ISSN 1678-0701
Número 61, Ano XVI.
Setembro-Novembro/2017.
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11/09/2017MODELO ENERGÉTICO E DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL: O USO DE ENERGIAS RENOVÁVEIS EM CABO VERDE  
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MODELO ENERGÉTICO E DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL: O USO DE ENERGIAS RENOVÁVEIS EM CABO VERDE

 

 

Plínio Nogueira Maciel Filho (plinio@unilab.edu.br);

Servidor Público Federal no Cargo Engenheiro Civil da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira – UNILAB. Graduado em Engenharia Civil (UNIFOR), Especialista em Engenharia de Segurança do Trabalho (UNIFOR); Mestrando em Sociobiodiversidade e Tecnologias Sustentáveis (UNILAB).

 

Antônio Roberto Xavier (roberto@unilab.edu.br);

Professor Permanente do Mestrado Acadêmico em Sociobiodiversidade e Tecnologias Sustentáveis (MASTS) da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro­Brasileira (UNILAB); Doutor (UFC) e Pós-Doutor (UFPB) em Educação.

 

Juan Carlos Alvarado Alcócer (jcalcocer@unilab.edu.br);

Professor Permanente do Mestrado Acadêmico em Sociobiodiversidade e Tecnologias Sustentáveis (MASTS) da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro­Brasileira (UNILAB); Doutor em Engenharia Elétrica (UNICAMP).

                            

 

RESUMO

 

O presente estudo busca analisar o modelo de produção e consumo energético em Cabo Verde, país da África ocidental, bem como suas limitações para o crescimento e desenvolvimento do país, apontando as inestimáveis reservas naturais renováveis pouco exploradas na região como solução alternativa para o desenvolvimento sustentável da região.

 

Palavras-chave: Energias renováveis. Energia eólica. Energia solar. Cabo Verde. Sustainable.

 

ABSTRACT

 

The present study seeks to analyze the model of energy production and consumption in Cape Verde, a West African country, and its limitations for the country's growth and development, pointing out the invaluable renewable natural resources little explored in the region as an alternative solution for the sustainable development of region.

 

Keywords: Renewable energy. Wind energy. Solar energy. Cape Verde. Sustainable.

 

INTRODUÇÃO

 

Localizado na sub-região da África ocidental, Cabo Verde é um arquipélago de dez ilhas, das quais nove são habitadas. Tornou-se independente de Portugal em 1975, entretanto, ainda sob grande influência e dependência de capital externo, principalmente dos países da Zona do Euro, Cabo Verde é um país com grande vulnerabilidade econômica, característica que impacta diretamente diversos setores estruturais e financeiros.

Tratando-se do setor energético, Cabo Verde enfrenta problemas especialmente relacionados ao fornecimento de energia elétrica, devido ao isolamento, à indisponibilidade de fontes convencionais e à reduzida dimensão de seu território e de seu mercado energético.

O parque produtor de energia de Cabo Verde é majoritariamente sustentado por centrais termoelétricas alimentadas por combustíveis fósseis, e a elevada necessidade desses combustíveis é uma das principais dificuldades conhecidas no atual modelo energético do país.

Outra dificuldade refere-se ao preço dos combustíveis, que constitui um peso significativo, representando cerca de 70% da estrutura de custos da produção de energia, notadamente refletindo-se nos demais campos da economia (MONTEIRO, 2012).

Aliadas a isso, as constantes oscilações do valor dos combustíveis no comércio internacional e a forte dependência dos instáveis mercados petrolíferos externos tornam a segurança energética do país muito fragilizada (MECC, 2008).

Em Cabo Verde, o abastecimento de energia exerce uma pressão considerável sobre a estabilidade macroeconômica e sobre os recursos ambientais. Incorporada a essa influência, a região possui escassez de água potável. O país é dependente da água dessalinizada, que, por sua vez, exige um custo energético intenso. A produção desse tipo de água está diretamente ligada à produção de energia elétrica e consome cerca de 10% da energia elétrica produzida em Cabo Verde (MECC, 2008).

