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ISSN 1678-0701
Número 59, Ano XV.
Março-Maio/2017.
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Artigos

10/03/2017
CONSTRUÇÃO CIVIL E MEIO AMBIENTE: O HOMEM VERSUS NECESSIDADES BÁSICAS E SUAS CONTRADIÇÕES  
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CONSTRUÇÃO CIVIL E MEIO AMBIENTE: O HOMEM VERSUS NECESSIDADES BÁSICAS E SUAS CONTRADIÇÕES

 

Resumo: Para sobreviver o homem necessita satisfazer suas necessidades de alimentação e segurança. O objetivo deste artigo é fazer uma reflexão sobre a contribuição do homem ao criar contradições entre as suas necessidades básicas e o meio ambiente e como se apropria da natureza como se dela não fosse parte.

 

Palavras-chave: educação ambiental, necessidades básicas, contradições, construção civil, sustentabilidade.

 

CIVIL CONSTRUCTION AND THE ENVIRONMENT: HUMANS vs. BASIC NEEDS AND THEIR CONTRADICTIONS

Abstract: In order to survive, human beings need to satisfy their needs for food and safety. This paper aims at reflecting both upon the contribution given by human beings when they create contradictions between their basic needs and the environment and upon how they appropriate nature as if they were not part of it.

 

Key words: Environmental Education, basic needs, contradictions, civil construction, sustainability

 

INTRODUÇÃO

A partir de um olhar de profissional da área da construção civil com atuação e vivências no ramo, com graduação em engenharia civil, mestrado em educação ambiental e atualmente doutorando em ambiente e desenvolvimento, observa-se a atuação do homem na área da construção civil de forma visível, e logicamente de maneira empírica, sobre as suas criações versus suas necessidades básicas e as contradições criadas no seu entorno e fora dele.

Sabe-se que qualquer animal, e aí se inclui o homem, para a sua sobrevivência tem como necessidade imprescindível a alimentação. Somado a isto há também a segurança, podendo apresentar-se na forma de um abrigo que o protege das intemperes e dos demais predadores que poderiam acabar com sua existência, provenientes da própria natureza.

Assim que, a partir do momento em que temos a possibilidade de elencar dentre as necessidades básicas, a proteção, hoje arraigada à construção civil, também será possível apresentar algumas ligações que surgem deste relacionamento com o ambiente e das contradições que acabam advindo. Na continuidade apresentamos a educação ambiental como o caminho para a elucidação desse emaranhado, mas também a complexidade existente neste aspecto, considerando que essas relações humanas partem de um pressuposto social e, como consequência um gerador de transformações.

 

NECESSIDADES BÁSICAS VERSUS CRIAÇÃO DAS NECESSIDADES BÁSICAS

Vale salientar que alimentação e o abrigo são as necessidades básicas do animal e a natureza responde por isso. E na medida em que ocorre a humanização dos nossos antepassados inconscientemente, porém coletivamente, começam a priorizar o abrigo sobre a natureza.

Enquanto caçadores, pescadores e coletores, os homens eram nômades e andando em busca da sua alimentação faziam dos relevos da natureza, como por exemplo: grutas, cavernas, cavidades ou outros, sua proteção. Não havia a preocupação com um espaço fixo para sua habitação, e mesmo quando permaneciam mais tempo em uma determinada região continuavam utilizando os espaços naturais para seu abrigo.

A preocupação com a construção de um local mais permanente para servir de resguardo principia na medida em que a evolução do homem o leva a fazer uso da agricultura, conforme Barbosa (2005).

 

A arte de construir é uma atividade relativamente recente na história da humanidade. De fato, o homem já era capaz de fazer jóias, pinturas, artefatos de caça e pesca, quando há cerca de 10 mil anos, com o advento da agricultura, sentiu necessidade de construir suas moradas para aguardar as colheitas. A partir daí foram surgindo as primeiras aglomerações humanas que deram origem às cidades (BARBOSA, 2005, p. 1).

 

O que se percebe é que a partir desse momento o homem deixa de ser um errante e passa a firmar raízes em locais escolhidos, por ele mesmo. E além da necessidade de construir habitações para aguardar a colheita também surge a indispensabilidade da guarda do excedente da produção agrícola, criando assim a obrigatoriedade da construção de outro espaço, um espaço para o armazenamento desse produto.

