ISSN 1678-0701
Número 60, Ano XVI.
Junho/Agosto/2017.
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03/06/2017
ASPECTOS SOCIOECONÔMICOS E TECNOLÓGICOS DAS COMUNIDADES DO ENTORNO DA ÁREA DE PRESERVAÇÃO PERMANENTE DE SÃO GONÇALO, SOUSA-PARAÍBA-BRASIL  
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ASPECTOS SOCIOECONÔMICOS E TECNOLÓGICOS DAS COMUNIDADES DO ENTORNO DA ÁREA DE PRESERVAÇÃO PERMANENTE DE SÃO GONÇALO, SOUSA-PARAÍBA-BRASIL

 

 

JânioTrajano de Araújo

Licenciado em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Campina Grande –UFCG. Especialista em Ciências Ambientais pelo Instituto Superior de Educação de Cajazeiras-ISEC.

 

José Deomar de Souza Barros

Licenciado em Ciências com Habilitação em Biologia e em Química pela Universidade Federal de Campina Grande – UFCG. Mestre e Doutor em Recursos Naturais pela Universidade Federal de Campina Grande – UFCG. Professor Adjunto da Universidade Federal de Campina Grande – UFCG. E-mail: deomar.barros@ufcg.edu.br

 

Resumo: A presente pesquisa teve como objetivo identificar os aspectos socioeconômicos das comunidades do entorno da área de preservação permanente de São Gonçalo no município de Sousa-Paraíba. O referido trabalho foi realizado no período de 06 de dezembro de 2014 a 09 de maio de 2015, contendo uma amostra de 38 famílias. A metodologia utilizada para obtenção de dados foi à elaboração de um formulário adaptado por Rocha (1997) e readaptado por Barros (2014) para ser aplicado junto às famílias da área de estudo. Os resultados obtidos revelaram que a maioria dos entrevistados apresentam idade entre 31 a 35 anos, possuem um baixo nível de escolaridade, são proprietários de terras, consomem água proveniente do Açude de São Gonçalo, possuem a agropecuária como principal atividade econômica, fazem uso de ferramentas manuais no desenvolvimento de atividades nas propriedades e complementam sua renda com transferências do governo, como bolsas e/ou aposentadorias. Neste contexto ressalta se a necessidade de uma educação de jovens e adultos contextualizada com os aspectos locais da população, bem como a aplicação de políticas públicas voltadas a uma melhor convivência com a região semiárida.

 

Palavras chave: Agropecuária. Desenvolvimento. Semiárido.

 

 

the socioeconomic and technological aspects of the communities around the area of permanent preservation of São Gonçalo in the municipality of Sousa-Paraíba - brazil

 

Abstract:The present research had as objective to identify the socioeconomic aspects of the communities around the area of permanent preservation of São Gonçalo in the municipality of Sousa-Paraíba. This work was carried out in the period from December 6, 2014 to May 9, 2015, containing a sample of 38 families. The methodology used to obtain data was the elaboration of a form adapted by Rocha (1997) and adapted by Barros (2014) to be applied to the families of the study area. The results showed that the majority of respondents are aged between 31 and 35 years old, have a low level of schooling, are landowners, consume water from the São Gonçalo Water Supply, have farming as their main economic activity, make use of tools Manuals in the development of activities in the properties and complement their income with government transfers, such as scholarships and / or pensions. In this context, the need for an education of young people and adults contextualized with the local aspects of the population, as well as the implementation of public policies aimed at a better coexistence with the semi-arid region is highlighted.

Keywords: Agropecuária. Development. Semiarid.

 

INTRODUÇÃO

 

Localizado na porção central da Região Nordeste, o semiárido brasileiro abrange os estados do Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe, Bahia e parte do estado de Minas Gerais; sendo a região semiárida com a maior densidade demográfica do planeta e, em função das adversidades climáticas, associadas aos outros fatores históricos, geográficos e políticos que remontam centenas de anos, abriga a parcela mais pobre da população do país (SILVA et al., 2010).

