ISSN 1678-0701
Número 62, Ano XVI.
Dezembro-2017/Fevereiro-2018.
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Práticas de Educação Ambiental

10/12/2017PROPOSTA DE ROTEIRO DE VISITA MUSEUAL PARA DISCUTIR FUTEBOL, MEIO AMBIENTE E RESPONSABILIDADE SOCIAL EMPRESARIAL  
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PROPOSTA DE ROTEIRO DE VISITA MUSEUAL PARA DISCUTIR FUTEBOL, MEIO AMBIENTE E RESPONSABILIDADE SOCIAL EMPRESARIAL

 

Valdir Lamim-Guedes

Doutorando em Educação FEUSP;

Docente no Centro Universitário Senac,

campus Santo Amaro, São Paulo-SP

e-mail: lamimguedes@gmail.com

 

Resumo: Neste texto apresentamos um roteiro de visita ao Museu do Futebol, localizado em São Paulo-SP, com destaque para aspectos que não são o objeto central da exposição de longa permanente desta instituição, isto é, focamos a nossa proposta em discutir temas como a emergência da questão socioambiental, responsabilidade social empresarial, acessibilidade, racismo e gênero. Com este roteiro, esperamos incentivar visitas a esta instituição museal, assim como a outras, de forma a favorecer um debate interdisciplinar envolvendo aspectos de temas socioambientais. 

Palavras-chave: Sustentabilidade; Educação Museal; Museu; Educação Ambiental Não-formal.

 

Introdução

Os museus são definidos como International Council of Museums (ICOM), desde a 21ª Conferência Geral em Viena, Áustria, em 2007:

Um museu é uma instituição permanente, sem fins lucrativos, a serviço da sociedade e seu desenvolvimento, aberto ao público, que adquire, conserva, pesquisa, comunica e exibe patrimônio tangível e intangível da humanidade e de seu ambiental para fins de educação, estudo e entretenimento (ICOM, 2007).

Segundo Bizerra (2009, p. 23, destaque nosso), “os museus, no modelo que conhecemos hoje, sempre se apresentam como espaços educativos, organizados, com conhecimento humano historicamente construído, compartilhado e reproduzido por sujeitos ativos”. Os museus, por serem locais públicos, abertos, com vários espaços diversificados (sala de exposições, auditórios, ateliês, laboratórios, bibliotecas, cafeterias), frequentemente com ligações estritas a universidades e centros de investigação, que albergam coleções que podem ser expostas e utilizadas de diferentes modos, pontos de encontro ideais para cientistas e leigos (DELICADO, 2004), têm sido considerados lugares privilegiados para promover a cultura científica. Recursos audiovisuais, laboratórios, entre outros, são reconhecidas formas de estimular o aprendizado, mas nem sempre são recursos disponíveis na escola. A educação museal pode ser definida como um

conjunto de valores, de conceitos, de saberes e de práticas que têm como fim o desenvolvimento do visitante; como um trabalho de aculturação, ela apoia-se notadamente sobre a pedagogia, o desenvolvimento, o florescimento e a aprendizagem de novos saberes.

A educação, em um contexto mais especificamente museológico, está ligada à mobilização de saberes relacionados com o museu, visando ao desenvolvimento e ao florescimento dos indivíduos, principalmente por meio da integração desses saberes, bem como pelo desenvolvimento de novas sensibilidades e pela realização de novas experiências (DESVALLÉES; MAIRESSE, 2013, p. 38-39).

Os Museus fornecem um importante apoio à educação formal por proporcionar uma melhor contextualização dos assuntos tratados, assim como suas atividades práticas que trabalham com exemplares e/ou simulam fenômenos da natureza, facilitando grandemente a aprendizagem. Em termos de educação ambiental e conservação da biodiversidade, o público mais amplo que pode ser envolvido é essencial para o posicionamento críticos das pessoas, mudanças de comportamento, trazendo a possibilidade de mudanças reais para a sociedade (LAMIM-GUEDES, no prelo).

Os museus, sobretudo aqueles dedicados à Ciência e Tecnologia, tem convertido as suas exposições e setores educativos de forma a receber o público escolar. Contudo, os museus pertencem ao campo educacional não-formal, no qual, “mediante uma grande diversidade de experiências, que relacionam práticas educativas e comunicação social, buscam novas alternativas para seu papel educativo” (LOPES, 1991, p. 443). Neste sentido, Lopes (1991) critica a escolarização dos museus, isto é, o uso pedagógico dos museus e de outras instituições como espaços de formação permanente, o que não é um problema em si, no entanto, a falta de políticas públicas no nosso país fez com que muitos Museus se tornassem complementares a escola, causando uma limitação na atuação destes.

