a educação ambiental de maneira interdisciplinar, como tema transversal a ser trabalhado de formas diversas no currículo escolar. Uma vez inserida nos currículos, passa-se a discutir de que maneira a educação ambiental deva ser abordada nos diferentes espaços educacionais em diversos contextos brasileiros.

O ensino científico no Brasil engloba diversas formas de abordagem, estratégias e desenvolvimento metodológico sobre conteúdos e temáticas que estão previstos nos currículos da educação básica. Determinadas ações podem possibilitar aos professores-educadores subsídios em suas atividades docentes. Tais subsídios podem ser proporcionados por meio dos aspectos singulares que cada abordagem, métodos ou estratégias podem oferecer. Tais abordagens estão relacionadas às chamadas correntes de educação ambiental, como explorado por Sauvé (2005). Nesta obra a autora debate quinze correntes de pensamento em educação ambiental, como a corrente naturalista, a conservacionista/recursista, a  resolutiva, a sistêmica, a científica, a humanista, a moral/ética, a holística, a biorregionalista, a prática,  a crítica, a feminista, a etnográfica, a da eco-educação e a da sustentabilidade  (SAUVÉ, 2005).

A definição das correntes em educação ambiental indica concepções de pensamento acerca do ambiente e da relação do ser humano com a natureza, podendo estar relacionadas uma ou mais correntes entre si. A identificação por determinadas correntes está fortemente relacionada às percepções que cada indivíduo tem do meio ambiente. Sauvé (2005) apresenta as percepções como subjugadas por parâmetros: a concepção dominante do meio ambiente, a intenção central da educação ambiental, os enfoques privilegiados e exemplos de estratégias ou de modelos que ilustram a corrente. Essa sistematização deve ser vista como uma proposta teórica e será vantajoso que seja objeto de discussões críticas, algo que exploraremos neste trabalho.

A educação ambiental é um tema transversal importante nos currículos, tanto das escolas de ensino fundamental e médio, como nas instituições de ensino superior. Entretanto, muitas vezes, acabamos nos inspirando em estudos de caso para pensar sobre o posicionamento do jovem frente aos desafios ambientais. Sem deixar de reconhecer o valor destas pesquisas, ressaltamos que são poucas as iniciativas de larga escala que abordam as concepções acerca do tema entre os jovens. A concepção em educação ambiental apresentada pelos estudantes pode mostrar o quanto os mesmos se consideram parte do ambiente e como acreditam ser possível cuidá-lo e protegê-lo. Neste sentido, objetivamos nesta pesquisa destacar os diferentes perfis dos estudantes frente aos desafios ambientais. Para isso,  nos embasamos em uma amostra representativa para o Brasil, buscando aproximar esses perfis das diferentes correntes para a educação ambiental exploradas por Sauvé (2005).



Metodologia

Para atingir o objetivo deste estudo, nos debruçamos sobre os resultados do Barômetro Brasil. Este instrumento é oriundo do ROSE Project, um projeto internacional aplicado em mais de 40 países (TOLENTINO-NETO, 2008; SANTOS-GOUW, 2013; PINAFO, 2016).

O Barômetro é um questionário impresso composto por 96 questões, cujas alternativas atendem uma escala de likert de 4 pontos, que buscam respostas para diferentes aspectos do interesse e do posicionamento de estudantes frente às ciências e à tecnologia, sendo um desses posicionamentos relacionado a percepção dos estudantes quanto aos desafios ambientais, correspondendo a 14 questões.

Os dados que exploramos neste texto são provenientes da cooperação técnica entre os grupos de pesquisa EDEVO-Darwin e IDEIA-RS. Os resultados referem-se à aplicação do instrumento Barômetro no ano de 2014, a 2368 jovens brasileiros na faixa dos 15 anos, compondo uma amostra representativa da população dos jovens brasileiros nesta idade que frequentam escolas de educação básica.

