ISSN 1678-0701
Número 66, Ano XVII.
Dezembro/2018-Fevereiro/2019.
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04/12/2018A REVOLUÇÃO INDUSTRIAL E AS TRANSFORMAÇÕES ECONÔMICAS NO CERRADO GOIANO  
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OS IMPACTOS AMBIENTAIS GERADOS A PARTIR DA MECANIZAÇÃO DO CAMPO NO CERRADO GOIANO

Willian Vieira da Silva

Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Ambiente e Sociedade

Universidade Estadual de Goiás – Campus Morrinhos

willianhistoriaufv@gmail.com

RESUMO

Este trabalho apresenta uma síntese do panorama econômico do Cerrado a partir da Revolução Industrial. A mecanização da agricultura na região transformou Goiás em um grande celeiro agrícola. No entanto, o crescimento econômico veio acompanhado de uma grande devastação ambiental e o território do cerrado goiano foi altamente comprometido. Os níveis de desmatamento colocaram em risco a diversidade ambiental da região. Goiás acabou se tornando um grande celeiro agroexportador, que custou ao Estado um impacto ambiental muito sério.

Palavras-chaves: Cerrado, economia, meio ambiente.

abstract

This paper presents a synthesis of the economic panorama of the Cerrado from the Industrial Revolution. The mechanization of agriculture in the region transformed Goiás into a large agricultural barn. However, the economic growth was accompanied by a great environmental devastation and the territory of the cerrado of Goiás was highly compromised. Deforestation levels have put the region's environmental diversity at risk. Goiás eventually became a large agro-export granary, which cost the state a very serious environmental impact.

Keywords: Cerrado, economy, environment.

INTRODUÇÃO

A Revolução Industrial, definida pela história como a substituição do trabalho manual pelo mecânico, foi iniciada na Europa em meados do século XVIII mais precisamente na Inglaterra por volta do ano de 1756. Neste período, a transformação dos modos de produção veio para atender os interesses da nova classe em ascensão, a burguesia, que com a intenção de aumentar os seus lucros passou a utilizar as máquinas para produzir mais em menos tempo.

Nesse sentido, novos sistemas de produção foram sendo gradualmente introduzidos na indústria inglesa. Destacam-se em um primeiro momento a criação do tear mecânico em substituição ao trabalho artesanal dos alfaiates, que eram mais lentos e menos produtivos em relação ao da máquina. Da locomotiva a vapor que acelerou o transporte de mercadorias até então transportados basicamente por tração animal. E do ferro como fonte principal de matéria prima.

A partir do século XIX, o fenômeno industrial expandiu para outras regiões da Europa e do planeta. Inicialmente chegando à França, Alemanha, Itália e Holanda, posteriormente para outros continentes, como Ásia (Japão), até a América nos Estados Unidos.

Neste período, as novas tecnologias propiciaram a descoberta de outras fontes de matéria prima essenciais para o crescimento industrial. Destacam-se, o petróleo e o aço que aumentaram a produção nas cidades deixando-as ainda mais atrativas para as famílias camponesas que não conseguiam mais competir com a produção urbana. Este processo resultou em um grande crescimento populacional da época.

No entanto, a Revolução Industrial, só chegou a outras regiões da América mais tarde. No caso do continente sul-americano, somente na segunda metade do século XIX.

Nessa perspectiva, o Brasil, teve suas primeiras experiências indústrias por volta dos anos de 1850, período conhecido como “Era Mauá”. O Barão de Mauá foi a primeira figura proeminente da burguesia industrial na história do Brasil. Seus investimentos incidiram sobre vários ramos, desde os meios de transporte com a construção das primeiras ferrovias e pontes de ferro até as novas linhas de comunicação, o telégrafo.

No entanto, o projeto de Mauá foi sabotado pelas elites agrárias brasileiras protagonistas da política nacional da época. Entusiasmada com o alto valor comercial do café no comércio internacional, a aristocracia rural conspirou para que a base econômica do país voltasse para a exportação de café.

Este fato perdurou até o final da República Velha, pois, a partir do Golpe político iniciado por Vargas em 1930, o projeto industrial do país foi retomado.

É evidente que a Revolução Industrial no Brasil não foi um processo homogêneo. Ela passou pelos mais variados processos que variaram de acordo com a região e cultura de cada parte do país. Por isso, para este trabalho, nos atentaremos apenas a região Centro Oeste, mais especificamente o Cerrado goiano.

