ISSN 1678-0701
Número 65, Ano XVII.
Setembro-Novembro/2018.
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16/09/2018EDUCAÇÃO AMBIENTAL: DESENVOLVENDO O SENSO CRÍTICO  
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EDUCAÇÃO AMBIENTAL: DESENVOLVENDO O SENSO CRÍTICO1

    

Aristides Faria Lopes dos Santos & Allan Zadorosny Fernandes



Resumo

   

Esta pesquisa buscou discutir a Educação Ambiental (EA) enquanto um instrumental alternativo em vista da mudança de paradigma quanto aos costumes da sociedade contemporânea no contexto brasileiro. O trabalho caracteriza-se como descritivo, cuja abordagem é qualitativa. Procedeu-se pesquisa bibliográfica e pesquisa documental enquanto técnicas de coleta de dados. Foi possível verificar que os problemas decorrentes da falta ou descontinuidade de planejamento urbano (municipal e regional) são mais comuns do que claros. O caso da Bacia Hidrográfica da Lagoa da Conceição, em Florianópolis (SC), região Sul do Brasil, foi apresentado com maior ênfase no trabalho. Foi possível concluir que o Brasil possui uma política nacional de Educação Ambiental legalmente instituída, mas que, em linhas gerais não se mostra eficiente, eficaz tampouco efetiva.

 

Palavras-chave: Administração Pública; Turismo; Educação Ambiental; Sustentabilidade.



ENVIRONMENTAL EDUCATION: DEVELOPING CRITICAL SENSE



Abstract



This research sought to discuss Environmental Education (EA) as an alternative instrument in view of the paradigm shift regarding the customs of contemporary society in the Brazilian context. The work is characterized as descriptive, whose approach is qualitative. Bibliographic research and documentary research were performed as data collection techniques. It was possible to verify that the problems arising from the lack or discontinuity of urban planning (municipal and regional) are more common than clear. The case of the “Lagoa da Conceição”, in Florianópolis (SC), southern Brazil, was presented with greater emphasis on the work. It was possible to conclude that Brazil has a national policy of Environmental Education legally established, but that in general is not efficient or effective.



Keywords: Public Administration; Tourism; Environmental education; Sustainability.



EDUCACIÓN AMBIENTAL: DESARROLLANDO EL SENSO CRÍTICO



Resumen



Esta investigación buscó discutir la Educación Ambiental (EA) como un instrumental alternativo en vista del cambio de paradigma en cuanto a las costumbres de la sociedad contemporánea en el contexto brasileño. El trabajo se caracteriza como descriptivo, cuyo enfoque es cualitativo. Se procedió a la investigación bibliográfica e investigación documental como técnicas de recolección de datos. Es posible verificar que los problemas derivados de la falta o discontinuidad de planificación urbana (municipal y regional) son más comunes que claros. El caso de la Cuenca Hidrográfica de la Lagoa da Conceição, en Florianópolis (SC), región Sur de Brasil, fue presentado con mayor énfasis en el trabajo. Fue posible concluir que Brasil posee una política nacional de Educación Ambiental legalmente instituida, pero que, en líneas generales, no se muestra eficiente, eficaz ni efectiva.



Palabras clave: Administración Pública; Turismo; Educación ambiental; Sostenibilidad.

INTRODUÇÃO



O conceito de ecologia passou a ter enorme ampliação, deixando para trás a singularidade biológica para abraçar aspectos legais, morais, socioeconômicos, políticos etc., caracterizando a multidisciplinaridade das relações que ocorrem em todos e quaisquer ecossistemas.

Historicamente, um forte agravante dos abusos ambientais foi a Revolução Industrial, no século XVIII, sobretudo, nos países da Europa central. Naquele momento – impulsionador explícito do Turismo – os meios de transporte desenvolveram-se e com eles a dispersão dos povos europeus dentro da Europa e pelo mundo. Dois fatores complicadores quanto às questões ambientais nesta época foram os resíduos excedentes da produção industrial e o desenfreado crescimento demográfico.

São perceptíveis, há tempos, reflexos deste “desenvolvimento” – senão retrocesso – mal, ou nada planejados. A Educação Ambiental (EA) tem como um de seus objetivos sensibilizar os cidadãos sobre a problemática ambiental enfrentada na contemporaneidade.

Originalmente, este trabalho fundamentou apresentação feita durante o IV Encontro Nacional de Turismo com Base Local, realizado em Joinville (SC), no ano 2000. Agora, às vésperas de sua décima quinta edição, os autores revisitaram o texto-base daquela palestra e compartilham o material por meio da Revista Educação Ambiental em Ação.



HISTÓRICO

 

Esta seção objetiva apresentar relato, aqui um breve, da preocupação humana com as questões ambientais a fim de situar o leitor na linha do tempo do ambientalismo do final da década de 1960 até os anos 2000.

Em 1968 foi realizada, em Roma, uma reunião de cientistas dos países desenvolvidos para discutir o consumo, as reservas de recursos naturais não renováveis e o crescimento da população mundial até meados do Século XXI.

As conclusões do “Clube de Roma” deixam clara a necessidade urgente de se buscar meios para a conservação dos recursos naturais e controlar o crescimento da população, além de se investir numa mudança radical na mentalidade de consumo e procriação. Seus participantes observaram que: “o homem deve examinar a si próprio, seus objetivos e valores. O ponto essencial da questão não é somente a sobrevivência da espécie humana, porém, ainda mais, a sua possibilidade de sobreviver sem cair em um estado inútil de existência”. Dessa reunião foi publicado o livro “Limites do Crescimento” que foi durante muitos anos uma referência internacional às políticas e projetos a longo termo e foi também alvo de muitas críticas, principalmente, de intelectuais latino-americanos que liam nas entrelinhas a indicação de que para se conservar o padrão de consumo dos países industrializados era necessário controlar o crescimento da população nos países pobres. Um dos méritos dos debates e das conclusões do “Clube de Roma” foi colocar o problema ambiental em nível planetário, e como consequência disso, a Organizações das Nações Unidas (ONU) realizou em 1972, em Estocolmo, na Suécia, a primeira Conferência Mundial de Meio Ambiente Humano.

