ISSN 1678-0701
Número 60, Ano XVI.
Junho/Agosto/2017.
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03/06/2017PROJETO EACINE COMO INSTRUMENTO DE ENSINO-APRENDIZAGEM EM EDUCAÇÃO AMBIENTAL PARA ESCOLAS PARAENSES  
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PROJETO EACINE COMO INSTRUMENTO DE ENSINO-APRENDIZAGEM EM EDUCAÇÃO AMBIENTAL, PARA ESCOLAS PARAENSES

                                                                

Ana Laura Pereira Santos1, 2; Jeniffer Reis Brasil1,3; Márcia Francineli da Cunha Bezerra4; Luiza Nakayama5

¹Bolsista Navega Saberes/Infocentro; ²Graduanda de Ciências Biológicas, e-mail: ana-lauraps@hotmail.com; ³Graduanda de Oceanografia, e-mail: brasiljeniffer@yahoo.com.br; 4Prof. Dra. da Sala Verde Pororoca – Espaço Socioambiental Paulo Freire, e-mail: m.francineli36@gmail.com; 5Professora titular da UFPA e coordenadora da Sala Verde Pororoca, e-mail: lunaka@ufpa.br.

 

Resumo

Realizamos as sessões dos documentários “Terra do Meio” (VII Mostra Tela Verde do MMA) e “Homem e os Recifes” (VI Mostra Tela Verde do MMA) para alunos do Ensino Fundamental II, na cidade de Belém - PA, com o objetivo de utilizar audiovisual como instrumento de ensino-aprendizagem em Educação Ambiental (EA). As respostas às perguntas (as mesmas antes e depois da exibição dos documentários) foram diferentes ou melhoraram em termos de conteúdo. Concluímos que a utilização desses documentários foi eficaz para o ensino-aprendizagem de EA.

 

Palavras chave: Educação ambiental; Eacine; Tela Verde

 

Introdução

A interação entre universidade e escolas de ensino básico possibilita a integração essencial dos saberes socioambientais, envolvendo ensino pesquisa e extensão, na busca de uma inter/transversalidade efetiva na formação de educadores ambientais na contemporaneidade.

Neste contexto, o Programa Sala Verde Pororoca: Espaço Socioambiental Paulo Freire, localizado na Universidade Federal do Pará (UFPA) em parceria com o Ministério do Meio Ambiente (MMA), foi criado em 2006, com objetivo de integrar ações de ensino, pesquisa e extensão em Educação Ambiental (EA) no âmbito do estado do Pará. O projeto Eacine, criado em 2013, que atualmente está em sua terceira edição, está inserido neste programa. O projeto é desenvolvido por graduandos bolsistas da Pró-reitoria de Extensão (PROEX - UFPA), que apresentam documentários sobre temas em EA em escolas (públicas e privadas) de Ensino Fundamental II e Educação de Jovens e Adultos (EJA).

            Os diferentes vídeos utilizados no Eacine são, em sua maioria, da Mostra Nacional de Produção Audiovisual Independente, do Circuito Tela Verde do MMA e Ministério da Cultura (http://www.mma.gov.br/educacao-ambiental/educomunicacao/circuito-tela-verde). Criamos o site http://eacine.wix.com/eacine, para a divulgação de nosso trabalho e disponibilização de material didático e de vídeos em EA.

A decisão de utilizarmos documentários no projeto partiu do fato de que eles são capazes, segundo Viera; Rosso (2011), de aproximar o aluno da realidade que os cerca. Além disso, são um gênero do audiovisual que se propõem a ter um “caráter autoral, definido como uma construção singular da realidade”(MELO, 2002 ,p. 23), acrescido do fato de se apresentarem como uma ferramenta eficaz para a EA em escolas de ensino básico paraenses (LIMA et al., 2016). O presente trabalho teve como objetivo utilizar os documentários “Terra do Meio” (VII Mostra Tela Verde do MMA) e “Homem e os Recifes” (VI Mostra Tela Verde do MMA) como forma de ensino-aprendizagem em EA, para alunos de ensino fundamental II.