Sobre isso Brochado (2014) ressalva:

A ocupação do cerrado iniciou-se por volta de 1920, momento em que a indústria do café estava em expansão (Klink e Moreira, 2002). Contudo, com o passar dos anos, por conta do esgotamento das terras férteis da região Sul e do crescimento populacional, o governo de Vargas (1930-1945), por meio da Marcha para o Oeste, estimulou a ocupação do sul do estado de Goiás com incentivos e assistência técnica aos pecuaristas interessados.” (BROCHADO, 2014, p.25)

Levando em consideração a perspectiva de Brochado, este trabalho é uma tentativa de elucidar as transformações que a Revolução Industrial trouxe para o Estado de Goiás desde os anos de 1930, período em que o Estado se transformou em um celeiro industrial do país devido a sua exportação de produtos agrícolas.

Este processo trouxe modernização tecnológica e consequentemente crescimento econômico, porém, a custo da depredação do bioma da região. Esta modernização causou um efeito nocivo ao meio ambiente e suas mais variadas formas de vida no Cerrado.

Diante dessa situação, o objetivo deste texto é descrever os impactos ambientais que a mecanização do campo trouxe para no Estado de Goiás desde os anos de 1930. Para tal, vamos seguir a observação feita por Santos e Alves (2017), onde afirmam que:

Desde a década de 1930, o Estado de Goiás tem experimentado significativas transformações estruturais, aprofundando sua relação e interação com os demais centros dinâmicos do país, possibilitando a aceleração de seu desenvolvimento socioecoonomico.” (SANTOS; ALVES, 2017, p.13).

Pretendemos com este trabalho, descrever os impactos e prejuízos causados pela mecanização da agricultura dentro do Cerrado. Para análise, evidenciaremos o caso do Estado de Goiás.

Tendo em vista os fatos analisados, aceitamos a tese de que as mudanças ocorridas na política econômica do Estado desde os anos de 1930 trouxeram progresso científico e tecnológico para o Cerrado e para Goiás especificamente, que resultou no crescimento econômico da região. Todavia, o Cerrado, e o Estado conhecido historicamente pela sua diversidade ambiental, sofreram grandes baixas no seu bioma devido os impactos que a mecanização do campo e a agricultura de exportação provocaram.

O caso de Goiás

Segundo Castro (2012) “O Estado de Goiás é a única unidade federativa inserida inteiramente no bioma cerrado. Nesse local, o desenvolvimento da atividade agropecuária foi passando por processos que culminaram na modernização agrícola e no agronegócio.” (CASTRO, 2012, p.23).

Desde os anos de 1930, a região Centro Oeste do Brasil vem experimentando as transformações ocasionadas pela nova política econômica iniciada a partir desse período. No entanto, as inovações tecnológicas oriundas da Revolução Industrial começam a modificar a produção econômica do Cerrado a partir dos anos de 1970.

Sobre isso, segundo Mattos 2016: “A Modernização da Agricultura, veio do interesse do Estado, que viu no setor agrícola uma forma de integrar a agricultura e indústria e assim gerar divisas, haja visto que o Brasil, desde sua formação econômica, foi um país agro-exportador.” (MATTOS, 2016, p.67.).

Os primeiros sinais de mudança no foco da economia do Estado consistem na construção das primeiras estradas de ferro, para incorporar o centro-oeste à nova dinâmica produtiva do país.

Sobre isso, SANTOS e ALVES (2017) ressaltam que:

A conquista definitiva do Cerrado como importante espaço produtivo agroexportador pelo capital decorreu diretamente de dois empreendimentos realizados pelo governo brasileiro no transcorrer das décadas de 1950 para 1960: a construção da cidade de Brasília e a construção da Rodovia BR – 153, conhecida também como Transbrasileiana, ou Belém-Brasília ou, ainda, Bernardo Sayão, atravessando os Estados do Pará, Tocantins, Goiás, Minas Gerais, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.” (SANTOS IN ALVES, 2017, p.13.).

A partir da inserção do Estado à nova rota comercial do país, Goiás passou a se conectar economicamente aos principais centros econômicos do Brasil se tornando um importante polo econômico da economia brasileira. Chegando a patamares altíssimos, o Estado se inseriu entre as dez maiores economias do país.

A atual condição econômica de Goiás é descrita por Castro (2012) como de grande relevância no setor nacional. O autor aponta que a agropecuária do Estado é uma das principais atividades que compõe seu PIB.

De acordo com estimativa realizada pelo Instituto Mauro Borges (IMB/Segplan-GO, 2012), o estado de Goiás é a nona economia brasileira, com um PIB que corresponde a 2,5% do PIB brasileiro. A taxa de crescimento médio nos últimos 10 anos foi de 55,73%, enquanto a média brasileira foi inferior, 37,5%. Dentre as atividades que compõem o PIB, a agropecuária goiana representa 14% da estrutura estadual. Sua grande relevância é decorrente do perfil produtivo e do desenvolvimento do segmento agroindustrial com destaque para a produção de carnes, derivados do leite e da soja. Atualmente, outra atividade que vem avançando na economia goiana é a produção sucroalcooleira. De acordo com a pesquisa de Produção Agrícola Municipal (PAM/2009) a produção de cana-de-açúcar no Estado aumentou, sendo que sua participação em relação ao total nacional cresceu de 3% para 6% entre 2002 e 2009. Com isso Goiás se tornou o maior produtor de cana-de açúcar do Centro-Oeste e o quarto maior produtor do Brasil. (CASTRO, 2012, p.26).

