ISSN 1678-0701
Número 65, Ano XVII.
Setembro-Novembro/2018.
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16/09/2018PERCEPÇÕES E PERSPECTIVAS DE ESTUDANTES DO ENSINO BÁSICO SOBRE QUESTÕES DE CIÊNCIAS DA NATUREZA DO ENEM  
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PERCEPÇÕES E PERSPECTIVAS DE ESTUDANTES DO ENSINO BÁSICO SOBRE QUESTÕES DE CIÊNCIAS DA NATUREZA DO ENEM



Cícera Firmina da Silva1; Luiz Sodré Neto2; Thamara de Medeiros Azevedo3

1Licencianda em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Campina Grande/ cicera_firmina@hotmail.com

2Doutor em Ecologia e Recursos Naturais pela Universidade Federal de São Carlos, Professor da Universidade Federal de Campina Grande, Centro de Educação e Saúde, Cuité-PB/ luizsodre@ufcg.edu.br

3 Mestre em Ciências Naturais e Biotecnologia, Universidade Federal de Campina Grande, Centro de Educação e Saúde, Cuité-PB/ thamarabio@outlook.com



Resumo: O presente trabalho teve como objetivo avaliar de forma quantitativa as percepções e perspectivas de estudantes do Ensino Básico sobre as questões de Ciências da Natureza e suas Tecnologias (CNT) do ENEM quanto à abordagem da Microbiologia. A pesquisa foi realizada em três escolas públicas por meio de um questionário aplicado a 251 estudantes do Ensino Básico. Os estudantes percebem a contextualização nas questões do exame, mas a maioria desconhece a abordagem interdisciplinar quando presente. Além disso, quanto à microbiologia, a maior parte deles tem expectativa de encontrar questões que envolvam características de microrganismos ou a associação estrita destes com doenças. Aparentemente, a própria estruturação do ENEM permanece pouco compreendida por parte dos estudantes e isto pode servir como alerta para a necessidade de mudança nas práticas de ensino em todos os níveis.

Palavras-chave: Competências e Habilidades. Ensino Fundamental. Ensino Médio.



Abstract: This work aimed to evaluate quantitatively perceptions and perspectives of Basic Education students on microbiology in the National High School Exam (ENEM), Brazil. Research was carried out in three public schools using a questionnaire to 251 students of basic education. Students perceive contextualization in exam questions, but most are unaware of the interdisciplinary approach when it is present. Furthermore, for microbiology, most of them are expected to find issues involving characteristics of microorganisms or the strict association of microorganisms with diseases. Apparently, structure of the ENEM remains poorly understood by students and this can serve as an alert to the need for change in teaching practices at all levels.

Keywords: Abilities and Skills. Elementary School, High School.



INTRODUÇÃO

O Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) foi criado como um segmento da política educativa, de acordo com o Plano de Desenvolvimento da Educação, e se constitui como ferramenta chave das novas mudanças do Ensino Médio pela qual os alunos são avaliados também quanto às suas competências e habilidades (CLEMENTE, 2017). Por estas características, a implementação do exame pode ser considerada como um salto no sistema de avaliação do Ensino Básico, sobretudo porque os seus objetivos foram ampliados e devem interferir em alguns aspectos da formação do estudante que se prepara para o ingresso nas Instituições de Ensino Superior (IES).

A tendência é que o ENEM interfira cada vez mais na formação dos estudantes por meio das mudanças de postura e atitude dos professores que busquem frequentemente adequações na prática de ensino voltada para atender as exigências do exame, substituindo gradativamente a preocupação com a memorização da maior quantidade de conteúdos possível pela busca por soluções para os problemas cotidianos de maneira racional e crítica.

Mas, o que os estudantes pensam sobre isto? Será que já existe, de fato, um reflexo do ENEM em todo o Ensino Médio brasileiro? Tais questionamentos são fundamentais para que se desenvolva o processo de ensino-aprendizagem baseado no ENEM.  De acordo com Sousa, Monteiro e Rodrigues (2016), a formação do professor é refletida pelas ferramentas avaliativas que ele utiliza, sendo essencial a busca por alternativas que favoreçam o desenvolvimento de competências e habilidades dos educandos.