O semiárido apresenta uma variedade ambiental muito intensa, onde as irregularidades das chuvas, as características naturais do solo, as deficiências em termos de crédito, despreparo da população e a falta de assistência técnica limitam a produção agropecuária, que são, na maioria, a base econômica familiar. Sendo esses, os fatores que mais contribuem para o seu pequeno desenvolvimento, que tem como resultado o baixo padrão de vida das pessoas que convivem nesse meio (MALVEZZI, 2007).

De acordo com Menezes et al. (2010) o desenvolvimento socioeconômico do semiárido, especificadamente no estado da Paraíba, é extremamente dependente da precipitação pluviométrica e suas variações provocam relevantes prejuízos econômicos ao estado. No entanto Ferreira et al. (2004) afirma que a seca é um fenômeno natural que faz parte do histórico do semiárido, sendo relatado desde a época da colonização portuguesa e que existe um imaginário social de que as secas são vistas como as responsáveis pelas deficiências socioeconômicas, e por isso requer a construção de um olhar que possibilite a sociedade criar modelos alternativos de convivência.

O semiárido brasileiro tem apresentado graves indicadores sociais e econômicos, com um elevado número de municípios com baixo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). Neste sentido torna-se explícita a urgência em entender as fragilidades e as demandas necessárias a esse território, no que se diz respeito aos desafios ambientais, socioculturais e políticos (SÁ et al., 2012).

A grande concentração de minifúndios revela a existência de um número significativo de famílias que deles dependem. No entanto esses minifúndios não asseguram uma renda suficiente para garantir um melhor padrão de vida às famílias (SILVA et al., 2010).  Esse fator tem contribuído para o êxodo rural que segundo Barros, Chaves e Farias (2014) para se evitar esse processo é necessário o desenvolvimento de ações que englobem inovações tecnológicas, econômicas e sociais adaptadas as condições locais capazes de promover a valorização e o bom proveito dos recursos produtivos disponíveis em suas mais diferentes combinações.

Apesar das atividades agropecuárias representarem relevância na composição da estrutura de renda da população, faz-se necessário o desenvolvimento de outras atividades econômicas que possibilitem a exploração dos recursos naturais locais em cumprimento da responsabilidade socioambiental (BARROS, et al., 2013).

Assim, a presente pesquisa teve por objetivo identificar os aspectos socioeconômicos das comunidades do entorno da área de preservação permanente de São Gonçalo no município de Sousa-Paraíba.

 

Metodologia

 

Área de estudo da pesquisa

 

A Área de Preservação Permanente de São Gonçalo está localizada no Perímetro Irrigado de São Gonçalo (PISG), onde se desenvolve a prática de agricultura de sequeiro e irrigação. Situado a 15 Km da cidade de Sousa no estado da Paraíba, distante a 420 Km de João Pessoa (Figura 01), o PISG entrou em funcionamento no ano de 1973 e foi uma iniciativa do Governo do Estado da Paraíba com o objetivo de impulsionar a agricultura local, que hoje vem apresentando grande influência na economia estadual (NETO et al., 2012). Administrado pelo Departamento Nacional de Obras contra as Secas (DNOCS), todo o suprimento de água do perímetro é proveniente do açude de São Gonçalo, cuja capacidade máxima é de 44. 600.000 de m³ (AESA, 2017).

 

 


Figura 01 – Localização da Área de Preservação Permanente de São Gonçalo. Fonte: www.dnocs.gov.br.

 

A área marginal do açude de São Gonçalo é considerada uma área de preservação permanente através da resolução nº 302 de 20 de março de 2002 do Conselho Nacional de Meio Ambiente (CONAMA). Esse órgão estabelece que as áreas do entorno de reservatórios d’água artificiais, decorrentes de barramento ou represamento de cursos d’água naturais, devem ser preservados com a função ambiental de preservar os recursos hídricos, a paisagem, a estabilidade geológica, a biodiversidade, o fluxo gênico de fauna e flora, proteger o solo e assegurar o bem estar das populações humanas (BRASIL, 2002).