Para essas construções os materiais utilizados eram os encontrados na própria natureza como, por exemplo: a terra, pedras, galhos e troncos de árvores. Tais artefatos eram utilizados em suas formas originais ou com formatos modificados pelo próprio homem, que já era conhecedor de alguns utensílios ou os criou na medida de suas necessidades, conforme destaca Engels:

 

Resumindo: só o que podem fazer os animais é utilizar a natureza e modificá-la pelo mero fato de sua presença nela. O homem, ao contrário, modifica a natureza e a obriga a servir-lhe, domina-a. E aí está, em última análise, a diferença essencial entre o homem e os demais animais, diferença que, mais uma vez, resulta do trabalho (ENGELS, 1876, p. 22). 

 

Dessa maneira a construção, ofertando o abrigo e a segurança necessários, passa a fazer parte, juntamente com a natureza, das necessidades básicas do homem resultado de seu trabalho e necessidade de domínio.

 

CONSTRUÇÃO CIVIL E SUA CAMINHADA EVOLUTIVA

 Refletir sobre a história da construção civil, nos obriga a pensar como mencionamos anteriormente, que os primeiros abrigos construídos pelo trabalho humano utilizavam materiais encontrados na própria natureza, começando com amontoados de pedras com galhos e palha como cobertura. Com o processo histórico de transformação do homem e o desenvolvimento de ferramentas e utensílios que essa transformação trouxe, as construções também sofreram mudanças e de toscas cabanas passaram a grandes obras sempre com os materiais brutos, Barbosa (2005) nos mostra que:

 

Com esses materiais o Homem foi capaz de produzir belíssimas obras de engenharia, como são testemunhos as magníficas pirâmides do Egito, os palácios da Pérsia e da Babilônia, as imensas catedrais, castelos e mosteiros medievais e tantos outros monumentos fantásticos erguidos pelas civilizações da história antiga da humanidade. Ainda hoje se pode ver obras construídas pelos romanos que desafiam não as décadas nem aos séculos, senão aos próprios milênios, feitas numa época em que não se conhecia o aço nem o alumínio, nem tão pouco o cimento Portland (BARBOSA, 2005, p. 1). 

 

A construção transformou-se, as obras cresceram e ficaram lindas e suntuosas, como o autor menciona, mesmo com o uso somente de materiais naturais. Com isso o homem já não modificava a natureza somente com sua presença, mas transformava a paisagem de diversos locais, em alguns com a retirada de material e em outros com as construções que, muitas destas, persistem até nossos dias.

Quando pensamos em descobertas tecnológicas é possível vislumbrar que o homem também transformou-se neste sentido, desenvolveu novos conhecimentos, novas ciências e conseguiu modificar não mais só a forma dos materiais encontrados na natureza, como também, sua estrutura molecular, criando novos materiais que foram sendo incorporados as construções, dentre eles podemos citar o aço, o alumínio, o vidro, mas sobretudo o cimento Portland, que hoje, segundo o Sindicato Nacional da Indústria do Cimento (SNIC) “O produto é o componente básico do concreto, que é hoje o segundo material mais utilizado pelo homem, ficando somente atrás do elemento água” (SNIC, 2003, p. 1).

 

O cimento Portland foi criado por um construtor inglês, Joseph Aspdin, que o patenteou em 1824. Nessa época, era comum na Inglaterra construir com pedra de Portland, uma ilha situada no sul desse país. Como o resultado da invenção de Aspdin se assemelhasse na cor e na dureza a essa pedra de Portland, ele registrou esse nome em sua patente. … por isso que o cimento é chamado cimento Portland (ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE CIMENTO PORTLAND, 2002, p. 5, grifo do autor).

