A revista precisa do seu apoio!
Desde seu nascimento em 2002, a revista tem crescido em importância e conteúdo (59 exemplares trimestrais, + de 9 milhões os acessos, avaliação QUALIS-B1 na área de Ensino), requisitando mais dedicação dos membros da equipe, que a mantém de forma independente (sem apoio financeiro externo). Para continuarmos a desenvolver este trabalho, viemos pedir o apoio da comunidade através de doações.
Às pessoas que contribuírem enviaremos um brinde-surpresa! - Editores da revistaea.org
ISSN 1678-0701
Número 59, Ano XV.
Março-Maio/2017.
Números anteriores 
Início      Cadastre-se!      Procurar      Submeter artigo      Contato     Apresentação     Normas de Publicação     Artigos     Dicas e Curiosidades     Reflexão     Para sensibilizar     Dinâmicas     Entrevistas     Culinária     Arte e ambiente     Divulgação de Eventos     O que fazer para melhorar o meio ambiente     Sugestões bibliográficas     Educação     Plantas medicinais     Práticas de Educação Ambiental     Notícias     Educação e temas emergentes     Ações e projetos inspiradores     Relatos de Experiências
Artigos

10/03/2017
PERCEPÇÃO AMBIENTAL DE ALUNOS DO ENSINO FUNDAMENTAL EM RELAÇÃO A UMA ÁREA VERDE URBANA  
Link permanente: http://www.revistaea.org/artigo.php?idartigo=2683 
" data-layout="standard" data-action="like" data-show-faces="true" data-share="true">

PERCEPÇÃO AMBIENTAL DE ALUNOS DO ENSINO FUNDAMENTAL EM RELAÇÃO A UMA ÁREA VERDE URBANA

 

Gabriela Gomes Weber1

Ana Lucia Suriani Affonso2

Adriana Massaê Kataoka3

 

 

1 Mestre em Biologia Evolutiva - UNICENTRO. Professora da Secretaria Estadual de Educação do Paraná; E-mail: gabi-frn@hotmail.com.

 

2 Doutora em Ciências - UFSCar. Professora do Departamento de Ciências Biológicas da UNICENTRO. E-mail: analuciabio@gmail.com.

 

3 Doutora em Ciências - UFSCar. Professora do Departamento de Ciências Biológicas da UNICENTRO. E-mail: dri.kataoka@hotmail.com.

 

 

RESUMO: Percepção ambiental é a maneira como cada indivíduo percebe, reage e responde, frente aos diferentes contextos ambientais, e é essencial para o desenvolvimento das ações educativas. Neste sentido, esta pesquisa objetivou identificar e avaliar a mudança da percepção ambiental de alunos do ensino fundamental em relação a uma área verde urbana (Parque do Lago) de Guarapuava/PR. A metodologia baseou-se na pesquisa-ação e foi desenvolvida através de oficinas ecopedagógicas e diálogo com os envolvidos. Os resultados obtidos revelaram percepções limitadas e fragmentadas em relação às funções socioambientais do local. Contudo, após as oficinas, observamos uma ampliação das percepções, caracterizando uma visão mais sistêmica. A partir dessas ações, os alunos puderam compreender o Parque como um sistema integrado, identificando as dimensões sociais e ambientais em conjunto.

Palavras-chave: educação ambiental; oficinas ecopedagógicas; pesquisa-ação.

 

 

INTRODUÇÃO

 

A Educação Ambiental (EA) é caracterizada como um campo de ação pedagógica para a sensibilização das pessoas a respeito da relação homem-natureza. Contudo, para que sua realização seja possível, é necessário identificar as percepções dos envolvidos (REIGOTA, 1995).

Ao considerar que a percepção implica em interpretação, pode-se defini-la como a maneira que o homem visualiza o mundo e como interpreta cada fato, associando suas experiências e aspectos socioculturais (MARCZWSKI, 2006). Quando ele (ser humano) reflete sobre essa relação, procura entender suas percepções e se questiona sobre seu lugar na paisagem, tornando possível avaliar as suas próprias atitudes (MARIN et al., 2003). Da mesma forma, quando se tem uma percepção inadequada da realidade, compromete-se a estabilidade ambiental e social (CARVALHO et al., 2012). Portanto, a percepção ambiental constitui uma importante estratégia para trabalhos de EA, por reconhecer o significado que os indivíduos atribuem ao meio ambiente, tornando-se essencial para delinear e executar as ações educativas (SALGADO; OLIVEIRA, 2010).