Por parte dos estudantes, o ENEM tende a influenciar a construção do conhecimento, pois os textos são em sua maioria de caráter informacional e problematizado e, consequentemente, estimulador da conexão de ideias e da capacidade de pensar. Deste modo, busca-se uma abordagem contextualizada que faça o estudante se posicionar frente à resolução das questões propostas.

Nicoletti e Sepel (2016) acrescentam que, uma das formas de desenvolver a criticidade do aluno é promover a interdisciplinaridade em sala de aula com conteúdos que envolvam a Ciência a Tecnologia e a Sociedade (CTS), pois será desenvolvida a capacidade de relação de conhecimentos. Estes mesmos autores ressaltam que é um desafio para os educadores brasileiros elaborar questões de nível contextualizado e de forma interdisciplinar pois, para que isto aconteça, é necessário se propor constantes revisões e atualizações, para que as questões não tenham assuntos que exijam a memorização de conceitos específicos pelos alunos nem informações irrelevantes.

De acordo com Nunes, Oliveira e Santana (2016) e Costa e Santos (2017) para ensinar os conteúdos de formar interdisciplinar é necessário que as disciplinas conversem entre si, e que a associação entre as mesmas seja de caráter contextualizado de forma a reunir o máximo de disciplinas de maneira a associar todas em um mesmo problema.

Normalmente existe uma maior facilidade de contextualização das questões das Ciências da Natureza devido à aproximação entre os problemas e o cotidiano das pessoas. A Matriz de Referência de Ciências da Natureza e suas Tecnologias (CNT) (BRASIL, 2012) envolve uma série de competências e habilidades a serem desenvolvidas e uma delas consiste na relação entre organismos, ambiente e saúde. Naturalmente, neste âmbito, a microbiologia é diretamente contemplada e fundamental para o entendimento das inter-relações propostas.

Nessa perspectiva, o presente trabalho justifica-se pela necessidade de valorização da opinião dos estudantes em relação a um exame que é referência Nacional e que contribui para o ingresso de milhares de alunos em universidades, tanto privadas quanto públicas, e também por fornecer dados importantes para a análise do que vem acontecendo por influência do ENEM. Objetivou-se, portanto, avaliar de forma quantitativa as percepções e perspectivas de estudantes do Ensino Básico com relação às questões que contemplam a prova de CNT e quanto à inclusão da microbiologia nestas questões.



METODOLOGIA

A pesquisa foi realizada em três escolas estaduais dos municípios de Jaçanã (Rio Grande do Norte) e de Cuité (Paraíba). O público alvo abrangeu alunos do 9º ano do Ensino Fundamental e 3º ano do Ensino Médio.

Foi aplicado um questionário estruturado, contendo quatro questões de múltipla escolha, para 126 alunos do 9º ano do Ensino Fundamental e 125 alunos do 3º ano do Ensino Médio no mês de agosto de 2017. Este público alvo foi selecionado a fim de observar o nível de conhecimento a respeito das questões de Ciências da Natureza do ENEM entre estudantes cursando o final do Ensino Fundamental e aqueles concluintes do Ensino Médio.

Na análise dos dados, as respostas atribuídas pelos alunos nos questionários foram contabilizadas e distribuídas em gráficos, de forma a explanar melhor o resultado da pesquisa o que faz uma caracterização da parte quantitativa. Sendo que a soma do número de estudantes apresentada em cada figura apresenta-se maior que o número total de alunos participantes, em função de que em todas as questões poderia ser assinalada mais de uma alternativa por cada estudante. Além disso, a análise conta também com uma abordagem qualitativa pois, além de ser avaliado o maior número de alunos entrevistados, foi investigado como o ENEM está sendo visto qualitativamente pelo maior público interessado no exame.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Os resultados apresentados nas figuras subsequentes, referentes ao número de estudantes, representam às respostas obtidas por meio da aplicação do questionário entre os estudantes do 9º ano do Ensino Fundamental e 3º ano do Ensino Médio das duas escolas participantes da pesquisa.

No que diz respeito à abordagem presente nas questões do ENEM a maioria dos estudantes, 28,8% alunos do 9º ano do Ensino Fundamental e 34,3% do 3º ano do Ensino Médio, assinalou as questões de múltipla escolha (QME), (Figura 1). Sendo a segunda alternativa mais assinalada àquela sobre as questões contextualizadas (QC), a qual foi selecionada por 28,4% dos alunos do 9º ano do Ensino Fundamental versus 32,7% dos alunos do 3º ano do Ensino Médio (Figura 1).