O grande tema em discussão na conferência de Estocolmo foi a poluição ocasionada principalmente pelas indústrias. O Brasil e a Índia, que viviam na época “milagres econômicos”, defenderam a ideia de que “a poluição é o preço que se paga pelo progresso”. Com essa “poluição oficial”, esses países abriram as portas para instalação de multinacionais poluidoras, impedidas ou com dificuldades de continuarem operando nas mesmas condições em seus respectivos países. Essa atitude não será sem consequências graves e os resultados se farão sentir nos anos que virão.

No Brasil, o exemplo clássico foi a cidade de Cubatão (SP), onde, devido à grande emissão de gases na atmosfera e de efluentes tóxicos nos rios e manguezais da região, crianças nasceram acéfalas; na Índia, o acidente de Bophal, ocorrido numa indústria química multinacional que operava sem as medidas de segurança exigidas em seus países de origem provocou a morte de milhares de pessoas. Este acidente junto ao da usina nuclear de Tchernobyl são considerados os maiores acidentes ambientais já registrados.

Uma resolução importante da conferência de Estocolmo foi a de que se deve educar o cidadão para a solução dos problemas ambientais. Podemos então considerar que aí surge o que se convencionou de Educação Ambiental. A UNESCO, organismo vinculado a ONU, é responsável pela divulgação e realização dessa nova perspectiva educativa, realiza seminários regionais em todos os continentes, procurando estabelecer os seus fundamentos filosóficos e pedagógicos. A partir desses seminários, um grande número de textos, artigos e livros que foram publicados pela UNESCO em diversas línguas. Os principais seminários realizados por essa instituição estão inseridos na história de Educação Ambiental e precisam ser destacados.

  • Em 1975 foi realizada em Belgrado, na então Iugoslávia, uma reunião de especialistas em educação, biologia, geografia, entre outros, quando se definiram os objetivos da Educação Ambiental, publicados no que se convencionou chamar “A Carta de Belgrado”.

  • Em Tibilisi, na Geórgia (ex-URSS), em 1977, realizou-se o primeiro Congresso Mundial de Educação Ambiental.



À época, a então URSS vivia o início da Perestroika e da Glasnost, e temas como o desarmamento, acordos de paz entre URSS e os Estados Unidos da América (EUA), democracia e liberdade de opinião permeavam as discussões presentes. Muitos especialistas consideravam inútil falar em Educação Ambiental e formação de cidadãos enquanto vários países continuavam a produzir armas nucleares, impedindo a participação dos cidadãos nas decisões políticas.

No mesmo período, a primeira ministra norueguesa, Gro-Brundtland, patrocina reuniões em várias cidades do mundo, inclusive São Paulo, para se discutir os problemas ambientais e as soluções encontradas após a conferência de Estocolmo. As conclusões foram publicadas em várias línguas. O livro “Nosso Futuro Comum” (Our Common Future, em inglês), também conhecido por relatório Brundtland, fornece os subsídios temáticos para a ECO-92. É a partir desse livro que o conceito de Desenvolvimento Sustentável se torna mais conhecido. Aí também se enfatiza a importância da EA para a solução de problemas sociais, ambientais, econômicos e políticos.

Nos vinte anos que separam as conferências mundiais de Estocolmo e do Rio de Janeiro houve uma considerável mudança na concepção de meio ambiente. Na primeira se pensava basicamente na relação homem e natureza; e na segunda o enfoque é pautado pela ideia de desenvolvimento econômico. Essa mudança se fará sentir nos discursos, projetos e práticas que se autodefinem como sendo EA, mostrando a sua criatividade e importância, por outro lado temos práticas muito simplistas que refletem ingenuidade, oportunismo e confusão teórica, conceitual e política.

 

Fundamentos da Educação Ambiental

 

Reigota (1994) afirma que “o conteúdo mais indicado deve ser originado do levantamento da problemática ambiental vivida cotidianamente pela comunidade a ser trabalhada e que se queira resolver”, então é possível se utilizar conteúdos bem diversos na EA, tais como saneamento básico, degradação da fauna e flora, poluição em geral, efeito estufa, biodiversidade, reciclagem do lixo doméstico e industrial, energia nuclear, produção armamentista, esgoto clandestino, contaminação dos mananciais, assoreamento do solo, degradação da vegetação litorânea, aterro de mangues, entre outros.

A EA não deve priorizar a transmissão de conceitos específicos da biologia e/ou geografia. No entanto, alguns conceitos básicos, tais como ecossistema, habitat, nicho ecológico, fotossíntese, cadeia alimentar, cadeia de energia etc.; devem ser compreendidos e não decorados.

Conforme o mesmo autor, os conceitos acima citados têm como função fazer a ligação entre a ciência e os problemas ambientais cotidianos, dessa forma cada disciplina tem a sua contribuição a dar nas atividades de EA. O conteúdo deve possibilitar as pessoas (neste caso alunos) a fazerem ligações entre a ciência e as questões imediatas e as mais gerais.



Desenvolvendo o Senso Crítico

  

Muito se fala na manipulação do povo através da televisão, de religiões e de grupos sociais minoritários. Um exemplo concreto disso é a alta lucratividade das empresas que investem em campanhas publicitárias televisionadas. É claro que isto depende do público alvo, não é uma verdade absoluta, mas o que se quer mostrar é que a televisão influencia a mentalidade das pessoas.

No Brasil, a educação formal é notadamente deficiente, fato que é ainda mais marcante e “perigoso”. Se bem-educadas, as pessoas não aceitariam tanto descaso quanto aos problemas sociais, ambientais e políticos. Há uma espécie de “memória curta” impregnada na cultura popular do brasileiro, pois no momento em que determinado fato está acontecendo a repercussão é garantida, mas não dura muito.

O problema maior sobre este assunto é a impunidade dos infratores. Um exemplo é o monstruoso derramamento de Quatro milhões de litros de óleo ocasionado pela Petrobrás no dia 16 de julho deste ano no Rio Barigüi (PR), que depois veio a atingir o Rio Iguaçu (PR). A empresa dizia que a Refinaria Getúlio Vargas, causadora do desastre, era uma das mais bem equipadas do país.

Os frequentes crimes ambientais que vem ocorrendo não seriam aceitos de modo algum e as empresas seriam multadas, interditadas e teriam seus nomes “pichados” no mundo inteiro. Deste modo a EA deve estar entrelaçada em todas as disciplinas do ensino fundamental e posteriormente no ensino médio. Dando continuidade, ensino superior deve, em seu âmbito, instruir os futuros profissionais, das mais diversas áreas a procurarem maneiras “verdes” de executarem seus serviços, a prestigiarem empresas e produtos ecologicamente corretos e, principalmente, levar este aprendizado ecológico para dentro de suas casas e vidas.