Outrossim, a pulverização de seu espaço territorial em ilhas e a distância entre elas resultam em gastos elevados ao fluxo de pessoas, mercadorias e insumos, haja vista que os acessos a essas regiões são basicamente por via marítima ou aérea. Ainda, Cabo Verde não é beneficiado por uma economia de escala, tendo em vista a necessidade de replicar as mesmas soluções de infraestrutura para cada ilha habitável (MECC, 2008).

Ante essa realidade, o governo de Cabo Verde, os gestores públicos nas mais variadas esferas e a sociedade de maneira geral são agentes de mudanças importantes na política energética do país e devem estabelecer como prioridade estratégias para a implementação e desenvolvimento de ações e políticas públicas de incentivo e uso de energias renováveis. Dessa forma, busca-se elevar a segurança energética do país e consequentemente minimizar a dependência externa de combustíveis fósseis.

Dito isso, este trabalho busca analisar os desafios e oportunidades pertinentes ao aproveitamento de energias renováveis para a sustentabilidade energética de Cabo Verde, relacionando o modelo de produção energética, o consumo da região e as suas limitações para o crescimento e desenvolvimento do país, apontando as inestimáveis reservas naturais renováveis pouco exploradas na região como solução alternativa para o desenvolvimento econômico do país.

 

PERFIL FISIOGRÁFICO DE CABO VERDE

 

Caracterizando-se geograficamente a região do arquipélago de Cabo Verde e suas características e vocações econômicas, é possível contextualizar a importância estratégica do setor energético desse país, por essa razão são abordados neste trabalho seus limites geográficos, suas características climáticas, seu setor econômico, a influência de seu turismo na composição do Produto Interno Bruto (PIB) e seu setor energético.

Cabo Verde compõe-se de um conjunto de dez ilhas situadas ao longo da costa do Sudoeste da Europa e Nordeste da África, com uma superfície total de 4.033 km2 e posicionada a 450 km da Costa Senegalesa, entre os 14º48’ e 17º12’ de latitude Norte e 22º41’ e 25º22’ de longitude Oeste, conforme ilustrado no mapa da Figura 1 (NAÇÕES UNIDAS, 2015).

As ilhas montanhosas mais elevadas atingem os 2.829 metros, como no vulcão da ilha do Fogo; 1.978 metros, no Topo da Coroa, na Ilha de Santo Antão; e 1.394 metros, no Pico de Antónia, em Santiago. As ilhas Sal, Boa Vista e Maio, com relevo plano, possuem altitudes não superiores a 500 metros (INE, 2015a; NAÇÕES UNIDAS, 2015).

Devido à sua situação geográfica, Cabo Verde integra o grupo dos países do Sahel[1] e por isso apresenta um clima árido e semiárido, quente e seco, com escassa pluviometria e uma temperatura média anual de 25ºC. A época das chuvas situa-se normalmente entre julho e outubro, muitas vezes com alguma irregularidade e períodos consideráveis entre uma chuva e outra (INE, 2015a; NAÇÕES UNIDAS, 2015).

 

Figura 1: Mapa do hemisfério centrado em Cabo Verde, com uma projeção ortográfica, criado usando gringer’s Perl script with Natural Earth Data. Cabo Verde é destaque, em verde.

 

File:CPV orthographic NaturalEarth.svg

Fonte: Gringer (2010).

 

 

 

A ECONOMIA DE CABO VERDE E A IMPORTÂNCIA DO TURISMO

 

País dependente das importações, incluindo dos produtos petrolíferos, Cabo Verde tem desenvolvido sua agricultura essencialmente para consumo interno, apesar dos efeitos da seca. A exploração dos recursos marinhos constitui também um componente relevante na economia cabo-verdiana. O setor de serviços constitui maior representatividade do PIB, seguido da agricultura, da indústria e da energia (NAÇÕES UNIDAS, 2015)

O documento Estratégia nacional para energias domésticas em Cabo Verde, produzido pelo Ministério da Economia, Crescimento e Competitividade (MECC), de 2005, afirma que a balança comercial do país é caracterizada por um déficit crônico, condicionado essencialmente pela pesada dependência da importação de bens de consumo e de investimentos e pela fraca base de exportação.