Nota: O número de respostas é superior ao número de respondentes devido as questões serem de múltipla escolha.

Fonte: Pesquisa de campo/2017

Base: 126 alunos do Ensino Fundamental e 125 alunos do Ensino Médio.

Figura 1: Percentual de alunos correspondentes a escolha das Questões de múltipla escolha (QME), Questões discursivas (QD), Questões com abordagem multidisciplinar (QAM), Questões com abordagem interdisciplinar (QAI) e Questões contextualizadas (QC).



As questões de múltipla escolha sempre foram uma característica presente no ENEM, se não a mais marcante desde a fundação do exame. Desse modo, o resultado para essa questão demonstrou que grande parte dos estudantes, tanto nas turmas do 9º ano quanto nas do 3º ano, assinalou corretamente a alternativa de QME. Observa-se na descrição do ENEM proposta pelos autores Barbosa e Silva (2017, p.366) que “a prova era composta de duas partes: uma com 63 questões objetivas de múltipla escolha e a outra uma redação, sendo que cada uma das partes valia 100 pontos.” A prova contém, portanto, uma abordagem mais ampla de pontos, em contraste com os vestibulares tradicionais que abordam algumas questões discursivas e menos complexas. Desta forma estas questões do ENEM tendem a facilitar o raciocínio do estudante oferecendo alternativas de acordo com a pergunta. Esse tipo de questão também tende a proporcionar uma melhor administração do tempo de prova.

Nesse sentido, 28,8% dos alunos do Ensino Fundamental mostraram ter conhecimento de que o ENEM é composto por questões de múltipla escolha (Figura 1). Isto indica que embora os alunos desse nível de ensino ainda não tenham feito o exame, esta informação está esclarecida para a maioria e, que de alguma forma a mesma chegou até eles.  Com relação ao 3º ano do Ensino médio, a grande maioria dos alunos marcou esta alternativa, o que já era esperado uma vez que estes estão prestes a realizar a prova, e já foram apresentados ao exame de alguma forma, ou até mesmo já participaram do ENEM por experiência. Por outro lado, acredita-se que a minoria que não assinalou essa alternativa ou nunca teve contato com o exame ou, até mesmo, desconhece o significado de questões de múltipla escolha.

As questões discursivas (QD) não fazem parte da estrutura do exame, no entanto, 11,5% dos alunos do 9º ano acreditam que a prova aborda este tipo de questão (Figura 1). Contudo, este tipo de pensamento é compreensível, uma vez que, no Ensino Fundamental não existe tanta preocupação com a prova e sua estrutura e, não é trabalhada mais detalhadamente nesse nível de ensino. 5,7% dos alunos do 3º ano também acreditam que as questões discursivas fazem parte do exame (Figura 1), isto indica que apesar de uma minoria ter esta convicção, a estrutura do exame tem que ser trabalhada de forma mais constante em todo o Ensino Médio, para que os alunos não tenham conhecimento apenas dos conteúdos do ENEM mas também da estruturação da prova. Reinaldo (2016) enfatiza que a única parte de discussão inclusa no ENEM é a produção da redação, mas que a seção destinada as questões do exame envolvem apenas perguntas fechadas. A própria redação, portanto, pode ter confundido os alunos ao associá-la com questões discursivas, tal fato pode indicar um equívoco de interpretação e também que não se é trabalhada adequadamente tal abordagem nas salas de aula.   