Desenvolver o Senso Crítico é a maneira mais fácil e menos impactante de acabar com o poder devastador dos apelos promocionais dos que querem ter o povo em suas mãos apenas para vender mais sem terem de se preocupar com a qualidade, com as constantes agressões ao meio ambiente, com a opinião dos clientes, ou melhor, que opinião? Sem este Senso Crítico desenvolvido, não há como opinar. Esta é a proposta de inserir a EA em no cotidiano, embasar as comunidades exploradas e manipuladas para que estas possam opinar, criticar e se organizar para reivindicarem seus direitos.

Em se tratando de meio ambiente, um exemplo desta problemática são as grandes empreiteiras que devastam imensas áreas verdes para erguer seus empreendimentos imobiliários que acabam com a chance de, por exemplo, desenvolver o turismo sustentável – uma forte tendência mundial. Quando se ouve o anúncio de um roteiro de Ecoturismo se pensa logo em belas paisagens, banhos de cachoeira, enfim, que tudo é belo e benéfico, que o ecoturismo não causa danos ao ecossistema. Precisamos impedir a todo custo que o termo “ecoturismo” se banalize como tantos outros, pois assim estaremos promovendo a “destruição legal” e indiscriminada dos recursos naturais.

Os problemas ambientais contemporâneos têm origem em um contínuo processo de degradação. Alguns destes problemas não possuem mais “conserto”, mas podemos desenvolver soluções amenizadoras. Para que as gerações futuras não sofram com os problemas ambientais causados pelos maus gestores urbanos e ambientais devemos dar voz ativa aos futuros cidadãos do planeta azul. Se as crianças crescerem com participação gradual nas decisões políticas da sociedade em que habitam, estarão assim se tornando pessoas críticas e respeitadas.

A partir do momento em que a “linha de frente” for decidida de seus objetivos, seja no plano ambiental, econômico ou político estará dado o primeiro passo para o cumprimento do lema “Ordem e Progresso”. Afinal, “devemos tomar consciência de que não herdamos a Terra de nossos pais, mas a emprestamos de nossos filhos”. Uma criança que cresce submissa, assim será até o final de sua vida. Precisamos de pessoas que saibam questionar e não aceitar de pronto, que reclamem seus direitos com embasamento para que possam sustentar argumentos impactantes.

 

Educação Ambiental como Educação Política

 

Em concordância com Reigota (1994), “precisamos ter claro que o problema ambiental não está na quantidade de pessoas existente no planeta e que necessita consumir cada vez mais os recursos naturais para se alimentar, vestir, morar, etc.”.

 

[...] “É importante entender que o problema está no consumo excessivo desses recursos por uma pequena quantidade da população mundial e no desperdício e produção de artigos inúteis e de mau agouro à qualidade de vida. Não se trata de garantir a preservação de determinadas espécies animais e vegetais e dos recursos naturais, não esquecendo a importância destas questões. O que deve ser prioridade são as relações econômicas e culturais entre homem natureza e homem humanidade” (REIGOTA, 1994).

 

Dessa forma, o componente filosófico da EA é tão importante quanto o comportamental. Assim, a EA deve ser entendida como Educação Política, no sentido de que ela reivindica e prepara os cidadãos para exigir justiça social e autogestão, ou ao menos gestão (realmente) participativa.

A EA como Educação Política enfatiza a questão “por que fazer”, antes de “como fazer”. Considerando que a EA surge num momento histórico de grandes mudanças no mundo, ela tende a questionar as opções políticas atuais e o próprio conceito de educação existente, exigindo-a, criativa, inovadora e, principalmente, crítica. Um papel de extrema importância na EA é ocupado pela ética.

O homem contemporâneo vive profundas dicotomias, dificilmente se considera como um elemento da natureza, mas sim como um ser à parte, um observador, explorador e dominador da mesma. Tal distanciamento fundamenta suas ações tidas como racionais, mas cujas consequências graves exigem dos homens respostas filosóficas e práticas para acabar com o antropocentrismo e o etnocentrismo. A Educação Ambiental Crítica está, dessa forma, impregnada da utopia de mudar radicalmente as relações que conhecemos hoje, sejam elas entre a humanidade, sejam entre a natureza.

Desde seu início deste estudo, ficou claro que é absolutamente vital que os cidadãos do mundo insistam para que se tomem medidas de apoio a um tipo de desenvolvimento econômico que não tenha repercussões nocivas sobre a população. É de suma importância a participação dos cidadãos na definição de um projeto econômico, portanto político. A EA deve orientar-se para a comunidade. Deve proporcionar um incentivo para os indivíduos participarem ativamente da resolução de problemas no seu contexto de realidade específica. “Os cidadãos do mundo atuando em suas comunidades”, afirma Reigota (1994), é a proposta traduzida na frase muito usada nos meios ambientalistas: “Pensamento global e ação local”.

A EA não resolverá os complexos problemas ambientais planetários. No entanto ela pode influir decisivamente para tanto, quando forma cidadãos conscientes dos seus direitos e deveres. Os problemas ambientais foram criados por homens e mulheres e deles virão suas soluções. Estas obras não virão de gênios, pensadores ou políticos, mas muito provavelmente do cidadão comum.

 

Objetivos da Educação Ambiental

 

A 2° Recomendação da Conferência de Tibilisi trata das finalidades, objetivos e princípios da EA. Relatamos aqui, então, as suas alíneas:

  • Conscientização: Levar os indivíduos e os grupos associados a tomarem consciência do meio ambiente global, dos problemas conexos e de se mostrarem sensíveis aos mesmos. Isto significa que a EA deve procurar chamar atenção para os problemas planetários que afetam a todos, pois a camada de ozônio, o desmatamento da Floresta Amazônica, as armas nucleares, o desaparecimento de culturas, a poluição das águas, etc., são questões só aparentemente distantes da realidade.

  • Conhecimento: Levar os indivíduos e os grupos a adquirir uma compreensão essencial do meio global, dos problemas que estão a ele interligados e o papel e lugar da responsabilidade crítica do ser humano. O conhecimento proporcionado pela ciência e pelas culturas milenares sobre o meio ambiente deve ser democratizado, as pessoas devem ter acesso a ele. Assim, EA não deve transmitir só conhecimento científico, mas todo tipo de conhecimento que permita uma melhor atuação frente aos problemas ambientais.