Nosso trabalho inspira-se na pesquisa de Schreiner (2005), na qual a autora buscou traçar as possíveis tipologias dos estudantes noruegueses frente a seus interesses pelas ciências e pela tecnologia. Além disso, também buscamos inspiração nos trabalhos de Ogawa e Shimode (2004), que da mesma forma buscaram distinguir três grupos entre os estudantes japoneses frente a suas preferências pelas ciências. Desta forma, investigamos os dados do Barômetro à luz da análise de agrupamento.

Para amostras extensas como a do presente trabalho, a literatura propõe que seja utilizado o método de k-means (Hair, et. al. 2009). Com auxílio do software Microsoft SPSS buscamos a distribuição da amostra em 4 agrupamentos (clusters). Estes resultados são apresentados e discutidos a seguir.



Resultados

Em um primeiro momento precisamos entender quais são as opiniões gerais dos jovens sobre os problemas ambientais. Para tanto, utilizaremos as médias das respostas em cada item do Barômetro relacionado à temática, e os resultados obtidos por Pinafo (2016) em sua tese de doutoramento. Posteriormente, distinguiremos os agrupamentos de alunos partindo das características gerais e traçaremos aproximações das concepções com as correntes para a educação ambiental.

Analisando os dados da aplicação do Barômetro Brasil, Pinafo (2016) caracterizou de forma geral os jovens brasileiros segundo alguns aspectos. Para a autora, os dados apresentam que os estudantes são otimistas quanto ao futuro, tomando para si a responsabilidade e acreditando em sua importância enquanto cidadãos para solucionar os problemas ambientais. Os jovens admitem que o mundo natural é sagrado, não sendo exageradas as preocupações apresentadas para com o meio ambiente.

Um resumo dessas concepções  é apresentado na Tabela 1, na qual também verificamos que poucos estudantes se abstiveram de responder aos itens. Isso nos leva a crer que a maioria dos jovens é capaz de se posicionar frente aos problemas ambientais. As discussões e a divulgação de informação, tanto em espaços educativos não formais, na mídia e na escola, tem levado o jovem a pensar e a construir posicionamentos diante desse tema. Como já ressaltamos, a educação ambiental tem aparecido frequentemente como uma pauta das legislações que regem o ensino, como as Diretrizes Curriculares Nacionais (BRASIL, 2013), no qual a sustentabilidade ambiental é apontada como meta universal, o que indica que a discussão sobre as questões ambientais está na agenda de educadores e gestores.

Os resultados vão ao encontro dos encontrados por Amestoy et. al. (2014) que, ao aplicar o questionário ROSE para alunos de graduação em Ciências Biológicas, encontraram dados similares aos resultados da aplicação do Barômetro Brasil. Da mesma forma, Drehmer e Tolentino-Neto (2011) apontam o posicionamento otimista de estudantes da graduação quanto às soluções para os problemas ambientais. Esta congruência de posicionamento reforça a importância da abordagem da educação ambiental nos espaços universitários e escolares, uma vez que as concepções dos jovens frente aos desafios ambientais irão repercutir em sua vida adulta.

Tabela 1 – Alunos respondentes e média em cada questão

Questão 

Respondentes

Média

C28 - A ciência e a tecnologia podem resolver todos os problemas do ambiente

2359

2,17

C29 - Eu pessoalmente posso influenciar o que acontece ao ambiente

2352

2,99

C30 - Ainda podemos encontrar soluções para os problemas do ambiente

2367

3,58

C31 - As pessoas deveriam interessar-se mais pela proteção do ambiente

2354

3,77

C32 - Eu estou otimista quanto ao futuro

2326

2,76

C33 - O mundo natural é sagrado e devemos deixá-lo em paz

2306

2,99

C34 - As pessoas se preocupam demais com os problemas do ambiente

2340

1,63

C35 - Penso que cada um de nós pode dar uma contribuição significativa para a proteção do ambiente

2358

3,54

C36 - É correto usar animais para experiências médicas se assim se pode salvar vidas humanas

2340

2,15

C37 - Os problemas do ambiente devem ser deixados aos especialistas

2344

1,71

C38 - É responsabilidade dos países ricos resolverem os problemas do ambiente no mundo

2340

1,77

C39 - Os animais devem ter o mesmo direito à vida que as pessoas

2347

3,38

C40 - As ameaças ao ambiente não são da minha conta

2354

1,42

C41 - Os problemas do ambiente são exagerados

2347

2,21

Fonte: próprio autor.