 

Metodologia

Realizamos a pesquisa participativa no período de agosto de 2016 a janeiro de 2017. Exibimos as sessões do documentário “Terra do Meio” no Colégio Alfa (sexto, sétimo, oitavo e nono anos), na Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio Joaquim Viana (sétimo ano) e no Colégio Dom Mário (sétimo ano). Já o documentário “Homem e os Recifes” exibimos na E.E.F.M. Joaquim Viana (sexto ano) e no Colégio Dom Mário (oitavo ano).

O Colégio Alfa e o Colégio Dom Mário são instituições privadas da cidade de Belém, sendo que o primeiro abrange turmas de pré-escola ao terceiro ano do ensino médio, tendo mais de 30 alunos em cada turma, e o segundo, turmas de creche ao nono ano com cerca de 20 alunos por turma. Enquanto, a E.E.F.M. Joaquim Viana está localizada em um bairro periférico da cidade de Ananindeua, que faz parte da região metropolitana de Belém, e possui turmas do ensino Fundamental, Médio e da EJA, com uma média de 30 alunos em cada.

As sessões ocorreram com a anuência dos gestores, com apoio logístico de funcionários e de professores das escolas.

            Antes de cada sessão, realizamos uma breve explicação sobre os temas abordados no documentário, seguida de perguntas semiestruturadas pertinentes ao filme (apresentamos este momento em PowerPoint, com o auxílio de um projetor de multimídia e um notebook, para que os alunos pudessem acompanhar com mais facilidade). Após cada sessão, fizemos as mesmas perguntas semiestruturadas, para avaliarmos se houve mudanças nas respostas dos alunos e se a visão deles havia permanecido a mesma ou ampliada ou modificada. Vale ressaltar que fizemos cinco perguntas referentes ao documentário “Terra do Meio”  e quatro ao “Homem e os Recifes”.

            Cabe destacar que no Colégio Alfa e na E.E.F.M. Joaquim Viana fizemos apenas pesquisa qualitativa, entretanto, Landim et al. (2006) afirmam que pesquisas qualitativas e quantitativas são complementares, por isso no Colégio Dom Mário realizamos uma pesquisa quantitativa para podermos obter uma visão mais holística dos dados obtidos.

Na análise qualitativa, fizemos as perguntas e as respectivas respostas oralmente, tendo o cuidado de não discriminarmos os alunos que responderam as perguntas dos que não as responderam. Na quantitativa, observamos os alunos individualmente, porque cada aluno recebeu uma folha com as perguntas e lhe foi solicitada a identificação nominal; as perguntas foram respondidas, de forma escrita, e assim conseguimos ver como e quantos alunos mudaram as suas respostas depois do documentário.

Criamos um critério de pontuações (Figura 1) na análise quantitativa, para as respostas antes e depois da exibição de cada documentário, com as seguintes categorias: respondeu, não pontuou; e mais duas (manteve e acrescentou), as quais foram apenas aplicáveis para depois do documentário. A categoria “respondeu” compreende todas as respostas corretas e não corretas, dadas tanto anteriormente quanto posteriormente à exibição do audiovisual. Entretanto, nos casos em que o aluno respondeu à pergunta, mas de forma incorreta a classificamos como “não pontuou”, recebendo, assim, zero pontos; demos a mesma classificação para o aluno que não respondeu. A categoria “manteve” refere-se ao aluno que antes e depois da exibição do documentário respondeu à questão da mesma forma. A categoria “acrescentou” significa que anteriormente o aluno respondeu corretamente e após a exibição, melhorou a qualidade em termos de conteúdo.

Figura 1: Critério de pontuação utilizado na Avaliação Quantitativa das respostas de alunos de escolas paraenses de ensino fundamental II, antes e depois da exibição dos documentários da Mostra Tela Verde do Ministério do Meio Ambiente (MMA).

 

Depois que todas as perguntas foram respondidas, solicitamos que os alunos levantassem as mãos, para classificar os parâmetros: som, imagem e conteúdo do documentário, nas categorias: ruim, regular, bom ou excelente. Todos os dados foram registrados em um “diário de campo” e em fotografias.

Para preservar a identidade dos alunos e professores que participaram deste estudo, todos os nomes de pessoas citados foram fictícios, mas os nomes das escolas foram citados.

Os dois documentários e o Guia do Orientador das Mostras Tela Verde anos 2015 e 2016, além dos folders sobre reciclagem e sustentabilidade (distribuídos após as exibições) foram patrocinados pelo MMA.