As questões com abordagem multidisciplinar (QAM) foram assinaladas com equivalência entre os alunos dos dois níveis de ensino, contando com 24,3% respostas no 9º ano e 19,5% no 3º ano (Figura 1). Tendo em vista tal aproximação, pode-se inferir que o conhecimento está proporcional no ensino básico entre os alunos das escolas escolhidas e, demonstra o conhecimento atualizado de parte dos estudantes quanto a presença da multidisciplinaridade no exame.  Nessa perspectiva, Schossler (2011) esclarece que até o ano de 2008 o ENEM contemplava as questões interdisciplinares pois, eram 63 questões realizadas em um único dia. Após esse ano, o mesmo passou a ter um caráter multidisciplinar pois reuniu 180 questões divididas em quatro áreas de conhecimento dividida em dois dias e cada uma contendo 45 questões. Contudo, essa proporção de respostas deveria ter sido mais alta, uma vez que, apenas metade dos alunos marcou esta opção. Pode-se inferir que, quando se fala em multidisciplinaridade, os alunos relacionam o prefixo a múltiplos, deste modo, associam as várias disciplinas que estão presentes no ENEM. No entanto, isso costuma estar associado apenas a fragmentação das disciplinas na qual estuda-se cada componente curricular em suas respectivas áreas isoladamente.

A alternativa de questões com abordagem interdisciplinar (QAI) teve um percentual baixo de respostas, no qual apenas 7% dos alunos do Ensino Fundamental marcaram esta alternativa enquanto que o percentual do Ensino Médio foi apenas 7,7%. Esse resultado é preocupante, uma vez que a interdisciplinaridade é uma característica marcante nas questões do ENEM. Deste modo, percebe-se um nível de conhecimento baixo com relação à esta alternativa que se caracteriza como sendo de suma importância, pois constitui as questões do exame. Este resultado também indica que pouco ou em nenhum momento se é trabalhada a interdisciplinaridade no currículo escolar, ainda prevalecendo o caráter multidisciplinar. De acordo com Costa, Lopes e Barbosa (2017), o debate em torno da interdisciplinaridade se dá pela carência da relação com as disciplinas do currículo escolar entre si, e com a realidade, de forma a superar a divisão do ensino, tudo isso com a finalidade de obter a integralidade da formação dos alunos, para que deste modo se tornem cidadãos críticos a fim de enfrentar situações adversas da atualidade. Já para Gonzaga (2017), a interdisciplinaridade deve contribuir para libertar os estudantes e todos os membros da escola para um novo olhar de ensino, objetivando um maior aprendizado e crescimento do sujeito.  

Por outro lado, um número significativo de alunos assinalou as questões contextualizadas (QC), 28,4% alunos do Fundamental e 32,7% do Ensino Médio (Figura 1), o que indica que este quesito está esclarecido quanto ao conhecimento de parte dos alunos. A contextualização nas provas do ENEM se encontra de formas diferentes quer seja por meio de gráficos, tabelas ou quadros com o objetivo de fornecer informações para que o candidato possa extrair o máximo de informações para a resolução das questões de forma correta (PEREIRA; SOUZA, 2016). Mais da metade dos estudantes do 9º ano marcou esta alternativa e, por serem alunos que ainda não convivem constantemente com este tipo de questões, demonstraram um nível moderado de compreensão. No Ensino Médio, a maioria dos alunos assinalou a mesma opção, um resultado coerente, visto que corresponde a série que está sendo preparada para a realização da prova e já possui o conhecimento de como é a estrutura contextualizada das questões.

Tendo em vista a perspectiva dos alunos com relação ao questionamento sobre quais disciplinas devem estar presentes na área de CNT, as respostas assinaladas tanto pelos alunos do 9º ano quanto entre os do 3º ano se concentraram de forma mais expressiva, principalmente, entre as alternativas de Biologia, Química e Física (Figura 2).

Nota: O número de respostas é superior ao número de respondentes devido as questões serem de múltipla escolha.

Fonte: Pesquisa de campo/2017

Base: 126 alunos do Ensino Fundamental e 125 alunos do Ensino Médio.

Figura 2: Percentual de Respostas dos alunos quanto as disciplinas que devem estar presentes nas questões do ENEM referente as CNT



A disciplina Biologia está relacionada com o próprio nome da área, Ciências da Natureza e suas Tecnologias. Deste modo, isto pode ter influenciado a mesma ter sido a disciplina com o maior número de respostas assinaladas tanto no Ensino Fundamental quanto no Ensino Médio. Química e Física foram, respectivamente, as segunda e terceira disciplinas com os maiores números de respostas marcadas em ambos os níveis de ensino. Nesse sentido, observou-se que a maioria dos estudantes assinalou as alternativas corretas, uma vez que a área de Ciências da Natureza segundo Hernandes e Martins (2013, p 62) “integra a Biologia, Química e Física sendo que as questões da prova não estão separadas por disciplina escolar”.  

