ISSN 1678-0701
Número 61, Ano XVI.
Setembro-Novembro/2017.
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11/09/2017EDUCAÇÃO CIENTÍFICA NOS PRIMEIROS ANOS ESCOLARES  
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EDUCAÇÃO CIENTÍFICA NOS PRIMEIROS ANOS ESCOLARES

 

 

 

 

Karen de Souza Ferreira - Bióloga com especialização em química ambiental. Mestranda no Programa de  Aquicultura e Pesca do Instituto de Pesca, APTA ,SAA 

 

Fabiana Brambatti - Engenheira Agrônoma.  Mestranda no Programa de  Sanidade, Segurança Alimentar e Ambiental no Agronegócio do Instituto Biológico,  APTA, SAA 

 

Regina Cristina Batista Ferreira - Química. Técnica de apoio a Pesquisa do Instituto Biológico, APTA,  SAA 

 

Solange Papini - Dra em Ecologia.  Especialista em Saúde, Secretária da Saúde do Município de São Paulo

 

Eliane Vieira - Dra em Agronomia. Docente no Programa de  Sanidade, Segurança Alimentar e Ambiental no Agronegócio do Instituto Biológico,  APTA, SSA 

 

 

 

RESUMO

O mundo científico nunca caminhou tão rápido como nos últimos anos, as descobertas referentes ao DNA, o desenvolvimento de instrumentação analítica capaz de detectar partículas por trilhão, os microscópios cada vez mais potentes mostram que a ciência evolui a cada minuto, entretanto como anda o ensino da ciência e tecnologia, estes processos foram modificados no mesmo ritmo, ou, ao contrário, o processo de ensinar se modificou muito pouco ao longo dos anos?  Como motivar crianças, adolescentes e jovens a se tornarem cientistas ou trabalhar com ciência. Este é um desafio que todos devemos enfrentar. O objetivo deste trabalho foi implantar um projeto de educação científica para crianças do ensino fundamental I. O projeto teve duração de duas semanas consecutivas com início na Semana Nacional de Ciência e Tecnologia (SNCT) de 2016.  Como a SNCT teve como tema alimentos o programa trabalhou com os tópicos microrganismos e horta orgânica. Crianças do 3º e 4º anos de uma escola pública da cidade de São Paulo participaram do programa. A intensa participação das crianças e o preenchimento da cartilha desenvolvida para o projeto mostraram que o programa foi efetivo.

Palavras-chave: aprendizado ativo, educação ambiental, Semana Nacional de Ciência e Tecnologia, horticultura, micróbios

SCIENTIFIC EDUCATION IN THE FIRST SCHOOL YEARS

ABSTRACT

The scientific world has never moved so fast as in the recent years, discoveries concerning about DNA, the development of analytical instrumentation capable of detecting particles per trillion, increasingly powerful microscopes show that science evolved every minute, however teaching of science and technology have  been modified at the same time or did the teaching process change very little over the years? How to motivate children, adolescents and young people to become scientists or work with science? This is a challenge we must all face. The objective of this work was to implement a scientific education project for elementary school children. The project took two consecutive weeks beginning in the National Science and Technology Week (NSTW) of 2016. Meanwhile NSTW had the food as theme, the program worked with the topics microorganisms and organic vegetable garden. Children in the 3rd and 4th years of a public school in the city of São Paulo participated in the program. The intense participation of the children and the completion of the booklet developed for the project showed that the program was effective.

Key-words: active learning, environmental education, National Week of Science and Technology, horticulture, microbes

 

INTRODUÇÃO

No Brasil, em outubro, comemora-se a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia. O objetivo dessa semana é levar a ciência para os cidadãos e cidadãs que não trabalham com ciência. Esta semana começou a ser “comemorada” com o objetivo de popularizar a ciência, em outras palavras o que se espera é tornar a ciência um conhecimento disponível para todos, incentivar as crianças, adolescentes e jovens venham a se interessar pela ciência, bem como divulgar a ciência de forma entendível para não cientistas. Em 2016, foi realizada a13ª Semana Nacional da Ciência e Tecnologia com o tema alimentos.

