ISSN 1678-0701
Número 66, Ano XVII.
Dezembro/2018-Fevereiro/2019.
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04/12/2018SABIA QUE A ÁGUA TAMBÉM SE PLANTA? ERNST GOTSCH, CRIADOR DA AGRICULTURA SINTRÓPICA, ESTEVE EM MÉRTOLA  
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SABIA QUE A ÁGUA TAMBÉM SE PLANTA? ERNST GOTSCH, CRIADOR DA AGRICULTURA SINTRÓPICA, ESTEVE EM MÉRTOLA

De

 Susana Helena De Sousa

Ernst Gotsch, agricultor e pesquisador suíço, refere que a agricultura sintrópica é antes de mais uma abordagem de princípios filosóficos que se baseiam no amor incondicional e na cooperação entre as espécies

O Jornal do Baixo Guadiana está desde as Jornadas do Mundo Rural em Mértola  a acompanhar a chegada ao Baixo Guadiana de uma visão diferente sobre a natureza. Trata-se da «Agricultura Sintrópica». O seu mentor, o agricultor e pesquisador suíço Ernst Gotsch, deu uma conferência (15 e 16 de Novembro) em terras alentejanas onde explicou como criou no Brasil uma floresta de 487 hectares onde a aridez deu lugar à vida. O local que antes era chamado de «Fugidos da Terra Seca» passou a chamar-se «Fazenda Olhos d’Água». E não por acaso…

Depois de uma primeira abordagem ao tema realizada nas Jornadas do Mundo Rural de Mértola – testemunhando realidades, dificuldades, boas práticas e os novos paradigmas que estão a surgir no território – o Cineteatro Marques Duque, em Mértola, acolheu a prometida e muito aguardada conferência sobre Agricultura Sintrópica [confira programa aqui], que contou com a presença do guru Ernst Götsch, mentor deste sistema de cultivo agroflorestal baseado na sintropia que associa ao objetivo do estabelecimento de áreas altamente produtivas os objetivos do reforço da oferta de serviços ao ecossistema, com especial destaque para a formação de solo, a regulação do micro-clima e o favorecimento do ciclo da água.

Este agricultor, que no Brasil já recuperou, no total, cerca de 800 hectares de floresta atlântica veio ao Baixo Guadiana no âmbito da «Agenda Gotsch» – que, por sua vez, se propõe ensaiar um conjunto de experiências de agricultura sintrópica em contexto mediterrânico, por forma a testar a adaptabilidade do modelo e o seu contributo para a regeneração de áreas agrícolas de baixa produtividade e de elevada vulnerabilidade a problemas de erosão de solos, fraca precipitação, alterações climáticas e risco de desertificação. Um dos locais de experimentação desta prática agroecológica será o território de Mértola, que se associa a outras experiências-piloto a decorrer já em Portugal (Herdade do Freixo do Meio, Montemor-o-Novo), Espanha e França”.

Floresta estratificada é o segredo combater desertificação

O tema da irrigação foi um dos que mais curiosidade, e também surpresa, colheu junto da plateia que encheu o cineteatro Marques Duque, na vila-museu alentejana que ainda se inclui no denominado Baixo Guadiana. As reações da assistência não foram para menos uma vez que Ernst Gotsch explicou o processo que desenvolveu em sistema de agrofloresta e que permite reverter zonas áridas ou semiáridas em locais verdes onde a água surge naturalmente. Aliás, essa foi a sua grande experiência desenvolvida no Brasil e que lhe valeu um reconhecimento e curiosidade a nível mundial [veja um dos vídeos sobre a visão azul deste suíço aqui].