  • Comportamento: Levar os indivíduos e os grupos a adquirir o sentido dos valores sociais, um sentimento profundo de interesse pelo meio ambiente e a vontade de contribuir para sua proteção e qualidade. Não adianta só falar do meio ambiente, mas também mudar os comportamentos individuais e sociais, os exemplos aqui são diversos, como, não fumar em lugar proibido, não destruir árvores economizar água e energia, utilizar meios de transporte coletivos, respeitar as leis de trânsito, etc.

  • Competência: Levar os indivíduos e os grupos a adquirir o necessário à solução dos problemas. Nem todos têm capacidade técnica para resolver os problemas ambientais. Reconhecer essa deficiência é um primeiro passo para superá-la. A EA pode auxiliar a sua superação, buscando elaborar meios técnicos com ajudas de especialistas e conhecedores autodidatas do problema.

  • Capacidade de avaliação: Levar os indivíduos e os grupos a avaliar medidas e programas relacionados ao meio ambiente em função de fatores de ordem ecológica, política, econômica, social, estética e educativa. Fundamental para a participação do cidadão é decifrar a linguagem dos projetos de riscos ambientais elaborados por técnicos especializados. A capacidade de avaliação permite ou não que os projetos duvidosos sejam efetuados. A EA deve procurar traduzir a linguagem técnico-científica para compreensão de todos.

  • Participação: Levar os indivíduos e grupos a perceber suas responsabilidades e necessidades de ação imediata para solução dos problemas ambientais. Procurar nas pessoas o desejo de participar na construção de sua cidadania. Fazer com que as pessoas entendam a responsabilidade, os direitos e os deveres que todos têm com uma melhor qualidade de vida.

 

Método de implementação de práticas de Educação Ambiental2

 

Há muitos métodos possíveis para se transmitir EA. O mais adequado é que cada docente estabeleça o seu e que este vá de encontro às características de seus alunos. No método empregado residem os aspectos que caracterizam a criatividade do professor diante dos desafios que encontra cotidianamente.

As aulas expositivas não são muito recomendadas na aplicação da EA, mas elas podem ser muito importantes quando bem preparadas e quando deixam espaço para questionamentos de seus alunos. Uma aula expositiva bem dada, mesmo considerada tradicional, ainda é muito melhor do que as aulas modernas, em que o professor se fantasia tentando conquistar a sua simpatia, impedindo assim que o aluno entre em contato com as ideias, conhecimentos, experiência e comportamento de uma geração que não é sua.

Para realização da EA podemos empregar os métodos passivo (só o professor fala), Ativo (em que os alunos fazem experiências sobre o tema), descritivo (em que os alunos aprendem definições de conceitos e descrevem o que eles puderam observar, por exemplo, numa excursão) e analítico (em que os alunos complementam sua descrição com dados e informações e respondem a uma série de questões sobre o tema).

A EA que visa a participação do cidadão na solução dos problemas ambientais deve pregar metodologias que permitam ao aluno questionar dados e ideias sobre um determinado tema, propor soluções e apresentá-las.  Esse é o método Ativo, ampliado em relação à definição dada acima. Com o método Ativo, o aluno participa das atividades, desenvolve progressivamente o seu conhecimento e comportamento em relação ao tema, de acordo com sua idade e capacidade. O método Ativo pressupõe que o processo pedagógico seja aberto, democrático e que haja diálogo entre os alunos, entre eles e os professores e a administração da escola, com a comunidade em que vive e com a sociedade civil em geral.

Reigota (2000) apresenta a narrativa de uma professora de biologia:



Para a semana da ecologia, meus alunos realizaram várias entrevistas com os velhos moradores do bairro, que conhecem a industrialização ali ocorrida. Eles nos constataram como era antes e depois que as indústrias chegaram. Os alunos mantiveram também os contatos com associação de moradores e com grupos de ecologistas. Criaram um clube ecológico e um jornal que é distribuído na escola. Alem disso fizemos (inclusive alunos e funcionários) uma limpeza geral e plantamos centenas de árvores no bairro. Fizemos um levantamento dos principais problemas do bairro e as possibilidades de solução”.



Em geral, a estratégia recomendável deve ser interdisciplinar, ou seja, por meio da qual os assuntos são observados por profissionais de diferentes campos, com diferentes histórias de vida. Isto é importante para que se possa contribuir e retribuir informações que podem mudar a forma de se observar e pensar sobre determinada questão.

Normalmente, ele é empregado quando professores de diferentes disciplinas realizam atividades comuns, sobre um mesmo tema. Assim temos diferentes interpretações sobre o assunto em pauta e as prováveis contribuições específicas de cada disciplina. A prática pedagógica, relatada por um professor de ciências, trabalhando com colega de português, é um exemplo (REIGOTA, 2000):



Realizamos debates entre os alunos, atividades de sensibilização e exposição oral, encenações teatrais e a publicação de um jornal a partir de reportagens publicadas nos jornais sobre meio ambiente. Eu trabalho os aspectos mais científicos dos problemas e a professora de português trabalha a interpretação de texto”.



História de vida” é uma metodologia, um método originado da antropologia e que se aplica muito bem na EA. Consiste no levantamento, pelos alunos, de histórias relacionadas sobre um tema ambiental, vividas por eles mesmos, por familiares, vizinhos, amigos. O exemplo pode ser o relato de um professor de matemática: "Nós fizemos um levantamento dos problemas ambientais vividos pelos alunos e por seus pais, nos locais de trabalho, em casa, na escola. Nós analisamos esses problemas, comparando-os e procurando observar as causas comuns e os efeitos particulares, procurando encontrar a solução para alguns deles". As histórias de vida são contadas oralmente, por escrito ou através de representações artísticas ou teatrais. Por serem histórias individuais, fragmentadas, ao serem expostas pelos alunos, permitem a compreensão, a identificação e a busca de soluções coletivas para os problemas que aparentemente são individuais. Este método permite aos alunos empregar a criatividade e expressar as representações de conceitos científicos e dos problemas ambientais em discussão.