O Instituto Biológico pertence à Secretaria da Agricultura do Estado de São Paulo e existe desde 1927. Em 2007 foi criado o programa de pós-graduação em Sanidade, Segurança Alimentar e Ambiental no Agronegócio em nível de mestrado e em 2014 o doutorado se iniciou. Formar profissionais com perfil multidisciplinar para a pesquisa e a docência é o objetivo do programa (INSTITUTO BIOLÓGICO, 2017). O tema alimentos está inserido dentro da área de conhecimento do Instituto Biológico (IB) e apesar da missão do IB ser  desenvolver e transferir conhecimento científico e tecnológico para o negócio agrícola, o programa de pós-graduação, devido sua inserção na área multidisciplinar, também tem como missão transferir conhecimento para professores e alunos do ensino básico. Nos últimos anos o programa tem procurado desenvolver atividades de educação científica para alunos do sistema público de ensino e em atividades não formais de educação (SANTOS et. al., 2016).

O tópico alimentos pode ter uma série de abordagens a serem utilizadas desde a educação infantil até o nível médio. Os micro-organismos, ou micróbios utilizando uma linguagem mais acessível para os anos iniciais da educação, estão espalhados em todo o planeta. Estes organismos, não visíveis sem o auxílio de um microscópio, compõem um importante grupo dentro da biodiversidade e podem ser benéficos ou maléficos para o homem. Crianças com frequência associam micro-organismos a doenças (BYRNE; GRACE; HANLEY, 2010) apesar do fato da maioria destes organismos não causarem malefícios aos seres humanos (TORTORA; FUNKE; CASE,2005,p.2). Entre os benefícios dos micro-organismos encontram-se a decomposição da matéria orgânica e reciclagem das substâncias químicas, controle de pragas e doenças na agricultura, biorremediação de poluentes, sem falar dos avanços na biotecnologia.

A horta pode ser utilizada tanto do ponto de vista de educação ambiental como também como forma de ensinar sobre germinação e crescimento das plantas. Muitos professores utilizam a prática de semear feijão em algodão; crianças, jovens e adultos conhecem está prática, já que ela vem sendo ensinada durante muito tempo nas escolas no Brasil. A horta pode substituir esta prática e apresentar muitos outros conceitos para as crianças. A construção de hortas tem sido uma prática cada vez mais presente no ambiente escolar em atividades de educação ambiental (CRIBB, 2010; BORBA et. al., 2013; CEREJEIRA e GUERREIRO, 2015; ALVES e SANTOS, 2015) e pode ser utilizada em qualquer idade ou fase do desenvolvimento.

A educação no Brasil vem passando por uma séria crise. Os estudantes têm dificuldade em assimilar o conteúdo escolar, os professores têm problemas tanto do ponto de vista de conhecimento como de didática e com isso as avaliações do sistema de ensino tem alcançado valores preocupantes (NASCIMENTO et al., 2010). As Instituições de Ensino e Pesquisa podem ajudar na diminuição das deficiências apresentadas tanto por professores como alunos. Segundo REIS e MOURA (2017) ensino, pesquisa e extensão são atividades que devem ser desenvolvidas juntas e as instituições de pesquisa devem levar o conhecimento desenvolvido em seus laboratórios e salas de aula para a sociedade.

Como se aprende ciência? Como tornar a ciência interessante para crianças? Professores e pesquisadores precisam trabalhar juntos para responder estas questões. Hoje se fala muito em alfabetização cientifica, entretanto na maioria das escolas no Brasil crianças não têm acesso à prática científica. A ciência na maioria das vezes é ensinada por meio de aulas teórico-expositivas. Devido a esta situação, as alunas da disciplina de Ecotoxicologia do programa de pós-graduação do Instituto Biológico elaboraram um trabalho de educação científica com o objetivo de divulgar e praticar ciência junto aos alunos do Ensino Fundamental I da Escola Estadual Rodrigues Alves utilizando as temáticas: micro-organismos, alimentos e horta no ambiente escolar.