Em Mértola Ernst G. principiou por enquadrar a sua visão no campo da filosofia. Afirma que a “agricultura sintrópica não são fórmulas de cultivo, são princípios filosóficos que se baseiam no amor incondicional e na cooperação entre as espécies, nós incluídos”, de modo a tornar mais clarividente todo o seu percurso. A  agricultura sintrópica é uma forma de produzir utilizando os princípios gerados pela natureza. O diálogo entre os factos/ fenómenos naturais e o Homem são constantes neste processo que nos apresenta uma floresta estratificada, sendo um conhecimento que dá resposta a muitos dos problemas vividos em Portugal, como são exemplo disso os incêndios florestais e a intensa desertificação dos solos. “Repensar contra o fogo não é matar árvores, mas sim plantar e proteger. Não se poda em Maio, mas sim quando vem água que gera fungo e que come as bactérias e poda-se novamente antes da última chuva “, alertou Ernst G. em resposta a uma pergunta vinda da plateia. “Para combater os incêndios não se arrancam eucaliptos, mas sim planta-se ao lado semente de árvores, e promove-se o controlo de natalidade. Os eucaliptos são muito generosos porque permitem geração de muitas plantas. E depois não nos podemos esquecer que é preciso aproveitar a matéria orgânica de poda”, sublinhou, afirmando que “o nosso caminho na existência é o da contribuição e não o da exploração”.

Garantindo que “o sonho do sonho do ecossistema é o Mediterrâneo” Ernst Gotsch afirma peremtório que é preciso mudar de paradigma e parar de explorar o solo e competir com ele.

Água também se planta

A falta de água é um dos problemas com que nos debatemos no Baixo Guadiana. O segredo, contou Ernst G., é plantar a própria água. Como? Criando uma floresta estratificada em que a floresta se mistura com a agricultura e o solo protegido pela sombra das árvores maiores permite o crescimento das diversas espécies, havendo, inclusivamente, a regeneração dos solos, que se tornam mais húmidos, bem como se promove a absorção de água da atmosfera. Nesta agricultura desenvolvida por Ernst Gotsch não há lugar para adubos externos, muito menos químicos, a terra é adubada pela matéria orgânica criada no próprio terreno através, nomeadamente da poda que é feita, num respeito total pela natureza.

Ouvir a natureza é essencial neste processo tão complexo quanto natural. Questionado em Mértola se os animais e as plantas conseguem elas próprias dar uma previsão de chuvas, Ernst G. não tem dúvidas em afirmar que sim e que “sabem mais que os nossos cientistas”. Foram vários os exemplos que o agricultor deu neste campo, nomeadamente uma em que contou que a não procriação do macaco deveu-se à fraca cultura de cacoeiro, tendo havido da parte destes seres-vivos uma previsão meteorológica que se veio verificar numa época de chuva que se registou com fraca intensidade. “Eles sabiam que ia ser fraca a produção de cacoeiro, eles previram. Confesso que eu demorei 20 anos a perceber essa relação”, confessou este homem que tem milhares de admiradores pelo mundo. Uma admiração que em Mértola foi notada pela adesão à conferência, sendo de realçar que a plateia preencheu-se de pessoas maioritariamente jovens, denunciando um certo ceticismo por parte dos agricultores mais séniores.

Quanto à convergência entre floresta, agricultura e pastoreio Ernst G. não tem dúvida que em causa não está a criação de animais, mas sim as técnicas utilizadas. “Há que dar rotatividade dos animais nos terrenos, há que manter a sua alimentação natural que muitas vezes é devastada pelo homem”, antecipou, alertando que há que repensar, nomeadamente redimensionar, a criação dos animais de grande porte no ecossistema.

Autarcas acreditam que sintropia vem trazer «dignificação» ao mundo rural

Presidente da Câmara Municipal de Mértola, com equipa Life in Syntropy, valorizou esta abordagem como plataforma para revitalização do mundo rural

Para o executivo municipal de Mértola, presidido por Jorge Rosa, a agricultura sintrópica assume-se como uma prática que consiste numa dignificação do mundo rural e que vive da  inquietação local. Os autarcas de Mértola estão convictos que tal é possível “aqui neste território de Interior e periférico”.

Esta conferencia sobre agricultura sintrópica resultou de uma organização conjunta da Life in Syntropy, da Agenda Ernst Götsch, da Associação de Empresários do Vale do Guadiana e da Câmara Municipal de Mértola.

Fonte: encurtador.com.br/qAP38

https://www.jornaldobaixoguadiana.pt







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