A “Pedagogia do Projeto” é um método que envolve toda a escola, inclusive os pais de alunos no estudo de um tema específico. Ele permite que cada disciplina desenvolva o tema proposto sob a sua ótica. Os pais participam, contribuindo com sua experiência e conhecimento sobre o tema. Os alunos se empregam em explorar particularidades que lhes interessam num mesmo ano letivo. A “Pedagogia do Projeto” é uma metodologia que, de forma geral, sintetiza todas as outras aqui abordadas. A EA, como foi observado, tem estimulado uma nova concepção de se fazer educação que se manifesta nos seus objetivos, conteúdos e metodologias.



O ENSINO SUPERIOR NO BRASIL E A EDUCAÇÃO AMBIENTAL

 

Neste capítulo nos basearemos nos cursos de Administração Empresarial com ênfase em Gestão Ambiental para relacionar a EA com o nível superior.

Tais profissionais devem estar preparados para fazer frente às demandas ambientais, cada vez mais exigentes, mas sempre as conciliando com os objetivos econômicos das organizações. Aspectos ligados à gestão ambiental, para um desenvolvimento sustentável econômico, social e ecológico, tem de contar com profissionais – em organizações estatais ou na iniciativa privada – com tecnologias de produção inovadoras, sistemas de tomada de decisão estruturados e transparentes, assim como com outros conhecimentos sistêmicos exigidos no contexto em que se inserem (ANDRADE; TACHIZAWA; CARVALHO, 2000).

Os Gestores Ambientais bacharéis em Administração devem responder não somente às necessidades do mercado de trabalho, mas também mudar a imagem do administrador como aquele que resolve problemas administrativos ou econômicos. Estes profissionais devem tornar-se agentes transformadores capazes de ajustarem-se aos avanços das ciências e da tecnologia no estabelecimento de uma nova educação econômica, social e ambiental. Tornando-se assim planejadores com a intenção de prevenir crises.

 

A necessidade do estudo da Gestão Ambiental

 

Na contemporaneidade, o mercado de trabalho mostra-se carente de profissionais qualificados que despertem uma nova mentalidade provocadora de mudanças na educação voltada ao meio ambiente, no treinamento de Recursos Humanos e na administração empresarial como um todo. Tendo isto em vista conclui-se que o administrador ambiental seja capaz de satisfazer a demanda ecológica, exercendo, segundo Andrade, Tachizawa e Carvalho (2000), basicamente as seguintes funções:

  • Planejar, organizar, comandar e controlar empreendimentos que visem o desenvolvimento sustentável;

  • Prestar assessoria e consultoria na organização administrativa e de projetos ambientais;

  • Desenvolver planos estratégicos ambientais às organizações, sempre condizentes aos seus ramos de mercado;

  • Conceber, desenvolver, implementar e documentar sistemas de qualidade tipo série ISO-14.000.



A finalidade do curso de Gestão Ambiental

 

Não diferente dos demais cursos do Ensino Superior, o curso de Administração com especialização em Gestão Ambiental tem como propósito formar profissionais, gestores, executivos, empresários, docentes e pesquisadores qualificados e aptos a desenvolver o bem-estar e o saber humano para o crescimento do país, estado ou município. As principais finalidades do curso são (Ibidem):

  • Estimular a criação cultural e o desenvolvimento do espírito científico e do pensamento reflexivo, promovendo a divulgação dos conhecimentos científicos, culturais e técnicos;

  • Promover um trabalho de pesquisa, de iniciação e de investigação científica, desenvolvimento do entendimento do homem, dos meios ambiente, sócio/econômico;

  • Desenvolver a extensão, aberta à comunidade, visando a difusão das conquistas e benefícios resultantes da criação cultural e da pesquisa científica e tecnológica, geradas na instituição;

  • Promover o estudo sistemático dos problemas do mundo presente, coerente à internacionalização dos mercados, em particular os do país e da região, prestando serviços especializados à comunidade e estabelecendo com esta relação de reciprocidade e da parceria.



A Educação Ambiental e a apresentação aos problemas socioambientais do Brasil     

 

É preciso, antes de tudo, que se conheça os problemas íntimos entre sociedade e meio ambiente para que possam ser elaboradas soluções concretas e coerentes. Se todo cidadão fosse apresentado a pelo menos alguns problemas existentes, a consciência seria bem maior.

 

Os assentamentos ilegais em áreas sem saneamento básico

 

O processo conhecido como favelização é característico dos grandes conglomerados urbanos. Em busca de um emprego nas cidades, os trabalhadores rurais que perderam seus empregos para máquinas procuram vida nova, mas quando caem na realidade, estão habitando em encostas, mangues e em regiões onde é difícil, ou impossível, tanto o abastecimento de água, quanto a criação de uma rede de coleta, tratamento e reutilização do esgoto.

Este problema acarreta em vários outros, como o das doenças transmissíveis por ratos, baratas e mesmo vermes, pois no mesmo local para onde vão as fezes humanas, as crianças – que deveriam estar na escola – estarão se banhando junto com animais. Há ainda locais onde esta mesma água é usada para fins domésticos. Somente neste pequeno exemplo esbarramos no problema da saúde, da educação e do saneamento básico.

 

O lançamento indiscriminado de esgoto no meio ambiente

 

Os Governos Federais, Estaduais e Municipais conjuntamente com a iniciativa privada, com universidades envolvidas em pesquisas, com organizações não-governamentais e, principalmente, com a comunidade estão apertando o cerco contra industrias, empreiteiras e empreendimentos em geral que pouco se importam em além de estruturarem-se em áreas proibidas, lançam esgoto sem qualquer tratamento em rios, lagoas e mares. Este trabalho vem se intensificando, apesar de tardiamente, mas como diz o ditado, “antes tarde do que nunca!”.

Os rios, principais fontes de extração de água doce, estão ameaçados por causa da poluição e do assoreamento. Somente o continente asiático lança anualmente em seus cursos de água 850 bilhões de litros de esgoto.

Um caso próximo a todos brasileiros – a Lagoa da Conceição, Florianópolis (SC) – aponta o paradoxo entre crescimento urbano e preservação ambiental. As escolas de 1ºgrau de Florianópolis já se desdobram para conscientizar as crianças quanto ao problema do assoreamento da lagoa. Desta vez a EA é orientada à sensibilização das pessoas quanto a um problema que se não for resolvido ou ao menos amenizado rapidamente, pode tomar dimensões devastadoras e irreversíveis.