Conforme dados extraídos do The World Bank (2015), que reforçam a afirmação anterior, Cabo Verde é um país com uma população de 513.000 pessoas, um PIB de aproximadamente 1.87 bilhões de dólares e classificação de país de renda média-baixa. O alto grau de comprometimento financeiro tem consequência em constantes déficits, e a dívida pública, que atualmente está em 114% do PIB, tem uma previsão de 120% em 2017 (The World Bank, 2015).

Ainda, os dados do The World Bank (2015) apontam que somente 10% dos territórios de Cabo Verde estão classificados como terras cultiváveis e que o país dispõe de limitados recursos minerais. O clima árido do tipo tropical seco com influência oceânica, o baixo índice pluviométrico e seus terrenos montanhosos de origem vulcânica são características que reduzem o potencial da agricultura e da pecuária na região.

Conforme já relatado, a maior contribuição na formação do PIB advém do setor de serviços, cerca de 66%, com destaque para o desenvolvimento do turismo, assumindo nos últimos anos um papel importante na economia, com efeitos macroeconômicos importantes, e contribuindo com cerca de 41,6% do valor agregado bruto dos serviços e 10,1% do PIB. Esses resultados representam um dos principais eixos de desenvolvimento econômico do país (MECC, 2005).

O Instituto Nacional de Estatística de Cabo Verde (INE), no documento Estatísticas do turismo – Movimentação de hóspedes 1º trimestre – 2015, considera que o setor turístico compõe um dos âmbitos com maior dinâmica no crescimento econômico e social, contribuindo consideravelmente para a entrada de divisas, bem como para a promoção do emprego. Ainda, o setor turístico representa um dos principais eixos de desenvolvimento econômico sustentado, com efeitos macroeconômicos importantes, sobretudo na formação do PIB de Cabo Verde (INE, 2015b).

Dos três setores de atividade econômica, o setor terciário tem apresentado a maior taxa de empregabilidade, com média em torno dos 61% entre os anos de 2012 e 2014. Em 2014, esse setor apresentou uma taxa de empregabilidade de 65,5%, mais 5,1 pontos percentuais do que em 2013. Enquanto isso, no setor primário, a taxa de empregabilidade tem diminuído, passando de 23% em 2013 para 16,7% em 2014, uma redução de -6,3 pontos percentuais, conforme o Anuário Estatístico (INE, 2015a).

Entre 2003 e 2008, o setor do turismo de Cabo Verde foi o principal motor de crescimento do país, o qual tem contribuído largamente para a redução significativa do índice de pobreza, que baixou de 37% para 27%, e de pobreza extrema, que reduziu de 21% para 12% (The World Bank, 2015).

Para ilustrar, o Gráfico 1 mostra a curva de crescimento em número de hóspedes nos estabelecimentos hoteleiros de Cabo Verde, apontando um acréscimo ascendente significativo entre 2010 e 2012, chegando ao marco de 533.877 hóspedes no último ano levantado pelo INE. Vê-se um crescimento em uma década de mais de 160%, comparando os anos de 2000 a 2010; entre os anos de 2010 e 2012, esse acréscimo foi de aproximadamente 39%.

 

Gráfico 1: Número de hóspedes nos estabelecimentos hoteleiros nos anos de 2000 a 2012

graficomod.jpg

 

 

Fonte: INE (2015b).

 

Dados mais recentes apontam que o número de hóspedes no ano de 2014 atingiu a quantia de 539.621, correspondendo a um aumento de 41,3% quando comparado com o ano de 2010 (INE, 2015b).

O PIB turístico cresceu, entre 2011 e 2014, 17,9%, valor superior ao do crescimento do PIB total (5,1%). Diante disso, vale ressaltar que o turismo tem uma contribuição evidente para o crescimento da economia nacional (INE, 2015b).