 

Resultado e discussões
Terra do meio

Ø  Avaliação qualitativa

No debate realizado antes da exibição do documentário, perguntamos aos alunos: “O que você acha que seja um indivíduo ribeirinho? “ Para alguns, ribeirinho é aquela pessoa “que mora perto do rio”; “que mora no interior, sem acesso à tecnologia, ou até mesmo um integrante do movimento sem terra”. Após a exibição, a pergunta foi refeita e as respostas foram diferentes, pois nesse momento ser ribeirinho para eles é ser aquela pessoa que mora próximo ao rio, mas também tem conhecimento da natureza que o cerca e consegue tirar o seu sustento do meio ambiente sem degradá-lo.

E em seguida: “O que são comunidades tradicionais e qual a importância delas?”. A maioria os alunos não souberam responder, mas os que conseguiram, disseram que eram comunidades antigas, como os indígenas, “que fazem as coisas manualmente, como bater o açaí”, e elas são importantes “para a preservação da natureza”. Após a exibição do documentário, os alunos demonstraram ter outra visão, pois perceberam que as comunidades tradicionais são aquelas que vivem a um longo tempo em uma localidade e possuem uma cultura própria, como os ribeirinhos, e elas são importantes para a preservação da natureza, para a produção de produtos e manutenção de diferentes formas culturais. Apenas fizemos uma objeção quanto ao conceito comunidades tradicionais, pois ele vai além disso, de acordo com o Decreto Nº 6.040, de 7 de fevereiro de 2007, Art. 3º, I:

 

Povos e Comunidades Tradicionais: grupos culturalmente diferenciados e que se reconhecem como tais, que possuem formas próprias de organização social, que ocupam e usam territórios e recursos naturais como condição para sua reprodução cultural, social, religiosa, ancestral e econômica, utilizando conhecimentos, inovações e práticas gerados e transmitidos pela tradição.

 

Por esta razão, na roda de conversa sugerimos que como esse conceito é abrangente, as populações do Movimento Sem Terra (MST), comuns no estado do Pará, também poderiam ser consideradas tradicionais, embora sejam muito mais recentes que os quilombolas, indígenas e as populações que vivem às margens dos cursos hídricos amazônicos.

Já quando perguntamos: “Por que devemos preservar o meio ambiente?”, os alunos responderam que deveríamos preservar, a fim de manter a natureza para as gerações futuras, pois precisamos do meio ambiente para a obtenção de produtos; porque “a Amazônia é a maior floresta do mundo e se não preservamos ela vai ficar como a Mata Atlântica”, “para a manutenção dos ciclos naturais” e “para não causar a extinção das espécies”. Quando perguntamos novamente, as respostas foram as mesmas, com exceção de um aluno do sétimo ano que respondeu que “é preciso preservar para se manter as comunidades tradicionais, como os ribeirinhos”. Portanto, consideramos que os alunos têm uma visão Naturalista/Utilitarista de meio ambiente, como aponta Reigota, 2011. Ao percebermos que os alunos ficaram ressabiados dissemos a eles que essa é uma visão bastante difundida entre professores de todos níveis acadêmicos amazonenses (GOMES, NAKAYAMA, 2015), acadêmicos (SANTOS et al., 2010) e leigos (ALMEIDA et al., 2010). Neste contexto, informamos aos alunos que a visão holística inclui o ambiente da sala de aula construído pelo homem, os saberes, fazeres e dizeres das comunidades tradicionais.

A quarta pergunta foi: “Qual a importância do desenvolvimento sustentável?”. Os alunos responderam que é importante para preservar, para usar os recursos sem degradar o ambiente e mantendo a natureza; destacamos que os alunos do sexto ano não souberam responder. Depois do documentário as respostas se mantiveram, exceto quando nos referimos aos alunos do sexto ano que, após o audiovisual, disseram que o desenvolvimento sustentável é importante para se preservar, “pois nele se extrai as coisas da natureza, mas de forma que não prejudique a floresta”. Entretanto, na E.E.F.M. Joaquim Viana o cenário foi diferente, pois os alunos não conseguiram definir a importância do desenvolvimento sustentável nem antes e nem depois do filme, por essa razão decidimos fazer uma pequena explanação sobre o assunto, enfatizando que o desenvolvimento sustentável, definido como “o uso equilibrado dos recursos naturais, voltado para a melhoria da qualidade de vida da presente geração, garantindo as mesmas possibilidades para as gerações futuras” (Decreto Nº 6.040, de 7 de fevereiro de 2007, Art. 3º, III), é uma importante forma de manutenção do meio ambiente como um todo (natureza e sociedade).