Contudo, apesar de a maior parte dos alunos ter noção das disciplinas presentes na área supracitada, todas as demais disciplinas inclusas nas alternativas, Matemática, Português, Inglês, Geografia e História, também foram marcadas embora com uma frequência inferior comparada com o número total de alunos (Figura 2). Contudo, estas respostas incorretas foram predominantes entre os alunos do 9º ano do Ensino Fundamental, com exceção da disciplina de Geografia, na qual o 3º ano do Ensino Médio se sobressaiu sobre o Fundamental, contando com um número considerável de 11,9% das respostas. As disciplinas de Geografia e História por estudarem fatos, de certa forma, relacionados a um contexto mais próximo a CNT podem ter confundido os alunos.  Com relação a Matemática, Português e Inglês, tiveram uma frequência de respostas relativamente pequena, mas, esperava-se que não tivessem sido assinaladas, uma vez que, são áreas que se distanciam daquelas abrangidas em Ciências da Natureza.

Deste modo, está faltando nos componentes curriculares a orientação para os alunos quanto a inserção de cada disciplina nas áreas do exame, o que os estudantes obtêm aparentam ser apenas deduções ao fazerem a relação com o nome da área e também o que se estuda em cada uma. Este fato pode justificar as alternativas de Geografia e História terem sido incluídas. Por outro lado, pode-se observar um distanciamento quando eles relacionam Matemática, Português e Inglês a área de Ciências da Natureza. Ou seja, os candidatos estão realizando a prova do ENEM, no entanto uma boa parte ao ler as questões e a áreas não conseguem identificar ao certo as disciplinas que a prova está se referindo.

No que diz respeito aos conteúdos que devem ser contemplados nas questões de CNT, todas as opções foram assinaladas pelos alunos. Contudo, a maior frequência de respostas se concentrou na alternativa “utilização de tecnologias que implicam intensa intervenção humana no ambiente”, em ambos os níveis de ensino. Em seguida, a segunda alternativa mais assinalada correspondeu à “o modo como a natureza se comporta e a vida se processa”, contando com uma predominância de respostas entre os alunos do 3º ano (Figura 3).

Nota: O número de respostas é superior ao número de respondentes devido as questões serem de múltipla escolha.

Fonte: Pesquisa de campo/2017

Base: 126 alunos do Ensino Fundamental e 125 alunos do Ensino Médio.

Figura 3: Percentual de respostas dos alunos quanto o que deve ser abordado nas questões de CNT do ENEM.



A partir deste resultado pode-se notar que a maioria dos alunos não teve a percepção de assinalar todas as alternativas, não atentando para o fato de que todas elas estão corretas, pois de acordo com Brasil (2000, p.14) as questões de CNT devem contemplar:

O conhecimento de Biologia deve subsidiar o julgamento de questões polêmicas, que dizem respeito ao desenvolvimento, ao aproveitamento de recursos naturais e à utilização de tecnologias que implicam intensa intervenção humana no ambiente, cuja avaliação deve levar em conta a dinâmica dos ecossistemas, dos organismos, enfim, o modo como a natureza se comporta e a vida se processa.



Percebe-se que as respostas atribuídas pelos alunos do Ensino Fundamental e do Ensino Médio foram equivalentes, especialmente entre as três primeiras alternativas (Figura 3). No entanto, ainda há uma carência com relação à interpretação, pois todas as alternativas estão corretas, de forma que não é necessário, obrigatoriamente, ter conhecimento dos Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Médio (PCNEM) para responder à questão, mas, a capacidade de interpretar as alternativas, habilidade esta exigida pelas perguntas do ENEM, constituindo também uma de suas habilidades que é: “Interpretar e utilizar diferentes formas de representação (tabelas, gráficos, expressões, ícones[...]. Interpretar e criticar resultados a partir de experimentos e demonstrações” (BRASIL,1999, p.12). Neste exame, as perguntas costumam ser extensas e contextualizadas, exigindo atenção e interpretação adequada a cada questão, e o treinamento para o desenvolvimento destas práticas deve se encontrar no Ensino Básico. Neste nível de ensino, os alunos devem ser preparados pelos seus professores com perguntas que envolvam o desenvolvimento de tais habilidades, uma vez que, nos PCNEM são cobradas uma série de habilidades e competências, dentre as mesmas podem ser destacadas:

Formular questões a partir de situações reais e compreender aquelas já enunciadas; Procurar e sistematizar informações relevantes para a compreensão da situação-problema.; Formular hipóteses e prever resultados; Entender e aplicar métodos e procedimentos próprios das Ciências Naturais; Fazer uso dos conhecimentos da Física, da Química e da Biologia para explicar o mundo natural e para planejar, executar e avaliar intervenções práticas; Aplicar as tecnologias associadas às Ciências Naturais na escola, no trabalho e em outros contextos relevantes para sua vida (BRASIL, 2000. P. 12-13).

A última questão buscou analisar a percepção dos estudantes quanto aos conceitos presentes nas questões de Microbiologia no ENEM, onde os alunos assinalaram todas as alternativas com frequências variáveis. Nesse contexto, as opções referentes a vírus, bactérias, doenças, fungos, protozoários, biotecnologia e saúde humana foram, respectivamente, as que apresentaram os maiores números de respostas tanto entre estudantes do 9º ano do Ensino Fundamental quanto no 3º ano do Ensino Médio (Figura 4).



Nota: O número de respostas é superior ao número de respondentes devido as questões serem de múltipla escolha.

Fonte: Pesquisa de campo/2017

Base: 126 alunos do Ensino Fundamental e 125 alunos do Ensino Médio.

Figura 4: Percentual de Respostas dos alunos quando perguntados a respeito de quais conceitos podem estar presentes nas questões de microbiologia do ENEM.



A microbiologia é uma área ampla, estando presente em diversos aspectos que envolvem a própria sociedade. Sendo assim, infere-se que, nem todos os alunos conseguiram compreender que todas as opções ofertadas no questionário envolvem a microbiologia nas questões do ENEM, onde deveriam ter marcado todas as alternativas. Segundo Cândido et al. (2015, p.58), no que diz respeito à microbiologia “são inúmeras as suas contribuições em benefício da humanidade, seja na área da saúde, seja na agricultura, na indústria, no meio ambiente ou na biotecnologia”. Apesar disso, os alunos de ambos os níveis de ensino assinalaram principalmente as alternativas que envolvem os seres microscópicos que são objetivos de estudo da microbiologia, incluindo vírus, bactérias, protozoários e fungos (Figura 4).

É importante ressaltar ainda que a maioria dos estudantes de ambas as séries assinalou as doenças como uma das principais ligações com a microbiologia (Figura 4). Os resultados da presente pesquisa corroboram o encontrado por Sodré-Neto e Vasconcelos (2017) em que parte dos estudantes associam os microrganismos como principais responsáveis pelas doenças. Tal fato se torna preocupante do ponto de vista educativo, uma vez que, grande parte dos microrganismos tem ação benéfica ou é inofensiva, enquanto que apenas uma pequena porcentagem é caracterizada como agentes patogênicos.  Diante disso, o que se pode observar é que, as informações que chegam até os alunos são de grande proporção negativa, sendo influenciadas em grande parte pela mídia que insiste em promover produtos para combater bactérias, por exemplo, o que traz uma imagem negativa com relação às mesmas e, isso acaba que por ser difundido no meio dos estudantes. Além disso, tem o fato de na própria sala de aula ser dada maior ênfase aos malefícios do que aos benefícios causados pelos microrganismos, o que vai se perpetuando no conhecimento e aprendizagem do aluno, fazendo com que o mesmo associe essencialmente os microrganismos a fatores negativos.

Azevedo e Sodré-Neto (2014) relatam que o cotidiano do aluno é marcado por comentários de doenças graves causadas por bactérias, o que o faz remeter os males trazidos para o homem. Além disso, enfatizam a divulgação de propagandas e programas que mostram os vários ambientes que fazem parte do nosso cotidiano infectados por bactérias e, para venderem seus produtos, alegam serem estas essencialmente causadoras de algum efeito prejudicial para a saúde humana. Desta forma, isso tende a induzir o aluno na construção de concepções alternativas, que se tornam distantes do saber científico e dos benefícios trazidos por muitos microrganismos. Nos resultados de sua pesquisa, quanto a relação das bactérias com doenças Azevedo e Sodré-Neto (2014) relataram que os discentes descrevem majoritariamente os impactos negativos causados por estes microrganismos.