 

ESTUDO DE CASO: O ASSOREAMENTO DA LAGOA DA CONCEIÇÃO.

 

O bairro da Lagoa da Conceição, fundado em 1750, é com certeza o que enfrenta o problema ambiental mais difícil de ser resolvido (sem querer dar menos importância aos demais bairros e seus problemas) naquele contexto. Pois todas as águas da bacia hidrográfica da região correm em direção da lagoa ou vão para o lençol freático. Existem opções de tratamento que não precisam ser tão caras e devem tratar também a água que está misturada com detergentes – altamente prejudicial ao meio ambiente.

Estima-se que cerca de 80% das residências da região estão distantes da rede coletora e o custo para se construir uma rede coletora e uma estação de tratamento para toda região deve passar da cifra de R$20 milhões, enquanto que a verba para saneamento para todo o estado é de R$30 milhões, afirmam técnicos da CASAN (Jornal da Lagoa, 2000).

Assim como Menezes e Santiago (1997), dividiremos o estudo dos problemas vigentes à habitação do bairro da Lagoa da Conceição em quatro períodos: de sua fundação até 1956, de 1956 a 1978, de 1978 a 1994 e atualmente.

  • De 1750 a 1956: A ocupação iniciou-se no sopé do Morro do Padre Doutor e ao redor da igreja de Nossa Senhora da Conceição, construída em 1751. Este processo não se deu apenas por casas de famílias, mas também por fazendas produtoras de café, milho, mandioca entre outros. A pesca era apenas um complemento no orçamento das famílias, engraçado, pois atualmente o que acontece é exatamente o inverso. Essa “transição econômica” aconteceu por volta de1970.  As áreas mais próximas da Lagoa eram de poder da Marinha e eram de domínio público. Apenas alguns pescadores instalaram ali seus ranchos para guardar seus barcos.

  • De 1956 a 1978: Período em que se iniciou o processo de urbanização do bairro. As áreas públicas foram sendo ocupadas pelos próprios pescadores. Em 1960 o acesso pelo morro ainda era de terra batida e foi também nesta época que caminhonetes passaram a transportar por ali pessoas e alimentos. A Avenida das Rendeiras foi planejada durante a gestão do Prefeito Acácio Garibaldi de Santiago Filho (1966-1970). A energia elétrica chega a Lagoa da Conceição por volta de 1970. Aos poucos os costumes se alteraram e as pessoas deixaram a roça e passaram à construção civil – em especial a construção da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) – e ao à prestação de serviços a órgãos públicos (Eletrosul).

  • De 1978 a 1994: Entre os anos de 1978 e 1994 o Turismo chegou à “Ilha da Magia”, slogan criado em função do mesmo, como nova atividade econômica. Daí o drama só se agravou, a especulação imobiliária começou a comercializar os terrenos e expulsar os nativos de suas terras. A falta de planejamento do Turismo foi um grande vetor para o crescimento desordenado da região. A ocupação dos morros e dunas, a deterioração de monumentos arquitetônicos – símbolos da colonização açoriana – o desrespeito à cultura local, a poluição das águas e outros atos são os problemas causados pela urbanização descontrolada.

  • A Lagoa nos anos 2000: Após o “Abraço à Lagoa”, evento que teve como intenção chamar atenção das autoridades e da comunidade à causa da lagoa, foi convocada uma reunião entre a Prefeitura de Florianópolis, o Governo do Estado de Santa Catarina e representantes do Ministério do Meio Ambiente para debater o problema da bacia hidrográfica da lagoa. A reunião também contou com a presença do Deputado Estadual Edison Andrino, que solicitara uma verba de R$430 mil para serem destinadas à melhoria do sistema de esgoto atual, que se acredita estar trabalhando em seu limite e provavelmente poluindo o lençol freático perto da lagoa, melhoria da fiscalização e para o projeto de implantação do sistema de esgotos da Costa da Lagoa. O deputado informou durante a referida reunião que deseja realizar uma campanha, junto ao Governo Federal e o Ministério do Meio Ambiente, para que a Lagoa seja elevada a centro de referência ambiental do Sul do país, assim como o Pelourinho é referência cultural na Bahia.

 

Devido a fragilidade da Lagoa e a sua importância como atrativo turístico e modelo de integração entre homem e natureza, a estação de tratamento de esgoto (ETE) da Lagoa da Conceição deve ser vista com bastante cuidado e consciência.

É importante que se eduque cultural e ambientalmente não só as crianças, mas toda a comunidade local. Para que não haja necessidade de interferir, direta ou indiretamente, nestes pontos, ou seja, deve-se desenvolver trabalhos de preservação a fim de manter a originalidade do local. Também é de extrema importância que sejam postas de lado as divergências políticas, partidárias, religiosas e quaisquer outras que atrapalhem o andamento do trabalho.

 

EDUCAÇÃO AMBIENTAL E A FALTA DE ÁGUA

 

A importância da água para a população mundial é indiscutível e a falta de água potável no mundo já é pauta para diversas reuniões diplomáticas. Na contramão de suas próprias necessidades, o homem vem poluindo rios e destruindo nascentes por meio de queimadas, despejo de lixo e esgoto, e desmatamentos.

Preocupado com a falta de água que já ocorre em regiões onde não se imaginava que isto seria possível, o governo federal brasileiro fundou a Agência Nacional de Águas (ANA), instituição que terá a missão de educar as pessoas quanto ao uso racional deste bem esgotável. Neste caso a EA está voltada às medidas amenizadoras do problema, uma vez que a água desperdiçada não volta mais. A água está se tornando um recurso raro e, brevemente, caro.

Como relata a reportagem “A era da falta d’água” da Revista Super Interessante de julho de 2000, a ONU crê que se os altos padrões de consumo de água forem mantidos, no ano 2.025 a humanidade não terá acesso a uma água 100% saudável. Em vista disso algumas cifras sobre o desperdício de água foram divulgadas:

  • Em um minuto, uma torneira aberta deixa correr entre 12 e 20 litros de água;

  • Para escovar os dentes por cinco minutos com a torneira aberta chega-se a desperdiçar 60 litros de água. Molhar a escova e enxaguar a boca usando um copo de água gasta só um litro;

  • Ao fazer a barba sem fechar a torneira, lá se vão de 40 a 80 litros de água pelo ralo. Para ser econômico encha a pia e o gasto será de apenas 4 litros;

  • Em trinta minutos lavando o carro pode-se gastar até 560 litros de água. Usando baldes o gasto cai para 40 litros;

  • Um banho de ducha de quinze minutos consome 240 litros. Fechando o registro enquanto se ensaboa o consumo vai para 80 litros.