Enfim, questionamos os discentes sobre a relevância das Reservas Extrativistas (Resex’s), ressaltando dentre elas a Resex do Riozinho do Anfrísio, localizada no estado do Pará, citada no documentário. Os alunos responderam que eram importantes para preservação do ambiente, para a produção de matéria-prima. Contudo, após a exibição do documentário, eles conseguiram ter outra compreensão, pois perceberam que as Resex’s, além do papel de manutenção do meio ambiente, também trazem auxílios para as comunidades ali viventes, melhorando a qualidade de vida das mesmas por meio da obtenção de direitos, como falado por um aluno do oitavo ano “a Resex fez com que as comunidades fossem vistas pelo governo, trouxe saúde, educação, direitos, já que antes da reserva eles morriam sem ajuda. Agora com ela, as comunidades estão sendo preservadas, e elas preservam o ambiente”.

Ø  Avaliação Quantitativa

Para a Avaliação Quantitativa utilizamos as mesmas perguntas da qualitativa. Na variação de acertos em todas as questões, os alunos obtiveram 24 pontos a mais após a exibição (Figura 2), sendo que dos 64 pontos do quesito “depois”, 46 deles foram de alunos que só conseguiram responder as perguntas após a exibição.

 

Figura 2: Pontuação total de acertos das respostas dos alunos de Ensino Fundamental II de escolas paraenses antes e depois da exibição do documentário “Terra do Meio”.

 

 

Quando observada especificamente a questão 1, apenas um estudante não conseguiu ou tentou respondê-la nem antes e nem depois do vídeo (cabe destacar que o mesmo aluno também não respondeu as questões 2 e 4). Todos os demais conseguiram responder e dentre eles quatro alunos foram capazes de acrescentar informações em suas respostas, como o aluno José que antes afirmou que ribeirinho é aquele que “mora na beira do rio, que tem sua cultura e luta pela sua sobrevivência”, e após o documentário conseguiu acrescentar que ribeirinho “faz extrativismo e vive do que coleta”.

A segunda pergunta teve um aumento de 50% na pontuação final depois da apresentação quando comparada ao antes, sendo que quatro alunos responderam apenas depois. Desses quatro, as respostas de três foram similares, pois disseram que as comunidades tradicionais são importantes por preservarem a natureza.

Na questão 3, 100% dos alunos responderam “porque devemos preservar o meio ambiente”, mantendo seus posicionamentos, expresso na escrita de um aluno: “pela nossa sobrevivência, para não termos uma natureza poluída e termos água e oxigênio limpos”, mostrando novamente que os alunos possuem uma visão Naturalista/Utilitarista de meio ambiente.

O resultado de pontuação do quarto questionamento sobre a importância do desenvolvimento sustentável, quando comparado antes e depois teve um aumento de 68,4%, quatro apenas conseguiram responder após o documentário, dos quais o discente Marcos destacou-se: “O desenvolvimento sustentável é para não desmatar, preservar, é o que eles (os seringueiros) estão fazendo, retirando o látex sem matar a seringueira”.

Na última questão, sete alunos conseguiram responder antes do documentário, destes três acrescentaram informações depois da sessão, como o Carlos, que antes disse que a Resex “é uma reserva, onde tem cheiros como a andiroba”, e depois ele escreveu que o papel da “Resex é conservar as áreas para que elas não sejam desmatadas” e socialmente a Resex “trouxe saúde e também escolas”. Além disso, quatro alunos não tinham nenhuma ideia do que era uma Resex, mas depois do filme eles conseguiram conceituar Resex, como o Luiz que afirmou que as Resex têm o papel de “preservar e levar recursos como saúde e aprendizado”. Destacamos que 100% dos alunos conseguiram acertar as respostas após a sessão, demostrando que o documentário conseguiu ensinar os alunos que as Resex’s não são apenas para preservar o meio ambiente, mas elas também são responsáveis pelo desenvolvimento social e humano das comunidades lá viventes.

