ISSN 1678-0701
Número 64, Ano XVII.
Junho-Agosto/2018.
Números anteriores 
Início      Cadastre-se!      Procurar      Submeter artigo      Fazer doação      Contato     Apresentação     Normas de Publicação     Resultado do prêmio     Artigos     Dicas e Curiosidades     Reflexão     Para sensibilizar     Entrevistas     Culinária     Arte e ambiente     Divulgação de Eventos     O que fazer para melhorar o meio ambiente     Educação     Você sabia que...     Plantas medicinais     Práticas de Educação Ambiental     Ações e projetos inspiradores     Cidadania Ambiental     Relatos de Experiências     Notícias
Artigos

14/06/2018REATIVAR AMBIENTAL - EDUCAÇÃO AMBIENTAL POR INTERMÉDIO DA HORTA ESCOLAR: UM ESTUDO DE CASO EM UMA ESCOLA MUNICIPAL DO RECIFE, PE  
Link permanente: http://www.revistaea.org/artigo.php?idartigo=3225 
" data-layout="standard" data-action="like" data-show-faces="true" data-share="true">

Revista Educação ambiental em Ação 33

REATIVAR AMBIENTAL - EDUCAÇÃO AMBIENTAL POR INTERMÉDIO DA HORTA ESCOLAR: UM ESTUDO DE CASO EM UMA ESCOLA MUNICIPAL DO RECIFE, PE

Jadson Freire da Silva¹, Ana Lúcia Bezerra Candeias2, Rutt Keles Alexandre da Silva3, Pedro dos Santos Ferreira4, Pedro Paulo Lima Silva5, Antônio Helton Vasconcelos dos Santos6, Josimar Vieira dos Reis7

1Doutorando em Desenvolvimento e Meio Ambiente - PRODEMA, Universidade Federal de Pernambuco - UFPE. E-mail: jadsonfreireufpe@hotmail.com

2Professora do Departamento de Engenharia Cartográfica, Universidade Federal de Pernambuco - UFPE. E-mail: ana.lucia@ufpe.br

3Mestra em Desenvolvimento e Meio Ambiente - PRODEMA, Universidade Federal de Pernambuco - UFPE. E-mail: kelesrutt@hotmail.com

4Doutorando em Desenvolvimento e Meio Ambiente - PRODEMA, Universidade Federal de Pernambuco - UFPE. E-mail: pedro_spe@hotmail.com

5Mestrando em Desenvolvimento e Meio Ambiente - PRODEMA, Universidade Federal de Pernambuco - UFPE. E-mail: pedropaulo.geografia@gmail.com

6Mestrando em Desenvolvimento e Meio Ambiente - PRODEMA, Universidade Federal de Pernambuco - UFPE. E-mail: heltonvasconcelospenet@hotmail.com

7Doutorando em Desenvolvimento Urbano - MDU, Universidade Federal de Pernambuco - UFPE. E-mail: prej86@gmail.com



Resumo

Este trabalho tem por objetivo principal socializar, via relato de experiência, os reflexos sociais de um projeto de Educação Ambiental desenvolvido numa escola municipal do bairro de Jardim São Paulo (Recife, Pernambuco). O método utilizado para desenvolvimento do projeto, intitulado “Reativar Ambiental - Educação ambiental por intermédio da horta escolar”, consistiu na confecção de uma horta com influências agroecológicas. A partir das atividades na horta, observou-se um crescente e contínuo engajamento dos indivíduos atuantes (direta ou indiretamente) no projeto. A delimitação das áreas de plantio deu-se por intermédio da reutilização de garrafas PET, incluindo, na produção, variedades frutíferas, leguminosas, medicinais e paisagísticas, cultivadas ao longo de dois anos (2012-2014), período de atuação do projeto. A interação entre os integrantes do projeto desdobrou-se em um sítio web (inserido em plataforma de rede social), ativo até os dias atuais, onde são relatadas experiências e intervenções ambientais, culturais e de bem-estar. O desenvolvimento da horta rendeu experiências positivas no que concerne à inserção de atividades de proteção e manejo ambiental na comunidade escolar, sendo recomendada a difusão da iniciativa, por gestores e pesquisadores, em variados ambientes educacionais. Caso seja preciso, deverão ser modificados os insumos necessários para a implementação do projeto (espaço, disponibilidade de recursos, quantidade de alunos, tempo para manutenção etc.), a fim de melhor adequá-lo à realidade local.