Levando em conta essa visão geral das concepções dos estudantes frente aos desafios ambientais, nos propomos a distinguir os jovens brasileiros em 4 agrupamentos (clusters). Utilizando a análise multivariada, mais especificamente a análise de agrupamento, chegamos à distribuição descrita na tabela 2.

Observamos uma distribuição razoavelmente equilibrada do número de estudantes em cada um destes agrupamentos, com destaque para o cluster 2, com aproximadamente 32% dos estudantes. As médias das respostas em cada agrupamento não apresentam discrepâncias significativas. Entretanto, observar apenas a média não nos fala muito sobre cada agrupamento, uma vez que apenas a análise das respostas individuais, ou seja, para cada item, pode gerar o perfil dos estudantes.

Tabela 2 – Descrição dos agrupamentos

Agrupamento

Alunos

Média

1

559

2,24

2

776

2,54

3

578

2,69

4

485

2,87

Fonte: Próprio autor

Para averiguar as peculiaridades de cada um dos 4 agrupamentos, analisamos as médias das respostas para cada item em cada um deles (Gráfico 1). Em virtude da citada influência da educação básica na construção da percepção dos jovens frente aos desafios ambientais, optamos por caracterizar cada um destes agrupamentos em virtude das diferentes correntes de educação ambiental. Para criar esta integração, nos baseamos no texto de Sauvé (2005), já citado, no qual a autora elenca e explora 15 correntes em educação ambiental.

Por uma questão estrutural discutiremos primeiramente o cluster 2, onde se encontra a maioria dos estudantes e as respostas estão mais próximas das médias gerais. Confirmamos que este agrupamento se aproxima de uma norma das respostas dos estudantes utilizando a estatística inferencial por meio da ANOVA, sendo possível notar que as questões que impactam na diferenciação dos agrupamentos (com F>250) não são respondidas neste cluster de forma destoante da média geral. Ressaltamos que todos os outros agrupamentos manterão características similares às deste cluster.

Gráfico 1 – Interesse médio por agrupamento

* Questões que diferem cada grupo a partir do ANOVA com F > 250

Fonte: Próprio autor.



Aproximamos este agrupamento de duas correntes, sendo a primeira a corrente resolutiva, pois os estudantes percebem-se como agentes importantes nas soluções para os desafios ambientais. Segundo Sauvé (2005), nesta corrente uma das maiores preocupações é desenvolver nos estudantes habilidades para resolver as problemáticas ambientais. Essa corrente trata os desafios ambientais como uma série de problemas e se propõe a desenvolver competências para resolvê-los a partir da construção de conhecimentos proporcionados pela educação em ciências (LIMA e OLIVEIRA, 2011).

Além disso, é possível verificar uma forte influência da corrente naturalista, pois como afirma Sauvé (2005): “as proposições da corrente naturalista com frequência reconhecem o valor intrínseco da natureza, acima e além dos recursos que ela proporciona e do saber que se possa obter dela”. Isso fica evidente pela concordância os alunos com o item C33: “O mundo natural é sagrado e devemos deixá-lo em paz”, e discordam de afirmações como: “É correto usar animais para experiências médicas se assim se pode salvar vidas humanas”. Não é incomum a corrente naturalista ter influenciado os estudantes deste e dos outros agrupamentos, uma vez que esta é uma das mais antigas correntes de educação ambiental. Além disso, Lima e Oliveira (2011) observaram que quase metade dos professores por eles pesquisados tem concepções próximas a corrente naturalista.

