ISSN 1678-0701
Número 66, Ano XVII.
Dezembro/2018-Fevereiro/2019.
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04/12/2018A INFLUÊNCIA DO DESEQUILÍBRIO AMBIENTAL SOBRE AS DOENÇAS TRANSMITIDAS POR AEDES AEGYPTI  
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A INFLUÊNCIA DO DESEQUILÍBRIO AMBIENTAL SOBRE AS DOENÇAS TRANSMITIDAS POR AEDES AEGYPTI

THE INFLUENCE OF THE ENVIRONMENTAL IMBALANCE ON DISEASES TRANSMITTED BY AEDES AEGYPTI

Luciana Andrade da Silva1; Maria Geralda de Miranda2, Alexandra Anastácio Monteiro Silva3, Patricia Maria Dusek4, Kátia Eliane Santos Avelar5



1Mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Local do Centro Universitário Augusto Motta (UNISUAM). Docente do Centro Universitário Augusto Motta (UNISUAM), Rio de Janeiro, RJ. E-mail: lpjandrade@gmail.com.

2Pós doutora em Políticas Públicas e Formação Humana pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Docente e Pesquisadora da Universidade Santa Úrsula (USU) e do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Local do Centro Universitário Augusto Motta (UNISUAM), Rio de Janeiro, RJ. E-mail: mgeraldamiranda@gmail.com.

3Doutora em Ciência de Alimentos pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Docente e Pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Nutrição da Universidade Federal Fluminense (UFF). E-mail: alexandraamonteiro@gmail.com.

4Pós doutora em Justiça Constitucional pela Università di Pisa. Coordenadora, Docente e Pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Local do Centro Universitário Augusto Motta (UNISUAM), Rio de Janeiro, RJ. E-mail: patricia.dusek@unisuam.edu.br.



5Doutora em Ciências pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, UFRJ. Docente e Pesquisadora da Universidade Santa Úrsula (USU) e do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Local do Centro Universitário Augusto Motta (UNISUAM), Rio de Janeiro, RJ. E-mail: katia.avelar@gmail.com

RESUMO

O desequilíbrio ambiental favorece o crescimento desordenado de mosquitos. Este artigo discute aspectos socioambientais sobre as doenças veiculadas pelo Aedes aegypti, com o objetivo de divulgar dados importantes para a melhoria da qualidade de vida da população estudada, caracterizando-se como um projeto de educação ambiental junto à comunidade.

Palavras-chave: Meio ambiente, educação ambiental, doenças veiculadas por mosquitos, gestantes.

ABSTRACT

The environmental imbalance favors the disorderly growth of mosquitoes. This paper discusses socio-environmental aspects of the diseases transmitted by Aedes aegypti, with the objective of disseminating important data for the improvement of the quality of life of the studied community, characterizing itself as an environmental education project in the community.

Keywords: Environment, environmental education, mosquito-borne diseases, pregnant women.

INTRODUÇÃO

O aquecimento global intensificou todos os fatores que favorecem a multiplicação dos mosquitos vetores, tais como intensa urbanização, saneamento básico deficitário em muitas regiões, destruição da fauna e flora e os bolsões de pobreza que dominam as periferias das grandes metrópoles (ZARA et al., 2016; MACIEL et al., 2008). Além do aquecimento global, a alta taxa de emigração de um país a outro facilita a disseminação de diferentes tipos de doenças, como é o caso das doenças transmitidas por espécies do gênero Aedes.

As doenças transmitidas por várias famílias de mosquitos foram descritas desde o século XIX e algumas no século XX. Os vírus Chikungunya e Zika foram descobertos na África nas décadas de 1940 e 1950. O mosquito transmissor da dengue, o Aedes aegypti, é ainda mais antigo. Aedes em grego significa odioso, e o Egito foi o lugar onde este mosquito foi descrito pela primeira vez em 1762. Os mosquitos do gênero Aedes, atualmente, estão em evidência na mídia e transmitem três doenças de grande impacto para a sociedade que são a dengue, zika e chikungunya (FLAUSINO; SANTOS-SOUZA; OLIVEIRA, 2011). No Brasil, tais doenças, ditas negligenciadas, recebem pouca atenção pelas autoridades, responsáveis pela saúde pública do país.