Apesar de considerarmos certas respostas como corretas, por vezes elas estavam incompletas. Por esta razão, após os alunos escreverem suas respostas, fizemos uma rápida avaliação e na roda de conversa tentamos atender suas dúvidas e complementar as respostas dadas.

Ø  Avaliação de qualidade de imagem, som e conteúdo

Na avaliação da qualidade da exibição e do conteúdo do documentário (Figura 3), somamos as respostas de todos os alunos presentes em todas as sessões (257 alunos). A maioria dos alunos (93,9%) considerou o conteúdo excelente, o som bom (45,5%) e excelente (33,3%), já a imagem excelente (44,3%) e bom (32,5%).

 

Figura 3: Avaliação feita pelos alunos de Ensino Fundamental II de escolas paraenses dos parâmetros de qualidade do documentário “Terra do Meio”.

 

 

Homem e os Recifes

Ø  Avaliação Qualitativa

            A primeira pergunta durante o debate foi “O que são corais?”, os alunos deram respostas comuns a de alunos de Ensino Médio de uma escola de Maceió (CHAGAS; SOVIERZOSKI, 2014), os quais afirmaram que corais são plantas aquáticas ou conjunto de peixes. Após a sessão, a pergunta foi refeita e verificamos que os alunos tinham mudado sua visão sobre o coral, mas ainda assim não souberam dizer ao certo o que era.

            Em seguida perguntamos por que e como devemos preservar os corais. Os alunos responderam que era importante preservar os corais, pois ele era comida dos peixes, entretanto não souberam dizer como a preservação deveria ser feita. Quando refizemos as duas perguntas, os alunos disseram que era importante preservar os corais porque “lá que os peixes vivem”, e as formas de preservação dos corais, foram embasadas no documentário: “não pisando”, “não puxando os corais” e “não fazendo pesca de arrastão”. Essas respostas demonstram que o documentário foi capaz de ensinar aos alunos práticas de conduta responsável em recifes de coral, o que pode ajudar na preservação de ambientes de recifes de coral, corroborando com Ramos; Rocha (2016) de que os documentários oportunizam a introdução de conceitos dados por especialistas e os momentos de reflexão por parte do alunado.

Na terceira pergunta: “O que causa a morte dos corais?”, os alunos do sexto Ano, tanto antes, quanto depois, disseram que o lixo jogado no mar e os óleos dos barcos eram a causa da morte dos corais, demonstrando que os alunos já tinham um conhecimento prévio do assunto. O documentário acrescentou um conhecimento extra, uma vez que os alunos, após a exibição, acrescentaram mais respostas, tais como “arrancar” e “pisar nos corais”.

Na última pergunta “Qual a importância das comunidades nativas para preservação dos corais?”, apenas um estudante respondeu, dizendo “preservam e outros não, os que não preservam acham que os corais são como lixo”. Após o documentário, os discentes responderam que o papel da comunidade é importante porque preservam não arrancando os corais, não pisando e informando os turistas que visitam a região sobre a importância dos corais.

Ø  Avaliação Quantitativa

O total de acertos aumentou visivelmente após a exibição do documentário (Figura 4). No geral, os alunos por 47 vezes apenas conseguiram responder as questões após a exibição, e em outras nove responderam antes, mas acrescentaram algum conhecimento na resposta após a exibição.

Figura 4: Pontuação total de acertos das respostas dos alunos de Ensino Fundamental II de escolas paraenses antes e depois da exibição do documentário “Homem e os Recifes”.

 

Na primeira questão, os alunos em ampla maioria não sabiam o que eram corais, apenas três responderam corretamente antes. Após o filme, além dos três que já tinham respondido, outros 16 conseguiram responder de forma certa, e cinco não conseguiram em nenhum momento. Dos alunos que só conseguiram responder após o documentário, destacaram-se Paulo que disse que os “corais são animais vivos que botam ovos” e Maria que afirmou que são “organismos vivos como os peixes, põem ovos e se alimentam”.