MATERIAL E MÉTODOS

A proposta foi desenvolvida na Escola Estatual Rodrigues Alves, localizada na Av. Paulista 277, no Município de São Paulo, Brasil. Todas as turmas do terceiro e quarto anos, totalizando 180 alunos entre 8 a 11 anos, participaram das atividades. A Escola Estadual Rodrigues Alves foi escolhida devido a sua localização, fica próxima ao Instituto Biológico e interesse da coordenação em participar do projeto. Inicialmente o projeto foi proposto para os alunos dos 3° anos, já que nesta fase do currículo de Ciências Naturais e da Terra os alunos aprendem sobre as plantas, mas, em reunião com os professores foi solicitado que a atividade também contemplasse os 4º anos, assim 8 turmas participaram das atividades, 4 turmas do 3º ano e 4 turmas do 4º ano. As atividades foram desenvolvidas pelas alunas da disciplina Ecotoxicologia do Programa de pós-graduação em Sanidade, Segurança Alimentar e Ambiental no Agronegócio do Instituto Biológico como atividade obrigatória e aconteceram durante duas semanas, sendo duas aulas em cada turma com duração de 2 horas cada aula. Para facilitar o entendimento durante o texto as alunos do programa de pós graduação serão chamadas de monitores e alunos são os participantes do projeto da Escola Estadual Rodrigues Alves.

Uma cartilha com 16 páginas e atividades foi elaborada para facilitar a interação entre professores, monitores e alunos durante as aulas (FERREIRA et. al., 2016). Além disso, o uso da cartilha funcionou como um guia para as atividades nas diferentes salas de aula. A cartilha seguiu a linha de higiene e conservação dos alimentos, alimentação saudável e horta orgânica. A primeira parte da aula foi expositiva participativa com mais ou menos 30 minutos com exposição do conhecimento direcionada de forma interativa com o resgate de conhecimentos prévios e “brainstorming” como o porquê de não deixar a água acumular no prato da horta, o porquê devemos comer frutas e verduras, etc. e 1:30 h de prática. Na segunda parte da aula (parte prática) os alunos foram divididos em grupos de 4 a 5 estudantes para facilitar o desenvolvimento da atividade.

 Na primeira aula estudou-se o conceito dos micro-organismos como seres vivos que podem trazer benefícios ou malefícios e a importância da higiene pessoal e conservação dos alimentos.

1º Aula: Micróbios

            Nesta aula foram utilizados placas de EVA, cartolina, papel pardo, cola, cola colorida, cartolina, tesoura, papel laminado, papel crepom, canetinha.

            Foram levados moldes de alimentos (maçã, laranja, tomate, cenoura. etc), de micróbios e de uma torneira.   Os alunos recortaram os moldes, desenharam os alimentos e micróbios. Um papel pardo foi colocado como painel. Todos os moldes foram colados no painel mostrando a água da torneira lavando os alimentos e retirando os micróbios. Alguns alimentos foram colocados na geladeira, que foi feita com painel de EVA, para conservação dos alimentos.

            Uma placa de Petri com ágar levedura foi utilizada para cada sala de aula. Foi passado um cotonete na mão de cada aluno e passado no ágar. A placa foi levada para o laboratório e deixada em temperatura ambiente. Na semana seguinte uma placa controle e a placa com crescimento microbiológico foi mostrada para os grupos.

2º Aula: Horta

Na segunda aula, os alunos confeccionaram uma horta orgânica em potes de sorvete reciclados. A importância do sol, terra, adubo e água foram discutidos com os alunos como fatores necessários para a germinação e crescimento das plantas. Dentro da temática horta orgânica ainda foi mostrado um minhocário que colocado em um pote de sorvete, as crianças que quiseram puderam manipular os animais e foi destacada a importância destes organismos para o solo. Nessa aula, os alunos entraram em contato com o conceito de alimentação saudável, produto orgânico e ciclagem de nutrientes. Os materiais empregados foram pote de sorvete, terra vegetal, húmus, sementes de verduras e temperos (Tabela 1), areia, borrifador de água e um minhocário.