A contribuição do turismo no PIB do país aumentou de 18,71% em 2011 para 20,97% em 2014, com um pico de contribuição de 21,91% referente ao ano de 2013, demonstrando ser, sem dúvida, um setor importante para o país. Pode-se citar ainda o fato de o turismo contribuir com cerca de 20,1% dos postos de trabalho total do país em 2013 (INE, 2015a).

Para incrementar o potencial econômico e consolidar o setor de turismo no país, é condição primordial a ação estratégica nos campos da infraestrutura hoteleira, rodovias, abastecimento de água, transportes, aeroportos, comunicações e setores de energia elétrica.

Quanto a essas ações estratégicas, compromissos assumidos pelo Grupo Banco Mundial (GBM) em Cabo Verde, remontam a um total de 78,5 milhões de dólares, dos quais 13,35 milhões ainda a ser desembolsados. O atual portfólio é composto por três projetos ativos, incluindo um projeto regional e um projeto do Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento (Bird). Esses projetos incidem na reforma dos setores de transportes, de eletricidade (Bird) e da indústria de pesca através do Programa Regional de Pesca da África Ocidental (The World Bank, 2015).

Conforme descreve o The World Bank (2015), os principais doadores bilaterais de Cabo Verde são China, Luxemburgo, Portugal, Espanha e Estados Unidos. Os principais parceiros multilaterais são União Europeia, Banco Africano de Desenvolvimento, Nações Unidas, The World Bank e Fundo Monetário Internacional. Recebendo também alguns apoios menores do Japão, Kuwait, Arábia Saudita e Angola. Cabo Verde também está reforçando a cooperação Sul-Sul, especialmente com Brasil e China, buscando a melhor oportunidade, devido à sua privilegiada situação, para o comércio transatlântico.

 

O SETOR ENERGÉTICO DE CABO VERDE

 

Cabo Verde é um país dependente de combustível fóssil importado, que, além de poluente, é caro e sensível às flutuações do mercado internacional e cujo transporte entre ilhas pode tornar-se um desafio logístico. O fornecimento de energia não tem sido estável, estando os habitantes das ilhas acostumados a enfrentar cortes regulares no fornecimento de energia.

Essa elevada dependência é uma das principais dificuldades sentidas no atual sistema energético de Cabo Verde. O preço dos combustíveis constitui um peso significativo, representando cerca de 70% da estrutura de custos do valor da energia elétrica (MONTEIRO, 2012).

Segundo aponta o estudo contratado pela Direção Geral de Energia de Cabo Verde do MECC, produzido pela empresa consultora Gesto Energia S.A., o atual sistema produtor de energia elétrica registra uma instabilidade considerável no que se refere à garantia de fornecimento de energia às populações, causada essencialmente pela ocorrência de falhas e avarias nos grupos geradores, bem como pela ocorrência de defeitos nas redes de transporte e distribuições (GESTO, 2011).

O documento Estratégia nacional para energias domésticas em Cabo Verde, de autoria do MECC (2005), expõe que o abastecimento de combustíveis petrolíferos é garantido por duas empresas: a Shell Cabo Verde e a Enacol. Essas empresas exercem, mediante convenções estabelecidas, as atividades de importação, armazenamento, distribuição e venda de derivados do petróleo.

Nas convenções celebradas, o governo se compromete a não permitir a entrada de novos concorrentes por períodos de 10 anos, com possibilidade de renovação, sendo as duas empresas obrigadas a garantir o abastecimento por todo o território nacional (MECC, 2005).

O parque eletroprodutor de Cabo Verde é caracterizado prioritariamente por centrais termoelétricas alimentadas por combustíveis fósseis; conforme dito anteriormente, a economia energética cabo-verdiana é caracterizada por uma total dependência em relação à importação de combustíveis petrolíferos destinados às necessidades dos transportes, da indústria e de um terço dos habitantes. Quanto aos restantes dois terços da população, o combustível é fornecido pela destruição gradual da escassa vegetação selvagem (MECC, 2008).