Na segunda questão, sete responderam corretamente antes e após, mas desses apenas três conseguiram melhorar o conteúdo após a exibição do documentário, destacamos a aluna Sofia: antes ela respondeu que devemos preservar os corais “porque é importante manter essa riqueza no mar” e eles seriam preservados “não poluindo o mar, não pescando”; após, ela disse que os corais deveriam ser preservados porque eles “protegem os seres que vivem no mar, por isso se eles desaparecerem vão morrer outros seres vivos” e eles serão mantidos se “preservar o mar, não pescar por causa das redes”. Além disso, um total de 11 alunos respondeu corretamente à pergunta apenas após a exibição.

Quanto à pergunta sobre o que causa a morte dos corais, um total de oito alunos respondeu antes do documentário, sendo que três mantiveram a resposta após o filme e quatro acrescentaram algo, como o João que antes escreveu que a poluição dos mares causava a morte dos corais, e depois acrescentou: “a caça de pescadores e a não preservação”. A aluna Paula chamou atenção pela resposta errada que ela deu anteriormente, afirmando que “o sal na água” pode matar os corais, e a resposta que ela deu depois, “as pessoas arrancarem, os pescadores lançarem a rede de arrastão, pegar neles (os corais)”, que realmente demostrou a sua mudança de opinião e conhecimento adquirido com o documentário.

A quinta e última pergunta inicialmente não foi respondida por nenhum aluno, fato que pode ser devido à realidade deles ser distante de ambientes litorâneos e praianos, onde os recifes de corais estão presentes. Após o documentário mais da metade dos discentes foram capazes de responder corretamente à questão, dentre eles estão as respostas das alunas Maria e Sofia que afirmaram “eles informam a comunidade os benefícios dos corais e ajudam os pesquisadores” e “eles ensinam as pessoas sobre a importância da preservação dos corais”, respectivamente.

Novamente, considerarmos certas respostas como corretas, mas por vezes elas estavam incompletas. Assim, a roda de conversa foi muito importante para complementação de conteúdo e esclarecimento de dúvidas.

Ø  Avaliação de qualidade de imagem, som e conteúdo

Todos os 83 alunos foram questionados quanto à qualidade dos parâmetros: som, imagem e conteúdo do filme. Nos quesitos som (73,5%) e imagem (85,5%), os alunos consideraram como de excelente qualidade (Figura 5). Quanto ao conteúdo a totalidade dos alunos achou excelente, evidenciando que o conteúdo é o parâmetro mais importante em relação aos outros dois.

Figura 5: Avaliação feita pelos alunos de Ensino Fundamental II de escolas paraenses dos parâmetros de qualidade do documentário “Homem e os Recifes”.

 

Conclusão

Consideramos que o questionamento antes e depois da exibição do documentário é uma metodologia eficaz para avaliação da aprendizagem de conceitos e percepções mais holísticas dos alunos participantes das sessões.

Ambos os documentários demonstraram ser capazes de ensinar aos alunos a importância e alguns métodos para preservação ambiental, o que pode ajudar na conservação do meio ambiente, tendo em vista que esses alunos agora poderão ser agentes multiplicadores de ambientais.

Acreditamos que as questões relacionadas ao documentário “Terra do Meio” obtiveram mais respostas corretas antes da sua exibição porque a temática é mais próxima à realidade vivida pelos alunos, além de possuir assuntos, frequentemente discutidos em meios de comunicação, diferentemente do tema abordado em “Homem e os Recifes”, no qual o assunto de recifes de corais é abordado nas escolas no último ano do Ensino Médio.

Percebemos que a utilização do documentário “Terra do meio” conseguiu dar aos alunos uma nova visão do mundo que os rodeiam, sendo capaz de aumentar a habilidade deles, em avaliar diferentes informações sobre as comunidades tradicionais e as unidades de conservação (como as Resex’s). Além disso, a utilização de um documentário produzido no Pará mostra aos alunos que eles podem ter a mesma iniciativa, utilizando até mesmo o próprio celular na produção de um documentário divulgando a cultura paraense, denunciando os problemas ambientais, dentre outros; e participar, dessa forma, enviando para uma futura Mostra Tela Verde do MMA. Nesse contexto, os alunos ficaram entusiasmados com essa possibilidade e nos propusemos a ajudá-los na produção de um roteiro com conteúdo e visualmente atraente, uma vez que o nosso grupo Sala Verde já trabalhou com o lúdico para a EA em outros momentos (DANTAS et al., 2012), com a produção de teatro de fantoches e produção de textos.

