ISSN 1678-0701
Número 59, Ano XV.
Março-Maio/2017.
Números anteriores 
Início      Cadastre-se!      Procurar      Submeter artigo      Fazer doação      Contato     Apresentação     I Prêmio Educação Ambiental em Ação     Normas de Publicação     Artigos     Dicas e Curiosidades     Reflexão     Para sensibilizar     Dinâmicas e recursos pedagógicos     Entrevistas     Culinária     Arte e ambiente     Divulgação de Eventos     O que fazer para melhorar o meio ambiente     Sugestões bibliográficas     Educação     Plantas medicinais     Práticas de Educação Ambiental     Educação e temas emergentes     Ações e projetos inspiradores     Relatos de Experiências     Notícias
Artigos

10/03/2017UMA EXPERIÊNCIA EM ECOLOGIA CÍVICA NO MUNICÍPIO DE SÃO CARLOS (SP, BRASIL)  
Link permanente: http://www.revistaea.org/artigo.php?idartigo=2684 
" data-layout="standard" data-action="like" data-show-faces="true" data-share="true">

UMA EXPERIÊNCIA EM ECOLOGIA CÍVICA NO MUNICÍPIO DE SÃO CARLOS (SP, BRASIL)

 

Ícaro da Silva

Graduando, Bacharelado em Gestão e Análise Ambiental, Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). E-mail: icarosilva3@gmail.com

Benjamim Mattiazzi

Professor, Associação Veredas: Caminho das Nascentes. E-mail: bmattiazzi@gmail.com

Rodolfo Antônio de Figueiredo

Professor, Departamento de Ciências Ambientais (DCAm/CCBS), Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). E-mail: rodolfo@ufscar.br

 

Resumo

O presente artigo tem por objetivo apresentar as atividades realizadas durante um estágio em uma associação civil presente no município de São Carlos (SP), dialogando-as com o referencial teórico do recente campo da Ecologia Cívica. Ao longo do ano de 2016 as atividades realizadas responderam particularmente aos princípios de promover recreação para a comunidade, promover bem-estar e bem-viver, proporcionar oportunidades para aprendizagem, agregar múltiplos parceiros, tornar sistema socioecológico resiliente e acionar elaboradores de políticas públicas para permitir o desenvolvimento e a progressão das práticas da associação.Concluímos que a atuação da associação se encaixa nos princípios fundamentais da Ecologia Cívica, atuando em frentes socioambientais que fortalecem as relações sociais da comunidade.

 

Palavras-chaves: educação ambiental, capital social, resiliência.

 

Abstract

This paper aims to present the activities carried out during an internship in a civil association of São Carlos (SP), dialoguing them with the theoretical framework of the recent field of Civic Ecology. Throughout the year of 2016, the activities carried out responded particularly to the principles of promoting recreation for the community, promoting well-being and well-living, providing opportunities for learning, adding multiple partners, making the socioecological system resilience, and triggering public policymakers to enable the development and progression of the association practices. We conclude that the performance of the association fits the fundamental principles of Civic Ecology, acting on social and environmental fronts that strengthen the social relations of the community.

 

Keywords: environmental education, social capital, resilience.

 

Introdução

 

O curso de graduação em Gestão e Análise Ambiental da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) apresenta como inovação pedagógica a possibilidade da/o(ver CASELLATO et al., 2006, para uso de linguagem não sexista) estudante optar, como requisito para concluir seu curso, por fazer um “Projeto Final: Monografia”, que tem um caráter de pesquisa científica, ou por um “Projeto Final: Estágio”, voltado para uma atuação extensionista.O Projeto Final: Estágio é dividido em dois semestres, com o objetivo de capacitar a/o estudante a realizar trabalhos acadêmicos e técnicos na gestão e análise ambiental, com temática relacionada a uma área específica ou à integração entre os diferentes conhecimentos, além de possibilitar a realização de estágio fora da universidade para aplicação prática dos conhecimentos obtidos ao longo do curso.

A/o estudante realiza o estágio em local de interesse para sua formação profissional, supervisionada/o por pessoa responsável pela entidade parceira que oferta o estágio e por uma/um professora/r da UFSCar. No presente artigo, o primeiro autor foi o estagiário, o segundo foi oorientador de estágio da entidade que recebeu o estagiário (no caso, a Associação Veredas: Caminho das Nascentes), que também contou com a colaboração de sua Diretora, Profa. Leda Maria de Souza Gomes, e o terceiro autor é oorientador acadêmico da Universidade.