Localizado entre os paralelos 6º 45’ e 33º 24’ S e os meridianos 38º 13’ e 41º, o PISG está inserido no semiárido brasileiro. Com uma pluviosidade anual de aproximadamente 800 mm. As chuvas são concentradas entre os meses de janeiro e abril e uma predominante estiagem no restante do ano. A temperatura varia entre 25º a 38º e a umidade relativa do ar é de 64%. O solo é do tipo NeossoloFlúvico e o relevo é plano e suavemente ondulado, com altitude média de 235 metros acima do nível do mar (EMBRAPA, 2006).

Inserido na sub-bacia hidrográfica do Rio do Peixe e na Bacia do Rio Piranhas, o PISG está localizado nas chamadas “Várzeas de Sousa”, que se situa em terras dos municípios de Sousa e Aparecida ambos no sertão paraibano. A região do perímetro é interligada aos grandes centros econômicos do país através da rodovia BR-230 e da ferrovia que dá acesso à algumas cidades do nordeste, inclusive ao Porto de Cabedelo (NETO et al., 2012).

 

Caracterização socioeconômica

A metodologia utilizada para obtenção de dados foi a elaboração de um formulário adaptado por Rocha (1997) para ser aplicado junto aos chefes de famílias da área de estudo. A referida metodologia utilizada foi readaptada para o contexto do sertão paraibano por Barros (2014). A metodologia consiste em levantar e analisar a situação social, econômica e tecnológica das famílias entrevistadas. Esta pesquisa foi realizada no período de 06 de dezembro de 2014 a 09 de maio de 2015, contendo uma amostra de 38 famílias. Durante a aplicação dos questionários foram consideradas as seguintes variáveis: sociais (demografia, habitação, nível de instrução, participação em organização social e salubridade rural); econômicas (produção, animais de trabalho e de produção, comercialização, crédito e rendimentos); e tecnológicas (tecnologia e maquinário e verticalização da produção).

Devido ao grande número de famílias na localidade se fez necessário selecionar uma amostra representativa para obtenção dos dados, de forma que apenas as comunidades mais próximas à área de preservação permanente foram pesquisadas. Sendo elas: Distrito de São Gonçalo, Avenida Pedro Antunes de Oliveira, Núcleo Habitacional II, Sítio Alto da Gruta, Sítio Pitombeira, Sítio Cuandú, Sítio Paquetá e Sítio Oriente.

            Os dados obtidos foram analisados sistematizados por meio da estatística descritiva. Quanto os aspectos éticos, todas as etapas desta pesquisa obedeceram às diretrizes da resolução Nº 196 de 10 de outubro de 1996 que assegura que os participantes devem ser informados da destinação, uso e sigilo das informações obtidas.

 

RESULTADOS E DISCUSSÕES

 

Fator social

 

A maioria dos moradores que responderam ao questionário socioeconômico era do sexo feminino (84,2%), sendo que esse número remete ao fato de que geralmente os chefes de famílias do sexo masculino desenvolvem alguma atividade fora de casa durante o dia ou até mesmo permanecem em outras localidades devido à ausência de atividades rentáveis no Semiárido. Na Figura 02 é apresentada a faixa etária dos chefes de família entrevistados, constatou-se que 23,7% dos mesmos, apresentam idade entre 31 a 35 anos de idade e apesar de estarem em idade produtiva a maioria depende de transferências do governo, a exemplo do programa Bolsa Família e aposentadorias.

Figura 02 - Frequência relativa da média de idade dos chefes de famílias.