Dentre as metodologias capazes de promover mudanças na percepção ambiental dos indivíduos, estão as oficinas ecopedagógicas, cujo objetivo é capacitar o público leigo, tornando-os agentes transformadores da sua própria realidade socioambiental (MARCONDES, 2008). Sua principal característica é ser uma forma diferenciada de ensino, que privilegia o trabalho em grupo, a conexão dos temas com a realidade do sujeito, e a participação ativa dele no processo de ensino-aprendizagem, valorizando suas experiências para que se percebam parte do meio. Para Fuchs (2008), uma maneira de concretizar isto é resgatando essas vivências, fazendo-o interpretar, interagir e analisar como seus atos interferem na construção da paisagem.

Neste sentido, a escola é um ambiente privilegiado para o exercício da EA, pois propicia ao educador um trabalho teórico – prático conectado a todas as disciplinas de ensino (DIAS, 1992). Segundo Chapani e Daibem (2003), a temática ambiental tem se apresentado na forma de muitos problemas que afetam a vida dos cidadãos comuns e, por isso, a escola é chamada para dar sua contribuição, buscando soluções para a crise ambiental.

Assim como o ambiente escolar, diversas áreas urbanas, como parques e praças podem atuar como importantes ferramentas para amenizar os impactos provocados pelas cidades, dada sua importância e centralidade no que diz respeito à dinâmica do sistema urbano. Merquides et al. (2011) enfatizam, que se considerarmos a relevância das áreas verdes em espaços públicos e a possibilidade de contato com a natureza, o parque se apresenta como um espaço único para a sociedade local. Estas áreas permitem o contato do ser humano com o ambiente natural e, desta forma, combinadas a atividades educativas, promovem a mudança da percepção ambiental dos indivíduos, causando o sentimento de pertencimento ao meio. Essa sensibilização frente ao natural proporciona uma maior responsabilidade e respeito para com o local e, a partir daí, propaga essas atitudes para outros lugares em geral (MARQUES; COLESANTI, 2001).

Assim, devido à carência de trabalhos voltados para a percepção ambiental local, o presente estudo objetivou reconhecer e avaliar a mudança na percepção dos participantes em relação ao Parque do Lago, utilizando problemas ou situações reais que auxiliassem no desenvolvimento de ações individuais e coletivas.

 

METODOLOGIA

 

Esta pesquisa foi realizada entre os meses de agosto e dezembro de 2011, com 31 alunos do 7° ano “A” de um colégio estadual, localizado na cidade de Guarapuava/PR (Figura 1A). Neste espaço, foram realizadas investigações da percepção ambiental dos alunos, oficinas e atividades participativas (Figura 2) que permitiram revelar aos participantes, os aspectos naturais e ecossistêmicos do Parque do Lago (Figura 1B), bem como, o papel da população local na conservação da área. O método escolhido para a realização do trabalho foi a pesquisa-ação, considerada mais adequada por se constituir num tipo de pesquisa social no qual os pesquisadores e participantes estão envolvidos de modo cooperativo (THIOLENT, 2005).

 


Fonte: Google Earth. Autoria Kariny Zvir (2015).

Figura 1. Localização do colégio estadual no qual foi realizada a pesquisa (A) e do Parque do Lago (B), no município de Guarapuava/PR.

 

 

Fonte: Autoras (2012).

Figura 2. Oficinas ecopedagógicas desenvolvidas com os alunos do 7° ano. A. Alunos realizando a identificação de organismos bioindicadores da qualidade da água; B. Painel produzido pelos alunos durante a oficina “Qual a sua gota de contribuição?”; C. Atividade participativa intitulada “Equilíbrio do Ecossistema”; D. Alunos confeccionando a “Árvore da percepção”; E. Participação durante a “Gincana do lixo”; F. Participantes no Parque do Lago realizando a atividade “Caça ao tesouro”.