O objetivo do presente artigo é relatar a experiência vivenciada ao longo do estágio na Associação Veredas: Caminho das Nascentes, sediada no município de São Carlos, região central do estado de São Paulo, nos primeiro e segundo semestres de 2016, dialogando-a com o referencial teórico da Ecologia Cívica.

 

Ecologia Cívica

 

A Ecologia Cívica é uma área de conhecimento recentemente desenvolvida por uma pesquisadora e por um extensionista da Cornell University (EUA), Marianne E. Krasny e Keith G. Tidball, que tem por objetivocompreender e fomentar a atuação de pessoas que não se veem separadas dos entes naturais e nem das demais pessoas de sua comunidade. A Ecologia Cívica procura, portanto, compreender como ocorrem as interações entre as pessoas, suas comunidades esuas práticas de restauraçãodo ambiente onde vivem (KRASNY; TIDBALL, 2015).

Segundo Krasny e Tidball (2015, p. 5), a Ecologia Cívica se adequa a 10 princípios: 1) As práticas ocorrem em locais degradados (dos pontos de vista ambiental e/ou social); 2) Pessoas que têm amor pela vida e pelos locais degradados se tornam suas guardiãs e administradoras; 3) As práticas promovem recreação para a comunidade que convive com e no local; 4) As pessoas guardiãs e administradoras recriam os locais degradados através de memórias socioecológicas; 5) As práticas produzem serviços ecossistêmicos; 6) As práticas promovem bem-estar e bem-viver; 7) As práticas proporcionam oportunidades para aprendizagem; 8) As práticas iniciam de forma localizada e se expandem para englobar múltiplos parceiros; 9) As práticas tornam o sistema socioecológico resiliente; e 10) Elaboradores de políticas públicas permitem o desenvolvimento e progressão das práticas de Ecologia Cívica.

Por se tratar de uma nova área do conhecimento, até o momento existe apenas uma publicaçãobrasileirapresente no Google Acadêmico (https://scholar.google.com.br/) que aborda a Ecologia Cívica (CHAVES; ALVIM, 2015) e, em português,além do anteriormente citado foram encontrados apenas mais trêstrabalhos realizados em Portugal (ALMEIDA, 2016; PAIZINHO, 2016; SOUSA, 2015). A importância do presente trabalho, portanto, justifica-se por ser uma das primeiras aproximações ao campo da Ecologia Cívica realizado no Brasil e em português.

 

A Associação Veredas: Caminho das Nascentes

 

Tendo um histórico começando na década de 1990, com moradores próximos do bosque Santa Marta, uma das poucas reservas de Mata Atlântica na região central do estado de São Paulo e a única dentro do perímetro urbano do município de São Carlos (SP), começou-se a praticar algumas atividades socioambientais (MATTIAZZI et al., 2011). Com o passar do tempo, outra área começou a ser inserida nesse panorama de práticas e atividades socioambientais, conhecido posteriormente como bosque Cambuí.

A iniciativa começou a partir da atuação de um morador do bairro que abriga os dois bosques, Prof. Benjamim Mattiazzi, sendo que posteriormente foi criada a Associação Veredas: Caminho das Nascentes, ampliando as iniciativas para toda a microbacia do córrego Santa Maria do Leme. A mobilização em criar a Associação trouxe uma participação efetiva das/os moradoras/es, procurando principalmente limpar os córregos da microbacia, despoluir suas margens e preservar as mesmas, bem como proteger a fauna e flora promovendo um local mais saudável ambientalmente para toda a população. Essas atividades são condizentes com o que é disposto na Política Nacional de Educação Ambiental, onde é entendido por educação ambiental os processos por meio das quais o individuo e a coletividade constroem valores sociais, conhecimentos, habilidades, atitudes e competências voltadas para a conservação do meio ambiental (BRASIL, 1999).