Graças a um intenso programa de eletrificação de zonas semiurbanas e rurais, o consumo no mercado interno vem registrando uma evolução significativa. Como principais responsáveis por esse crescimento estão os setores de transportes terrestres e de produção de eletricidade, que registram uma acentuada aceleração (MECC, 2005).

Em 2009, grande parcela da eletricidade (mais de 95%) foi produzida a partir de combustíveis fósseis, e o aumento do preço do petróleo representou uma elevação significativa dos custos da concessionária do setor. Esse aumento do petróleo refletiu em acréscimo nos custos da geração de energia elétrica.

A Agência de Regulação Econômica (ARE) aumentou cerca de 30% as tarifas de eletricidade entre 2005 e 2009. No entanto, no mesmo período, as perdas de energia aumentaram substancialmente devido a razões técnicas e não técnicas.

Em conjunto, o aumento dos passivos e a redução das receitas limitam a capacidade da concessionária de investir na rede de distribuição elétrica e na geração, originando apagões e aumentando exponencialmente os custos de operação, criando-se uma espiral negativa e insustentável.

Importa ressaltar que o MECC detém a responsabilidade do setor energético do país e compete a esse ministério conceber, propor, coordenar e executar políticas públicas nacionais em matéria de energia. Dentro de seus departamentos, a Direção Geral de Indústria e Energia é o setor com maior atribuição na área de energia, sendo responsável pela concepção, execução e avaliação da política industrial e energética do país.

 

O FUTURO ENERGÉTICO DE CABO VERDE E A PERSPECTIVA SUSTENTÁVEL

 

A energia, um dos motores do crescimento econômico, propicia o surgimento de novos postos de trabalho, permite melhorias na produtividade, na prestação de serviços, no incremento do setor privado e nas demais ações produtivas que impulsionam o desenvolvimento e a qualidade de vida de toda uma população (MECC, 2008).

A meta que Cabo Verde tem perseguido ao longo dos últimos anos é a de um modelo sustentável que diminua a dependência externa e que utilize fontes alternativas ao mercado petrolífero. O país tem focado seus investimentos no incremento da utilização dessas formas de energia como alternativa aos combustíveis fósseis e com a finalidade de reduzir os custos de produção da eletricidade. A radiação solar possui uma abundante incidência em grande parte das ilhas, apresentando uma média anual de radiação global entre 1.800 e 2.000 kWh/m2/ano. Relativo ao número de horas de incidência de radiação solar, Cabo Verde apresenta um potencial de mais de 3.750 horas de incidência por ano (GESTO, 2011).

 

Figura 2: Radiação global nas ilhas de Cabo Verde

Fonte: Gesto (2012).

 

O vento é regular, predominantemente de nordeste, e a velocidade média anual se situa entre 7 a 10 m/s, o nível de insolação média anual é de 5 kWh/m2, entretanto a participação dessas fontes na matriz energética continua ainda modesta (MECC, 2005). O arquipélago goza de boas condições para o aproveitamento de energias renováveis, mas, conforme dito anteriormente, a contribuição desse potencial continua subutilizado.

Na conferência ocorrida em 2012 das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, Rio+20, Cabo Verde apresentou-se para a comunidade internacional com metas bastante desafiadoras. O relatório aponta como um dos principais objetivos da política energética do país cobrir, até o ano de 2020, 50% da necessidade em energia elétrica através de fontes renováveis, com pelo menos uma ilha 100% renovável.

No mesmo documento, o governo de Cabo Verde decidiu lançar um ambicioso Programa de Ação em cinco eixos principais:

a) preparar as infraestruturas;

b) garantir o financiamento e envolver o setor privado;

c) implementar os projetos;

d) maximizar a eficiência;

e) lançar o cluster[2] das energias renováveis.

 

Até 2020, o Plano de Ação resultará na instalação, em Cabo Verde, de mais de 140 mW de energias renováveis através de um plano de investimentos superior a 300 milhões de euros. Esse plano permitirá a criação de mais de 800 postos de trabalho diretos e indiretos e permitirá atingir, em 2020, custos de geração de energia 20% inferiores aos atuais.