 

 

As informações referentes à percepção ambiental dos participantes, pré e pós-aplicação das oficinas, foram adquiridas por meio de diálogos informais em sala de aula, e as respostas foram transcritas imediatamente em bloco de notas, permitindo análises posteriores. As perguntas iniciais consistiam em: “O que vocês entendem por Meio Ambiente?”, “Vocês gostam do Parque do Lago? Por que?”, “Vocês acham o Parque do Lago importante? Por que?”, “Para que ou para quem o Parque do Lago é importante?”, e “O que vocês consideram mais interessante no Parque?”.

Após a realização das oficinas, o mesmo diálogo ocorreu em sala de aula, porém, com duas questões adicionais, como: “O que vocês consideram mais importante em relação às oficinas oferecidas?”, “As atividades desenvolvidas serão importantes em sua vida? Como?”. Com isso, as respostas pré e pós-oficinas foram comparadas, permitindo o registro e a discussão dos resultados, seguindo uma abordagem qualitativa de análise de discurso.

As oficinas foram realizadas semanalmente durante as aulas da disciplina de Ciências, abordando os conteúdos: água, solo, ar, fauna, flora, ecossistema e os problemas ambientais locais, regionais e globais, ressaltando a relação mutualística entre homem e meio ambiente. Como exemplos foram utilizados amostras e imagens dos componentes bióticos e abióticos do Parque do Lago e suas inter-relações.

 

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

 

Os resultados obtidos evidenciaram a influencia da pesquisa-ação no aperfeiçoamento cognitivo dos envolvidos no processo, e demonstraram que atividades educativas que contemplam o cotidiano dos participantes podem ser aliadas no desenvolvimento de uma sensibilização ambiental.

Para garantir a compreensão e a participação da comunidade nas questões ambientais é importante partir da sua concepção de ambiente, para que os temas abordados e os resultados obtidos sejam significativos para o grupo (REIGADA; TOZONI-REIS, 2004). Pensando nisso, a primeira questão realizada durante a coleta de dados, “O que vocês entendem por Meio Ambiente?”, buscou entender quais eram as concepções dos alunos a respeito deste conceito e as principais respostas encontram-se destacadas a seguir: “É Natureza”, “É um lugar bonito onde não jogam lixo no chão”, “É um lugar muito importante porque a gente precisa dele”, “É a natureza, os animais, tudo o que Deus Criou”, “O meio ambiente é onde os animais vivem”, “É o ar, os animais, as árvores...”, “É o lugar em que a gente vive”, “É a casa dos seres vivos”, “É um lugar onde tem floresta e sem poluição” e “É Tudo”.

Nesta primeira questão, verificou-se uma predominância da visão naturalista e “romântica” de grande parte dos participantes, bem como a ausência de clareza em relação ao conceito. Por diversas vezes, o meio ambiente foi classificado como a natureza essencial aos animais, “onde não jogam lixo” e “sem poluição", porém, de acordo com Oenning e Carniatto (2011) a confusão com esses termos é comum, já que a visão naturalista é observada nas imagens veiculadas pela mídia, que geralmente associam a ideia de meio ambiente à de natureza pura e intocada.

O distanciamento revelado em frases como, “o Meio Ambiente é onde os animais vivem”, demonstrou a ausência do sentimento de pertencimento ao ambiente. Segundo Rodrigues e Malafaia (2009) este tipo de concepção deixa de considerar o papel desempenhado pela espécie humana e sua responsabilidade direta na conservação ou extinção dos ecossistemas.

Em contrapartida, alguns participantes indicam uma concepção mais abrangente em expressões como, “onde vivemos” ou “é tudo”, demonstrando que é fundamental o exercício de uma abordagem educativa global, que contemple uma visão contextualizada da realidade ambiental (MALAFAIA; RODRIGUES, 2009).

Quando questionados após a intervenção, as principais respostas foram: “é um conjunto de coisas, envolve as plantas, animais, rios, seres humanos...”, “é tudo que está a nossa volta”, “é tudo que faz parte da nossa vida”, “é onde nós vivemos”. Apesar de não ser algo unânime, a definição mais aceita pelos autores caracteriza-se por unir tanto aspectos sociais quanto naturais do ambiente. Reigota (1995) acredita que meio ambiente é o lugar determinado ou percebido, onde os elementos naturais e sociais estão em relações dinâmicas e interativas. Por este motivo, acredita-se que os alunos tenham ampliado suas percepções sobre o assunto, englobando estes diferentes aspectos em suas respostas.

