ISSN 1678-0701
Número 62, Ano XVI.
Dezembro/2017-Fevereiro/2018.
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01/02/2018APROXIMAÇÃO ENTRE PESSOAS E SABERES SOBRE O MEIO AMBIENTE NO CONTEXTO DA EXTENSÃO UNIVERSITÁRIA  
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Revista Educação ambiental em Ação 33

APROXIMAÇÃO ENTRE PESSOAS E SABERES SOBRE O MEIO AMBIENTE NO CONTEXTO DA EXTENSÃO UNIVERSITÁRIA

Cristiana de Cerqueira Silva Santana1, Marcos Fábio Oliveira Marques1, Tatyane da Silva Moraes1, Maria José Souza Pinho1, Ana Paula Penha Guedes1, Marta Maria Oliveira Santana1, Álvaro Luís Müller da Fonseca1, Rosana da Silva Peixoto1

1Departamento de Educação, Universidade do Estado da Bahia – Campus VII.


Resumo: Dentre os três principais pilares da Universidade (ensino, pesquisa e extensão) a extensão tem sido a que apresenta maior dificuldade em se estabelecer, embora seja de crucial importância para o desenvolvimento social. O artigo aborda uma breve introdução sobre essa questão e aponta ações extensionistas em Educação Ambiental e Patrimonial, Educação científica em Micologia, Ecologia de Peixes, Zoologia, Saúde Animal e em Saúde Pública e Preventiva as quais estão relacionadas ao curso de Licenciatura em Ciências Biológicas da Universidade do Estado da Bahia – Campus VII. Essas iniciativas visam aproximar a Universidade de escolas do ensino básico e de comunidades, sejam rurais ou urbanas, e estão em curso no âmbito das relações de inclusão, aproximação e de colaboração entre a Universidade e a comunidade.

Abstract: There are three main pillars on the University (teaching, research and extension), among which the extension has been the most difficult to held, in spite of its vital importance for social development. This article approaches on short introduction about that issue and points out extension actions in Environmental and Heritage Education, Scientific Education in Mycology, Fish Ecology, Zoology, Animal Health, and in Preventive and Public Health, which are related to the course of Licentiate in Biological Sciences of the University of the State of Bahia - Campus VII. These initiatives focus on strengthening the relation among the University and the primary and community schools, whether rural or urban. At the same time, those initiatives are underway in the framework of the inclusion, approximation and collaboration policies concerned the University and the community.

Introdução

Conforme o Plano Nacional de Extensão Universitária, “a Extensão Universitária é o processo educativo, cultural e científico que articula o Ensino e a Pesquisa de forma indissociável e viabiliza a relação transformadora entre Universidade e Sociedade” (BRASIL, 2000/2001: 5). Esse processo deve se dar preferencialmente de maneira a atender as necessidades de conhecimentos educativos, técnicos, de saúde, bem como daqueles voltados aos direitos humanos e culturais da nossa sociedade.

Estabelecer definitivamente a extensão universitária tem sido um dos objetivos e desafios das universidades públicas brasileiras há décadas, contudo, isso tem apresentado alguns entraves, embora sua institucionalização e inclusive curricularização estejam em debate e tornando-se realidade.

Para De Paula (2013), um dos grandes problemas em se estabelecer a extensão, enquanto política educacional, apresenta eco na dificuldade que as universidades têm em compreendê-la e assimilá-la. O autor destaca que isso decorre do fato de a extensão ser relativamente recente, por sua aptidão natural à interdisciplinaridade, por se realizar, majoritariamente, fora dos espaços formais das universidades e dos laboratórios, bem como pelo fato de estar voltada ao acolhimento das necessidades de informação de um público externo e bastante diversificado.

De Paula (ib.), ao discorrer sobre as dificuldades da implementação da extensão pelas universidades, destaca:

De fato, as dificuldades conceituais e práticas da justa compreensão e implementação da extensão universitária decorrem, em grande parte, do fato de a extensão se colocar questões complexas, seja por suas implicações político-sociais, seja por exigir postura intelectual aberta à inter e à transdisciplinaridade, que valorize o diálogo e a alteridade (DE PAULA, 2013: 6).

As licenciaturas, devido à própria inclinação à interdisciplinaridade e ao trato com o público, têm sido mais atuantes nas ações extensionistas de universidades públicas. Ademais, os bacharelados, tais como os cursos das áreas de saúde e de direitos humanos, bem como as áreas das tecnologias, têm tido também papel relevante. Essa é uma realidade que se pode constatar claramente nos Congressos de Extensão, a exemplo dos encontros dos CBEU (Congresso Brasileiro de Extensão Universitária), levando em conta a quantidade de trabalhos apresentados por área nos sete congressos até então realizados.