 

Por ser uma atividade ainda hoje muito artesanal e bastante braçal, a construção também tem a seu crédito a responsabilidade de uma execução que emprega um contingente muito grande de pessoas, e uma boa parte com baixa ou nenhuma qualificação, a não ser a oferta de sua força corporal. Com números significativos dentro do universo do trabalho, a construção civil representa “aproximadamente 7% do Produto Interno Bruto (PIB), 65% da Formação Bruta de Capital Fixo, absorve 6,5% da População Economicamente Ativa (PEA), exercendo um forte papel indutor na economia (NASCIMENTO E MACEDO-SOARES, 1996, p. 1).

As construções não se limitaram, tão somente, a representar uma fonte de trabalho abrangente ou a modificações no visual ambiental as obras e a extração de material, vieram também mais conforto, mais segurança, mais estética, mais consumo de matéria prima, mais demanda de energia, mais poluição da água, do ar e da terra, mais resíduos. Enfim, aos benefícios produzidos pelas obras, somou-se um grande contingente de problemas ambientais, o que acarreta para o planeta um estado de alerta diante das necessidades criadas pelo homem, necessidades estas cada vez mais exigentes.

Em sua trajetória o homem se distanciou da natureza, como se deixasse de também ser natural. Essa forma de perceber a natureza, até poucas décadas atrás, o colocava acima dela, conforme podemos ver nas palavras Albuquerque (2004).

 

Atribui-se a Thomas Tregold (1818), primeiro Presidente do Instituto de Engenheiros Civis, na Carta Régia de sua fundação, no século XIX em Londres, a definição, de engenharia: “engenharia é a arte de dirigir as forças de energia existentes na natureza para uso e conveniência do homem”. Observe-se que, na definição acima, não ha referência à preservação de recursos e fontes naturais de energia, pois, somente a partir de meados do século XX é que as questões ambientais, pela definição de engenharia, passaram a ser objeto de maiores preocupações pela humanidade. (ALBUQUERQUE, 2004: 1-2).

 

Naquele momento pode-se observar que o homem só via a natureza como algo a ser explorado e utilizado para sua satisfação e conveniência. A partir do século XX é que começa a se delinear uma modificação nessa forma de visão. As preocupações com a natureza, com os problemas socioambientais que surgem com as atividades humanas começam a trazer à tona a necessidade de uma nova visão e tratamento do meio ambiente, inclusive com as atividades da construção civil.

 

MEIO AMBIENTE E SUAS TRANSFORMAÇÕES

Como em diversas áreas de desenvolvimento humano, o ambiente acompanha a evolução através do fornecimento de matéria prima e outros fatores, outro sim, na construção civil não é diferente, a natureza fornece a matéria prima e em diferentes medidas diversos outros aspectos da natureza são transformados. Podemos mencionar alguns destes, como por exemplo: o visual, o aparente, a mudança de espaços naturais para espaços urbanos, de prédios e de estradas, ou referindo-se à extração da matéria prima, de espaços naturais para espaços totalmente modificados pelo homem, crateras, desertos, desmatamento, entre outros.

Aliada a esta questão contamos com outro grave problema, o aspecto lixeira, ou seja, o homem descarta tudo que considera não ter serventia para si, como a camada vegetal que protege as jazidas de matéria prima, os resíduos oriundos da industrialização, ou das próprias construções, ou ainda das reformas ou demolições.

Inclui-se aos demais, referidos anteriormente, o aspecto energético, seja pela extração e uso de combustível fóssil, que durante sua queima produz poluição, seja pela mudança de paisagem nas monumentais represas que são responsáveis pelo abastecimento das hidroelétricas que fornecem energia necessária para indústrias, bem como para construção e posterior ocupação dos prédios.

Enfim, o meio ambiente ao contribuir com os seus materiais naturais começa a sofrer uma série de agressões, e como consequência não fica inerte a estes ataques, acaba ofertando ao homem e ao próprio ambiente, respostas em forma de: inundações, mudanças climáticas, tempestades, tremores ou outras maneiras que por vezes poderão ser catastróficas. Apesar disso notamos que as preocupações com o meio ambiente a partir do desenvolvimento ditado pelo sistema vigente, o capitalismo, é caracterizado pela despreocupação com esta problemática, como se as reservas fossem infindáveis e o lixo pudesse ser disposto com tamanha displicência.