Na segunda questão, quando perguntado “Vocês gostam do Parque do Lago?” e “Por quê?”, todos os alunos responderam “sim”, e suas justificativas estão listadas a seguir: “Porque eu gosto das árvores e das plantas”, “Porque dá para ver os animais e outras coisas”, “Porque é bom ficar lá”, “Porque é bonito”, “Porque é bom andar nele”, “Porque é legal”, “Porque lá tem vários animais e se não tivesse o lago, eles não viriam”, “Porque dá um exemplo de Meio Ambiente”, “Pelo rio, a água”, “Porque é um lugar de lazer”, “Porque tem bastante espaço”, “Para jogar bola e correr”, “Para passear” e “Para brincar”.

Estas respostas, em alguns casos, evidenciaram o caráter utilitarista com que os participantes percebem o local. As atividades citadas como correr, passear e brincar caracterizam a importância social do Parque e foram as mais mencionadas. Em estudo semelhante, Andrade et al. (2006) constataram que os usuários se identificam com os parques através de um elo afetivo, pois reconhecem que tais áreas verdes são importantes para o seu lazer, conforto e sociabilidade. Contudo, o aspecto ambiental também foi apontado por alguns participantes que revelaram gostar do local em razão dos elementos naturais, como animais, plantas, água, etc.

No período de pós-oficina, suas justificativas foram: “Porque tem muitas coisas para observar”, “Porque além de ser bonito, tem animais e plantas”, “Porque ficamos mais perto da natureza”, “Porque dá para fazer várias coisas”, “Porque lá é possível se divertir e brincare “Porque a natureza é linda”.

As frases citadas pelos participantes indicaram que além dos espaços de lazer e recreação que possuem proeminente importância para a população, os alunos puderam atribuir importância ao espaço natural, compreendendo as principais funções do Parque para a população do município, destacando-se tanto a função social, como o lazer e a recreação, quanto à função ecológica e de preservação. Contudo, a dimensão estética mostrou-se muito aparente nas frases, como: “Porque além de ser bonito, tem animais e plantas” e “Porque a natureza é linda”. Nesse contexto, Tavares et al. (2009) enfatizam que a estética apresenta-se como elemento fundamental para a EA, viabilizando a compreensão sensível dos fatores culturais e sociais, e possibilitando o surgimento de diferentes mentalidades e comportamentos.

A terceira pergunta abordou a opinião dos alunos em relação à importância do Parque do Lago. Todos os alunos responderam “sim” para a pergunta “Vocês acham o Parque do Lago importante?”, e as justificativas foram: “porque é legal e por causa dos pássaros”, “Porque é lá que os animais vivem”, “Porque é um lugar que dá para correr, fazer ginástica e outras coisas”, “Por causa da pista de skate”, “Para nós termos um exemplo de meio ambiente”, “Porque tem um monte de árvores”, “Por causa da natureza”, “Porque todo mundo vai lá brincar”, “Porque incentiva a preservação da natureza”, “Porque é um lugar que todos podem utilizar”, “Porque é uma parte de Guarapuava” e “Porque ele deixa a cidade bonita”.

Novamente, constatou-se que muitos estudantes consideram o Parque importante pela questão social e, também, pelo fator turístico evidenciado na resposta “Porque ele deixa a cidade bonita”. Mesmo assim, a natureza presente na área não deixou de ser mencionada, indicando que as opiniões estão divididas entre o valor apenas social e o ambiental.

Atualmente, com os problemas gerados pelas cidades modernas, as áreas verdes são uma exigência não só para a ornamentação urbana, mas também como necessidade essencial de recreação e de defesa do meio ambiente diante da degradação. Estas áreas têm a função de melhorar a qualidade de vida, seja para fins de lazer, equilíbrio climático, preservação ambiental e construção da paisagem urbana (PEREIRA, 2010). Assim, a vegetação urbana tem um papel preponderante na manutenção da qualidade ambiental no meio urbano, tanto em seus aspectos ecológicos quanto socioeconômicos. Isso deixa claro que apesar da divisão de opiniões mostrada pelos alunos, todos perceberam a importância do Parque, seja social ou ambiental, caracterizando um grande passo para que haja uma mudança de suas percepções.