Palavras-chave: Agroecologia, Reutilização, Plantas medicinais.

Abstract

This article has, as its main goal, the socialization (through an experience report) of the social repercussions of an Environmental Education project, developed in a municipal school located at the Jardim São Paulo neighborhood (Recife, Pernambuco). The method used to develop the project, entitled "Reactivate Environmental - Environmental Education through the School Vegetable Garden", consisted in the creation of a vegetable garden with agroecological influences. From the activities in the vegetable garden, there was a growing and continuous engagement of the individuals acting (directly or indirectly) in the project. The delimitation of the planting areas was performed through the reuse of PET bottles, inserting, in the production, several varieties of plants (fruit, legume, medicinal and landscaping), cultivated over two years (2012-2014), the project's period of acting. The interaction among the project members unfolded on a website (inserted in a social network platform), active to the present day, where experiences and environmental, cultural and well-being interventions are reported. The development of the vegetable garden yielded positive experiences regarding the insertion of protection and environmental management activities in the school community, being recommended the diffusion of the initiative, by managers and researchers, in varied educational environments. If needed, the necessary inputs for the implementation of the project (space, availability of resources, number of students, time for maintenance, etc.) should be modified in order to better adapt it to the local reality.

Keywords: Agroecology, Reuse, Medicinal plants.

Introdução

As primeiras discussões sobre a temática ambiental datam da segunda metade do século XX, todavia, permanecem na atualidade mantendo sua devida relevância. O Clube de Roma, evento mundial ocorrido em 1968, foi um dos congressos mais marcantes no que se refere ao meio ambiente. Foi nesse evento onde diversos estudiosos, multidisciplinares, iniciaram uma grande discussão acerca dos limites do desenvolvimento econômico e suas relações com o meio ambiente, especialmente o meio natural, o qual retrataram e alertaram acerca de sua degradação, em um contexto em que a economia global explora selvagemente os recursos não-renováveis, passíveis de uma eventual extinção (MOTTA et al., 2008).

Encontros ambientais pós Clube de Roma foram realizados, ressaltando-se a Eco-92/Rio-92, onde foram analisados os caminhos do desenvolvimento econômico em vias de preservarem-se os recursos naturais. Outras conferências de grande porte tal como a Rio +5, Rio +10 e Rio +20, são registradas, onde usaram como arcabouço teórico as conferencias anteriores e suas respectivas pesquisas, e desta forma, dando suporte as tomadas de decisão ambiental em escala global/nacional (BRASIL, 2018).

As atitudes discutidas em escalas globais por intermédio dos congressos refletiram nas políticas públicas nacionais de cada país participante. No Brasil, não foi diferente, a partir de tais encontros foram firmados diversos tratados visando a preservação e conservação da fauna e da flora; além disso, políticas ambientais foram desenvolvidas para a assimilação pelos estados e municípios. No âmbito institucional destes, além das políticas pré-estabelecidas, observou-se a criação de coletivos ambientalistas, comitês de proteção, centros de análise e diagnostico para conservação e perpetuação de espécies e ações de educação ambiental.

Desafios em perpetuar e impactar os cidadãos civis para as práticas sustentáveis vem sendo dia após dias trabalhados no território nacional: promover reflexão e transformar ações ecologicamente equivocadas, porém rotineiras dos indivíduos são questionamentos que diversos grupos tentam solucionar por intermédio da educação. Contudo, a aceitação por parte da população ainda é pequena e a transformação da sociedade brasileira numa população ecologicamente consciente ainda é um grande desafio. Uma das alternativas adotadas pelas políticas públicas para a eco-transformação da sociedade são as intervenções ou projetos em escolas, onde são discutidos questionamentos acerca das temáticas ambientais, sociais e políticas; além da aplicação em prática de diversos ensinamentos, assim, faz-se envolver a comunidade do entorno, os pais e os mestres (REALI; TANCREDI, 2005; BEZERRA et al., 2010; ZINKE; GOMES, 2015).