Como princípio norteador da sua política energética, o governo de Cabo Verde definiu: construir, a longo prazo, um país sem dependência de combustíveis fósseis, garantindo a sustentabilidade do setor e a segurança energética.

Para isso, um arcabouço jurídico foi implementado, originando o Decreto-Lei nº 1/2011, que normatiza as disposições relativas à promoção, ao incentivo, ao acesso, ao licenciamento e à exploração inerentes ao exercício da atividade de produção independente e de autoprodução de energia elétrica com base em fontes de energia renováveis. A produção de energia elétrica com base em energias renováveis, nos termos do presente diploma, é considerada de relevante interesse nacional e como setor prioritário para todos os efeitos previstos na legislação sobre investimento estrangeiro e transferências de tecnologia (CABO VERDE, 2011).

Segundo afirma Monteiro (2012), a expectativa é que o consumo de eletricidade, que em 2010 era de 335 mWh, duplique até o ano de 2020, atingindo os 670 mWh. Ainda, o país possui um potencial estimado de 2.600 mW de energias renováveis, tendo sido analisados mais de 650 mW em projetos concretos com custos de produção possivelmente inferiores aos dos combustíveis fósseis (MONTEIRO, 2012).

Esses dados apontam para a autossuficiência energética cabo-verdiana, baseada em uma matriz limpa de energias renováveis para um horizonte a médio/longo prazo, sustentavelmente.

 

 

CONCLUSÃO

 

Neste século, a humanidade encontra-se diante de um grande desafio, o de fazer a transição para um futuro de energia sustentável, e atingir esse escopo de sustentabilidade exigirá mudanças no modo pelo qual a energia é fornecida e na maneira segundo a qual ela é usada.

De outra forma, o uso de fontes alternativas objetiva minimizar o consumo das fontes energéticas convencionais, que geram grandes degradações ao meio ambiente. Muitas dessas fontes alternativas são abundantes em regiões como a de Cabo Verde.

Este estudo propôs-se a analisar os impactos das energias renováveis na macroeconomia, numa perspectiva futura, escolhendo os indicadores capazes de melhor espelhar esses efeitos, tomando como referencial Cabo Verde, país do continente africano.

Identificou-se que a economia cabo-verdiana é fortemente marcada por uma dependência externa, em termos de recursos para o seu desenvolvimento, com acentuado desequilíbrio em sua balança comercial, onde a importação de combustíveis, destinada essencialmente à produção de energia elétrica, ocupa um lugar de destaque.

Para a realização deste trabalho, propôs-se como objetivo geral caracterizar a situação energética atual, evidenciar as potencialidades existentes em termos de energias renováveis e analisar os impactos na economia.

Por tudo isso, esse cenário irá produzir grandes alterações no PIB, aumentando a contribuição das energias renováveis na formação do produto interno, como forma de atenuar a dependência de Cabo Verde das energias fósseis, como já se referiu muitas vezes ao longo deste trabalho.

A energia é o elemento imprescindível para a ampliação do processo de crescimento econômico e para o reforço dos níveis de desenvolvimento humano das populações. Sabendo dessa importância estratégica, o governo cabo-verdiano destinou, como princípio norteador da sua política energética, a construção, a longo prazo, de um país sem dependência dos combustíveis fósseis, garantindo a sustentabilidade do setor e a segurança energética.

Desde 2008, é muito assinalável a evolução da produção de energia por fontes renováveis, eólica e solar, as quais viram o seu posicionamento no mix energético de Cabo Verde muito reforçado, passando de menos de 2% do total para aproximadamente 21%.

Na área da energia, as autoridades pretendem promover investimentos em energias renováveis, a fim de reduzir os custos associados, promover um crescimento mais sustentável e implementar projetos que levem ao aumento da capacidade de produção de energia e à reestruturação da rede de distribuição, com o objetivo de ter todo o arquipélago coberto pela rede elétrica até 2015 (ESPÍRITO SANTO RESEARCH, 2014).