Neste texto apresentamos a proposta de roteiro de visita ao Museu do Futebol que aplicamos com alunos do Centro Universitário Senac-Santo Amaro (São Paulo-SP) no segundo semestre de 2017. A nossa intenção não é de escolarizar este museu, mas de incentivar leituras alternativas de sua estrutura e exposição de longa duração de forma a combinar o interesse pela temática alvo da instituição, a obtenção de cultura geral e o debate de temas como emergência da questão socioambiental, gênero e racismo no futebol, responsabilidade social empresarial, entre outros.

 

Museu do Futebol

O Museu do Futebol foi inaugurado em 29 de setembro de 2008. Ele está localizado no Estádio Municipal Paulo Machado de Carvalho, mais conhecido como Estádio do Pacaembu, localizado no bairro de Higienópolis, região central de São Paulo, SP. Com funcionamento regular de terça a domingo e entrada gratuita todos os sábados, o Museu promove atividades educativas aos finais de semana e realiza diversificada programação cultural.

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Figura 1: Imagem da entrada do Estádio do Pacaembu, São Paulo-SP, onde está localizado o Museu do Futebol. Fonte: Kfouri (2017).

A logomarca do Museu do Futebol está a seguir:

Figura 2: Logomarca do Museu do Futebol. Fonte: Museu do Futebol (2016a).

Sobre a estrutura do Museu, Lima (2013, s.p.) afirma que

o projeto ocupa área de 6,9 mil metros quadrados embaixo das arquibancadas do estádio. Sua arquitetura se destaca por integrar os espaços: o teto é a própria arquibancada, uma passarela liga os lados leste e oeste do prédio e permite uma bela visão da Praça Charles Miller.

Três eixos norteiam o passeio pelo museu: Emoção, História e Diversão. O visitante começa o percurso no saguão de entrada, batizado de Sala do Torcedor, onde estão reunidos objetos utilizados pelos torcedores como chaveiros, cinzeiros, flâmulas, broches e bandeiras.

Segundo Kfouri (2017),

Raios-X dos nove anos do Museu do Futebol

- 3.022.668 visitantes até 22 de agosto de 2017;

- Mês de maior visitação desde a abertura: julho de 2009, com 62.835 visitantes;

- Dia de maior visitação: 21/06/2014, com 6.419;

- 13 exposições temporárias realizadas em sua sede;

- Total de itens em sua Biblioteca e Midiateca, entre livros, revistas, catálogos e DVDs: 10.332;

- Mais de 250 ações culturais, dentre palestras, seminários, exibições de filmes, oficinas, dentre outros;

- Total de itens de acervo digitalizados pelo Centro de Referência do Futebol Brasileiro do Museu do Futebol: 6.491 itens de 70 coleções (fotos, documentos diversos);

- Até 30 de junho de 2017, 286.162 pessoas visitaram o Museu por meio de visitas educativas agendadas. Desse total, 58% foi público escolar (ou: 165.809);

- Sala de maior preferência do público: Sala das Copas do Mundo.

Em 2017, foi “indicado pela quarta vez consecutiva, por visitantes do mundo todo através do site Trip Advisor como um dos melhores museus da América do Sul” (IDBRASIL, 2017, s.p.).

 

Sugestão de roteiro de visita

A nossa sugestão de roteiro de visitação ao Museu do Futebol tem início ainda do lado exterior, próximo à entrada do Estádio do Pacaembu ou a beira do gramado. A localização do estádio, em um fundo de vale, permite discutirmos sobre a ocupação das várzeas na cidade de São Paulo. Como os nossos alunos já tinham assistido ao documentário Entre Rios (FERRAZ; ABREU; SCARPELINI, 2009), que trata da história da cidade de São Paulo sob a perspectiva do relacionamento desta com seus rios e córregos, ficou mais fácil relacionar o relevo e a ocupação desordenada do espaço. Alguns problemas relacionados, como o aumento do escoamento superficial, devido à impermeabilização do solo, e as enchentes, são possíveis de serem debatidos (MONTERO et al., 2016).