 

O resultados apontam que 28,9% da população pesquisada apresenta uma média de idade do núcleo familiar entre 25 e 30 anos, sendo relativamente jovens se comparado ao diagnóstico realizado por Oliveira et al. (2012) que identificou uma faixa etária de 40 a 50 anos em agricultores do munícipio de Cachoeira dos Índios, também localizado no sertão paraibano.

Com relação ao nível de escolaridade (Figura 03) foi observado que a maioria dos entrevistados (42,1%) concluiu apenas a primeira fase do ensino fundamental (1º ao 5º ano) e apenas 7,9% possui ensino superior completo. Resultado semelhante foi encontrado por Alves et al. (2012) ao pesquisar no entorno de uma microbacia hidrográfica no munícipio de São João do Cariri-PB, na qual verificou se que 41% dos entrevistados também não concluiu o ensino fundamental.

Figura 03 – Frequência relativa do grau de instrução dos chefes de famílias

 

O baixo nível de escolaridade dos moradores pesquisados compromete principalmente a inserção dos mesmos no mercado de trabalho, o desenvolvimento de atitudes voltadas para a promoção da cidadania e a sensibilização quanto às questões ambientais locais. Esse contexto ressalta a necessidade de uma educação de jovens e adultos contextualizada com o cotidiano dos moradores e a facilitação ao acesso à cursos profissionalizantes.

É importante ressaltar que ao investigar a variável habitação (Figura 04) foi constatado que 52,6% das famílias pesquisadas residem em casas de alvenaria boa, reduzindo assim a proliferação de vetores de doenças. Todas as residências investigadas possuem energia elétrica e em 39,5% das mesmas a água para consumo é proveniente do açude São Gonçalo, na qual 84,2% afirmaram tratar a água em casa com a adição de hipoclorito de sódio e/ou filtragem em filtros domésticos. Esses dados significam uma melhoria na qualidade de vida dos moradores das comunidades supracitadas.

Figura 04 – Frequência relativa do tipo de habitação

 

Com relação ao tipo de fogão utilizado pelas residências foi constatado que a maioria (80,8%) utiliza apenas o gás de cozinha, enquanto que 19,2% utilizam uma associação entre gás de cozinha, lenha e carvão. Esses dados estão associados à proibição da extração de madeira na área de preservação permanente de São Gonçalo, reduzindo assim os efeitos antrópicos sobre o ecossistema. Santana et al. (2008) realizando um diagnóstico socioeconômico na comunidade Pindoba, no munícipio de Areia-PB, constatou que 53% das famílias entrevistadas também utilizam gás de cozinha para cocção dos alimentos.

Todas as residências investigadas possuem energia elétrica e em 39,5% das mesmas a água para consumo é proveniente do açude São Gonçalo, na qual 84,2% afirmaram tratar a água em casa com a adição de hipoclorito de sódio e/ou filtragem em filtros domésticos. Esses dados significam uma melhoria na qualidade de vida dos moradores das comunidades supracitadas.

Esses resultados são semelhantes aos encontrados por Barros et al. (2013) que ao realizar uma pesquisa com moradores de comunidades rurais de Cajazeiras-PB, verificou que 80% dos agricultores empregam algum tipo de tratamento caseiro na água de beber.

As comunidades Distrito de São Gonçalo, Avenida Pedro Antunes de Oliveira e Núcleo Habitacional II recebem água tratada oriunda do Departamento de Água, Esgoto e Saneamento Ambiental de Sousa-PB (DAESA), compondo os 36,8% da população que faz uso da rede pública de distribuição. Segundo Neto et al. (2012) a água subterrânea do perímetro irrigado de São Gonçalo contém uma alta concentração de sais devido a intensa prática de irrigação na localidade, tornando inviável a utilização da mesma para consumo humano.

Na maioria das residências (55,3%) o lixo produzido é enterrado ou queimado; 23,7% eliminam livremente os resíduos sólidos e apenas 21,1% possuem coleta pública. Esses resultados são contrários aos encontrados por Santos (2009) que pesquisando na microbacia do Oiti no munícipio de Lagoa Seca-PB verificou que apenas 14,3% dos entrevistados eliminam o lixo livremente.