A preocupação com a problemática ambiental por parte de alguns segmentos, é recente, menos de meio século, quando na década de 1970 a crise do petróleo deixa o mundo em alvoroço. No entanto, duas décadas antes, a natureza já apresentava sinais de sufoco, com a contaminação do ar em Londres e Nova York, entre os anos 1952 e 1960. Também nesse mesmo período, evidencia-se o problema com os pesticidas matando aves e peixes em quantidade expressiva.

Tais fatos começaram a provocar os movimentos ambientalistas, que serão o marco das atividades e irão se solidificar a partir do Relatório Limites do Crescimento (Clube de Roma) e da Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente Humano (I CNUMAD) em Estocolmo, ambos em 1972. Não que antes já não houvesse preocupação internacional, com eventos como a Conferência Científica da ONU sobre a Conservação e Utilização de Recursos, em 1949, e com a Conferência sobre Biosfera, realizada em Paris, em 1968. Ao contrário, aliam-se os movimentos em prol da manutenção e da continuidade de existência das próximas gerações.

Seguiram-se a esses, diversos outros eventos que tinham como preocupação o desenvolvimento e o meio ambiente, como podemos destacar em 1987 a Comissão Mundial para o Desenvolvimento e Meio Ambiente, de onde sai o famoso Relatório Nosso Futuro Comum, atribuindo a definição utilizada até hoje sobre desenvolvimento sustentável: “A humanidade é capaz de tornar o desenvolvimento sustentável – de garantir que ele atenda as necessidades do presente sem comprometer a capacidade de as gerações futuras atenderem também às suas” (COMISSÃO MUNDIAL SOBRE MEIO AMBIENTE E DESENVOLVIMENTO, 1991, p. 9).

Outro evento de extrema importância para o estudo e propostas sobre a problemática ambiental, acontece em 1992 com a Conferência das Nações Unidas para o Desenvolvimento e Meio Ambiente (Rio 92 ou ECO 92). Além de diversos outros movimentos e um dos quais destacamos o Protocolo de Quioto em 1997, um protocolo internacional realizado para tratar sobre a redução da emissão de gases que provocam o efeito estufa.

Além de todas essas intervenções e muitas outras que houve, vale ressaltar que essas preocupações geraram a chamada educação ambiental. Os movimentos nestes últimos vinte anos foram provocativos e serviram de alavanca para um olhar e cuidado com as questões ambientais anteriores e vigentes, porém sabemos que em vista das necessidades criadas pelo homem e suas consequências, como já vimos, os problemas ambientais continuam a requerer cuidados e atenção mais eficazes. Continuamos a comprometer nossa existência a fim de satisfazer necessidades criadas.

 

EDUCAÇÃO AMBIENTAL - PRINCÍPIOS

A Conferência de Estocolmo (1972) foi responsável pela anexação da educação ambiental na agenda internacional, oportunizando que em 1975 em Belgrado surja o Programa Internacional de Educação Ambiental, finalmente em 1977 em Tbilisi a Conferência Intergovernamental sobre Educação Ambiental determina as definições, os objetivos, os princípios e as estratégias para a Educação Ambiental no mundo.

No Brasil, embora prevista na Política Nacional do Meio Ambiente (1981), a educação ambiental só é instituída efetivamente a partir da Lei nº 9.795 de 27 de abril de 1999, que institui a Política Nacional de Educação Ambiental (PNEA). No art. 1º está a definição de educação ambiental:

 

Entende-se por educação ambiental os processos por meio dos quais o indivíduo e a coletividade constroem valores sociais, conhecimentos, habilidades, atitudes e competências voltadas para a conservação do meio ambiente, bem de uso comum do povo, essencial à sadia qualidade de vida e sua sustentabilidade (BRASIL, Lei nº 9.795, 1999, art. 1º).

 

A educação ambiental, vista dessa maneira, é responsável pela reflexão, e por meio desta, provocar, alertar, exprimir para a transformação da consciência humana, através do diálogo, e do despertar o interesse para que o homem possa se dar conta de que ele é parte da natureza e que preservar esta natureza é proteger sua própria vida, portanto ele tem a obrigação de contribuir com atos e exemplos na preservação, regeneração e utilização sustentável dos recursos da natureza, para garantia de sua existência e de gerações futuras.