O cluster 1 é diferenciado pela discordância com o item: “O mundo natural é sagrado e devemos deixá-lo em paz”, o que nos remete a corrente conservacionista ou recursista. Esta corrente enfatiza o uso equilibrado, ou seja, bem administrado dos recursos naturais, uma vez que a natureza é vista como uma fonte de recursos para os seres humanos. Nesta concepção, são comuns características conservacionistas, com demonstrações de preocupação com a gestão ambiental e a educação para o consumo (SAUVÉ, 2005).

A corrente crítica social parece estar presente de certa forma nos jovens que compõem o cluster 3. Este agrupamento se distingue pela alta concordância com o item: “Os problemas ambientais são exagerados”. Tal ceticismo quanto à dimensão que os problemas ambientais atingem em relação à humanidade e à qualidade do ambiente, indica um posicionamento corajoso e questionador, característico desta corrente, a qual questiona lugares-comuns (SAUVÉ, 2005).

Já o cluster 4 é o que mais se distingue dos demais. Aqui a corrente resolutiva tem menor impacto e a influência da corrente científica se intensifica. Os estudantes deste agrupamento concordam com afirmações como: “A ciência e a tecnologia podem resolver todos os problemas do ambiente”. A corrente científica, segundo Sauvé (2005), é caracterizada por uma educação ambiental com enfoque cognitivo, preocupada em desenvolver conhecimento e habilidades inerentes à ciência e ao fazer científico, como a elaboração de hipóteses e experimentação. Além disso, neste agrupamento os estudantes concordam com o item: “É responsabilidade dos países ricos resolverem os problemas do ambiente no mundo”, o que remete tanto à corrente moral/ética como à corrente da sustentabilidade, ou mesmo serve para reforçar a corrente científica, uma vez que os estudantes podem imaginar que países ricos são nações desenvolvidas cientificamente.

Observamos que, de forma geral, os estudantes posicionam-se e se identificam como agentes importantes em relação aos desafios ambientais. Por outro lado, ficam sugeridas as influências de diferentes correntes em educação ambiental na construção do perfil desses estudantes, o que implicaria na influência das vivências educativas dos jovens em seu posicionamento futuro e nas suas concepções frente aos desafios ambientais.

Conclusão

A pouca abstenção dos estudantes em se posicionar diante das questões que se referem aos desafios ambientais é animadora. Certamente o primeiro passo para que os jovens saiam da escola com um posicionamento crítico é ter um posicionamento, o que pode ser elaborado por meio de discussões, reflexões, debates e diálogos sobre as problemáticas relacionadas ao meio ambiente e aos contextos ambientais vivenciados pelos jovens brasileiros.

A tentativa de aproximar os agrupamentos dos estudantes, de acordo com seu perfil frente aos desafios ambientais com as correntes da educação ambiental, proporcionou conclusões interessantes. O primeiro ponto a considerar é a influência das diferentes correntes em educação ambiental em cada agrupamento. As correntes resolutiva e naturalista parecem influenciar as concepções de todos os estudantes, o que reflete a importante influência da educação ambiental na sala de aula, uma vez que esta é a corrente predominante também entre os docentes.

Tanto as opiniões quanto às atitudes dos jovens frente aos desafios ambientais.

Os resultados apresentados nesta pesquisa reforçam a importância da educação ambiental no âmbito escolar desde os primeiros anos da educação básica, pois trabalhar as questões ambientais aliadas aos conteúdos curriculares e às aprendizagens de conhecimentos científicos, influencia na concepção dos estudantes sobre os desafios ambientais e na sua percepção enquanto sujeito participante do ambiente. Não podemos ignorar este impacto, uma vez que o jovem leva para a vida adulta tais percepções frente aos desafios ambientais e concepções sobre ambiente, problemas ambientais e sua responsabilidade frente a essas questões, podendo influenciar as pessoas ao seu redor e o meio onde vive. Desta forma, a educação ambiental pode fomentar o olhar crítico sobre as emergências ambientais, justificando o desenvolvimento sustentável, tão necessário no atual contexto global.