Ainda do lado de fora do Museu, com os ingressos em mãos (imagem abaixo), discutimos sobre a administração do Museu, pois ele é um “equipamento da Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo, concebido pela Fundação Roberto Marinho. Sua gestão é feita pela Organização Social de Cultura IDBrasil Cultura, Educação e Esporte” (IDBRASIL, 2017, s.p.). Assim, conversamos rapidamente sobre a responsabilidade social empresarial e sobre o financiamento destas ações, que pode ser através de isenção fiscal, como a aplicação de parte do imposto de renda devido pela empresa.

Figura 3: Ingresso do Museu do Futebol. O valor zerado refere-se ao dia de gratuidade no acesso, que ocorre aos sábados. Fonte: autor.

Como nem todos os alunos permanecerão próximos aos professores durante a visita, sugere-se que os aspectos citados no item “Temas possíveis de serem tratados durante uma visita ao Museu do Futebol” sejam comentados com os alunos antes do início da visita. O Museu tem um caminho linear, isto é, as salas e outros espaços são conectados de forma a ter um caminho ideal (linear) para a visitação, pois está localizado embaixo das arquibancadas do estádio, apesar disto reduzir as possibilidades de caminhos alternativos, facilita o trabalho de supervisão/mediação dos alunos durante a visita.

 

Temas para uma visita ao Museu do Futebol

A nossa escolha pelo Museu do Futebol deve-se a alguns fatores: facilidade de acesso, temática e a possibilidade de discutir sobre meio ambiente e responsabilidade social empresarial mesmo sem estes serem o tema das exposições.

A temática é um fator importante para a nossa escolha porque os alunos, não necessariamente, vão a museus habitualmente. Assim, ir a uma instituição museal cuja temática é mais próxima dos interesses dos alunos é um fator de estimulo e que permite um incentivo para que estes visitem outras instituições museais.

A relação do Museu do Futebol com a Responsabilidade Social Empresarial (RSE)vem do fato da Fundação Roberto Marinho ter atuado na concepção do projeto museológico. A RSE é definida pela NBR ISO 26000 (ABNT, 2010, p. 4) como

Responsabilidade de uma organização pelos impactos de suas decisões e atividades na sociedade e no meio ambiente, por meio de um comportamento ético e transparente que:

- Contribua para o desenvolvimento sustentável, inclusive a saúde e bem-estar da sociedade;

- Leve em consideração as expectativas das partes interessadas;

- Esteja em conformidade com a legislação aplicável e seja consistente com as normas internacionais de comportamento; e

- Esteja integrada em toda a organização e seja praticada em suas relações.

As empresas desenvolvem ações de RSE por diversas razões como: melhora da imagem no mercado, marketing, minimização de conflitos com partes interessadas, relacionamento com cadeia de suplementos, entre outros. Neste sentido, a participação da Fundação Roberto Marinho na realização do Museu do Futebol trata-se de uma ação de responsabilidade social ligado ao grupo Globo.

O termo partes interessadas (stakeholder), citado acima, refere-se ao “indivíduo ou grupo que tem um interesse em quaisquer decisões ou atividade de uma organização” (ABNT, 2010, p. 4). As partes interessadas de uma organização são os seus clientes, acionistas, fornecedores, assim como outros atores, como as comunidades vizinhas. Desta forma, no caso de um Museu, os visitantes integram/constituem uma das “partes interessadas”.

O apoio financeiro é feito pelo Governo do Estado de São Paulo. Isto permite a discussão sobre o papel das instituições pública na manutenção de equipamentos culturais e outros, como parques, para o bem-estar da população, mesmo que estes locais não sejam autossustentáveis em termos financeiros. Isto é, trata-se de um investimento público – não um gasto – visando a qualidade de vida.

Como os nossos alunos estão cursando a disciplina de Introdução à Gestão Socioambiental dos cursos de graduação em Administração (ênfases em Administração de empresas e em Comércio Exterior), e do curso de pós-graduação EaD em Educação Ambiental para Sustentabilidade, na disciplina de “Educação Ambiental no Setor Corporativo e Terceiro Setor”, ambos oferecidos pelo Centro Universitário Senac-Santo Amaro, visitar uma ação concreta de RSE acaba se constituindo uma ação importante que materializa diversos aspectos tratados nas aulas teóricas.