Jacobi (2003) nos mostra a dificuldade enfrentada pela educação ambiental dentro da complexidade da “realidade contraditória e geradora de desigualdades”, o quanto temos que avançar nas questões sociais para pensar nos aspectos ambientais:

 

O desafio é, pois, o de formular uma educação ambiental que seja crítica e inovadora, em dois níveis: formal e não formal. Assim a educação ambiental deve ser acima de tudo um ato político voltado para a transformação social. O seu enfoque deve buscar uma perspectiva holística de ação, que relaciona o homem, a natureza e o universo, tendo em conta que os recursos naturais se esgotam e que o principal responsável pela sua degradação é o homem (JACOBI, 2003, p. 196).

 

A educação ambiental é um processo de transformação social, e deve ser articulado no universo das relações sociais, sejam elas, como diz o autor, formais ou não formais. Dentro dessa complexidade (LOUREIRO, 2004, p. 70) destaca que para elucidar o “enredamento do ambiente”, a dialética é a forma “[...] que se propõe a teorizar e agir em processos conexos e integrados, vinculando matéria e pensamento, teoria e prática, corpo e mente, subjetividade e objetividade”.

É possível dizer que a educação ambiental tem o objetivo de compartilhar aprendizagem por meio de conhecimentos sobre o ambiente, na sua magnitude, na sua complexidade e na sua problemática a fim de ajudar à sua preservação, regeneração e utilização sustentável dos seus recursos, além de incorporar uma forte proposta de construção de sociedades sustentáveis, através do despertar da consciência que tenta superar a visão antropocêntrica e procura fazer o sujeito compreender e assumir que ele é parte do meio ambiente e de que não pode estar indiferente ao mundo que o cerca e no qual vive.

 

CONTRADIÇÕES E A CONSTRUÇÃO CIVIL

No transcorrer de nossa escrita de certa maneira já viemos falando, ao longo do texto, das contradições que se originam entre a construção civil e o meio ambiente. A partir de agora passaremos a explicitar um pouco mais sobre esse paradoxo que se origina na construção civil e suas necessidades de realização abrigado no seio da outra, o meio ambiente, além de falar um pouco sobre a maneira que este responde ao homem.

 

Reconhecidamente, o setor da construção civil tem papel fundamental para a realização dos objetivos globais do desenvolvimento sustentável. O Conselho Internacional da Construção – CIB aponta a indústria da construção como o setor de atividades humanas que mais consome recursos naturais e utiliza energia de forma intensiva, gerando consideráveis impactos ambientais. Além dos impactos relacionados ao consumo de matéria e energia, há aqueles associados à geração de resíduos sólidos, líquidos e gasosos. Estima-se que mais de 50% dos resíduos sólidos gerados pelo conjunto das atividades humanas sejam provenientes da construção. Tais aspectos ambientais, somados à qualidade de vida que o ambiente construído proporciona, sintetizam as relações entre construção e meio ambiente (PORTAL MMA, texto digital).

 

Podemos ressaltar que a primeira e mais gritante, contradição, é realmente o aspecto visual, que se por um lado nos apresenta belas construções, verdadeiras obras de arte, por outro apresenta a devastação, o desmatamento e a desertificação pela extração desenfreada da matéria prima, que segundo Mendes (2013), internacionalmente entre 40% a 75% dos recursos naturais são consumidos pela construção civil.

Às modificações nos aspectos do ambiente vieram a se somar ao consumo inevitável de energia em diversas etapas do processo para realização das atividades da indústria da construção civil. A começar pela energia necessária para extração e transporte de matéria prima até as plantas industriais, onde a energia para a transformação desse material em outros produtos, que ocorre normalmente através do processo de queima, em fornos que não podem apagar nunca, muitas vezes utilizando combustíveis fósseis que em consequência se traduzem em poluição do ar, da água e da terra.

O consumo de energia continua na execução das obras, com maquinários e transporte e segue posteriormente no uso dos prédios, hoje cada vez mais automatizados, iluminados e climatizados a base de aparelhos consumidores. Ceotto (2008) nos apresenta números extraordinários no que se refere a energia, como: no mundo, 40% da energia produzida é utilizada na operação dos edifícios e no Brasil essa operação consome 50% da energia elétrica e 20% do total de energia produzida.