Diante dessa realidade faz-se necessário a tomada de medidas socioambientais por parte das comunidades e do poder público, visando à coleta seletiva e o destino apropriado do lixo como uma forma eficaz de se evitar a propagação de doenças e a contaminação dos reservatórios de água.

Quanto à destinação dos dejetos, verificou-se que 76,3% das residências utilizam fossa séptica; 15,8% eliminam livremente e apenas 7,9% são atendidos por rede coletora de esgoto. Mediante esses resultados pode-se afirmar que a maioria das famílias se preocupa com destinação dos esgotos produzidos em suas residências, no entanto uma parcela dessa população elimina seus dejetos irregularmente, ao passo em que a rede de coleta de esgoto nas comunidades ainda é deficitária. Diante desse panorama, surge a necessidade da adoção de medidas de saúde pública e vigilância epidemiológica associada a melhorias na qualidade do saneamento básico na localidade.

Quanto a variável participação em organizações, verificou se que 57,1% dos entrevistados não fazem parte de nenhuma organização, sendo esse um indicador negativo, pois as associações comunitárias consistem em um mecanismo importante na reivindicação de ações necessárias para sanar os problemas sociais e ambientais locais, visto que as mesmas possibilitam a integração dos moradores e facilita a articulação com o poder público.

Em referência à infestação de pragas, a maioria dos entrevistados (47,4%) afirmou não ocorrer a proliferação excessiva de insetos na localidade, enquanto que 28,9% e 21,1% apontaram uma baixa e média infestação respectivamente; 2,6% afirmaram existir uma alta infestação (Figura 05), fator este que associado aos baixos índices pluviométricos compromete cada vez mais a produção agrícola. No total 57,9% dos moradores afirmaram combater as pragas eventualmente com o uso de pesticidas; 34,2% não utilizam nenhuma prática de combate e 7,9% combatem as pragas periodicamente.

Figura 05 – Frequência relativa da infestação de pragas

 

 

Fator econômico

 

O Perímetro Irrigado de São Gonçalo, local na qual estão inseridas as comunidades pesquisadas neste trabalho, destacou-se por muito tempo no cenário nacional pela qualidade da água de coco produzida na localidade, no entanto essa produção tem decaído drasticamente nos últimos anos em virtude da escassez hídrica, comprometendo a geração de renda de centenas de famílias.

Atualmente a atividade econômica preponderante na área de estudo é a agropecuária, em que as principais práticas agrícolas desenvolvidas são a cultura do milho e o feijão. O cultivo desses cereais está relacionado à pequena quantidade de água empregada em sua produção e o baixo custo de mão de obra.  Na pecuária constatou se que os principais rebanhos são bovinos, aves, suínos, caprinos e ovinos, todos em pequena quantidade devido à estiagem e consequentemente a falta de alimento suficiente para o forrageio desses animais.

            Na figura 06 podemos observar que entre os anos de 2014 e 2015 a produção agrícola na localidade ficou abaixo da média, sendo que alguns trabalhadores rurais sequer chegaram a produzir. Barros (2014) ao pesquisar sobre a produção agrícola média no sertão paraibano constatou que 96,3% dos agricultores também tiveram a produção agrícola abaixo da média.

                                                             

Figura 06 – Frequência relativa da produtividade agrícola média

 

Esse panorama configura a disponibilidade hídrica como um fator limitante ao desenvolvimento socioeconômico e a qualidade de vida, ficando evidente a necessidade de políticas públicas capazes de potencializar os recursos hídricos disponíveis no semiárido, como uma forma de adaptação da produção agropecuária as condições climáticas locais.