A conscientização ambiental sendo processo crescente no território nacional conseguiu atingir diversos setores da sociedade após relevantes discussões sobre desenvolvimento sustentável. A indústria, os serviços e outros setores econômicos partem a considerar aspectos de impacto e cunho ambiental para determinar avanços e ampliações de interesse (SOARES; NAVARRO; FERREIRA, 2004). Segundo Ferreira (2000), o trinômio econômico-social-sustentável vem a constituir o arcabouço das decisões e das estratégias corporativas no que tange a gestão ambiental do espaço. Na educação, uma variedade de formatos alternativos e projetos sobre hortas e ações ambientais foram aplicadas a partir da agricultura sustentável - agroecologia em ambientes urbanos, rurais e experimentais, alcançando também os espaços escolares (IRALA; FERNANDES, 2001; MORGADO, 2008; SANTOS et al., 2014).

A horta é uma das intervenções utilizadas para prover a educação ambiental em âmbito escolar. Sabe-se que através de uma horta poderão emergir conhecimentos tácitos oriundos de vivências, relação aluno-natureza, aumento de estímulo dos discentes para ações ambientais, incentivo a alimentação saudável, dentre outras benesses (SILVA; ROCHA; SILVA, 2015; SILVA et al, 2016; GONZALEZ; ROCHA, 2018; CAMPOS et al., 2018). Atividades relacionadas com as matrizes curriculares das disciplinas que envolvem a geociências (biologia, química, geografia, por exemplo) podem ser abordadas nos espaços de horta, facilitando, desta forma, o entendimento teórico que é apresentado em sala.

Compreendendo a importância das intervenções ambientais práticas no ensino e aprendizagem dos alunos, e a fim de despertar a curiosidade dos mesmos na temática ambiental, desenvolveu-se o projeto “Reativar Ambiental - Educação ambiental por intermédio da horta escolar/Horta”, com estudantes do ensino fundamental de uma escola pública no município do Recife, Pernambuco.

Neste sentido, este trabalho tem por objetivo principal apresentar o relato de experiência oriunda do projeto “Reativar Ambiental - Horta” e seus impactos sociais observados.

Metodologia

Para realizar o projeto “Reativar Ambiental - Horta", foi necessário o acompanhamento de dois anos (2012-2014) na escola onde o projeto foi aplicado. O período de atuação definiu-se em função do tempo máximo do contrato de estágio de muitos dos participantes. Ressalta-se que a direção da escola durante o tempo do projeto aceitou a execução da horta, dispondo de utensílios para produção, confecção, manutenção e proteção do ambiente.

A Escola Municipal Dom Bosco, localizada no município de Recife, Pernambuco, mais especificadamente no bairro de Jardim São Paulo (Zona Oeste), foi o espaço experimental do projeto “Reativar Ambiental - Horta". A escola detém de grandes áreas para estacionamento, quadra poliesportiva e recreação geral; a horta foi implantada após ser cedida uma pequena área do estacionamento.

Aplicou-se, sob conceitos agroecológicos, uma horta com alunos oriundos das séries do ensino fundamental (5º, 6º, 7º, 8º e 9º ano do ensino fundamental), onde tais alunos se voluntariaram para participar da criação e manutenção da mesma. A agroecologia pode ser definida no estudo da agricultura sob perspectiva ecológica (ACESA, s/d); sendo um formato agrícola que visa a utilização dos recursos de forma mais consciente e sustentável, para que haja responsabilidade social e ambiental ao longo de todo processo de plantio, cultivo e colhimento (FRAGMAQ, 2016).

Resultados e Discussão

Após obter o espaço para aplicação da horta, por intermédio de mutirão, foi capinado o local e delimitado os canteiros para plantio. Vale destacar que se utilizaram garrafas PET para demarcar os locais para plantação. A utilização de garrafas PET em plantações não é uma técnica nova, porém, a mesma incentiva a reutilização e o reuso de materiais obsoletos (IDEIAS E DICAS, 2016; LUSHOME, 2017).

A delimitação das áreas de plantio seguiu os procedimentos da Vila do Artesão (2011), respeitando as etapas: 1) umidificação do solo para cavação de valas; 2) enchimento das garrafas PET com água; 3) encaixe das garrafas com o gargalo para baixo formando um cerco; 4) preenchimento da área com solo e adubo orgânico. Com as regiões delimitadas, plantou-se cultivares tropicais e de boa aceitação na região Nordeste do Brasil, tais como: pimenta, maracujá, pimentão, alface, abacaxi, mandioca e tomate (Figura 1).