A infraestrutura e exposição de longa duração do Museu do Futebol permite discutir vários aspectos ligados à emergência da questão do socioambiental, ecoeficiência, inclusão de Pessoas com Deficiência (PCD) e de diversidade de gênero e racial:

Emergência da questão do socioambiental: Na sala das Copas do Mundo, onde, com estruturas em formato de taças, são apresentados fotografias e vídeos do contexto das copas do mundo, com elementos que remetem a aspectos culturais, econômicos, fatos históricos e, evidentemente, futebol. Como o material é basicamente do acervo da rede Globo, podemos afirmar que se trata de uma construção do discurso midiático deste grupo empresarial sobre cada conjunto de copas. Nas primeiras taças (suporte para as fotografias e vídeos, veja imagens abaixo), há poucas imagens sobre elementos naturais, há algumas imagens de belezas naturais, como da cidade do Rio de Janeiro, devido à copa de 1950.

Figura 4: aparato expográfico no formato de taça sobre a década de 1950. Fonte: autor, outubro de 2017.

Contudo, na taça que aborda os fins dos anos 1980 e começo dos anos 1990, temos várias imagens que remetem ao meio ambiente: derramamento de petróleo, desmatamento na Amazônia brasileira, poluição (chaminés) e imagens da Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, realizada na cidade do Rio de Janeiro em 1992, a Rio92 (imagem abaixo).

Figura 5: Imagens de acontecimentos relacionados ao meio ambiente entre os anos 1985 e 1992. 4.A: desmatamento na Amazônia brasileira; 4.B. acidente nuclear em Chernobyl; 4.C. Bill Clinton em discurso sobre a Rio 92. Imagens obtidas pelo autor, em outubro de 2017, a partir da exposição de longa duração do Museu do Futebol.

Assim, podemos discutir sobre a emergência da questão socioambiental (veja VEIGA, 2007) para os meios de comunicação em massa a partir deste momento. A Rio92 foi o maior evento da ONU já realizado até então e esta posição foi mantida até 2009, quando a COP do clima em Copenhagen teve um público maior. Ainda assim, a Rio92 tem um grande destaque no debate sobre os problemas ambientais, porque vários documentos foram assinados, como as Convenções sobre Mudanças Climáticas, Diversidade Biológica e contra a Desertificação, assim como os eventos paralelos permitiam uma maior participação das organizações da sociedade civil nas decisões oficiais. Dos eventos paralelos, tivemos, por exemplo, a redação do Tratado de Educação Ambiental para Sociedades Sustentáveis e Responsabilidade Global (FÓRUM DAS ONGS, 1992) e o início da redação da Carta da Terra, finalizada em 2000 (CARTA DA TERRA BRASIL, s.d., s.p.).

De forma geral, a partir do processo de preparação para a Rio92, temos uma maior presença da temática ambiental na cobertura midiática, o que acaba por afetar a sociedade como um todo, inclusive com uma maior inserção da Educação Ambiental nas escolas. As taças que representam o pós-1992 também apresentam aspectos relacionados à questão ambiental, mas o destaque é mais em relação à biotecnologia, por exemplo, com uma fotografia da Ovelha Dolly, o primeiro mamífero a ser clonado com sucesso e que está experiência foi divulgada ao público no início de 1997.

A Ecoeficiência

baseia-se na ideia de que a redução de materiais e energia ao longo do processo produtivo aumenta a competitividade da empresa, ao mesmo tempo que reduz as pressões sobre o meio ambiente. É um modelo de produção e consumo sustentável, na medida em que ressalta a produção de bens e serviços necessários e que contribuam para melhorar a qualidade de vida das pessoas (BARBIERI, 2016, p. 102).

Podemos perceber vários aspectos de cuidado no uso de recursos naturais no Museu, alguns destes compreendidos como ações de ecoeficiência, desde os bebedouros, descargas dos sanitários e mictórios, que economizam água, como o fato das escadas rolantes cessarem o movimento quando não estão sendo usadas, uso de luz natural em alguns pontos. Apesar destes aspectos serem comuns em diversos locais, a visita possibilita que estes sejam observados no contexto de uma instituição que busca ter uma maior responsabilidade socioambiental.

Inclusão de Pessoas com Deficiência (PCD): Como uma instituição de acesso público, o Museu tem várias adaptações para facilitar o acesso de pessoas com deficiências ou com dificuldades de locomoção. São observáveis: rampas, elevadores, corrimãos, texto em braille, objetos ou estruturas para percepção tátil, vídeos legendados e a presença de funcionários para auxiliar os visitantes.