Com relação a alternativa de biotecnologia a maior frequência de respostas foi dos alunos do nível fundamental, o que indica um resultado surpreendente quando comparados com os de nível médio, que já carregam uma bagagem significativa de conteúdos e já tem estudado o conteúdo de microbiologia com maior profundidade, mesmo assim, foi inferior o número de estudantes que relacionou este tema a biotecnologia. Quanto ao fundamental, os resultados apontam que aos poucos essa informação está sendo introduzida no Ensino Básico. Sodré-Neto e Medeiros (2016) em seus resultados sobre o conhecimento dos estudantes do Ensino Básico com relação a biotecnologia, identificaram que o mesmo se encontra de forma razoável. Além disso, evidenciou-se que a maioria dos estudantes associou a biotecnologia com a produção de medicamentos e alimentos por microrganismos.

Outros quesitos nos quais o 9º ano do Ensino Fundamental se sobressaiu sobre o 3º do Ensino Médio foram nas alternativas: alimentação, sociedade, fotossíntese, agricultura e ambiente. Tais dados reforçam a ideia de que os alunos do Ensino Fundamental estão com um nível de conhecimento mais abrangente no que diz respeito a correlação dos microrganismos com fatores benéficos para a sociedade. Este resultado, é reforçado junto aos dados da pesquisa de Sodré-Neto e Diniz (2016, p.23) quando atestam que, “sobre aprendizagem em microbiologia no Ensino Médio, eles demonstraram ter pouca ou nenhuma informação sobre o assunto, exceto sobre a ligação entre micróbios e doenças”. Cândido et al. (2015) enfatizam nos resultados de sua pesquisa, a abrangência da microbiologia estando ligada ao meio ambiente, a biotecnologia, a saúde, higiene e ao cotidiano, não devendo ser esquecida, apesar das dificuldades de ensino torna-se um conteúdo bastante significativo para ser trabalhado em sala de aula.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Os resultados obtidos nesta pesquisa sugerem que, muito embora o ENEM atualmente seja o exame predominantemente usado para admissão em cursos de Ensino Superior, e apesar da sua divulgação nas escolas e na própria mídia, parte dos estudantes do Ensino Básico tem conhecimentos ainda insuficientes acerca de sua composição. Além disso, de maneira geral, as respostas atribuídas entre estudantes do 9º ano do Ensino Fundamental e 3º ano do Ensino Médio evidenciaram que o conhecimento sobre as questões incluídas na área de CNT pouco têm avançado, independentemente da série em que se encontram.

A estruturação do ENEM permanece, aparentemente pouco compreendida por parte dos estudantes, uma vez que, embora a maioria dos alunos de ambos os níveis de ensino saiba que a prova é constituída por questões de múltipla escolha, a abordagem interdisciplinar das questões ainda é um fator pouco conhecido entre os alunos.

Quanto às questões de CNT, alguns equívocos continuam aparecendo, especialmente com relação a extensão das disciplinas contempladas pela referida seção do exame. Particularmente, quando o assunto é microbiologia, ainda que seja uma área que estude seres microscópicos, permite inúmeras relações com o cotidiano do estudantes. Entretanto, contraditoriamente a este fato, a maioria dos estudantes tem expectativa de encontrar questões que envolvam a associação estrita entre microrganismos e doenças. Curiosamente, os estudantes do 9º ano (Ensino Fundamental) aparentemente relacionaram melhor os benefícios desempenhados pelos microrganismos nas questões do que os estudantes do 3º ano (Ensino Médio), o que pode estar associado ao tipo de trabalho desempenhado pelo professor no Ensino Fundamental, possivelmente por meio de um ensino mais contextualizado.

Os resultados aqui encontrados podem ser reflexos da abordagem superficial da estrutura do ENEM no Ensino Fundamental e no Ensino Médio, com pouca ênfase no treinamento de questões do ENEM nas escolas, assim como de um ensino de microbiologia ainda insuficiente quando se trata de contextualização e interdisciplinaridade.

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