A Associação, qualificada oficialmente como uma OSCIP - Organização da Sociedade Civil de Interesse Público, é muito bem aceita entre as entidades ligadas a temas ambientais do município, seja por parte de empresas, de instituições acadêmicas e da própria prefeitura. A Associação já organizou três seminários em parceria com o Departamento de Ciências Ambientais da UFSCar (DCAm/CCBS) e com o Centro de Divulgação Científica e Cultural da Universidade de São Paulo(CDCC/USP), promoveram a realização e divulgação de diversos trabalhos, levantamentos e participação coletiva, em sua maioria com temática ambiental, o que proporcionou o estabelecimento de várias parcerias entre entidades, comunidades e pessoas.

Tidball e Krasny (2009) indicam que os esforços de um determinado grupo de pessoas ou comunidade para esverdear o ambiente em que vivem constitui uma categoria própria de ação ambiental. Segundo esse/a autor/a, tais iniciativas geralmente ocorrem em locais que passam por dificuldades ou desastres sociais e/ou ambientais. A reconstrução desses ambientes é fundamental para que essas pessoas e comunidades voltem a ter uma qualidade de vida ao viverem no local, reduzindo a violência e o estresse e aumentando a saúde física, cognitiva e psicológica de crianças e adultos (TIDBALL; KRASNY, 2009, p. 153).

A sucinta descrição acima permite a localização dessa experiência que resultou na formação da Associação Veredas e sua atuação no município de São Carlos como um claro exemplo de Ecologia Cívica, uma vez que abarca os dez princípios descritos para sua constituição: a experiência iniciou-se em locais degradados de um bairro (pequeno fragmento florestal e área de pasto abandonado); com o incentivo inicial de Prof. Mattiazzi, várias pessoas da comunidade se tornam suas guardiãs e administradoras; as atividades promovem recreação para a comunidade; a memória social do Prof. Mattiazzi e demais pessoas, assimcomo a memória ecológica presente no fragmento florestal, foram importantes para recriar os locais degradados; as áreas dos bosques produzem serviços ecossistêmicos, tais como a proteção do curso d’água (córrego Santa Maria do Leme e afluentes), a polinização e dispersão de sementes e o ambiente florestal para experiências recreativas, educacionais e religiosas; as pessoas da comunidade elevaram seu bem-estar e bem-viver uma vez que o contato com a natureza reduz o estresse, melhora a saúde física e proporciona contatos entre as pessoas, ampliando suas oportunidades para aprendizagem e para deixarem um legado às futuras gerações; a experiência restrita a um bairro se expandiu por todos os bairros da microbacia, englobando várias associações de moradores e associações ambientalistas; a resiliência dos bosques foi elevada uma vez que esses são protegidos pelas pessoas guardiãs e administradoras; e o contato cada vez maior da Associação Veredas com o poder público municipal permite a manutenção e a ampliação das suas ações.

 

As atividades desenvolvidas discutidas à luz da Ecologia Cívica

 

Atividade de visitas monitoradasaos bosques Cambuí e Santa Marta

 

Foram realizadas cinco visitas aos bosques ao longo de 2016, três no primeiro semestre e duas no segundo semestre. A trilha do bosque Cambuí já havia sido traçada, mas a do bosque Santa Marta foi determinada a partir de lugares “chave” que seriam de grande proveito para uma visita, e alguns deles foram: a árvore de jatobá, as árvores jovens de jatobá, o pau-terra-jundiaí, a árvore de amendoim-bravo e algumas placas explicativas já presentes no interior do bosque.

A primeira visita foi realizada no bosque Cambuí com estudantes do quinto ano da escola estadual Conde do Pinhal, tendo dela participado o primeiro autor deste artigo e o Prof. Benjamim Mattiazzi. Inicialmente ocorreu uma explicação sobre o local, sobre algumas plantas e algumas propostas que ele tinha para quando a visita de fato começasse. No decorrer do percurso, foram apresentados vários aspectos do bosque. Uma brincadeira foi realizada, em que as/os estudantes deveriam trazer alguns objetos que eles tivessem curiosidade de saber o que era, e foi uma experiência muito interessante, pois muitos traziam folhas, rochas, exoesqueletos (de cigarras) e até mesmo resíduos para que fossem “desvendados” e explicada sua origem.