Porém, é importante salientar que mesmo nas licenciaturas, as quais compreendem cursos voltados ao aproveitamento dos conhecimentos para o ensino, observam-se, ainda fortemente, a resistência de professores e pesquisadores em dialogar com as comunidades. Nesse cenário, muitos grupos de professores/pesquisadores se destinam exclusivamente aos seus estudos de aplicação estritamente acadêmicos. No espaço universitário tem sido comum a formação de guetos, nos quais a circulação de informações traçam contornos em volta de si mesmos, afastando assim a comunidade geral de muitos conhecimentos.

Cabe primariamente às instituições públicas superiores de ensino e pesquisa, a adesão cada vez maior a esses processos extensionistas, já que são, conforme Brasil (2000/2001: 2), “entidades criadas para atender às necessidades do país”, nesse sentido, seus professores e técnicos, enquanto servidores públicos de educação e pesquisa, bem como os alunos, enquanto participes dos conhecimentos gerados nessas instituições, podem proporcionar à sociedade conhecimentos e informações que melhorem a qualidade de vida das comunidades.

Desde a sua origem no ano de 1983, a Universidade do Estado da Bahia (UNEB) tem mostrado grande aptidão em exercer a extensão universitária. É uma Universidade de sistema multicampi existindo fisicamente em todas as regiões do Estado, em municípios-chave. A UNEB é, dentro dos domínios do estado da Bahia, a maior instituição pública de ensino superior. A sua ampla interiorização permitiu uma eficiente capilarização na sociedade baiana, possibilitando, assim desde o seu início, que as atividades estivessem diretamente relacionadas à missão social que desempenha.

A UNEB está presente em 24 municípios baianos, de modo a contribuir na diminuição da dívida social desta Universidade pública com a população dessas localidades e circunvizinhanças atendidas, o que permite às comunidades dos interiores baianos e, em especial do campo, o acesso à educação superior, criando oportunidades e iniciativas que reduzem significativamente a migração para os grandes centros urbanos.

Em suas ações, a UNEB vem incentivando sempre a relação com a população local e, consequentemente, a extensão. Ademais, cabe aqui destacar que:

Além dos Campi, a UNEB está presente na quase totalidade dos 417 municípios do estado, por intermédio de programas e ações extensionistas em convênio com organizações públicas e privadas, que beneficiam milhões de cidadãos baianos, a maioria pertencente a segmentos social e economicamente desfavorecidos e excluídos. Alfabetização e capacitação de jovens e adultos em situação de risco social; educação em assentamentos da reforma agrária e em comunidades indígenas e quilombolas; projetos de inclusão e valorização voltados para pessoas deficientes, da terceira idade, GLBT, entre outros, são algumas das iniciativas que aproximam a universidade da sociedade (UNEB, 2017, p. 1).

O Campus VII da UNEB está situado no município de Senhor do Bonfim, na região Centro Norte do estado da Bahia, e este texto aborda justamente as ações extensionistas ocorridas dentro do curso de licenciatura em Ciências Biológicas deste Campus.

Dentro dos Anais dos congressos de extensão universitária, por exemplo, se observam muitas ações relacionadas ao tema meio ambiente e à educação ambiental, sempre tão necessária à formação de cidadãos preocupados com as condições de sobrevivência e bem estar em nosso planeta, contudo, pouca coisa ou quase nada observamos a respeito da educação biológica voltada à micologia (fungos), às zoonoses (relação de saúde entre animais e humanos), à ecologia de peixes, zoologia, à saúde pública e preventiva e à paleontologia, evolução e arqueologia. Nesse contexto, apresentamos a seguir os Projetos e as ações extensionistas nas áreas mencionadas e que têm sido realizadas no âmbito da UNEB – Campus VII. Assim, nosso objetivo é relatar alguns projetos e ações de extensão universitária em educação ambiental e científica, desenvolvidos e em andamento, junto a comunidades do campo e urbanas do semiárido baiano e que estão sendo executadas por professores, técnicos e alunos do curso de Biologia desse campus.

Educação Ambiental: Projeto recicla óleo

Uma das áreas prioritárias na articulação da Extensão Universitária é a preservação e sustentabilidade do meio ambiente (BRASIL, 2012). É nesse sentido que a Educação Ambiental (EA), desenvolvida pelos projetos extensionistas desenvolvidas pelo Laboratório Interdisciplinar de Ensino de Biologia, atua como instrumento de sensibilização da comunidade e promoção de ações para o enfrentamento de questões desafiadoras que envolvem aspectos ambientais, sociais e econômicos.

As ações são pautadas nos conceitos de sustentabilidade e mobilização social, numa perspectiva interdisciplinar, estabelecendo uma relação orgânica entre a sociedade e a academia. Essa estratégia propõe a construção do conhecimento no processo de conservação da natureza, à medida que a sociedade participa de ações mitigadoras de conservação e preservação dos recursos naturais (MEDINA; SANTOS, 2001).