Tabela 1. Sementes utilizadas para horta

Semente

Tempo de Germinação

(dias)

Tempo de Colheita

(dias)

Alface (manteiga)

4-7

50

Coentro

4-7

30-35

Espinafre

7-10

40-50

Manjericão

7-14

60

Rabanete

4-6

20-25

Rúcula

3-5

40- 45

A terra vegetal (1 kg) foi umidificada uma semana antes para o desenvolvimento da microbiota do solo.  Os potes de sorvete foram furados para escoamento da água.  No dia da aula sobre horta as crianças colocaram o solo e húmus nos potes de sorvete e misturaram.  Apesar de geralmente o preparo do solo e húmus ser feito antes do plantio das sementes, procurou-se fazer esta atividade no mesmo dia para que as crianças aprendessem sobre o processo de fertilização do solo e sobre a necessidade de “alimento” para as plantas. A tampa do pote foi colocada com areia sob o pote para evitar o acúmulo de água e proliferação de mosquitos. Quando questionadas, as crianças sabiam o motivo da necessidade do uso da areia. Cada aluno plantou pelo menos uma semente. Durante o plantio foi explicado que as sementes não poderiam ser colocadas no fundo do pote, pois neste caso não germinariam, que como as plantas necessitam do sol seria necessário elas estarem próximas à superfície. Assim, como medida foi dito às crianças que elas deveriam afundar o solo na profundidade de uma falange do dedo médio.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

A maioria dos alunos demonstrou interesse nas atividades teóricas e práticas, com a resolução da cartilha. Essa cartilha foi elaborada atendendo a necessidade da faixa etária dos alunos, várias atividades para desenhar, completar e intervenções do material na residência e no ambiente escolar.

Utilizou-se a terminologia micróbios para os micro-organismos em geral e germes para denominar os patogênicos, assim tornando mais compreensível o termo aos alunos. Na primeira aula os alunos montaram painéis (Figura 1), com uso do material fornecido pelos monitores, refletindo a importância dos temas discutidos. As placas de Petri com ágar levedura utilizadas em cada sala de aula, para demonstrar a presença de micróbios sobre a pele, foram mostradas aos alunos. Como a atividade foi desenvolvida em duas semanas houve tempo para que os microrganismos crescessem na placa de Petri (Figura 2).

 

Figura 1. Painel com a torneira, alimentos, microrganismos e geladeira

 

Figura 2. Placa de Petri controle e placa de Petri com crescimento de micro-organismos.

 

Segundo MAFRA, CARVALHO e LIMA (2016), em trabalho desenvolvido em Portugal, os conteúdos do ensino fundamental I fazem menção a higiene dos alimentos e higiene pessoal nos 1º e 2º anos, entretanto os microrganismos não são relacionados a esta temática. Somente nos 5º e 6 anos os microrganismos são inseridos no conteúdo como organismos vivos. Estes autores enfatizam que esta temática seria facilmente incluída nos anos iniciais de educação devido ao conteúdo programático e poderia melhorar a educação científica destes estudantes.

No Brasil os livros didáticos fazem menção a temática micro-organismos e talvez por este motivo alguns alunos conheçam o termo, principalmente quando falamos em micróbios e germes, entretanto na maioria das vezes eles relacionam micróbios a doenças, o que não é ruim já que o cuidado com o corpo faz parte do currículo nesta fase. Entretanto, a grande biodiversidade destes organismos não é citada, o papel benéfico que eles desempenham também não é mencionado com frequência. Em termos de educação científica e ambiental é uma oportunidade de transmitir o conhecimento que não é aproveitada.

Mafra, Lima e Carvalho (2015) coletaram amostras da placa dentária dos alunos antes e depois de escovarem os dentes, as amostras foram inoculadas em placas e as colônias contadas pelas crianças, com esse experimento as crianças puderam visualizar a importância da higienização dentária para controle da placa bacteriana. Byrne, Grace e Hanley (2010) fizeram um estudo no ensino primário e secundário no sul da Inglaterra com 414 crianças de 7, 11 e 14 anos e observaram que as ideias pré concebidas de que micro-organismos fazem mal faz com que as crianças e adolescentes não consigam assimilar os aspectos positivos dos micro-organismos ao longo dos anos, como o fato destes serem necessários ao ciclo da matéria  por exemplo.  