Com relação ao florestamento, foi observado que 44,7% das propriedades apresentam um índice de vegetação nativa abaixo de 1%, corroborando com Santana et al. (2008). Ainda em relação ao florestamento, 34,2% dessas propriedades apresentam um índice de vegetação nativa entre 10 a 19%, sendo que esse valor resulta do fato de algumas propriedades estarem parcialmente dentro da área de preservação permanente; 15,8% acima de 20% e 5,3% entre 1 a 9%. O principal fator que contribui para este resultado é a extração de madeira das propriedades para fins de comercialização e uso no cozimento de alimentos. A redução da cobertura vegetal acarreta na exposição do solo, intensificando a erosão e o assoreamento de mananciais, caracterizando-se como um desequilíbrio ambiental na localidade.

A maioria dos moradores entrevistados (94,7%) não possui pastagem plantada; 2,6% possuem pasto conservado com ensilagem e 2,6% possui pasto conservado sem reserva estratégica alimentar. A falta de reserva alimentar consiste em um ponto negativo na produção pecuária, visto que o armazenamento de pastagem é essencial para o suprimento alimentar dos rebanhos, principalmente nos períodos de estiagem.

            A figura 07 aponta que 89,5% dos moradores não possuem nenhum animal de trabalho. A pequena quantidade de animais de trabalho na área de estudo está associada à baixa produção agropecuária e a escassez de recursos para alimentar animais de grande porte como equinos e bovinos.

Figura 07 – Frequência relativa dos animais de trabalho.

 

            Com relação à criação de animais de produção (Figura 08), foi constatado que 52,6% dos entrevistados possuem um tipo de animal de produção. O tipo de animal de produção mais comum nas residências pesquisadas são as aves, chegando a serem encontradas em mais de 90% dos domicílios. De acordo com Barros (2014) a estratégia de criação desses animais no semiárido contribui para a sobrevivência e permanência do homem no campo, ao passo em que a pecuária nesse meio torna se uma alternativa relevante à medida que é menos susceptível as variações climáticas se comparadas à agricultura.

 

Figura 08 – Frequência relativa dos animais de produção.

 

Quanto à comercialização da produção pecuária verificou se que 73,7% dos entrevistados não vendem sua produção; 15,8% vendem a marchantes das redondezas; 7,9% vendem diretamente à consumidores e 2,6% vendem a frigoríficos do município. O alto índice de produtores rurais que não vendem sua produção pecuária está associado à significativa diminuição desta produção nos últimos anos devido à insuficiência na disponibilidade hídrica.

Com relação à venda da produção agrícola, constatou se que 76,3% dos entrevistados afirmaram não comercializar; 18,4% vendem à mercadinhos; 2,6% à cooperativas e 2,6% vendem diretamente aos consumidores. A maioria dos pesquisados (94,7%) também afirmaram não vender a produção florestal e apenas 5,3% comercializam eventualmente a madeira.

Quanto à fonte de crédito agrário; 55,3% recorrem aos bancos oficiais, em especial ao Banco do Nordeste do Brasil (BNB); 10,5% custeiam suas atividades com recursos próprios e 31,6% afirmaram não ter acesso ao crédito.

A figura 09 apresenta a renda mensal das propriedades pesquisadas; nela observa-se que 69,2% possuem uma renda mensal de até meio salário mínimo, resultante de uma produção extremamente abaixo do esperado.

Figura 09 - Frequência relativa da renda mensal da propriedade

 

A maioria das famílias (94,7%) possui rendas extras como Bolsa Família, Seguro Safra, Bolsa Estiagem ou aposentadoria/pensão, fazendo com que 39,5% destas famílias possuam uma renda total mensal (Figura 10) de um a dois salários mínimos. Essas rendas adicionais representam uma melhoria significativa no orçamento familiar, visto que através destas as famílias passam a não depender exclusivamente da produção agropecuária.