A segunda visita foi realizada no bosque Santa Marta com participantes de um curso de formação de monitores proporcionado pela UFSCar (ver mais adiante). Foi um momento de conversa e discussão das mais diferentes vertentes. Uma produtora realizou entrevistas com representantes dos diferentes parceiros que estavam envolvidos com o curso de monitores e as mesmas foram veiculadas pela mídia local.

A terceira visita foi efetuada nos bosquesCambuí e Santa Marta, com a presença do Prof. Benjamim Mattiazzi e do primeiro autor e da segunda autora deste artigo. Essa visita foi destinada às docentes da Unidade de Atendimento à Criança da Universidade Federal de São Carlos (UAC/UFSCar). A visita mostrou às professoras os diferentes pontos que seriam interessantes para elas comentarem com suas/seus alunas/os em uma visita posterior. No bosque Cambuí, o Prof. Mattiazzi explicou o histórico daquela área, desde o tempo em que era pasto que sofria queimadas anuais até o momento atual. Foram feitas abordagens sobre as sementes aladas que eram possíveis encontrar no solo, bem como explicações sobre a dinâmica dos animais nesses ambientes e sua importância dentro do perímetro urbano. Também, foi abordada a importância das Áreas de Preservação Permanente (APP), e como elas influenciam na retenção de solo, protegendo assim os corpos hídricos. Depois de todas as explicações nesta visita de aproximadamente duas horas, as docentes resolveram fazer um piquenique de agradecimento.

A quarta visita aos bosques foi com as crianças da UAC/UFSCar. Essa visita foi monitorada pelo primeiro e segunda autor/a deste artigo, acompanhados pelo Prof. Benjamim Mattiazzi (Figura 1). A atividade de trilha foi divertida e prazerosa, pois as crianças eram muito curiosas, e foi possível abordar diversos aspectos dos ambientes dos bosques, entre eles sobre algumas espécies existentes e trabalhar alguns conceitos como os sentidos do tato e do olfato, utilizando de materiais encontrados na própria trilha. Ao término da atividade foi possível conversar com as crianças sobre o que elas gostaram da trilha e fazer uma dinâmica de silêncio, proporcionando assim uma atividade de percepção da fauna local (em sua maioria de pássaros).

 

WhatsApp Image 2016-12-14 at 18

Figura 1.Em pé à esquerda estão o primeiro e o segundo autores deste artigo após a trilha realizada no bosque com crianças e professoras da Unidade de Atendimento à Criança da Universidade Federal de São Carlos. Fonte: Ícaro da Silva.

 

A última visita aos bosques em 2016 foi realizadacom um grupo mais heterogêneo, vindo do SESC São Carlos. Nesta visita, além do primeiro autor deste artigo estavam presentes o Prof. Benjamim Mattiazzi, da Associação Veredas, e a Profa. Sônia Maria Couto Buck, do Departamento de Ciências Ambientais da UFSCar (DCAm/CCBS/UFSCar). A visita abordou o histórico dos bosques, a importância das áreas verdes urbanas e também a ideia de apropriação do espaço público pelas pessoas e a força que isso tem para melhorar o ambiente e como consequência o bem-estar social. Ao término da visita foi possível discutir a importância dos locais em que estávamos e ouvirmos opiniões dos visitantes quanto ao assunto

Existem algumas formas de trabalhar educação ambiental e interpretação ambiental, uma delas são trilhas interpretativas. Os intérpretes podem ser considerados tanto quem visita quanto quem guia, pois estamos constantemente interpretando tudo o que ocorre a nossa volta, em áreasnaturais ou não(BRASIL, 2007). Essas trilhas interpretativas trabalham conceitos de educação ambiental bem estruturados como funcionamento de seres vivos, interações e histórias, mas além disso, as trilhas interpretativas promovem uma fusão mais acolhedora do ser humano e o meio ambiente, como dito por Santos et al. (2011). Nessa perspectiva pode-se direcionar para uma das correntes da educação ambiental, que é conhecida como corrente crítica, que proporciona reflexão e entendimento mútuo, por parte dos envolvidos com a trilha.