As questões relativas ao ambiente e sua influência sobre a saúde estão intimamente interligadas. Torna-se impossível conceber condições de saúde favoráveis em um contexto socioambiental precário ou comprometido. Assim, quando se aborda o desenvolvimento sustentável, a saúde pública precisa ser levada em consideração, visto que situações de risco ambiental ou de saúde são insustentáveis ao longo do tempo e comprometem os pilares do desenvolvimento, no que ser refere aos aspectos econômico, social e ambiental. Portanto, este artigo discute alguns aspectos ligados ao desequilíbrio ambiental que agravam as doenças transmitidas pelo mosquito Aedes spp. e a problemáticas dessas doenças para a saúde pública.

O desequilíbrio ambiental e o espalhamento de mosquitos

A população mundial já ultrapassou a marca de 7,0 bilhões de habitantes. Estima-se 8,8 bilhões de pessoas até 2035, um aumento de 1,5 bilhão, principalmente devido ao desenvolvimento dos países emergentes (ROCKEFELLER FOUNDATION/ GBN, 2010). Com o aquecimento da economia global houve um aumento do consumo, principalmente, de produtos industrializados, como latas de alumínio, pneus de automóveis e garrafas plásticas, que são descartados todos os dias. Inclui-se nesta lista os materiais considerados tóxicos, como o lixo hospitalar, os materiais contaminantes, como baterias de celular e laptops, pilhas alcalinas, dentre outros. O descarte inadequado desses materiais tem propiciado condições ambientais adequadas para o acúmulo de água, necessária ao desenvolvimento de mosquitos, como é caso dos mosquitos do gênero Aedes, transmissores das doenças, Dengue, Zika e Chikungunya, que necessitam de água para a eclosão dos ovos (SOARES-PINHEIRO et al., 2016).

As doenças transmitidas pelos mosquitos do gênero Aedes podem ser consideradas de caráter socioambiental, uma vez que há evidências de que uma alta concentração de lixo, muito comum nas áreas de expansão urbana e as condições climáticas dos países tropicais, como o Brasil, favorecem o desenvolvimento do mosquito (COELHO, 2012).

Os mosquitos vetores dos vírus Dengue, Zika e Chikungunya pertentem ao gênero Aedes. As espécies Aedes aegypti e Aedes albopictus são as principais transmissoras de tais vírus. Esses insetos têm conseguido explorar o ambiente antrópico, na busca de condições adequadas de sobrevivência do mosquito adulto e habitats para suas formas imaturas, de forma a aumentar a densidade e a dispersão ativa e passiva do vetor (COELHO, 2012). A situação agrava-se pelas condições precárias de saneamento ambiental, pela utilização intensa de recipientes descartáveis e não biodegradáveis, como os de plástico e de vidro, com o consequente descarte inadequado de tais materiais.

O mosquito é originário do Egito, na África, e vem se espalhando pelas regiões tropicais e subtropicais do planeta desde o século XVI, inicialmente por meio de navios que traficavam escravos. O vetor foi descrito cientificamente pela primeira vez em 1762, mas o seu nome definitivo, Aedes aegypti, só seria estabelecido em 1818. No Brasil, os primeiros relatos de dengue datam do final do século XIX, em Curitiba, no Paraná, e do início do século XX, em Niterói, no Rio de Janeiro (IOC/FIOCRUZ, 2018).

No início de século XX, o mosquito já era um problema, mas não por conta da dengue: na época, a principal preocupação era a transmissão da febre amarela urbana. Em 1955, o Brasil erradicou o Aedes aegypti como resultado de medidas para controle da doença. No entanto, no final da década de 1960, foi verificado que o vetor estava presente novamente em território nacional. Hoje, o mosquito é encontrado em todos os estados brasileiros (SIQUEIRA et al., 2014).

Um dos principais problemas ambientais da atualidade é a produção em grande escala de resíduos em nível domiciliar e a sua inadequada destinação, estando os olhares voltados quase que totalmente para a cozinha, produtora de boa parte dos resíduos de uma residência. Siqueira et al., (2014) aponta que ações esclarecedoras e questionamentos acerca de saúde ambiental são fundamentais para a educação e para o compromisso com o ambiente em que vivem, tornando-os cidadãos conscientes acerca dos problemas que práticas danosas trazem ao mesmo, estimulando mudanças de hábitos de forma esclarecida para que sejam instrumentos importantes para a conservação do ambiente.