No segundo questionamento, os participantes justificaram considerar o Parque importante pelos motivos: “Porque ele possui vegetais e animais, o lago é seu habitat”, “Porque muitas espécies moram ali”, “Porque é um ecossistema dentro da cidade”, “É importante para os animais que vivem lá e os animais são importantes para nós”, “Porque é a casa de muitos animais, pois o ser humano está destruindo a casa deles”, “Porque tem as plantas que fazem fotossíntese e produzem nosso ar”, “Porque as pessoas podem fazer muitas coisas lá”, “Porque dá para correr e fazer ginásticae “Porque é um ponto turístico de Guarapuava”.

Evidenciou-se a mudança na percepção dos alunos ao considerar o local importante pela beleza natural e, principalmente, por conter as espécies animais e vegetais, constituindo um ecossistema no interior de um centro urbano. Neste sentido, Guzzo (2006) observa que estes locais proporcionam um verdadeiro refúgio para a fauna e a flora, por este motivo, as áreas verdes possuem função ecológica dentro das áreas urbanas. Além disso, quando um dos alunos citou “Porque é a casa de muitos animais, pois o ser humano está destruindo a casa deles”, revelou-se a compreensão da ação predatória que o ser humano exerce nos ambientes. Por este motivo, Silva (2004) ressalta que esta busca de experiências nestes espaços é indispensável, pois desperta a valorização e a compreensão da importância do ambiente natural no local em que se vive.

Na pergunta “Para que ou para quem o Parque do Lago é importante?”, as respostas não foram muito diversas: Para todos nós e para a natureza”, “Para o prefeito e para as pessoas”, “Para fazer ginástica”, “Para o meio ambiente”, “Para nós”, “Para todos”, “Para abrigar os animais” e “Para as crianças brincarem e para fazer exercícios”.

Os participantes demonstraram que o Parque possui grande importância em relação às atividades que oferece aos visitantes, no entanto, foi muito mencionado como algo de valor geral para todos da comunidade e do município. Além de citações em que os animais e a natureza são apresentados, percebe-se que os alunos têm uma visão ainda superficial e fragmentada, evidenciando a falta de percepção do seu caráter ecossistêmico.

Em algumas respostas, observou-se uma divisão entre o que é importante aos animais que vivem no local e o que é importante aos seres humanos que o frequentam. Assim, de acordo com Rovani (2011), esta exclusão que o ser humano faz de si mesmo em relação à natureza, é derivada do progresso da técnica moderna, que se baseia numa lógica de exploração utilitária do meio ambiente, conduzindo o homem a entender-se não mais como parte da natureza, mas sim como dominador desta.

Após a intervenção, as respostas foram: “Para todos, ser humano, animais, plantas...”, “Para nós”, “Para as pessoas brincarem e conhecerem a natureza”, “Para a população de Guarapuava” e “Para os animais”. Neste caso, percebe-se uma visão mais ampla sobre o assunto, avaliando que o Parque é de grande importância para todos que o frequentam, para a população em geral e para as espécies locais, não havendo distinção entre a importância social e a ambiental quando se referem à relevância do local para o ser humano, como ocorreu na questão prévia.

A última pergunta realizada durante a pesquisa prévia foi “O que vocês consideram mais interessante no Parque do Lago?” e as diferentes respostas são: “Os equipamentos de ginástica”, “O campo de futebol”, “O parque todo”, “O meio ambiente”, “A pista de corrida”, “As árvores”, “Os animais, o meio ambiente”, “As flores, o lago”, “A natureza, ou seja, animais e vegetação”, “A água”, “Os peixes”, “Tudo que podemos utilizar principalmente as calçadas para podermos correr” e “A pista de skate”. Já na segunda pesquisa, as respostas citadas foram: “A natureza”, “A vegetação”, “Várias coisas, “O campo de futebol”, “Tudo é interessante”, “Os animais”, “Os bichos e as pontes”, “O lago” ou “A água” e “A pista de skate”.