 

Nestas cinco atividades cotidianas a maioria da população chega a gastar 1.220L de água, mas é possível gastar somente 145 litros. Uma economia de 1.075L!! Mais números: 

  • Gotejando, uma torneira chega a desperdiçar 46 litros por dia, isto é, 1.380L por mês;

  • A bacia sanitária comum gasta 12 litros a cada descarga. Neste caso a economia vem de fábrica, já existe uma bacia ecológica que gasta somente 3L;

  • Uma lavadora de roupa consome até 200L por lavagem. Para economizar deve-se usar a capacidade total da máquina;

  • A Terra possui 1,4bilhões de quilômetros cúbicos de água. A parte doce corresponde a 2,5% deste total. Só que 68,7% está nos polos em forma de gelo, e 29,9% em lençóis subterrâneos. Os rios e lagos, de onde a humanidade tira quase toda a água, só concentram 0,26% do total disponível;

  • Há uma previsão que afirma um colapso da água no planeta em 2.025. Segundo a ONU 2,7% bilhões de seres humanos – 45% da população mundial – vão ficar sem água neste ano;

  • Os países em desenvolvimento, como o Brasil, devem aumentar seu consumo em até 200% nos próximos 25 anos, afirma o geólogo russo Igor Shiklonov, do Instituto Hidrológico Estatal de São Petesburgo;

  • Ao regar as plantas por dez minutos você gasta cerca de 200 litros d’água. No verão a alternativa é rega-las durante a noite para reduzir a perda por evaporação. No inverno regue dia sim, dia não. A economia chega a 100 litros diários.

 



Alternativas vencedoras

 

Se por um lado as previsões para o futuro são assustadoras, as alternativas para exploração da água são bastante esperançosas. Como exemplo, é possível citar a dessalinização da água do mar, uma saída que além de não necessitar de tecnologias “astronômicas”.

A dessalinização era muito cara e inviável, pois demandava muita energia. Atualmente os dessalinizadores, que antes funcionavam evaporando a água para separa-la do sal, atuam pelo método de osmose reversa. O método consiste em uma membrana de poliéster dentro de um cilindro, onde a água é empurrada a uma pressão 80 vezes maior que a do ar, é possível também inverter o processo natural. Ou seja, faz-se o líquido atravessar a barreira e deixar o sal. Esta tecnologia é três vezes mais barata que a utilizada na evaporação e consome bem menos energia elétrica.



Os parques temáticos

 

Os habitantes de Orange County nos Estados Unidos bebem esgoto há mais de 20 anos e nunca tiveram problema por isso. Parece piada, mas não é. A região, que fica no estado da Califórnia, abriga 2,5 milhões de pessoas e o mundialmente famoso parque temático, Disneyland. O parque é uma minicidade – nem tão mini assim – e por este motivo teve de se entrelaçar em pesquisas e projetos que visassem reduzir os impactos ambientais e os altos gastos com o consumo de água.

A região é grande produtora de laranja e por isso já nos anos 1960 o lençol freático que a abastece estava superexplorado. Com a redução do nível do aquífero o sal das águas do Pacífico começou a infiltrar-se ali, ameaçando o abastecimento. Para revitalizar o manancial os norte-americanos criaram a “Fábrica de Água 21”, uma usina piloto especializada em tratar a água proveniente do esgoto e injeta-la no solo, afim de reencher o lençol. Neste processo, a natureza ainda “ajuda” já que as rochas subterrâneas são porosas e por isso purificam ainda mais esta água extraída do esgoto.

É importante observar que hoje, 40 anos depois, muitos técnicos que trabalham neste e em outros projetos ambientais eram crianças naquela época e cresceram convivendo em meio ao problema e a pessoas que queriam resolve-lo. Hoje o parque e toda a região de Orange County reutilizam praticamente todo o esgoto que produzem. Tornando assim o custo de vida mais barato e elevando sua qualidade.

  

As regiões áridas

 

É absurda a falta de água nas regiões áridas como o norte da África, onde 95% das reservas já são utilizadas, e a Ásia Central, na qual 84% das reservas já são utilizadas e devem ultrapassar os 100% em menos de 25 anos. No Oriente Médio as permanentes guerras possuem três motivos básicos, são eles: Disputa pela hegemonia religiosa; Disputa pelas últimas porções molhadas do território; e Disputa por poços de petróleo.

Em Israel chove metade do que chove no Ceará e ainda assim o país mantém uma agricultura intensiva e uma produção de 2,2 bilhões de litros de água. Como? Este “milagre” tem dois nomes. O primeiro é “reuso”, uma vez que dois terços dos esgotos do país são reciclados e as águas residuais são tratadas e usadas para revitalizar rios e irrigar lavouras e jardins públicos. A segunda parte do processo é considerada como a futura fonte de abastecimento do país, é a purificação dos reservatórios de água salobra subterrânea e da água do mar.

Outro exemplo é a vila de Baontha-Koyala no Noroeste da Índia. Não havia uma só gota d’água até meados dos anos 1980, mas no final dos anos 1990 voltaram a ter esperança. Os habitantes da vila cavaram poços nos quintais das casas para recolher água da chuva. É o óbvio, mas ninguém havia feito antes. Este exemplo serve à Região Nordeste do Brasil, basta vontade política e força de vontade.



Os grandes centros urbanos

 

O Japão dispara mais uma vez no pioneirismo em tecnologias, se bem que desta vez foi mais inteligência e capital do que tecnologia. A capital possui um estádio chamado Tokyo Dome, mas que ficou mundialmente conhecido como Big Egg (Grande Ovo, em inglês). O teto do estádio é feito de um plástico ultra resistente que pode ser inflado ou desinflado a qualquer momento. Esta cobertura funciona como uma lona gigante para captar água das chuvas. A água colhida ali vai direto para o subsolo onde é tratada e distribuída aos banheiros e ao sistema de combate a incêndios do prédio. Para se ter uma ideia da economia, um terço da água usada no empreendimento é proveniente da chuva.

Dados da Revista Super Interessante afirmam que, enquanto isso, no Brasil, sete capitais sofrem com a falta d’água ao menor princípio de estiagem, são elas São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba, Maceió, Cuiabá, Recife e Fortaleza.