Deve-se atentar para alguns aspectos, como destino final do lixo, em que se deve alertar a população para que passem a observar como esses resíduos são dispostos na natureza: céu aberto; aterros controlados, aterros sanitários, usinas de compostagem, usinas de incineração e orienta-los sobre a reciclagem que é a opção mais adequada tanto do ponto de vista ecológico quanto do econômico. Os desperdícios causados pela não reciclagem do lixo são decorrentes do desconhecimento de seu valor econômico, de sua viabilidade para ser reaproveitado como matéria prima bem como das deficiências de políticas públicas voltadas para a implementação e gestão. Observando essas questões, a reutilização contribui para a redução dos aspectos ambientais causados pelas formas anteriores e para poupar em partes a utilização dos recursos naturais além abrir postos de trabalho nas usinas de reciclagem despertando uma consciência ambientalmente correta e principalmente para uma mudança de conduta na gestão dos resíduos sólidos produzidos por ele ao longo de sua existência, mostrando de forma simples e objetiva o potencial econômico gerado pelo lixo utilizando a reciclagem bem como a necessidade da preservação do meio ambiente (GONZAGA; RIBEIRO; DE ARAÚJO, 2015).

A problemática ambiental gerada pelo lixo é de difícil solução e a maior parte das cidades brasileiras apresenta um serviço de coleta que não prevê a segregação dos resíduos na fonte. Nessas cidades é comum se observar hábitos de disposição final inadequados de lixo. Materiais sem utilidade se amontoam indiscriminada e desordenadamente, muitas vezes em locais indevidos como lotes baldios, margens de estradas, fundos de vale e margens de lagos e rios (IBGE, 2014).

Portanto, há urgente necessidade da elaboração, implantação e implementação de Políticas Públicas que contemplem medidas efetivas de saneamento básico, para reversão do quadro atual da dengue, promovendo o controle do vetor (Aedes aegypti) e a prevenção da doença, complicações e óbitos no país. A participação da sociedade civil é de fundamental importância para o combate à dengue, Zika e Chikungunya cumprindo o seu papel em seus domicílios e em comunidades onde residem (ROCHA; DANTAS; CÂNDIDO, 2014).

O mosquito Aedes aegypti é a principal espécie responsável pela transmissão do dengue. Um mosquito doméstico, antropofílico, com atividade hematofágica diurna e utiliza-se preferencialmente de depósitos artificiais de água limpa para colocar os seus ovos. Estes têm uma alta capacidade de resistir à dessecação, mantendo-se viáveis na ausência de água por até 450 dias. O A. aegypti tem mostrado uma grande capacidade de adaptação a diferentes situações ambientais consideradas desfavoráveis (COELHO, 2012).

Aspectos ambientais da dengue e a problemática para as gestantes

A dengue é hoje objeto da maior campanha de saúde pública do Brasil, que se concentra no controle do A. aegypti que é o único vetor reconhecido como transmissor do vírus da dengue em nosso meio.

A circulação simultânea de diferentes sorotipos demonstra que infecções sucessivas aumentam o aparecimento de formas clínicas mais graves, como foi evidenciado pela presença de formas hemorrágicas após a introdução do DEN-2. Assim sendo, a introdução de novos sorotipos de vírus DEN no Brasil eleva o risco de aparecimento das formas clínicas mais graves da doença. Medidas preventivas, condutas clínico-terapêuticas e ações de controle são medidas que devem ser implementadas precocemente. Paralelamente, a identificação do(s) sorotipo(s) circulante(s) na população possibilita uma melhor compreensão do quadro epidemiológico e das manifestações clínicas (MOTA, 2012).

A ocorrência de síndromes neurológicas após processos infeciosos pelo vírus da dengue e chikungunya está descrita desde a década de 1960, e com o Zika vírus desde 2007, especialmente após os surtos ocorridos na região da Micronésia e Polinésia Francesa (OEHLER et al., 2014).

Dentre as manifestações neurológicas, é sabido que a síndrome de Guillain-Barré (SGB) é uma das mais frequentes. A SGB é uma manifestação autoimune tardia que pode ser desencadeada por processos infecciosos ou não infecciosos. Apesar da maior parte das manifestações (2/3 dos pacientes) estar relacionada a processos infecciosos, isso não significa que seja exclusivamente por infecção relacionada à dengue, zika ou chikungunya (TAITSON, 2016).