Referências

AMESTOY, M. B., NASCIMENTO, K. B., TOLENTINO-NETO, L. C. B. A voz dos universitários: Perfil de futuros Biólogos frente a concepções sobre Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente. Revista de Ensino de Biologia da Associação Brasileira de Ensino de Biologia (SBEnBio), v. 7, p. 5837-5848, 2014. Disponível em: http://coral.ufsm.br/ideia/index.php/producao

BRASIL. Política Nacional de Educação Ambiental. Lei nº 9795/1999.

BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria da Educação Básica. Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Básica. Brasília: MEC/SEB, 2013.

DREHMER, K.C., TOLENTINO-NETO, L. C. B. Estudo do impacto do curso de Ciências Biológicas nas concepções de ciência e meio ambiente entre estudantes da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM, RS). In: V Encontro Regional Sul de Ensino de Biologia (EREBIO-SUL) IV Simpósio Latino Americano e Caribenho de Educação em Ciências do International Council of Associations for Science Education (ICASE), 2011, Londrina. Anais do XVI Seminário Internacional de Educação - Docência nos seus Múltiplos Espaços, 2011. Disponível em: http://coral.ufsm.br/ideia/index.php/producao

HAIR, J. F., et. al. Análise Multi Variada de Dados. Tradução de Adonai Schlup Sant’Ana. 6. Ed. Porto Alegre: Bookman, 2009. 688p.

LEFF, E. Saber ambiental: sustentabilidade, racionalidade, complexidade, poder. Petrópolis, RJ: Vozes, 2001.

LIMA, A. M., OLIVEIRA, H. T. A (re) construção dos conceitos de natureza, meio ambiente e educação ambiental por professores de duas escolas públicas. Revista Ciência e Educação: Bauru, v.17, n.2, p.321-337, 2011.

OGAWA, M., SHIMODE, S. Three distinctive groups among japanese students in terms of their school science preference: from preliminary analysis of japanese data of an international survey 'the relevance of science education' (ROSE). Journal of Science Education in Japan, Vol.28, No.4, 2004.

PINAFO, J.O que os jovens têm a dizer sobre ciências e tecnologia? Opiniões, interesses e atitudes de estudantes em dois países: Brasil e Itália. 2016. 465 f. Tese (Doutorado) – Faculdade de Educação, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2016.

SANTOS-GOUW, A. M. As opiniões, interesses e atitudes dos jovens brasileiros frente à ciência: uma avaliação em âmbito nacional. 142 f. Tese (Doutorado) – Faculdade de Educação, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2013.

SAUVÉ, L. Uma cartografia das correntes em educação ambientao. In: Sato, M., Carvalho, C. M. Educação ambiental – pesquisa e desafios. Porto Alegre: Artmed, 2005. 232p.

SCHREINER, C. Exploring a ROSE-Garden: Noewegian youth’s orientations towards science – see an signs of late modern identities. November de 2005. 315 pg. Thesis – Faculty of Education, University of Oslo.

ROOS, A. BECKER, E. L. S. Educação Ambiental e Sustentabilidade. Revista Eletrônica em Gestão, Educação e Tecnologia Ambiental, p. 857 -  866, REGET/UFSM. 2012. <https://periodicos.ufsm.br/reget/article/viewFile/4259/3035 > Acessado em: 25 maio 2018.

TOLENTINO-NETO, L. C.B. Os interesses e posturas dos alunos frente às ciências: resultados do Projeto ROSE aplicado no Brasil. 170 f.  Tese (Doutorado). Faculdade de Educação. Universidade de São Paulo. São Paulo, 2008.





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