No Brasil a microbiologia é inserida logo nos primeiros estágios do ciclo escolar o termo ainda é bastante abstrato para as crianças. O fato destes organismos não serem visíveis a olho nu e a maioria das escolas não possuir microscópio dificulta o ensino e a aprendizagem desta importante temática. Os alunos não relacionam os microrganismos com funções ecológicas importantes como a atividade de degradação da matéria orgânica e a reciclagem dos nutrientes no ambiente. Não se espera que os alunos aprendam tudo sobre os microrganismos nos primeiros anos escolares, mas somente citar estas atribuições dos microrganismos pode ajudar na fixação do conceito ao longo dos anos.

Segundo Seniciato e Cavasan (2008), um dos grandes problemas do ensino é a falta de motivação por parte dos alunos, e crianças e adolescentes aprendem mais facilmente com fatos concretos. O livro escolar e as aulas expositivas podem não ser suficientes para o aprendizado e isto deveria ser levado em consideração quando do preparo da aula e no currículo escolar. O ensino hoje se baseia na memorização e não na contextualização e a realidade do aluno está muito distante do conteúdo escolar (VASCONCELOS e SOUTO, 2003), é preciso mudar este fato.

É necessário ressaltarmos que a atividade com a placa de Petri e desenvolvimento de micro-organismos foi a única atividade realizada durante o programa que só pode ser repetida por pessoas que tenham acesso a laboratórios de microbiologia, dificilmente será realizada em escolas, mesmo as que possuem laboratórios, já que a confecção das placas precisa ser desenvolvida em ambientes estéreis com materiais autoclavados. Ademais, o ágar possui um custo razoável para escolas, principalmente as públicas. Entretanto, esta foi uma excelente forma de tornar os micro-organismos um tema concreto de se ver e assim incentivar a higiene pessoal. Embora esta atividade específica exija certas pré-condições, outras podem ser desenvolvidas com maior simplicidade de requisitos. Como exemplo, dentro desta temática  molhar um pão e deixa-lo em lugar escuro até que apareça mofo (colônias de fungos)  ou  como manter um minhocário e manipular minhocas de forma adequada, discutindo dessa maneira, o respeito aos seres vivos. A figura 3 mostra alunos manipulando (delicadamente) uma minhoca.

 

   Figura 3. Alunos manipulando minhocas.

 

Como mostrado na tabela 1, foram escolhidas sementes que apresentem pouco tempo entre semeadura e germinação e que podiam ser colhidas em até 50 dias, pois os alunos ficam “ansiosos” e querem ver os resultados o mais rápido possível. Além disso, como o trabalho foi desenvolvido no final de outubro e o ano letivo tinha término previsto para meados de dezembro era importante que os alunos pudessem ver o crescimento das sementes. Observou-se que os estudantes já possuíam certo conhecimento adquirido nos anos anteriores na escola, em casa com seus familiares, por meio de programas de TV, etc., o que é demonstrado nos desenhos elaborados pelos alunos que mostram o processo de germinação da semente (Figura 4) bastante parecido com a realidade. Destaca-se que os desenhos foram feitos no mesmo dia da construção da horta, antes deles poderem visualizar o processo, usando como base a discussão teórica e conhecimentos adquiridos. Este tipo de conhecimento deve ser incentivado e aproveitado e para isso torna-se necessário que criemos meios para que as crianças possam desenvolver todo o seu potencial de aprendizado.

 

Figura 4. Desenhos dos alunos mostrando a germinação das sementes

O conhecimento das crianças varia e depende não apenas do nível sócio econômico, mas também do nível cultural e “origem” dos familiares. Crianças oriundas de famílias de origem rural já haviam plantado algo antes com a mãe, mas principalmente com os avós, isso ocorreu em 1 ou 2 indivíduos por sala. Por outro lado, crianças que vivem em locais altamente urbanizados como a cidade de São Paulo tem pouca ou nenhuma oportunidade de fazer atividades como plantar uma horta. A Escola Estadual Rodrigues Alves situa-se em um centro empresarial de São Paulo, uma zona altamente verticalizada, logo muitos moram em apartamentos o que dificulta o processo de ter um jardim ou horta.