A sensibilização pode ser tida como um processo inicial da educação ambiental, um “despertar” dos atores sociais á aspectos do cotidiano até então ignorados. Ab’Saber (1994) destacou a importância de se desenvolver essa sensibilidade das pessoas pelos temas ambientais para alcançarmos uma condição de cidadania mais plena.Um aspecto muito importante do trabalho de sensibilização ambiental é a escala a ser trabalhada. Ab’Saber (1994) considera que as menores escalas são vitais para o processo por permitirem umaadequação do material exposto com a realidade local e vivenciada pelas pessoas a serem “despertadas” e isso facilitaria o trabalho quase utópico promovendo a reintegração das atividades regionais num mosaico de escala muito maior como nacional. De maneira que, já partindo desde 1989, na Constituição Federal (BRASIL,1989), é observado que o poder público e a comunidade são atores indispensáveis para a promoção de educação ambiental, de forma a atingir todos os níveis de ensino e de consciência pública.

A construção de trilhas e sua visitação em áreas de vegetação nativa e de reflorestamento de áreas abandonadas presentes em áreas urbanas dialogam com a Ecologia Cívica no que tange a que locais danificados pela urbanização acabam por receber a atenção de pessoas que vislumbram sua recuperação e gestão adequada (KRASNY; TIDBALL, 2015, p. 2). No caso do bosque Cambuí, esse movimento comunitário para recuperação de um ambiente degradado foi muito evidente, pois de uma área de pasto abandonado, que sofria queimadas constantes, surgiu um bosque por reflorestamento orquestrado pela comunidade local.

A formação de trilhas nos bosques e sua visitação pela população estão em conformidade com os princípios 3, 6, 7 e 9 da Ecologia Cívica (KRASNY; TIDBALL, 2015), uma vez que os participantes das atividades têm uma atividade recreativa, promovendo seu bem-estar e bem-viver, proporcionando oportunidades para aprendizagem e tornando o sistema socioecológico resiliente uma vez que poderão se sensibilizar e dele também cuidarem.

Almeida (2016) relata a importância de uma fundaçãopara a realização de atividades de “ecologia cívica, participação pública e educação ambiental” (p. 153) nas comunidades. Igualmente, expondo sobre uma associação de moradores criada em 2009 em Lisboa (Portugal), Sousa (2015, p. 58) e Paizinho (2016, p. 65) indicam que ela tem por objetivo “a difusão do conceito de ecologia cívica, que é entendido […] como Desenvolvimento societário através de ações de valorização ambiental em comunidades locais”. Percebe-se, portanto, a importância da organização da sociedade civil para o avanço do campo da Ecologia Cívica.

 

Atividadesemprojeto de extensão da universidade

 

O projeto de extensão denominado“Educação Ambiental na microbacia do córrego Santa Maria do Leme e entorno: trilhas interpretativas e conservação da biodiversidade” foi proposta pela UFSCar e coordenada pela Profa. Haydée Torres de Oliveira.Essa atividade foi iniciada no começo de 2016, contando com um grupo de estudantes de graduação e de pós-graduação organizado pela doutoranda Andréia Nasser Figueiredo.

O projeto de extensão foi realizado em dois momentos: no primeiro semestre de 2016 através de um curso de formação de monitores para atuarem nos bosques e um evento no segundo semestre de 2016.

O curso de monitores foi ofertado pela UFSCar, pelo CDCC e pela Associação Veredas, sob a coordenação da doutoranda Andreia Nasser Figueiredo, no período de 16 a 19 de fevereiro de 2016. O principal objetivo do curso foi a formação de monitores para dar auxílio nas visitas monitoradas que já acontecem no bosque Santa Marta, promovendo formação teórica e prática para todos os envolvidos. O curso abordou o que é educação ambiental, apresentando algumas das suas tendências e correntes. O curso em si foi pautado pela Educação Ambiental Crítica, que proporcionou maior diálogo entre os participantes e discutiu conceitos relacionados ao conhecimento, à participação política e aos valores éticos e estéticos. Algumas ferramentas e metodologias foram apresentadas para uma melhor condução nas trilhas, entre elas a elaboração de perguntasdiagnósticas e reflexivas, a possibilidade de compartilhar experiências, a linguagem coerente e o aprender com a diversidade.No curso, as associações de moradores e ambientalistas que atuam na microbacia apresentaram as ações que desenvolvem envolvendo a população local, bem como as dificuldades que elas tiveram até o momento.A organizadora do curso promoveu uma visita monitorada noturna nos bosque, na qual explicou os muitos pontos da trilha, como o pé de jatobá que está sofrendo com a retirada de sua casca (para produção de remédios) ou mesmo a maior árvore do bosque, o pau terra Jundiaí, além de muitas reflexões e pensamentos de como realizar uma visita, e que pontos devem ser levados em consideração para a mesma.No último dia de curso, ocorreu uma dinâmica entre todas/os as/os participantes para uma avaliação reflexiva sobre todo o curso.