Figura 6: Objetos para auxiliar na percepção da exposição por pessoas com deficiência visual. Foto: autor, outubro de 2017.

O projeto “Deficiente Residente – Acessibilidade e Inclusão no Museu do Futebol” (PNEM, s.d.) permitiu que a equipe do Museu convivesse com deficientes, de forma que, a estrutura e exposição fossem adequados e que os funcionários fossem treinados para melhor receber este público. Um documentário foi produzido e disponibilizado no Youtube (ESTADO DE SÃO PAULO, 2016; MUSEU DO FUTEBOL, 2016b).

Diversidade de gênero: A questão de gênero é possível de ser percebida em, pelo menos, duas situações.

1) As portas dos banheiros têm uma mensagem sobre o uso destes conforme a identidade de gênero (veja imagem abaixo); apesar disto, a homofobia no futebol não é tratada na exposição permanente, assim, é um tema que pode ser levantado como a ser melhorado.

Figura 7: Aviso fixado nas portas dos banheiros sobre o uso destes conforme a identidade de gênero. Fonte: autor, outubro de 2017.

Por outro lado, nas redes sociais o Museu mantém este discurso, atitude que acaba por ampliar o contato da instituição com o público e, no caso de seu posicionamento, acaba sendo uma ação educativa. Em relação à diversidade de gênero, a imagem abaixo foi postada na rede social Instagram.

Figura 8: postagem na rede social Instagram sobre o Dia Internacional do Orgulho LGBT. Fonte: Museu do Futebol (2017a).

2) A discussão sobre o futebol feminino é tratada como uma demonstração da resistência de muitas mulheres para que pudessem ou continuassem a jogar futebol. As dificuldades e proibições aparecem em alguns pontos da exposição, como nos documentários exibidos no setor chamado “Sala Dança do Futebol”, próximo ao Centro de Referência do Futebol Brasileiro (CRFB), localizado dentro do Museu.

A sala Anjos Barrocos cria a dimensão etérea dos ídolos que ajudaram a construir a história do futebol brasileiro. São 27 homenageados, como Julinho Botelho, Didi, Zagallo, Gilmar, e muitos outros. Desde 2015, uma conquista: a inclusão de duas grandes mulheres: Marta e Formiga, inigualáveis em seus feitos e recordes (MUSEU DO FUTEBOL, 2016a).

Figura 9: postagem na rede social Instagram sobre o Mês da Mulher. Fonte: Museu do Futebol (2017b).

A citação acima abre a possibilidade de uma discussão: se por um lado, é uma conquista a inclusão de duas mulheres entre os homenageados, por outro lado, porque apenas em 2015 duas mulheres foram inseridas? Isto é, apesar do aumento da igualdade entre gêneros, no futebol, assim como na sociedade como um todo, cada vez fica mais evidente a desigualdade de gênero, seja em aspectos domésticos, salários e acesso à cargos de destaque, como um tratamento tão desigual em relação à visibilidade e remuneração do futebol feminino. Por exemplo, o salário anual de Neymar é 29 milhões contra 450 mil de Marta (ÉPOCA NEGÓCIOS, 2015). Quando isto foi uma polêmica na mídia nacional em 2015, alguns jornalistas e blogueiros afirmavam que a diferença não era uma questão de gênero, mas uma questão de quanto cada um movimenta no mercado. Esta análise, apesar de correta do ponto de vista mercadológico, demonstra uma enorme miopia destes homens, tal diferença existe, evidentemente, devido ao gênero, afinal de contas, a baixa visibilidade do futebol feminino faz com que este movimente menos recursos...

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Figura 10: A jogadora Formiga homenageada na capa do folder da exposição Visibilidade para o Futebol Feminino e eternizada na sala Anjos Barrocos do Museu do Futebol. Fonte: Centro de Referência do Futebol Brasileiro (2017).

O estádio do Pacaembu recebeu em agosto de 2017 uma partida de futebol com equipes compostas por jogadores trans (MUSEU DO FUTEBOL, 2017c). Esta experiência é comentada por Bonfim (2017). Algumas ações sobre esta temática são descritas no texto Dez ações que engajaram o Museu do Futebol no debate sobre Gênero (CENTRO DE REFERÊNCIA DO FUTEBOL BRASILEIRO, 2017). Aparentemente, esta temática está ganhando espaço no Museu, haja visto algumas críticas, como a feita por Moraes, “mas um fato que nos surpreendeu foi a ausência, quase que completa de informações acerca do futebol feminino”(2009, p. 2).