Sendo exigente em calor e ao mesmo tempo sensível a temperaturas frias (EMBRAPA, 2007), a pimenta foi uma das plantas que se adaptaram com facilidade ao ambiente; contudo, o manejo da mesma foi feito pelas séries terminais ou monitores do projeto; a causa dessa restrição foi por conta da sua oleorresina e as características de queimação da mesma. Difundida em diversas regiões tropicais do mundo, o maracujá também foi incluso na horta devido a sua influência paisagística e sua resposta na floração e fruto; segundo a Embrapa (2016) o maracujazeiro é um grande parceiro do pequeno agricultor, por conta do seu custo benefício no mercado.

O pimentão e a alface foram escolhidos pela popularidade e tempo de colheita, sobretudo a alface, que mantém um período de colheita considerado curto (60 a 80 dias depois da semeadura), característica esta que incentiva os alunos a continuarem auxiliando na manutenção da horta (SEBRAE, 2012).

Figura 1 - Registros fotográficos da horta na escola, demonstrando sua evolução temporal.

Fonte: Reativar Ambiental (2018)

O abacaxi mesmo sendo uma planta resistente a seca (SILVA et al., 2015) necessita de regiões com 1000 a 1500 mm de água para sobreviver e manter frutos competitivos. Sabendo que a região metropolitana do Recife mantém precipitações semelhantes as condições edafoclimáticas da abacaxicultura, optou-se a cultivá-lo também. O período de colheita do abacaxi é considerado longo (em torno de 24 meses), todavia, a experiência de plantar os cultivares de abacaxi encantaram os alunos pois tem a apelação visual (o plantio comumente é feito por intermédio das touceiras) (EMBRAPA, 2013) (Figura 2).

Figura 2 - Registros fotográficos do plantio de abacaxis.

Fonte: Reativar Ambiental (2018)

Encontra-se o cultivo da mandioca difundido em todo território nacional, contudo, no Nordeste a mandioca mantém fortes traços com a cultura local, a sociedade e o modo de vida sertanejo (SILVA, 2008). Semelhante ao pimentão, o tomate cresce em condições de clima tropical, tolerando variações de temperatura na faixa de 20 a 25 graus para manter uma produção competitiva (EMBRAPA, 1993). Por ser também considerado uma cultura de curto/médio tempo, mantendo características visuais marcantes (o tomateiro enrama em cercados, chão ou ambiente apropriado enquanto mostra seus frutos), o tomate permaneceu no escopo dos cultivares da horta até o final do acompanhamento do projeto. A mandioca tem um período de colheita variando de 14 a 20 meses, todavia, também mantem um elevado apelo visual para os alunos (Figura 3).

Figura 3 - À esquerda, plantio de mandioca; à direita, alunos no espaço da horta.

Fonte: Reativar Ambiental (2018)

Diante dos diversos cultivos plantados no projeto, observou necessidade de ampliar a área para disseminação de plantas medicinais e de cunho paisagístico. A utilização de plantas medicinais nas práticas escolares acompanhou os escritos de Silva (2012), onde se verifica a junção das vivências dos discentes e da comunidade sendo aplicadas em ambiente escolar; além disso, incentiva-se a aproximação entre as relações familiares no que se refere a procura cultural e histórica. Assim, é constatado que a introdução das plantas com propriedades fitoterápicas reverbera influência direta na contribuição da educação ambiental. A ampliação da área de horta deu-se um ano após o início de mesma (2013), sendo bem aceita por parte dos alunos (Figura 4).

Figura 4 - Registro fotográfico dos limites dos canteiros na horta.

Fonte: Reativar Ambiental (2018)

As plantas como alcachofra, boldo, manjericão, alecrim, mil folhas, hortelã e girassol são alguns exemplos de cultivares aplicados na horta. É sabido que essas plantas sob fervura e/ou infusão em chás podem ser benéficas na eliminação de toxinas, auxiliar na ação do sulco gástrico nos alimentos, bombear o sangue para o organismo, produção de urina, dentre outras relações com o corpo (SILVA, 2012; WERMANN et al., 2009). Flores e adereços paisagísticos também foram incluídos (Figura 5).

Figura 5 - Último registro fotográfico do projeto “Reativar Ambiental - Horta".