Os alunos receberam a cartilha no primeiro dia, e no segundo dia de atividade as crianças de um terceiro ano que já tinham visualizado a cartilha perguntaram “Nós vamos plantar de verdade?”. Este questionamento tinha relação com o fato de que recentemente os alunos haviam colocado sementes de feijão em algodão umedecido e em uma turma nenhuma delas germinou. Foram discutidas com esses alunos as possíveis causas que impossibilitaram a germinação das sementes, como por exemplo, o fato de que algumas empresas utilizam calor para preservar o grão da ação de microrganismos e acabam inviabilizando o grão como semente. Isso levanta algumas premissas importantes como a realização de testes pelos professores antes da montagem dos experimentos. 

A Semana Nacional de Ciência e Tecnologia é uma iniciativa importante, entretanto grande parcela da população incluindo crianças e adolescentes em fase escolar não sabe do que se trata este evento. Ainda que seja necessário incentivarmos espaços de aprendizagem fora do ambiente escolar (BRASIL, 1997 a) e que atividades extraclasse estimulam o interesse e facilitam o trabalho multidisciplinar (CHAPANI e DIABEM, 2003)  na escola nem os professores demonstraram saber sobre esta iniciativa, demonstrando a pouca divulgação do evento pelos órgãos oficiais de meio ambiente. Então, além das universidades, dos laboratórios e dos institutos de pesquisa abrirem as portas para que os estudantes possam fazer visitação, fica clara a necessidade dos profissionais dessas organizações irem  até as crianças e adolescentes para “fazer ciência” no ambiente deles, pois muitas vezes o deslocamento da escola até outro lugar pode não ser possível devido a custos e outros problemas logísticos, principalmente para escolas públicas.

Outros comentários que os alunos fizeram: “quando você vem aqui nós aprendemos mais; vocês trazem coisas diferentes”. O Brasil apresenta problemas na qualidade do ensino de uma forma geral, mas a educação científica é negligenciada, a maioria das escolas públicas, não possuem espaços como laboratórios de ciências, quando existe este espaço não há material para trabalhar (ZANON e FRETAS, 2007; GUIMARÃES, 2015).

Um dos objetivos do ensino fundamental é a aquisição de conhecimentos e habilidades e a formação de atitudes e valores, para assim formar cidadãos críticos, autônomos e atuantes (BRASIL, 1997 a). Discutir sobre a importância da fertilidade do solo para o crescimento e desenvolvimento das plantas, de como as minhocas podem ajudar na degradação da matéria orgânica e aeração do solo, de como hortas sem adição de agrotóxicos podem ser melhor para o meio ambiente e a saúde das pessoas é uma boa maneira de formar cidadãos críticos.

A figura 5 mostra os desenhos dos alunos, representando uma minhoca adulta e as minhocas fazendo túneis no solo, isto quer dizer que o conceito das minhocas como aeradoras do solo  foi assimilado.

Figura 5. Desenhos de alunos mostrando túneis com minhocas e uma minhoca adulta.

 

Segundo CRIBB (2010), a atividade de plantar uma horta contribui para modificação de hábitos alimentares nos alunos, ajuda a melhorar a relação com o meio ambiente além de ser uma atividade que estimula o aprendizado. A maioria dos trabalhos com horta necessita de espaços grandes, mas BORBA et. al., 2013 utilizou garrafas PET em hortas suspensas. Neste trabalho trabalhou-se com material reciclado (potes de sorvete) para plantio das hortas, já que não havia espaço para esta atividade na escola. Como já citado, as sementes foram escolhidas devido à germinação rápida. Apesar da germinação rápida o espinafre e coentro tem o desenvolvimento lento e não cresceram o suficiente até o término das aulas, se o trabalho for repetido a melhor opção será trabalhar com alface e rabanete devido ao rápido desenvolvimento destas plantas.