Diversidade racial: a sala localizada após a escada que tem projeções audiovisuais de torcidas é voltada para uma visão mais histórica do futebol. Nesta sala, repleta de fotografias das primeiras décadas do século XX, há alguns aparatos audiovisuais que reproduzem um documentário sobre a origem do futebol, com destaque para a questão racial. O futebol foi criado na Inglaterra em meados do século XIX e, quando chegou ao Brasil, era destinado apenas a jogadores brancos. A partir disto, tem a inserção de negros nos times de forma bastante conflituosa:

O racismo acompanha o futebol brasileiro desde seu início. Jogadores negros não eram admitidos em muitos clubes, por conta do caráter aristocrático do esporte nos anos que sucederam sua chegada ao país. Apesar de muita imprecisão sobre os fatos, sabe-se que o jogador Carlos Alberto, em 1914, usava pó-de-arroz no rosto para jogar pelo Fluminense. O clube, no entanto, contesta a versão que a causa disso fosse racismo praticado por sua torcida e diretoria. Mesmo com tal, no mínimo, suspeita, a torcida tricolor continua a usar o pó-de-arroz como marca.

(...) A superação do racismo deve ser um objetivo importante no Brasil e no mundo, e o futebol poderia ser um instrumento importante nesta luta. Por enquanto, não vem sendo. E, em mais um 20 de novembro, os negros continuam sofrendo preconceitos e injúrias, sendo marginalizados, mortos e perpetuados nessa posição de subjugação. Infelizmente (OBSERVATÓRIO DA DISCRIMINAÇÃO RACIAL NO FUTEBOL, 2015, s.p.).

Sobre esta questão, Natsuki e Serrão (2016), ao tratarem da tese “Pelé e o complexo de vira-latas: discursos sobre raça e modernidade no Brasil” (SILVA, 2008), apresentam a evolução no tratamento da questão racial no futebol em paralelo com a história do esporte no Brasil. Apesar do tratamento desta temática nesta sala, ela não é abordada, por exemplo, em relação a acontecimentos recentes de racismo no futebol, seja nacional ou internacionalmente, sendo que esta lacuna pode ser alvo de um debate com os alunos. O documentário Zumbi Somos Nós, produzido pela Frente 3 de Fevereiro, trata do racismo no futebol entre os anos 2004 e 2006 (FRENTE 3 DE FEVEREIRO, 2006) e pode ser alvo de uma atividade antes ou depois da visita ao Museu do Futebol.

O Museu do Futebol fez uma postagem em sua página no Facebook sobre o racismo devido ao Dia da Consciência Negra de 2017:

Um drible no racismo?

Durante muito tempo, a narrativa construída sobre a história do futebol no Brasil ressaltou como a entrada dos jogadores negros mudou o estilo de jogar, fruto da influência da capoeira e do samba. O drible ganhou, nos pés de jogadores brasileiros, ginga e floreios e esse fundamento básico do esporte passou a ter uma característica especial dentro do futebol brasileiro.

A invenção desse drible cheio de ginga, no entanto, pode estar relacionada à atitudes racistas em campo: historiadores apontam que, no início do século XX, árbitros marcariam mais faltas em jogadores negros do que em brancos e o artifício dos primeiros foi desenvolver uma técnica que evitasse o contato corporal direto.

O jogo fluía melhor e a técnica do drible venceu.

Mas, será que o racismo no futebol foi mesmo driblado? (MUSEU DO FUTEBOL, 2017d, s.p.).

As mídias sociais, como Facebook e Instagram, e repositório de vídeos, como Youtube ou Vimeo, permitem que os museus ampliem o alcance de suas exposições. Para Cameron, Hodge e Salazar (2013, p. 10), discutindo sobre a o papel dos Museus na divulgação de informações sobre mudanças climáticas, as mídias sociais abriram “novas e emocionantes oportunidades” para que os museus se encaixem e dialoguem com comunidades mais amplas, envolvendo interesses variados e pontos de vista distintos em escala planetária, indo muito além de suas paredes, assumindo um novo papel de divulgação, negociações e processos decisórios.