Porém, ao mesmo tempo em que o Estado aumenta seus indicadores econômicos, os índices de destruição ao meio ambiente acompanham esse crescimento, chegando ao expressivo numero de desmatamento que compromete toda riqueza natural de Goiás.

De acordo com Hespanhol 2000:

A prática da agricultura moderna nos cerrados do Centro-Oeste tem possibilitado a obtenção de elevados níveis de produtividade das lavouras, notadamente da soja, o que torna a região competitiva na produção da leguminosa, nacional e internacional. Por outro lado, a introdução, na faixa tropical, de pacotes tecnológicos importados de países de clima temperado, tem gerado sérios problemas ambientais.”. (HESPANHOL, 2000, p.24.).

Nesse sentido, é válido destacar que Goiás foi o estado onde houve maior supressão de áreas de cerrado resultante da ação humana. Para Castro (2012):

No tocante ao desmatamento do Cerrado no espaço territorial de Goiás nos últimos anos houve aumento da área antrópica, conforme dados do MMA (2012). O desmatamento anual ocorrido no Estado entre 2002 e 2009 foi de 1.493 km², o que corresponde a uma taxa anual de desmatamento de 0,47%. Já no acumulado entre 2002 a 2009, o desmatamento foi da ordem de 10.454 km² em Goiás, o que representa 3,3% da área de cerrado contida no Estado. Até o ano de 2002, Goiás foi o estado onde houve maior supressão de áreas de cerrado por ação antrópica, 203.760 km². Tal fenômeno representou perda de 61,8% do cerrado goiano, que corresponde a 329.595 km² (MMA, 2012). (CASTRO, 2012, p.26).

A razão para tamanha destruição é compreendida por Paixão (2016), como “uma pressão crescente para o desmatamento de novas áreas para a expansão agrícola, que está levando à exaustão progressiva dos recursos naturais do Cerrado. (PAIXÃO in 2016, p.82).

Neste sentido, o Estado vem buscando exaustivamente o progresso econômico via modernização do campo, direcionando suas terras para o desenvolvimento da agricultura e da pecuária. No entanto, esta prática tem ocasionado sua destruição.

Fonte: Cerrado brasileiro (Foto: Jim Wickens/Ecostorm). Disponível em: http://epoca.globo.com/tudo-sobre/noticia/2017/05/desmatamento-do-cerrado.html

Para ter uma dimensão do problema nas décadas seguintes, em 2013 e 2014 os números continuaram a aumentar chegando a uma marca de 57% do seu espaço natural, conforme os dados divulgados pelo Ministério do Meio Ambiente explícitos na tabela abaixo:

Fonte: Ministério do Meio Ambiente. Disponível em: https://g1.globo.com/distrito-federal/noticia/em-dois-anos-cerrado-perdeu-o equivalente-a-tres-vezes-a-area-do-df.ghtml

De acordo com os dados, em comparação aos outros Estados brasileiros, Goiás contribuiu em 21% para o desmatamento do bioma do cerrado, sendo o município de Rio Verde campeão em destruição chegando a 6.318,55 Km² de terras desmatadas. Seguido pelo município de Jataí com 5.093,30 Km². Juntos apresentam um total de 11.411,85 Km² de área desmatada.

As perdas são imensuráveis, uma vez que a região é muito rica em diversidade natural, conforme aponta o Ministério do Meio Ambiente na tabela a seguir:



Tabela 1 – Total de Espécies de Plantas e Vertebrados Conforme Ocorrência e Endemismo Presentes no Bioma Cerrado 2014:

Biodiversidade

Ocorrência de Espécies

Espécies Endêmicas

Plantas

10.000

4.400

Mamíferos

195

14

Aves

605

16

Répteis

225

33

Mamíferos

251

26

Peixes de água doce

800

200

Total

12.076

4.689

Fonte: Conservação Internacional 2005.

Disponível em: http://www.mma.gov.br/estruturas/chm/_arquivos/Bio5.pdf

A biodiversidade nesta região é extremamente importante. Nela encontramos uma variedade de nascentes, vital para espécie humana e os outros seres vivos. Além disso, o Cerrado está diretamente relacionado com o equilíbrio climático do Brasil, portanto, sua destruição interfere negativamente em todo território nacional.