A segunda fase do projeto de extensão foi a oferta de uma ação extensionista nos bosques, que contou com a participação de 14 pessoas em sua execução e foi realizado em um dia (períodos da manhã e da tarde) no segundo semestre de 2016. A maior parte dos participantes do curso de formação de monitores pode atuar na ação, que contou com a participação de um público de aproximadamente 50 pessoas.Diversas atividades foram realizadas neste dia. A “trilha micro e macro”, uma atividade proposta em conjunto com todos os participantes do projeto, em que seria possível trabalhar as questões de sentido como a visão dentro da trilha do bosque Cambuí. Essa atividade proporcionou momentos de reflexão sobre o meio em que estavam e ao fim da trilha ocorreu a discussão sobre esses olhares e suas importâncias com a elaboração de uma dinâmica de finalização com objetos pequenos encontrados na trilha (Figura 2).

 

Figura 2. Atividade de fechamento com objetos encontrados na trilha. Fonte: Ícaro da Silva.

 

Outra atividade oferecida no dia foi a “trilha dos sentidos”, que trabalhou os cinco sentidos do corpo humano e proporcionou dinâmicas muito criativas e inteligentes com as crianças participantes. A “oficina de artesanato” e a “horta com recicláveis”proporcionaram explicações sobre como reutilizar materiais e como elaborar hortas verticais.Também houve um momento de contação de história para as crianças (Figura 3) e durante todo o dia foi realizada uma feira de trocas verdes onde todos podiam trocar mudas, sementes e ideias, um motivador para as tendências ambientais.A atividade de extensão se encerrou com uma roda de conversa apresentadapela REA (Rede de Educação Ambiental de São Carlos)aos coletivos presentes, tais como associações de moradores de bairros que compõem a microbacia e associações ambientalistas, trazendo ao conhecimento as atividades ambientais e/ou de educação ambiental que esses diferentes atores estavam desenvolvendo para poder haver ligação e participação de todos numa melhoria e possivelmente parcerias para ações futuras.

 

contação 1

Figura 3. Atividade de contação de história do projeto de extensão da Universidade Federal de São Carlos realizado nos bosques. Fonte: Ícaro da Silva.

 

A educação tem grande importância, pois pode ser utilizada como forma de mudança social, sendo a/o educadora/r um fator imprescindível e insubstituível para o processo (CARVALHO, 2006). Juntamente com a Eco-92, foi aprovada a Agenda 21, documento que constitui um programa de ação que guia a humanidade em direção ao desenvolvimento que seja socialmente justo e ambientalmente sustentável, com um capítulo direcionado para a promoção do ensino, conscientização pública e treinamento (BARBIERI; SILVA, 2011). Logo é de suma importância concretizar ações de educação ambientalcom a participação independentemente de idade ou classe social (UNESCO, 2005), para assim ocorrer de fato uma melhoria no desenvolvimento sustentável ou mesmo na sustentabilidade relativa ao quesito procurado, seja ele ambiental ou social.

As questões ambientais ganharam força a partir dos anos 1960, com destaque para a publicação do livro “Primavera Silenciosa” da autora norte americana Raquel Carson, que falava das interconexões entre meio ambiente, economia e bem estar social, um dos principais livros para o fundamento ambientalista. Os termos sustentabilidade e desenvolvimento sustentável foram definidos mais precisamente no ano de1987, com o relatório conhecido como “Nosso Futuro Comum”, onde temos de forma geral que desenvolvimento sustentável é o desenvolvimento que satisfaz as necessidades presentes, sem comprometer a capacidade das gerações futuras de suprir suas próprias necessidades.