Figura 10 – Frequência relativa da renda total mensal

 

 

Fator tecnológico

 

A maioria das propriedades da área pesquisada (63,2%) possui menos de 20 hectares e com aproveitamento de até 50%;28,9% também possuem menos que 20 hectares, porém com aproveitamento acima de 50% e apenas 7,9% possuem mais de 20 hectares e com aproveitamento de até 50%. Segundo Sousa (2007) a predominância de pequenas propriedades e a ausência de práticas de conservação do solo fazem com que os proprietários utilizem de forma contínua e irracional os recursos naturais, comprometendo a disponibilidade dos mesmos.

Quanto ao tipo de posse (Figura 11) foi constatado que 63,2% dos entrevistados são proprietários da terra, corroborando com Barros (2014) ao realizar o diagnóstico socioeconômico da microbacia hidrográfica do Riacho Val Paraíso no sertão paraibano, na qual verificou que 64,7% dos entrevistados são proprietários das terras.

 

 

 

Figura 11- Frequência relativa ao tipo de posse da terra

 

 

Com relação ao uso de adubação ou calagem foi diagnosticado que 78,4% dos entrevistados não realizam essa prática, 16,2% realizam adubação química sem orientação técnica, 5,4% utilizam algum tipo de adubação orgânica e nenhum dos trabalhadores utiliza conjuntamente adubação química e orgânica. A adubação orgânica é mais viável ao pequeno produtor ao passo em que o mesmo pode fazer uso de insumos produzidos organicamente em sua própria propriedade, tornando a produtividade agrícola sustentável.

No tocante ao tipo de ferramenta utilizada para o desenvolvimento de atividades nas propriedades, verificou se que 88% utilizam apenas ferramentas manuais, 4% mecânica e 8% ambos os tipos de ferramentas. Também foi investigado sobre o tipo de transporte utilizado para o escoamento da produção e deslocamento dos moradores, 34,2% utilizam transporte alternativo, 31,6% motocicleta, 15,8% ônibus, 7,9% veículo próprio, 5,3% bicicleta, 2,6% carroça com tração animal e 2,6% afirmaram não ter meio de transporte.

Com relação ao tipo de preparo do solo para plantio, quanto a direção das leiras, 89,5% preparam o solo na forma de contorno e 10,5% a favor do declive, ficando evidente a preocupação dos agricultores com a perda do solo.

Ao serem interrogados sobre a reserva de alimentação animal, apenas 33,3% afirmaram reservar alimentação para o gado, sendo o milho o principal alimento reservado. A maioria (66,7%) afirmou não realizar essa prática. Como já discutido anteriormente, a maior parte dos criadores não possui pastagem plantada devido à baixa disponibilidade de água, constituindo um agravante para a pecuária nos períodos de estiagem.

Foi constatado que 97,4% não realizam nenhuma prática de conservação do solo como rotação de culturas, terraceamento e plantio consorciado. Esse fato compromete a fertilidade do solo e consequentemente o cultivo. Quanto ao uso de irrigação (Figura 12) foi verificado que 76,3% não realizam esta prática. Alves et al. (2012) ao realizarem uma investigação na microbacia hidrográfica do Riacho Namorado em São João do Cariri-PB, verificaram que 84% dos entrevistados também não usam irrigação.

Figura 12- Frequência relativa do uso de irrigação

Por muito tempo, a irrigação foi a principal prática agrícola existente no entorno da Área de Preservação Permanente de São Gonçalo, no entanto fatores climáticos acarretaram nos últimos anos uma drástica diminuição da quantidade de água do principal reservatório da localidade (Figura 13), comprometendo significativamente esta prática.

 

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Figura 13 – (A) Açude de São Gonçalo no ano de 2010. (B) Açude de São Gonçalo no ano de 2015. Fonte: Arquivo do autor.

 

Com relação ao recebimento de assistência técnica foi diagnosticado que 86,8% dos entrevistados não recebem nenhum tipo de orientação técnica, 7,9% recebem ocasionalmente e nem sempre seguem as orientações e 5,3% recebem ocasionalmente e seguem as orientações. A inexistência de assistência técnica por parte do governo ou da sociedade civil organizada dificulta o desenvolvimento de atividades socioeconômicas rentáveis e sustentáveis e impossibilita a relação equilibrada entre produção e conservação de recursos naturais.