Nestas duas pesquisas, fica claro que as opiniões eram muito divididas. Contudo, embora cada participante apresentasse sua preferência individual, o Parque do Lago mostrou-se como um ambiente que evidência a possibilidade de convívio entre o social e o ambiental, sendo que um tem grande influência sobre o outro. Sendo assim, pôde-se perceber o reconhecimento das dimensões socioambientais do Parque, importantes no sentido de promover a sensibilização destes frequentadores quanto à preservação ambiental da área, bem como, a preservação do espaço construído, que constituem um bem público para o município.

Além destas questões, duas perguntas complementares foram realizadas no final da pesquisa, visando avaliar a eficácia das oficinas oferecidas. A primeira delas referia-se ao trabalho como um todo e tinha o intuito de reconhecer o que os alunos haviam compreendido durante as atividades. A pergunta foi “O que vocês consideram mais importante em relação às oficinas oferecidas?”, e as respostas foram: “Todos os conteúdos são importantes”, “Sobre a reciclagem e outras coisas”, “Sobre preservar a natureza”, “Os parâmetros básicos da qualidade de água”, “Sobre as relações do meio ambiente”, “Sobre a preservação do Parque do Lago”, “O conteúdo sobre poluição”, “Sobre o solo e a absorção da água” ou “Sobre a erosão e as aulas demonstrativas”, “As sementes que professora Gabriela me deu para plantar” e “Nossa ida ao lago, pois mostrou que aprender pode ser divertido”.

As respostas para essa questão abrangeram grande parte dos conteúdos apresentados, demonstrando que cada indivíduo identificou-se com pelo menos uma das atividades, muitas vezes representando algum fato presente em sua realidade. De acordo com Silva et al. (2009) a interação aluno/ambiente que a oficina proporciona, oferece ao educando uma percepção diferente, pois tratam-se de elementos que ele conhece e que fazem parte do seu cotidiano. Ao procurar correlacionar conhecimentos científicos com questões sociais, ambientais, econômicas e outras, as oficinas contribuem para a construção de uma visão mais global do mundo e criam condições para que as aprendizagens se tornem úteis no dia-a-dia (CACHAPUZ et al., 2000).

Em relação à última questão: “As atividades desenvolvidas serão importantes na sua vida? Como?”, todos os alunos confirmaram a importância das atividades em suas vidas e os exemplos que caracterizaram essa resposta foram: “Em muitas coisas”, “Aprendi como cuidar melhor da natureza”, “Aprendi como cuidar do meio ambiente”, “Aprendi a ver se a água está poluída”, “Aprendi que é bom separar o lixo para a coleta seletiva”, “Vou incentivar meus amigos a preservar o Parque”, “Em tudo. Vou economizar mais água, não consumir coisas que não preciso...” e “Dar mais valor as plantas, aos animais”.

A maioria das citações diz respeito a atitudes ambientais, reconhecendo que as atividades desenvolvidas foram significativas para promover a reflexão e rever determinados comportamentos, substituindo-os por melhores formas de conviver com o ambiente em que vivem, melhorando sua qualidade de vida e preservando o meio a sua volta. De acordo com Marcondes (2008), as oficinas temáticas se configuram como um recurso muito apropriado para divulgar conhecimentos da ciência e para provocar reflexões sobre atitudes e comportamentos ambientalmente favoráveis. Portanto, ao desenvolver a oficina, o aluno tem a oportunidade de refletir sobre o que ocorre no meio ambiente e identificar o seu papel no processo, passando a ter ideia do que ocorre no meio em que ele está inserido. Enquanto fica só na teoria, a noção que se tem é que tudo está muito longe e é uma realidade da qual não fazemos parte (FUCHS, 2008).