Embora o tema chegue ao Brasil na década de 1980, somente em 1992 começa realmente a ter força, com a Conferência Mundial de Desenvolvimento e Meio Ambiente, conhecida como Eco-92. As questões ambientais e sociais passaram a ser vistas de forma diferente, sendo valorizadas pelos interessados e pela sociedade de um modo geral (NASCIMENTO,2007). Souza etal.(2011)realizam uma análise bibliométrica mostrando o perfil das pesquisas e suasevoluções no tema sustentabilidade do ano de 2000 a 2010, mostrando o aumento substancial de artigos científicos no tema, evidenciando o amadurecimento na área sustentabilidade.

A união de associações civis e comunitárias com as universidades dialoga com a Ecologia Cívica no que tange ao princípio 8 (KRASNY; TIDBALL, 2015), uma vez que se tornam parceiros na guarda e administração do local. Além disso, as instituições acadêmicas podem contribuir para ampliar o conhecimento da estrutura e funcionamento do local através da pesquisa científica e da extensão universitária, contribuindo assim para elevar a resiliência do sistema socioecológico.

O projeto de extensão acima descrito também se adéqua aos princípios 3, 6 e 7 (KRASNY; TIDBALL, 2015), pois promoveu recreação para um grande número de pessoas da comunidade, ampliou suas possibilidades de bem-estar individual, por estarem em contato com um ambiente natural, e de bem-viver, por estarem em contato com outras pessoas da comunidade, e por proporcionar aos participantes do curso de monitoria oportunidades de aprendizagem.

Chaves e Alvim (2015) relatam a pertinência do trabalho extensionista da universidade nas comunidades, destacando a importância da Ecologia Cívica para o “fortalecimento da construção do capital social, humano, natural, social e mesmo financeiro” (p. 51).Tidball e Krasny (2011) sugeriram a importância da educação ambiental se unir a outras iniciativas, tais como as de gestão ambiental comunitária, a fim de fomentar o capital social, os serviços ambientais e a resiliência de sistemas socioecológicos em que tais comunidades estão inseridas.

 

Atividade de elaboração de projeto para órgão público

 

Foi realizada, juntamente com integrantes da Associação Veredas: Caminho das Nascentes, a elaboração de um projeto para encaminhar à Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo, intitulado “Exposição Itinerante”. A proposta foi de criar uma exposição com os materiais sobre a microbacia do Córrego Santa Maria do Leme e materiais disponibilizados por moradores que participariam de atividades e ações ambientais nesse local e por estudantes de escolas parceiras dentro e fora da microbacia.

A elaboração de projetos visando à captação de recursos junto a órgãos governamentais dialoga com a Ecologia Cívica no que tange ao princípio 10 (KRASNY; TIDBALL, 2015), uma vez que o contato e apoio de elaboradores de políticas públicas permitem o desenvolvimento e progressão das práticas no local.

 

Conclusão

 

As atividades realizadas pela Associação Veredas: Caminho das Nascentes, uma OSCIP presente no município de São Carlos (SP), ao longo de 2016, se adequaram ao referencial teórico do campo da Ecologia Cívica. A relevância da coletividade no planejamento e execução das ações foi constatada, unindo pessoas e instituições com princípios muito parecidos e objetivos em comum. Neste sentido, a qualidade de vida das pessoas e comunidades envolvidas, que superaram as dificuldades encontradas, foi elevada, assim como a resiliência de todo o sistema socioecológico.

 

Referências Bibliográficas

 

AB’SABER, A. N. (Re) Conceituando educação ambiental. In: MAGALHÃES, L. E. (org.). A questão ambiental. São Paulo: Terragraph, 1994. p. 1-4.

 

ALMEIDA, S. A. Fundação Aga Khan. Fluxos & Riscos - Revista de Estudos Sociais, v. 1, n. 2, p. 145-154, 2016. Disponível em: <http://revistas.ulusofona.pt/index.php/fluxoseriscos/article/view/5630>. Acessado em: 03 jan. 2017.

 

BARBIERI, J. C.; SILVA, D. Desenvolvimento sustentável e educação ambiental: uma trajetória comum com muitos desafios. Revista de Administração da Mackenzie, v. 12, n. 3, p. 51-82, 2011.

 

BRASIL. Ministério do Meio Ambiente. Encontros e caminhos: formação de educadoras (es) ambientais e coletivos educadores. Brasília: MMA, 2007. 286p.