A suspeita de dengue é fundamentalmente clínica e sua evolução não é diferente entre grávidas e não grávidas. A classificação quanto à gravidade da dengue é fundamentada em bases clínicas, conforme os critérios propostos pela OMS. Deve-se considerar que a doença na gravidez ocasiona risco maior para desfecho adverso materno fetal, como ocorre transmissão vertical, há o risco de aborto no primeiro trimestre e de trabalho de parto prematuro, quando adquirida no último trimestre. Existe também uma incidência maior de baixo peso ao nascer em mulheres que tiveram dengue durante a gravidez (WADUGE et al., 2006).

Quanto ao impacto causado pela dengue durante a gestação não está completamente esclarecido, sendo controversa a ocorrência dos desfechos relatados na literatura. No entanto, é plausível supor que a relativa imunossupressão fisiológica materna durante a gestação possa contribuir para ocorrência de infecções que evoluam com maior gravidade em gestantes. Adicionalmente, a infecção pode contribuir para aumentar a susceptibilidade fetal à infecção congênita, podendo assim desencadear desfechos adversos na saúde de ambos, gestantes e conceptos (WADUGE et al., 2006).

Friedman et al. (2014) corrobora, esclarecendo que a preocupação com as mulheres que estão grávidas infectadas com dengue foi intensificada nos últimos anos devido a um aumento nas infecções e atualmente, não está claro se a infecção da dengue em uma mulher grávida resulta em sérios problemas de saúde para a mãe ou a criança. Em caso de suspeita de dengue, sobretudo em um contexto epidemiológico favorável, são fundamentais um diagnóstico precoce e uma conduta adequada para se prevenirem maiores complicações maternas e fetais.

Algumas considerações sobre a chikungunya

A febre chikungunya é uma doença viral transmitida aos seres humanos pela picada de mosquitos infectados do gênero Aedes aegypti e Aedes albopictus. O vírus Chikungunya é um membro da família Togaviridae.

Uma série de casos de chikungunya demonstrando transmissão materno-fetal foi relatada durante um surto de chicungunya em 2005-2006 na África. O maior risco de aborto tem sido relatado com infecção materna durante o primeiro trimestre, do que quando a doença é adquirida no último trimestre (GÉRARDIN et al., 2014).

Existe pouca informação sobre a prevalência do vírus Chikungunya e incidência de transmissão materno-fetal de infecções chicungunya e dengue (VASCONCELOS, 2014). Estudos realizados na Tailândia apontam que, 4 meses após a eclosão de chikungunya no país, as soroprevalências de chikungunya e dengue foram bastante elevadas, em 71 % e 90 %, respectivamente. Entretanto, a maioria das mulheres grávidas estudadas apresentavam apenas infecções assintomáticas, sendo a co–infecção muito rara. Nenhuma das crianças nascidas de mães infectadas desenvolveram infecções congênitas durante o período pré-parto. Entretanto, outros estudos descrevem episódios severos registrados, incluindo transmissão vertical mãe-feto, abortos, lesões bolhosas graves, meningoencefalite e outros agravos, estimando-se que, de 2004 a 2009, houve mais de 10 milhões de casos de febre chikungunya (SIKKA et al., 2016).

Aspectos socioambientais da zika e a gestação

Os sintomas e sinais de infecção da zika geralmente ocorrem de 3 a 12 dias após a picada do mosquito-vetor, Aedes aegypti, e termina dentro de 2 a 7 dias. ​​Embora a infecção assintomática é comum, aproximadamente 20% dos humanos infectados com zica tornam-se sintomáticos com o início agudo de febre, exantema maculopapular, conjuntivite (e outras manifestações oftalmológicas) e artralgias. A doença é geralmente leve e dura até 1 semana. A mortalidade é baixa e a hospitalização é pouco frequente. A apresentação clínica do paciente (sinais e sintomas são semelhantes aos observados em outras infecções virais transmitidas por mosquitos, como a dengue e chicungunha. Embora a transmissão do zika virus ocorra predominantemente através de mosquitos vetores, outros modos de transmissão também têm sido propostas, incluindo transfusão de sangue e as relações sexuais (ZANLUCA et al., 2017).

Assim como a dengue, é fundamental que as pessoas reforcem as medidas de eliminação dos criadouros de mosquitos nas suas casas e na vizinhança. Quando há notificação de caso suspeito, as Secretarias Municipais de Saúde devem adotar ações de eliminação de focos do mosquito nas áreas próximas à residência e ao local de atendimento dos pacientes (BRASIL, 2016).

Não existem guias que orientem o tratamento. Assim, o manejo depende de relatos de outras epidemias (asiáticas e africanas) e da experiência adquirida na abordagem de outras arboviroses, como dengue. O tratamento da febre zika inclui, basicamente, repouso, hidratação e tratamento sintomático (TAITSON, 2016).