Por fim, mediante as argumentações ora apresentadas, sugere-se que, para garantir a realização da visão energética cabo-verdiana, o governo intensifique suas ações prioritariamente sobre os seguintes instrumentos:

a) Reforçar a capacidade institucional e maximizar a eficiência energética na produção e distribuição;

b) Reestruturar o setor energético, revisando sua matriz energética;

c) Priorizar e promover a microgeração de grandes consumidores;

d)        Adotar novas tecnologias e apropriar-se de conhecimentos e pesquisas na área;

e) Criar parques tecnológicos e incentivar indústrias do setor de tecnologias em geração de energias renováveis;

f) Produzir estudos de zoneamento urbano com vistas à reserva de áreas para o desenvolvimento de energias renováveis.

 

Destarte, conclui-se que houve avanços significativos no incremento e na produção de energias alternativas, em contraponto ao uso convencional oriundo de fontes petrolíferas, entretanto o plano estratégico de Cabo Verde necessita do comprometimento da administração pública, da sociedade civil e do setor privado na implementação da política energética de Estado visando a sustentabilidade desse setor.

 

REFERÊNCIAS

 

ALVES, G. J. Aplicação dos sistemas de informação geográfica nas energias renováveis: o potencial da energia solar na ilha de São Vicente – Cabo Verde. 2013. 91 f. Dissertação – Universidade do Porto, Porto, 2013.

 

CABO VERDE. Cabo Verde no contexto do desenvolvimento sustentável: relatório à conferência Rio+20, summary. Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, Rio de Janeiro, Brasil, junho de 2012.

 

CABO VERDE. Decreto-Lei nº 1/2011. Boletim Oficial, I Série - nº 1, 2011.

 

ESPÍRITO SANTO RESEARCH. Cabo Verde, internacionalização e desenvolvimento. In: ESPÍRITO SANTO RESEARCH. Internacionalização das economias. Banco Espírito Santo, Lisboa, 2014.

 

GESTO ENERGIA. Plano energético renovável – Cabo Verde. Alges, Portugal, 2011.

 

INE - Instituto Nacional de Estatística de Cabo Verde. Cabo Verde, Anuário Estatístico 2015. Praia, Cabo Verde, 2015a.

 

INE - Instituto Nacional de Estatística de Cabo Verde. Estatísticas do Turismo – Movimentação de hóspedes 1º trimestre 2015. Praia, Cabo Verde, 2015b.

 

MECC - Ministério da Economia, Crescimento e Competitividade. Estratégia nacional para energias domésticas em Cabo Verde. Praia, Cabo Verde, 2005.

 

MECC - Ministério da Economia, Crescimento e Competitividade. Política energética de Cabo Verde: construindo um futuro energético seguro e sustentável. Praia, Cabo Verde, 2008.

 

MONTEIRO, A. D. O impacto das energias renováveis na economia dos países emergentes: o caso de Cabo Verde. 2012. 91 f. Dissertação (Mestrado em Gestão de Empresas) – Programa de Pós-Graduação em Gestão de Empresas, Instituto Universitário de Lisboa, Lisboa, 2012.

 

NAÇÕES UNIDAS. United Nations in Cape Verde. Disponível em: <http://www.un.cv/sobrecv.php>. Acesso em: 22 nov. 2015.

 

THE WORLD BANK. Cabo Verde, aspectos gerais. Washington, DC. Disponível em: <http://www.worldbank.org/pt/country/caboverde/overview#2>. Acesso em: 22 nov. 2015.

 



[1]   O Sahel (do árabe sahil, que significa “costa” ou “fronteira”) é uma faixa de 500km a 700km de largura, em média, e 5.400 km de extensão, situada na África Subsaariana, entre o deserto do Saara, ao Norte, e a savana do Sudão, ao Sul; e entre o Oceano Atlântico, a Oeste, e o Mar Vermelho, a Leste.

[2]   Um cluster, no mundo da indústria, é uma concentração de empresas que se comunicam por possuírem características semelhantes e coabitarem no mesmo local. Elas colaboram entre si e, assim, tornam-se mais eficientes.



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