Os projetos de extensão tiveram início em 2014 com a finalidade de realizar atividades de EA, cujas ações sensibilizassem a comunidade dos municípios de Jaguarari, Senhor do Bonfim e Itiúba, localizados na região norte da Bahia, para os impactos causados pelos resíduos de óleo de cozinha descartados indevidamente. A educação ambiental proposta aqui se apoia na metodologia construtivista, pois permite compartilhar atitudes que minimizem os efeitos negativos dos impactos causados pelos resíduos do óleo de cozinha, com o simples hábito de repensar, reduzir, reutilizar, reaproveitar e reciclar.

Iniciamos o projeto nas escolas municipais e estaduais, passamos pelo setor gastronômico com donos de lanchonetes e finalizamos com grupo de mulheres (PINHO; SANTOS, 2017).

A metodologia utilizada inicialmente foi a sensibilização dos estudantes dos anos iniciais do ensino fundamental acerca dos impactos causados pelo descarte inadequado do óleo de cozinha, utilizando atividades lúdicas. Esses alunos frequentam lanchonetes próximas à escola e também havia a presença de familiares desses alunos que eram proprietários de boxes de lanchonetes, potenciais produtores de óleos residuais. Desta forma, partimos para a ação junto aos proprietários dessas lanchonetes. E para finalizar a estratégia metodológica, realizamos uma oficina com mulheres do grupo de oração das igrejas católica e evangélica, porque percebemos a possibilidade de geração de renda com a produção de sabão (Figura 1).

Figura 1 -- Oficina de sabão com grupo de mulheres e sensibilização com alunos do ensino fundamental.

Esses projetos de extensão incentivaram a conscientização ambiental, promoveram a relação harmônica entre comunidade e academia e ainda valorizaram o ensino. Assim, atividades de extensão, aliadas a pesquisa e ao ensino que envolvem questões ambientais são uma forma de ambientalizar o currículo do curso de graduação em ciências biológicas, já que as universidades devem estruturar suas ações através do princípio de indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão (MOITA; ANDRADE, 2009).

Podemos dizer que a proposta de reciclagem de óleo residual de frituras dependeu da participação da comunidade. Todas as coletas realizadas, as informações e reflexões foram muito importantes para que as pessoas adquirissem uma maior consciência sobre os problemas advindos da disposição dos resíduos sólidos no meio ambiente.

Entendemos que os processos formativos devem dinamizar ações direcionadas à contextualização nas aprendizagens, à indissociabilidade entre educação e prática social, à sustentabilidade ambiental, à valorização da pesquisa e da convivência social, fundamentos necessários nos processos educativos.

Educação Micológica: a importância dos fungos

O Laboratório de Estudos Moleculares e Micológicos (LEMM) em 2008 iniciou o projeto “Do Laboratório Microbiológico as salas de aula de Ciências e Biologia”, apoiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado da Bahia (FAPESB) que levou atividades práticas e mostra de fungos para escolas de Senhor do Bonfim-BA. Esse projeto engajou uma série de alunos da licenciatura em Ciências Biológicas que tiveram a experiência de atuarem nas escolas públicas da região e de serem bolsistas de extensão e desenvolverem seus trabalhos de conclusão de curso, bem como terem uma parte da carga horária de seus estágios curriculares dispensados.

Após esta experiência foram engajados vários licenciandos em Ciências Biológicas como bolsistas de extensão nos projetos: “Do Laboratório microbiológico as salas de aulas: uma proposta de construção de atividades sobre fungos e micro-organismos para o Ensino de Ciências”; “Coleção de fungos do semiárido: além das paredes do laboratório”; “Fungos do semiárido: materiais contextualizados para o ensino de Ciências e Biologia” e “As Micoses vão às escolas: desmistificando as crendices populares”. A partir destas experiências verificamos a necessidade de que estas ações alcançassem os futuros professores em formação e não contemplasse apenas alguns dos licenciandos, como vinha acontecendo.

Nesse sentido, foi criado o Espaço Ciência Micológica: Educação, Conhecimento e Interação (Figura 2), estrutura fixa na UNEB, Campus VII - Senhor do Bonfim, que desde sua criação, em 2015, visa apresentar a ciência de modo acessível à comunidade geral, estudantes da educação básica, técnica e superior, assim como a todos interessados. O Espaço encontra-se organizado em exposição permanente, temporárias e itinerantes, além disso, desenvolve recursos didáticos, promove cursos e serve como campo de estágio em espaços não formais e estágio supervisionado em ciências e biologia, proporcionando a divulgação científica de forma lúdica e prazerosa. Desse modo, se constrói um espaço colaborativo de saberes e formação dos licenciandos em Ciências Biológicas capazes de articular os conhecimentos, os avanços científicos e o exercício da cidadania.

Figura 2 -- Banner de divulgação do Espaço Ciência Micológica.