Quanto à forma de exploração da pecuária (Figura 14), foi verificado que 86,8% dos entrevistados exploram a pecuária de forma semiextensiva, com recolhimento à tarde para suplementação alimentar, corroborando Sousa (2010).

Figura 14- Frequência relativa das formas de exploração da pecuária

 

No tocante a posse de máquinas agrícolas, foi verificado que 92,9% possuem alguma máquina para auxílio no campo e 7,1% não possuem. Dentre as máquinas mais citadas estão motorbomba elétrico, pulverizador costal, cultivador, forrageira e plantadeira manual.

Foi verificado que 97,4% dos moradores entrevistados não produzem nenhum tipo de artesanato. Segundo relato dos mesmos, falta incentivo por parte de órgãos públicos e associações para o desenvolvimento desta atividade, sendo que o artesanato possibilitaria uma complementação na renda familiar.

Com relação à agregação de valor através do processamento de matéria prima (Figura 15), foi constatado que 86,8% dos entrevistados não realizam nenhum tipo de processamento. Na maioria das vezes, o processamento realizado pelos moradores ocorre manualmente através da fabricação de queijos a partir do leite de gado e o engarrafamento do mel de abelha para comercialização, corroborando Barros (2014).

Figura 15 – Frequência relativa da agregação de valor através de processamento de matéria prima.

 

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

            Diante da análise dos aspectos socioeconômicos e tecnológicos das comunidades do entorno da área de preservação permanente de São Gonçalo pode se inferir que na localidade existe uma relação mútua entre as condições sociais, econômicas e tecnológicas, na qual para que ocorra uma melhoria significativa na qualidade de vida das famílias pesquisadas é necessário a implementação de políticas públicas eficientes, como uma educação de jovens e adultos contextualizada com a realidade dos mesmos, ampliação de saneamento básico, orientação técnica no desenvolvimento de atividades econômicas, consolidação de alternativas de convivência com o semiárido, entre outras.

            A irregularidade pluviométrica aliada ao reduzido uso de tecnologias na agropecuária, afeta consideravelmente a produtividade nas comunidades pesquisadas, desencadeando um déficit no desenvolvimento econômico da área pesquisada.

 

REFERÊNCIAS

 

AGÊNCIA EXECUTIVA DE GESTÃO DAS ÁGUAS DO ESTADO DA PARAÍBA. Monitoramento dos volumes de açudes. Disponível em: <http://www.aesa.pb.gov.br>. Acesso em 20/09/2015.

 

ALVES, T. L. B; AZEVEDO, P. V. de; FARIAS, A. A. Dianóstico socioambiental do entrono da microbacia hidrográfica do Riacho Namorado no município de São João do Cariri– PB. Ateliê Geográfico, v. 6, n. 4, p. 88-109, 2012.

 

BARROS, J. D. S. Estoques de carbono e nitrogênio em diferentes usos do solo e condições socioeconômicas e ambientais no sertão paraibano. 2014. 110f.  Tese (Doutorado em Recursos Naturais). Universidade Federal de Campina Grande, Campina Grande, 2014.

 

BARROS, J. D, et al. Percepção dos agricultores de Cajazeiras na Paraíba, quanto ao uso de água de chuva para fins potáveis. Holos, ano 29, v. 2, p. 50-65, 2013.

 

BARROS, J. D. S.; CHAVES, L. H. G.; FARIAS, S. A. R. Aspectos socioeconômicos na Microbacia Hidrográfica do Riacho Val Paraíso – PB – Brasil. Redes – Revista de Desenvolvimento Regional, v. 19, n.1, p. 169-187, 2014.

 

BRASIL. Resolução CONAMA nº 302. Brasília: Ministério do Meio Ambiente, 2002.

 

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