            ALVES e SANTOS (2015) utilizando a permacultura como atividade de educação ambiental observaram que o contato com a natureza ajuda na construção de indivíduos mais conscientes da necessidade de proteção e preservação do meio ambiente. BORBA et. al. (2013) em uma escola rural concluíram que projetos que envolvem construção de hortas asseguram uma sociedade sustentável que preserva os recursos naturais, além disso, estes autores ainda relacionam o trabalho desenvolvido com a segurança alimentar. CEREJEIRA e GUERRREIRO (2015), em um estudo em uma clínica com alunos-pacientes, ressaltaram que o conhecimento teórico não é suficiente para a manutenção de uma horta, são também necessários conhecimentos práticos e vontade desta forma o projeto tem como ter continuidade.

            A continuidade do trabalho é um dos maiores desafios neste tipo de projeto aliado ao engajamento dos professores com motivação para continuar este tipo de atividade. Nas oito turmas tralhadas, os professores se colocaram na posição de expectadores das atividades, isto pode ter ocorrido pela falta de comunicação entre os realizadores e os professores na apresentação inicial do projeto, ou mesmo, para deixar a vontade as alunas da pós-graduação. O Fundo Social do Estado de São Paulo forneceu a escola materiais didáticos com objetivo de realizar hortas e receitas com os produtos oriundos da horta, mas apenas uma das professoras utilizou este material e trabalhou com mudas e não com sementes. Esta atividade nem sempre leva ao interesse dos alunos, devido ao estágio mais avançado da planta, enquanto a semeadura da semente criou um alvoroço entre eles. 

            Um dos pontos falhos da atividade deu-se na falta de acompanhamento de todas as etapas da atividade pelos alunos, juntamente aos professores, onde eles marcariam em planilha coletiva as etapas até o final da atividade, que ocorreu na colheita dos vegetais. A atividade também não ocorreu numa época muito propícia, devido ser o ultimo bimestre, onde ocorrem atividades de recuperação de conteúdo e encerramento do ano letivo juntamente com as provas externas, tais como SARESP e Prova Brasil.

            Segundo os Parâmetros Curriculares Nacionais – Ciências Naturais (BRASIL, 1997 b), os objetivos das ciências naturais no 2ª ciclo do ensino fundamental I são:

- idenficar e compreenderas relações entre solo, água e seres vivos nos fenômenos de escoamento da água, erosão e fertilidade dos solos, nos ambientes urbano e rural;

- caracterizar causas e consequências da poluição da água, do ar e do solo;

- estabelecer relação entre falta de asseio corporal, a higiene ambiental e a ocorrência de doenças no homem;

- identificar os processo de captação, distribuição e armazenamento da água e os modos domésticos de tratamento da água fervura e adição de cloro, relacionando-as com as condições necessárias a preservação da saúde;

- buscar e coletar informações por meio da observação direta e indireta, da experimentação, de entrevistas e visitas, conforme requer o assunto em estudo e sob orientação do professor;

- valorizar a vida em sua diversidade e a preservação dos ambientes.

            Dos seis itens previstos nos objetivos das ciências naturais para este ciclo do ensino fundamental, pelo menos quatro foram contemplados nesse projeto que foi realizado em duas semanas e se estendeu por mais ou menos 40 dias (crescimento da horta) de maneira menos intensa. Portanto, se possível o desenvolvimento de um projeto por ano nos cinco anos do ensino fundamental, seguramente, poderíamos incrementar as aulas de ciências nas séries iniciais do Ensino Fundamental.

A existência de um professor específico para trabalhar com educação cientifica poderia contribuir para o desenvolvimento científico dos discentes nos anos iniciais do ensino fundamental, pois um único professor poderia elaborar diferentes projetos para o ensino fundamental I na escola e, ao final deste ciclo, os alunos poderiam ter realizado 5 projetos diferentes, um por ano do ciclo. Os professores desse ciclo escolar têm formação em Pedagogia e com a multiplicidade de conhecimentos acadêmico-pedagógica exigida a esses profissionais torna-se difícil exigir maior atenção às práticas científicas.A elevada carga horária que muitos professores têm que fazer impossibilita a formação continuada e dessa forma o modelo aula expositiva/livrodidático se torna o único método pedagógico de aula e a proposição de um projeto curricular alternativoleva a insegurança,  pois, pensar novas formas de agir não é fácil nem simples (SILVA e PINO, 2010).