 

A incompetência caso a caso

 

  • São Paulo: O tamanho da rede hidráulica paulistana é a maior do mundo e favorece o desperdício de cerca de 40% de seu fluxo. São 22.000Km de canos e mais canos, o equivalente a duas vezes a distância entre São Paulo e Vancouver, no Canadá. A Sabesp não consegue detectar todos os vazamentos e ainda por cima há inúmeras ligações clandestinas. São Paulo joga fora por dia 1 bilhão de litros de água por dia;

  • Rio de Janeiro: A capital fluminense é suprida por um único grande manancial, o Paraíba do Sul, quase esgotado e com água de má qualidade. Para evitar mais racionamentos a Companhia Estadual de Águas e Esgotos mantém o reservatório no seu limite, desviando o fluxo de um dos rios da região, o Rio Guandu. Ainda assim falta água na periferia;

  • Curitiba: Basta uma estiagem mais demorada e a região metropolitana de Curitiba fica ameaçada de racionamento. Por estar longe da parte mais caudalosa do Rio Iguaçu, que a abastece a cidade tem disponibilidade limitada de água. E 45% de perdas. “Nossos mananciais são finitos e estão sendo usados acima da capacidade”, diz Carlos de Freitas, presidente da Companhia de Saneamento do Paraná;

  • Maceió: 70% dos moradores da capital alagoana tem água em casa – índice baixo comparado com o resto do país, que fica em torno de 90%. A média de perda é de 45%. Com o inchaço populacional as encostas de Maceió foram ocupadas irregularmente, prejudicando assim o abastecimento das regiões altas da cidade;

  • Cuiabá: A capital do Mato Grosso está assentada na bacia hidrográfica do Rio Paraguai. É servida por rios caudalosos, o Cuiabá e o Coxipó. Ainda assim há bairros periféricos com abastecimento irregular. É a cidade com maior índice de perda do país, 53%, segundo a SANEMAT – Companhia de Saneamento do Estado de Mato Grosso;

  • Recife: Apesar de ter muita chuva e uma dezena de rios, a “Veneza Brasileira” convive há dois anos com o racionamento. As perdas chegam a 45%. Os bairros da periferia enfrentam rodízios de até 48 horas. “A cidade cresceu, mas não foram feitos investimentos na rede”, lamenta-se o presidente da Companhia Pernambucana de Saneamento, Gustavo Sampaio;

  • Fortaleza: Mesmo durante o período de seca a capital não sofre com problemas de falta de água, isso graças a divisão do trabalho. A cidade possui uma companhia gerenciando as águas e outra os esgotos, que juntas garantem um índice de perda de 30%, abaixo da média nacional. Mas os mananciais da cidade são insuficientes para suprir a população.

 

Tendo em vista este quadro voltamos ao “Capítulo 2”, onde se relatou a necessidade de profissionais capacitados para gerenciar os recursos naturais, bem como, a extração destes por parte da população. Deve haver uma seleção bastante rígida na formação destes profissionais, por que serão estes que, diretamente, junto com a comunidade, cuidarão do planeta das futuras gerações.

   

CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

Foi possível concluir que a EA deve, quando aplicada amplamente, ser considerada uma grande contribuição filosófica e metodológica à educação em geral. Deve, ainda, ser transmitida de forma responsável, ética e coerente, bem como buscar sensibilizar os participantes destas atividades sobre estes valores. A EA proposta nesta monografia não está vinculada à transmissão de conhecimentos sobre a natureza, mas sim à possibilidade de participação social nas decisões políticas a respeito ao meio ambiente. Neste mesmo passo é que temos de esquecer as diferenças partidárias e lutar em prol do “planeta azul”.

Uma área que precisa urgentemente de profissionais capacitados para educar ambientalmente é o Turismo, que vê seu futuro cada vez mais voltado ao Ecoturismo. Não podemos deixar que se banalize o termo “Ecoturismo”, pois se pensa que este é tão somente benéfico, enquanto, na verdade, não é.

Na mesma mão devemos visar, além da participação política, uma melhor qualidade de vida, soluções aos problemas ambientais e desenvolver alternativas que não agridam, ou agridam menos, a “nossa casa”. Seguindo os limites da ética e do auto respeito, estar-se-á estabelecendo assim uma sociedade mais justa, saudável, consciente e muito mais feliz.

 

REFERÊNCIAS

ANDRADE, R. O. B.; TACHIZAWA, T.; CARVALHO, A. B. Gestão Ambiental: Enfoque Estratégico Aplicado ao Desenvolvimento Sustentável. São Paulo: Makron books, 2000.

DONAIRE, D. Gestão Ambiental na empresa.  São Paulo: Atlas, 1999.

ESCOLA TÉCNICA FEDERAL DE SANTA CATARINA. Manual de Orientação para elaboração de trabalhos didático-científicos.   Florianópolis: ETFSC, 1.999.

JORNAL DA LAGOA, a. 6, v. 70, junho, 2000.

JORNAL DIÁRIO CATARINENSE, a. 15, v. 5.258, setembro, 2000.

MENEZES, D. L.; SANTIAGO, A. G. Ilha de Santa Catarina: paisagem litorânea em transformaçãoIn: Turismo e Ambiente: reflexões e práticas. São Paulo: Hucitec, 1997.

REIGOTA, M. O que é Educação Ambiental? São Paulo: Brasiliense, 1994.

REVISTA SUPER INTERESSANTE, julho de 1999.

SANTOS, A. F. L.; FERNANDES; A. Z. Desenvolvendo o senso crítico. In: Anais do IV Encontro Nacional de Turismo com Base Local. IELUSC: Joinville (SC), 2000.



Joinville (SC), outubro de 2000.



1Texto-base de apresentação feita no IV Encontro Nacional de Turismo de Base Local, realizado em Joinville (SC) no ano 2000. Na ocasião, ambos os autores eram graduandos em Turismo pela Universidade do Sul de Santa Catarina, de Florianópolis (SC). Atualmente, Aristides Faria Lopes dos Santos é docente no ensino superior e Allan Zadorosny Fernandes atua no setor bancário. Contato: aristidesfaria@ifsp.edu.br;

2Os depoimentos a seguir foram extraídos de “O que é Educação Ambiental?”, de Reigota (1994).



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