Assim, verificou-se que o presente trabalho ao integrar investigação e intervenção, potencializou os resultados em favor da ampliação de conhecimentos e consciência dos educandos a respeito de sua realidade. A partir dos diálogos em sala de aula e das oficinas realizadas, tornou-se viável a mudança das visões estereotipadas que os participantes desta pesquisa possuíam a respeito do ambiente local e regional, utilizando os problemas ou situações reais e frequentes em seus cotidianos. Portanto, através da pesquisa-ação, os participantes deixaram de ser “objetos” da pesquisa e tornaram-se “sujeitos” da investigação científica e da ação educativa.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

O presente estudo demonstrou que as atividades de EA foram significativas, tornando possível evidenciar a mudança da percepção ambiental da maioria dos participantes em relação ao Parque do Lago, e a conceitos ambientais básicos, como meio ambiente, por exemplo. As respostas relatadas pelos sujeitos da pesquisa indicaram que estes reconheceram a importância da preservação ambiental para todo o ecossistema. O ser humano passou a ser incluído aos conceitos de meio ambiente e natureza e por este motivo, pode-se considerar que os sujeitos compreenderam a relação do homem com o meio do qual faz parte, bem como, seu papel fundamental na conservação ambiental e na manutenção do bem estar de todos os seres vivos com os quais se interrelaciona.

As oficinas ecopedagógicas desenvolveram o sentimento de pertencimento e afetividade pelo ambiente natural, bem como, pelo Parque do Lago. Os alunos compreenderam o Parque como um sistema e não apenas como um ambiente destinado ao lazer e a recreação. As dimensões sociais e ambientais passaram a ser consideradas em conjunto, proporcionando um entendimento sobre a importância da área para a população do município e para as espécies locais. Assim, a análise das percepções ambientais dos envolvidos evidenciou o processo de construção dos conhecimentos ambientais, com os quais os alunos perceberam que com atitudes simples e diárias, podem preservar o meio ambiente do qual fazem parte e melhorar sua própria qualidade de vida.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

ANDRADE, B. R. D.; LIMA, F. H.; MARCONDES, G. A.; CANHAS, I. N.; FONSECA, M. T.; BARBOSA, S. B. L.; RIBEIRO, W. C.; LEITE, E. B. Ecossistemas e áreas verdes urbanas: um estudo de percepção ambiental no Parque Julien Rien, região centro-sul de Belo Horizonte. Revista Sinapse Ambiental, Betim/MG, v. 3 n. 2, p. 1-10, 2006.

 

CACHAPUZ, A. F.; PRAIA, J. F.; JORGE, M. P. Perspectivas de ensino das ciências. In: CACHAPUZ, A. (Org.). Formação de Professores/Ciências. Porto: CEEC, 2000.

 

CARVALHO, E. K. M. A.; SILVA, M. M. P.; CARVALHO, J. R. M. Percepção ambiental dos diferentes atores sociais de Vieirópolis, PB. Revista Eletrônica Qualitas, Paraíba/PB, v. 13, n. 1, p. 1-11, 2012.

 

CHAPANI, D. T.; DAIBEM, A. M. L. Educação Ambiental: ação-reflexão-ação no cotidiano de uma escola pública. In: TALAMONI, J. L. B.; SAMPAIO, A. C. Educação Ambiental: da prática pedagógica à cidadania. São Paulo: escrituras, Cap. 2, p. 21-39, 2003.

 

DIAS, G. F. Educação Ambiental: princípios e práticas. 4ª ed. São Paulo: Gaia, 1992. 552p.

 

FUCHS, R. B. H. Educação ambiental como desenvolvimento de atividades interdisciplinares na 5ª série do ensino fundamental. Monografia de Especialização. Universidade Federal de Santa Maria, UFSM. Santa Maria/RS, 2008. 54p.

 

GUZZO, P. Áreas verdes urbanas. 2006. Disponível em: <http://www.educar.sc.usp.br/biologia/prociencias/areasverdes.html>. Acesso em: 16/01/2015.

 

MALAFAIA, G.; RODRIGUES, A. S. L. Percepção ambiental de jovens e adultos de uma escola municipal de ensino fundamental. Revista Brasileira de Biociências, Porto Alegre, v. 7, n. 3, p. 266-274, jul./set. 2009.

 

MARCONDES, M. E. R. Proposições metodológicas para o ensino de química: oficinas temáticas para a aprendizagem da ciência e o desenvolvimento da cidadania. Revista em Extensão, Uberlândia/MG, v. 7, n. 1, p. 67-77, 2008.

 

MARCZWSKI, M. Avaliação da percepção ambiental em uma população de estudantes do ensino fundamental de uma escola municipal rural: um estudo de caso. Dissertação de mestrado. Universidade Federal do Rio Grande do Sul, UFRGS. Porto Alegre/RS, 2006. 188p.