Com a divulgação do nosso roteiro de visita ao Museu do Futebol, objetivamos demonstrar como que, a partir da localização, infraestrutura e material expositivo, podemos tratar de temas pertinentes à nossas atividades docentes no ensino superior.

 

Referências

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BARBIERI, José Carlos. Gestão Ambiental Empresarial: conceitos, modelos e instrumentos. ed. 4. São Paulo: Editora Saraiva, 2016.

BIZERRA, Alessandra F. Atividade de aprendizagem em museus de ciências. 2009. 274 f. Tese (Doutorado em Educação) – Faculdade de Educação, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2009.

BONFIM, Aira. Você conhece algum homem trans?Medium. 2017.  Disponível em <https://medium.com/museu-do-futebol/voc%C3%AA-conhece-algum-homem-trans-a9a4f55bfe02>. Acesso em 27 nov.2017.

CAMERON, Fiona; HODGE, Bob; SALAZAR, Juan Francisco. Representing climate change in museum space and placas. WIREs Clim Change, v. 4, n. 1, p. 9-21, 2013.

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CENTRO DE REFERÊNCIA DO FUTEBOL BRASILEIRO.Dez ações que engajaram o Museu do Futebol no debate sobre Gênero.Medium. 2017. Disponível em <http://www.historia.uff.br/nepess/arquivos/teseanapaula.pdf>. Acesso em 27 nov.2017.

DELICADO, Ana. Para que servem os museus cientificos? Funções e finalidades dos espaços de musealização da ciência. VII Congresso Luso-Afro-Brasileiro de Ciências sociais. Coimbra, Portugal. 2004. Anais... 2004.

DESVALLÉES, André; MAIRESSE, François (Eds.). Conceitos-chave de museologia. São Paulo: Comitê Brasileiro do Conselho Internacional de Museus, Pinacoteca do Estado de São Paulo, Secretaria de Estado da Cultura, 2013.

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MUSEU DO FUTEBOL. Exposição de longa duração. 2016a. Disponível em <http://www.museudofutebol.org.br/pagina/exposicao-longa-duracao>. Acesso em 27 nov.2017.

MUSEU DO FUTEBOL. Hoje é o Dia Internacional do Orgulho LGBT! Instagram. 2017a.Disponível em <https://www.instagram.com/p/BV5GFFql9tA/>. Acesso em 27 nov.2017.

MUSEU DO FUTEBOL. Museu do Futebol e Estéticas da Periferia Pacaembu promovem o “Festival Ocupa Pacaembu”, ação que une arte e futebol. 2017c. Disponível em <https://www.museudofutebol.org.br/media/files/Release_Museu%20do%20Futebol_Festival%20Ocupa%20Pacaembu_AGO%202017.pdf>. Acesso em 27 nov.2017.

MUSEU DO FUTEBOL. Um drible no racismo?Facebook. 2017d.Disponível em <https://www.facebook.com/museudofutebol/videos/1519607484788418/>. Acesso em 27 nov.2017.

O ESTADO DE SÃO PAULO. Museu do Futebol lança documentário sobre inclusão de pessoas com deficiência. 2016. Disponível em <http://emais.estadao.com.br/noticias/comportamento,museu-do-futebol-lanca-documentario-sobre-inclusao-de-pessoas-com-deficiencia,10000058965>. Acesso em 27 nov.2017.

OBSERVATÓRIO DA DISCRIMINAÇÃO RACIAL NO FUTEBOL. A história do racismo no futebol: Do pó de arroz a Aranha. 2015. Disponível em <http://observatorioracialfutebol.com.br/a-historia-do-racismo-no-futebol-do-po-de-arroz-a-aranha/>. Acesso em 27 nov.2017.

PNEM (Programa Nacional de Educação Museal). Deficiente Residente – Acessibilidade e Inclusão no Museu do Futebol. s.d.Disponível em <http://pnem.museus.gov.br/deficiente-residente-acessibilidade-e-inclusao-no-museu-do-futebol/>. Acesso em 27 nov.2017.

SILVA, Ana Paula da. Pelé e o complexo de vira-latas: discursos sobre raça e modernidade no Brasil. 2008. 229 f. Tese (doutorado em Ciências Humanas - Antropologia Cultural) - Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro. Disponível em <http://www.historia.uff.br/nepess/arquivos/teseanapaula.pdf>. Acesso em 27 nov.2017.

VEIGA, José Eli. A Emergência Socioambiental. São Paulo: Editora SENAC, 2007.



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