Em efeito cascata, se junta a estes problemas a produção de resíduos, que começa na extração do material, continua na indústria e também na construção, reforma ou demolição e que, como mencionamos anteriormente passa dos 50% do total de resíduos de todas as atividades humanas.

Embora no Brasil exista uma legislação para o descarte desse material, porém por falta de fiscalização muitas vezes são destinados de maneira incorreta suscitando problemas nas beiras dos rios com inundações e também o descarte em terrenos de periferia, adquiridos por baixos valores para servir de descarte dos resíduos da construção civil (RCC).

Esses resíduos colocados em locais inadequados como os terrenos de periferia, por exemplo, são responsáveis pela acumulação de insetos, ratazanas e outros animais propagadores de doenças graves. Considere-se que esses espaços geralmente estão cercados pela vizinhança de uma população mais carente, que vem a sofrer diretamente com doenças. Por outro lado, também os descartes em beira de riachos e arroios acabam por impedir o livre fluxo da água ocasionando alagamentos, inundações que atingem também a população ribeirinha, normalmente também pessoas mais carentes.

Relacionando os dois aspectos, construção civil e ambiente com o fator trabalho, é possível observar um número expressivo de ofertas de emprego na área e em certa medida acolhe pessoas com qualificação deficitária ou mesmo sem qualificação alguma. Os fatores qualificação e escolaridade também vêm a ser um problema ambiental, pois essas pessoas carecem de uma consciência ecológica, de uma educabilidade ambiental, ocasionando dessa forma, por ignorância, a falta de conhecimento sobre aspectos que deveriam ser considerados para a manutenção do ambiente de maneira sustentável. Muito embora se saiba que pessoas com níveis de escolaridade mais elevados e melhores condições financeiras, por vezes, desconhecem ou mesmo ignoram questões essenciais para a manutenção e proteção do meio ambiente.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Considerando que os animais de modo geral, incluindo o homem, em seu processo de humanização, traz em si a necessidade de alimentação e segurança para manutenção de sua integridade física e garantia de continuidade da espécie, outorgou um novo aspecto para essas necessidades fazendo com que o ciclo normal da vida fosse transformado juntamente com o seu desenvolvimento. Hoje foram agregados muitos outros aspectos aos básicos e indispensáveis a sobrevivência e com eles modificações na natureza.

No que diz respeito ao abrigo, somaram-se segurança, mobilidade, estética e muitos outros fatores originados com o desenvolvimento do próprio homem, de suas tecnologias e interesses. A construção civil, responsável por boa parte desse crescimento, produz campos de trabalho, conforto, facilidades, mobilidade, bem-estar, segurança, estética e outras tantas coisas agradáveis, por outro lado, passou a ser um dos vilões contra a natureza, com devastação, poluição, consumo de matéria prima e de energia, acúmulo de resíduos, produzindo doenças e desastres diversos.

Enquanto o meio ambiente, dessa forma, passou a ser o fornecedor de matéria prima e a grande lixeira. O ambiente está sendo devastado e modificado, hora com a extração desenfreada de materiais, hora com a modificação visual ou por obras gigantescas que se impõe sobre a paisagem ou por descomunal volume de descarte do material que o homem entende não mais servir para seu uso.

Em meio a essas diferenças de interesses é possível pensar em um caminho para a minimização da contraposição entre o desenvolvimento e a natureza. Esse caminho passa pela possibilidade de reflexão com o intuito de alcançar uma nova consciência, além da possibilidade de transformação ancorada na educação. Com base em uma educação ambiental, em seus princípios, necessidades e questões norteadoras para a melhoria da qualidade de vida e o ambiente que se quer preservar. Essa educação ambiental aparece na forma de compreensão e da conscientização de que somos natureza e dela fazemos parte e dependemos, de maneira que precisamos respeitá-la, cuidá-la para a nossa própria sobrevivência, para garantia de continuidade das gerações futuras.