A maioria dos alunos considerou os conteúdos dos dois documentários de excelente qualidade, embora a imagem e o som não tenham sido considerados excelentes. Portanto, avaliamos que quando o conteúdo é relevante, os outros dois parâmetros são mais aceitáveis, permitindo que os alunos assimilem os conhecimentos expressos no audiovisual.

Portanto, podemos concluir que a utilização de audiovisual para o ensino de EA, tais como os documentários “Terra do Meio” e “Homens e os Recifes”, demonstrou ter um grande poder transformador de opinião e de aumento do senso crítico, sendo, dessa forma, um instrumento de ensino e aprendizagem altamente eficaz.

 

Agradecimentos

À PROEX – UFPA pelas bolsas concedidas por meio do Projeto Navega Saberes/Infocentro ao Projeto Eacine, aos bolsistas: os oceanógrafos Antônia Pamela Yhaohannah de Lima, Arthur Souza Ramos, Thiago Monteiro da Silva, além da profa. Dra. Suzana Carla da Silva Bittencourt, pois graças a eles todo o trabalho aqui desenvolvido foi possível. A todas as escolas e funcionários que nos receberam e nos deram o apoio logístico.

 

Referências

ALMEIDA, M. L.; SANTANA, A. R.; NAKAYAMA, L.; ARANA, S. Y. O.; CONCEIÇÃO, L. C. Percepção ambiental dos expositores do 1º Salão de Humor da Amazônia: relato de caso. Cocar, v. 4, n. 8, p. 91-98, 2010.

 

CHAGAS, J. J. T.; SOVIERZOSKI, H. H. Um diálogo sobre aprendizagem significativa, conhecimento prévio e ensino de Ciências. Aprendizagem Significativa em Revista, v. 4, p. 37-52, 2014.

 

DANTAS, O. M. S.; SANTANA, A. R., NAKAYAMA, L. Teatro de fantoches na formação continuada docente em Educação Ambiental. Educação e Pesquisa, v. 38, n. 3, p. 711-726, 2012.

 

GOMES, R. K. S.; NAKAYAMA, L. O papel da Educação socioambiental na construção da sustentabilidade. In: Teorias, ensino, aprendizagem: revisitando pensadores da Educação. Amorim, A. S. et al. (Eds.). Paco Editorial: Jundiaí, p. 169-184, 2015.

 

MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE. MMA - GUIA DO ORIENTADOR. VI Mostra Audiovisual do Ministério do Meio Ambiente, 2015.

 

MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE. MMA - GUIA DO ORIENTADOR. VII Mostra Audiovisual do Ministério do Meio Ambiente, 2016.

 

LIMA, Y.; RAMOS, A. S.; SILVA, T. M.; NAKAYAMA, L.; BITTENCOURT, S. C. S. Educação Ambiental em escolas paraenses: Projeto Eacine. Educação Ambiental em Ação, v. 55, p. 1-11, 2016.

 

LANDIM, F. L. P.;LOURINHO ,L. A.; LIRA, R. C. M.; SANTOS, Z. M. S. A. Uma reflexão sobre as abordagens em pesquisa com ênfase na integração qualitativo-quantitativa. Revista Brasileira em Promoção da Saúde,v. 19, n. 1, p. 53-58, 2006.

 

MELO, C. T. V. O documentário como gênero audiovisual. Comunicação & Informação (UFG), v. 5, n. 1/2, p. 23-38, 2002.

 

RAMOS, A. C.; ROCHA, M. B. Documentários como instrumento de educação ambiental na formação de gestores ambientais. Anais 5º Simpósio de Gestão Ambiental e Biodiversidade, 2016.

REIGOTA, M. O que é educação ambiental. São Paulo: Brasiliense, 2011.

 

SANTOS, V. R.; SANTANA, A. R.; NAKAYAMA, L. Percepção ambiental: avaliação do perfil de cidadania ambiental dos estudantes dos cursos de licenciatura do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Pará (IFPA). Educação Ambiental em Ação, n. 31, p. 1-12, 2010.

 

VIEIRA, F. Z.; ROSSO, A. J. O cinema como componente didático da Educação Ambiental. Revista Diálogo Educacional, v. 11, n. 33. p. 547-572, 2011.

 

 

 

 



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