 

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil (1988). Promulgada em 05 de outubro de 1988. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm>. Acessado em: 13 jan. 2017.

 

BRASIL. Lei nº 9.795, de 27 de abril de 1999. Política Nacional de Educação Ambiental. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L9795.htm>. Acessado em: 02 jan. 2017.

 

CARVALHO, I. C. M. Educação ambiental: a formação do sujeito ecológico. 2a ed. São Paulo: Cortez, 2006.

 

CASELLATO, M. A.; HOLZHACKER, R.; FERNANDEZ, J. M. Redação sem discriminação. Pequeno guia vocabular com dicas para evitar as armadilhas do sexismo na linguagem corrente. São Paulo: Textonovo, 1996.

 

CHAVES, R. A.; ALVIM, M. N. Agroecologia e extensão universitária: algumas atividades em ambiente urbano. XXI Jornada Acadêmica do Curso de Ciências Biológicas do Centro Universitário Metodista Isabella Hendrix, 24 a 30 de abril de 2015, p. 49-53.Anais... Disponível em: <http://www3.izabelahendrix.edu.br/ojs/index.php/bio/article/viewFile/894/697>. Acessado em: 03 jan. 2017.

 

KRASNY, M. E.; TIDBALL, K. G. Civic ecology: adaptation and transformation from the ground up. Cambridge: MIT Press, 2015. 328p.

 

MATTIAZZI, B.; FIGUEIREDO, R. A.; KLEFASZ, A. Ecologia, educação ambiental e participação comunitária. São Carlos: Rima, 2011. 116p.

 

PAIZINHO, C. A. D. C. Práticas de economia solidária em iniciativas de agricultura: o caso das hortas urbanas de Lisboa. Dissertação de Mestrado (Instituto Universitário de Lisboa, 2016). Disponível em: <http://hdl.handle.net/10071/12007>. Acessado em: 03 jan. 2017.

 

SANTOS, M. C.; FLORES, M. D.; ZANIN, E. M. Trilhas Interpretativas como instrumento de interpretação, sensibilização e educação ambiental na Apae de Erechim/RS. Vivências, v. 7, n. 13, p. 189-197, 2011.

 

SOUSA, L. V. Experiências de agricultura (peri)urbana coletiva: outras experiências económicas? Tese de Doutorado (Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, 2015). Disponível em: <http://hdl.handle.net/10316/26989>. Acessado em: 03 jan. 2017.

 

SOUZA, M. T. S.; RIBEIRO, H. C. M.; MACHADO JÚNIOR, C.; CORRÊA, R. Perfil e evolução da pesquisa em sustentabilidade ambiental: uma análise bibliométrica. In: XXXV Encontro da ANPAD, 2011, p. 1-17.Anais... Disponível em: <http://www.anpad.org.br/admin/pdf/GOL2087.pdf>. Acessado em: 13 jan. 2017.

 

TIDBALL, K. G.; KRASNY, M. E. From risk to resilience: what role for community greening and civic ecology in cities? In: WALS, A. (org.) Social learning towards a sustainable world: principles, perspectives, and practices. The Netherlands: Wageningen Academic Publishers, 2009, p. 149-164.

 

TIDBALL, K. G.; KRASNY, M. E. Toward an ecology of environmental education and learning. Ecosphere, v. 2, n. 2, p. 1-17, 2011.

 

UNESCO. Década da Educação das Nações Unidas para um Desenvolvimento Sustentável (DEDS), 2005-2014: documento final do esquema internacional de implementação. Brasília: UNESCO, 2005. 120p.



" data-layout="standard" data-action="like" data-show-faces="true" data-share="true">
 
Início      Cadastre-se!      Procurar      Submeter artigo      Fazer doação      Contato     Apresentação     I Prêmio Educação Ambiental em Ação     Normas de Publicação     Artigos     Dicas e Curiosidades     Reflexão     Para sensibilizar     Dinâmicas e recursos pedagógicos     Entrevistas     Culinária     Arte e ambiente     Divulgação de Eventos     O que fazer para melhorar o meio ambiente     Sugestões bibliográficas     Educação     Plantas medicinais     Práticas de Educação Ambiental     Educação e temas emergentes     Ações e projetos inspiradores     Relatos de Experiências     Notícias