 

MARIN, A. A.; OLIVEIRA, H. T.; COMAR, V. A educação ambiental num contexto de complexidade do campo teórico da percepção. Revista Asociación Interciencia, Venezuela, v. 28, n. 10, p. 616-619, 2008.

 

MARQUES, D. V.; COLESANTI, M. T. M. Uma proposta de Educação Ambiental para áreas verdes: o exemplo do bosque John Kennedy, Araguari/MG. V Mostra de artes das Universidades Federais de Minas Gerais. Anais do V Congresso de Ciências Humanas, Letras e Artes. Ouro Preto/MG, 2001.

 

MERQUIDES, J. R.; MALVESTI, S. R.; OGNIBENI, W. C.; LIMA, M. S. Parque municipal São Francisco de Assis: importância socioambiental à população. Centro Técnico-educacional Superior do Oeste Paranaense. Assis Chateaubriand/PR, 2011. 23p.

 

OENNING, V.; CARNIATTO, I. Implicações das representações sociais de meio ambiente na relação homem-natureza para a educação ambiental: um estudo a partir das definições de alunos moradores da zona rural do Paraná. Revista Eletrônica Educação ambiental em Ação, n. 38, p. 01, 2011.

 

PEREIRA, R. V. Áreas verdes e a questão sócio-ambiental na cidade de Campos Gerais/MG. Anais do XVI Encontro Nacional dos Geógrafos. Porto Alegre/RS, jul. 2010. 13p.

 

REIGADA, C.; TOZONI-REIS, M. F. C. Educação Ambiental para crianças no ambiente urbano: uma proposta de pesquisa-ação. Revista Ciência & Educação, Bauru/SP, v. 10, n. 2, p. 149-159, 2004.

 

REIGOTA, M. Meio Ambiente e representação social. São Paulo: Cortez, 1995. 91p.

 

RODRIGUES, A. S. L.; MALAFAIA, G. O meio ambiente na concepção de discentes no município de Ouro Preto/MG. Revista Eletrônica de Estudos Ambientais, Blumenau/SC, v. 11, n. 2, p. 44-58, 2009.

 

ROVANI, A. Ética ambiental: a problemática concepção do homem em relação à natureza. Revista Direitos Culturais, Santo Ângelo/RS, v. 6, n. 11, p. 13-22, 2011.

 

SALGADO, G. N.; OLIVEIRA, H. T. Percepção ambiental das/os participantes envolvidos com o projeto Brotar (microbacia do córrego água quente, São Carlos/SP) como subsídio a Educação Ambiental. Revista Eletrônica do Mestrado em Educação Ambiental, Rio Grande/RS, v. 24, p. 397-412, 2010.

 

SILVA, M. G. L. Cidades turísticas: identidades e cenários de lazer. São Paulo: Aleph, 2004.

 

SILVA, E. A.; RAMOS, E. A.; BHERING, L. S.; MUGGLER, C. C. Percepção da paisagem: (re)descobrindo o espaço vivido. Anais do XIII Simpósio Brasileiro de Geografia Física Aplicada. Universidade Federal de Viçosa, UFV. Viçosa/MG, jul. 2009.

 

TAVARES, C. M. S.; BRANDÃO, C. M. M.; SCHMIDT, E. B. Estética e Educação Ambiental no paradigma da complexidade. Revista Pesquisa em Educação Ambiental, Rio Claro/SP, v. 4, n. 1, p. 177-193, 2009.

 

THIOLLENT, M. Metodologia da pesquisa-ação. 14ª ed. – São Paulo: Cortez, 2005.

 

 

 

 



" data-layout="standard" data-action="like" data-show-faces="true" data-share="true">
 
Início      Cadastre-se!      Procurar      Submeter artigo      Contato     Apresentação     Normas de Publicação     Artigos     Dicas e Curiosidades     Reflexão     Para sensibilizar     Dinâmicas     Entrevistas     Culinária     Arte e ambiente     Divulgação de Eventos     O que fazer para melhorar o meio ambiente     Sugestões bibliográficas     Educação     Plantas medicinais     Práticas de Educação Ambiental     Notícias     Educação e temas emergentes     Ações e projetos inspiradores     Relatos de Experiências