O ensino fundamental deve abranger obrigatoriamente o estudo do mundo físico e natural e incluir a educação ambiental aos estudos obrigatórios (BRASIL,1996). A escola como instituição de ensino, tem por obrigação o desenvolvimento de diferentes competências e instigar a curiosidade dos alunos. Quando se trata de ciência a melhor forma de aprender é fazendo.

CONCLUSÃO

A divulgação e prática da ciência podem ser facilmente inseridas nos primeiros anos do ciclo escolar. A participação dos estudantes nas aulas práticas e o preenchimento da cartilha demonstraram a efetividade deste tipo de ação. Atividades como esta, demonstram que o ensino intuitivo pode e deve ser realizado concomitantemente no ambiente escolar para alcançamos uma formação ampla e diversificada de cidadãos críticos e agentes no ambiente que estão inseridos.

REFERÊNCIAS

ALVES, D.D.; SANTOS, C.F. Educação Ambiental e Permacultura: um caminho para a sustentabilidade. Revista Comunicação e Educação Ambiental, v.5, nº2, p. 20-36, 2015.

BORBA, S.N.S.; WIZNIEWSKY, J.G.; DESCONCI, D.; PIAIA, A.; VIEIRA, M.E.M.; GODOY, L.E.T. Alternativas sustentáveis na educação infantil: agroecologia aliada à segurança alimentar. Revista Eletrônica em Gestão, Educação e Tecnologia Ambiental, v.11, nº 11, p. 2437-2447 , 2013.

http://dx.doi.org/10.5902/223611708806.

 

BRASIL. Lei das Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Lei 9384 de 20 de dezembro de 1996.

 

BRASIL. Parâmetros Curriculares Nacionais: Introdução aos Parâmetros Currículares Nacionais. Ministério da Educação e do Desporto, Secretaria de Educação Fundamental.  Brasília, 1997, 126p a.

BRASIL. Parâmetros Curriculares Nacionais: Ciências Naturais.  Ministério da Educação e do Desporto,: Secretaria de Educação Fundamental.  Brasília , 1997, 136 p b.

BYRNE, J.; GRACE, M.; HANLEY, P.Childeren’s anthropomorphic and anthropocentric ideas about micro-organisms. Educational Research, v. 41(1), p. 37-43, 2010.

 

CEREJEIRA, J.L.T.; GUERREIRO, T.G.V.Horta pedagógica: instrumento para disseminação da educação ambiental na clínica pedagógica Professor Heitor Carrilho em Natal (RN). Revista Brasileira de Educação Ambiental, São Paulo, v. 10, nº 3, p. 164-176, 2015.

 

CHAPANI, D.T.; DAIBEM, A.N.L. Educação Ambiental ação-reflexão-ação no cotidiano de uma escola pública. In: TALAMONI, J.L.B. e SAMPAIO, A.C. (Org.) Educação Ambiental da prática pedagógica à cidadania. 1.ed.São Paulo:Escrituras Editoras, 2003. p. 36

 

CRIBB, S.L.S.P. Contribuições da educação ambiental e horta escolar na Promoção de melhorias ao ensino, à saúde e ao ambiente. Revista Eletrônica do Mestrado Profissional em Ensino de Ciências da Saúde e do Ambiente, v. 3, nº1, p.42-60, 2010

 

FERREIRA, K.S.; BRAMBATTI, F.; PAPINI, S.; VIEIRA, E.  Vamos comer alimentos saudáveis? Editado por Eliane Vieira. 2016, 16 p.

 

GUIMARÃES, C. O ensino público no Brasil; ruim, desigual e estagnado. Revista Época.2015 Disponível em http://epoca.globo.com/ideias/noticia/2015/01/bo-ensino-publico-no-brasilb-ruim-desigual-e-estagnado.html.  Acesso 05/06/2017.

 

INSTITUTO BIOLÓGICO. Quem somos. Disponível em :http://www.biologico.sp.gov.br/quemsomos.php. Acesso: 27/05/2017.

 

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