As contradições entre o querer do homem e o resultado disso para a natureza são inúmeras, conforme foi descrito e evidenciado ao longo deste artigo. As soluções para questões de tamanho porte passam forçosamente pela educação ambiental. As leis para que a educação ambiental esteja em todas as formas e níveis de educação também existem. No entanto, encontramos profissionais de diversas áreas, especialmente nesse caso, da construção civil, sem o mínimo de conscientização e preocupação com o ambiente.

Podemos afirmar diante das discussões aqui apresentadas que se faz urgente a cobrança com maior severidade das leis da educação ambiental, que esta seja inserida em todos os tipos de ensino de maneira eficaz, ou seja, que traga resultados. Envolvendo os mais diversos profissionais da área, desde os engenheiros e arquitetos até os menos qualificados como o peão de obra.  Que todos passem por uma reciclagem que lhes possibilite compreensão e consciência de que são partes da natureza, de que dela sobrevivem hoje e dela devem sobreviver as futuras gerações e o Planeta. 

 

REFERÊNCIAS

 

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE CIMENTO PORTLAND. Guia básico de utilização do cimento Portland. 7.ed. São Paulo, 2002. 28 p.

 

BARBOSA, Normando Perazzo. Considerações sobre materiais de construção convencionais e não convencionais. João Pessoa: Publicação do Laboratório de Ensaios de Materiais e Estruturas do Centro de Tecnologia da UFPB, 2005. Disponível em: <http://www.ebah.com.br/content/ABAAAAX70AA/materiais-construcao-nao-convencionais>. Acesso em: 21 ago. 2016.

 

BRASIL. Lei nº 9.795, de 27 de abril de 1999.  Dispõe sobre a educação ambiental, institui a Política Nacional de Educação Ambiental (PNEA) e dá outras providências. Diário Oficial [da] República Federativa do Brasil, 1999.

 

CEOTTO, Luiz Henrique. A Construção Civil e o Meio ambiente: 1ª parte; 2ª parte; 3ª parte. Notícias da Construção, Ed. 51 a 53, São Paulo, SP, 2008. Disponível em: <http://www.sindusconsp.com.br/secoes.asp?subcateg=74&categ=16>. Acesso em: 22 set. 2016.

 

COMISSÃO MUNDIAL SOBRE MEIO AMBIENTE E DESENVOLVIMENTO. Nosso futuro comum. 2ª ed. Rio de Janeiro: Editora da Fundação Getúlio Vargas, 1991.

 

ENGELS, Friedrich. Sobre o papel do trabalho na transformação do macaco em homem. 1876, p. 1-33. E-book. Disponível em: <www.ebooksbrasil.org/adobeebook/macaco.pdf>. Acesso em: 20 ago. 2015.

 

JACOBI, Pedro. Educação ambiental, cidadania e sustentabilidade. Cadernos de Pesquisa, n. 118, p. 189-205, mar/2003.

 

LOUREIRO, Carlos Frederico Bernardo. Educação ambiental transformadora. In: LAYRARGUES, Philippe Pomier (Coord.). Identidades da educação ambiental brasileira. Brasília: Ministério do Meio Ambiente, 2004. p. 65-84.

 

MENDES, Henrique. A construção civil e seu impacto no meio ambiente. Portal do meio ambiente, 2013. Disponível em < http://portal.rebia.org.br/meio-ambiente-urbano/6877-a-construcao-civil-e-seu-impacto-no-meio-ambiente> acesso em 13 set. 2016.

 

NASCIMENTO, Adriana Maria de Sá; MACEDO-SOARES, T.; DIANA, LVA de. A competitividade no setor de construção. ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUÇÃO (XVI: 1996: Piracicaba). Anais. Piracicaba, SP: UNIMEP/ABEPRO, 1996.

 

Portal do Ministério do Meio Ambiente (MMA). Disponível em: <http://www.mma.gov.br/cidades-sustentaveis/urbanismo-sustentavel/constru%C3%A7%C3%A3o-sustent%C3%A1vel>. Acesso em: 30 set. 2016.

 

SINDICATO NACIONAL DA INDÚSTRIA DO CIMENTO. SNIC 50 anos: História do cimento no Brasil. Rio de janeiro: SNIC, 2003.

 



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