A influência dos problemas sociais e ambientais sobre Zika, dengue e chicungunya

O diagnóstico específico de zika, chikungunya e dengue em regiões tropicais representam um enorme desafio, devido à sobreposição dos sintomas nas diferentes arboviroses. A disseminação da doença está intimamente relacionada com os determinantes de ordem socioeconômica. A dengue pode ser considerada um subproduto da urbanização acelerada e sem planejamento, característica dos centros urbanos de países em desenvolvimento (GONÇALVES et al., 2015).

Não se observa apenas um ritmo de crescimento desigual das cidades, articulado à modernização forçada do campo, mas uma profunda desigualdade de distribuição de recursos, que possibilita a existência de áreas e de populações em situações de vulnerabilidade. De modo geral, esses dois condicionantes se agregam a outros da determinação social da saúde. Neste contexto, a acumulação por espoliação territorial, além de gerar conflitos sociais, incide fortemente na determinação do processo saúde-doença individual e coletivo com graves implicações sobre a vida, o adoecimento e a morte, sendo que os efeitos mais adversos deste modelo atingem especialmente grupos sociais vulnerabilizados (FLAUZINO; SANTOS-SOUZA; OLIVEIRA, 2011).

Neste contexto, o manejo inadequado do lixo e a irregularidade do abastecimento de água são fatores considerados como responsáveis pela manutenção da endemia da dengue, pois pode gerar um grande número de criadouros potenciais do vetor; logo, as informações repassadas para a população devem contemplar medidas preventivas (FLAUZINO; SANTOS-SOUZA; OLIVEIRA, 2011).

Segundo dados da Pesquisa Nacional de Saneamento Básico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o Brasil produz 228.413 toneladas de lixo em média por dia, não havendo local adequado para cerca de 50,8% desse total (IBGE, 2014), descartados no solo sem nenhum tipo de impermeabilização ou controle para minimizar seus impactos do descarte de resíduos e evitar a poluição.

Sendo assim, o desenvolvimento sustentável poderia também ser chamado de desenvolvimento responsável, onde o Estado e a sociedade civil organizada imponham limites sociais às estruturas econômicas, de modo que a evolução extrativista ou transformadora atenda a ética de uma função social do progresso com a preservação dos recursos naturais para as gerações futuras e diminuição dos resíduos inaproveitáveis no ciclo econômico.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A proliferação do Aedes é diretamente proporcional às péssimas condições sanitárias, uma vez que a dengue, chikungunya e zika compartilharem o mesmo vetor, o Estado deve implementar medidas efetivas para o controle da doença, com especial atenção para a educação da população.

Deve-se atentar para os aspectos relevantes, como o destino final do lixo, em que se deve alertar à população para que passem a observar como esses resíduos são dispostos na natureza: céu aberto; aterros controlados, aterros sanitários, usinas de compostagem, usinas de incineração e orientá-los sobre a reciclagem, que é a opção mais adequada tanto do ponto de vista ecológico, quanto do econômico.

Para a equipe de saúde, mostra-se necessário treinamento específico e maior vigilância de sinais e sintomas indicativos de evolução atípica ou grave das infecções. Deve-se disponibilizar uma educação médica continuada sobre o tema, haja vista que a maioria dos pacientes são conduzidos clinicamente, por médicos generalistas lotados em unidades de pronto-atendimento.

Diante das reflexões apontadas neste artigo, considera-se que, na atualidade, não é concebível se trabalhar de modo isolado, pois, os problemas complexos da área de saúde exigem dos profissionais um trabalho com cooperação mútua e integrada, na busca de objetivos comuns para a resolução dos problemas.

Por outro lado, compreender que a dengue, Zika e chikungunya extrapolam a esfera da saúde, e necessitam de abordagem interdisciplinar e intersetorial, é essencial tanto para a ciência quanto para o poder público. É preciso ter clareza que o desafio não é apenas técnico. Quem é o "responsável" pelas epidemias de dengue, zika ou chikungunya? O mosquito? A falta ou inadequação de saneamento? O abastecimento irregular e desigual de água, que obriga os moradores a armazenarem este recurso, favorecendo a proliferação do mosquito? Ou os problemas na coleta e no gerenciamento do lixo? Tais questionamentos ficam para a reflexão.

REFERÊNCIAS

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