ISSN 1678-0701
Volume XIII, Número 50
Dezembro/2014-Fevereiro/2015.
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No. 50 - 07/12/2014
O USO DA TEMÁTICA ÁGUA NA FORMAÇÃO AMBIENTAL DE ALUNOS DA EDUCAÇÃO BÁSICA  
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O USO DA TEMÁTICA ÁGUA NA FORMAÇÃO AMBIENTAL DE ALUNOS DA EDUCAÇÃO BÁSICA.

 

 

Vinicius Câmara Costa ; Antonio de Santana Santos ; Luan da Costa Ramos

 

 

 

Vinicius Câmara costa,

Licenciado em Química – Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC).

Mestrando em Química pela Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC), Rodovia Jorge Amado, km 16, Ilhéus - Bahia, CEP: 45662-900.

Email – camara.costa@hotmail.com

 

Antonio de Santana Santos

Bacharelado em Química – Universidade de Campinas (UNICAMP).

Mestrado em Química – Universidade de Campinas (UNICAMP).

Doutorado em Química – Universidade de Campinas (UNICAMP).

Docente do Departamento de Ciências Exatas e Tecnológicas,  Universidade Estadual de Santa Cruz , Rodovia Jorge Amado, km 16, Ilhéus - Bahia, CEP: 45662-900.

Email – antoniodess@gmail.com           

 

Luan da Costa Ramos

Licenciado em Química - Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC).

Mestrando em Ciência, inovação e modelagem de materiais pela Universidade Estadual de Santa Cruz, Rodovia Jorge Amado, km 16, Ilhéus - Bahia, CEP: 45662-900.

Email – Luanc.ramos@hotmail.com

 

 

 

RESUMO

 

 A educação ambiental vem ganhando importância nas últimas décadas como uma temática transversal fundamental a ser trabalhada nas escolas, objetivando um maior entendimento dos jovens e demais cidadãos quanto aos problemas socioambientais constituintes da complexa realidade política e social do nosso país.  O referido estudo constitui-se como atividade integrante do Programa de Desenvolvimento Educacional da Secretaria Municipal de Itabuna-BA e foi desenvolvido com alunos do nono ano da Escola Municipal Raimundo Jerônimo. Inúmeros são os temas a serem trabalhados em Educação Ambiental nas escolas e pretende-se com o desenvolvimento desse trabalho debruçar-se aos estudos das águas por se tratar de um recurso vital, essencial para a sobrevivência da espécie humana e de todas as outras do nosso planeta.

 

Palavras-chave: Educação ambiental, educação básica, água.

 

 

1.            INTRODUÇÃO

 

Os Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Médio (PCNEM) foram elaborados para nortear as metodologias de aplicação dos conteúdos programáticos na Educação Básica. Uma oportunidade de colocar em prática tais conteúdos é trabalhar com diferentes estratégias de ensino, proporcionando situações problemáticas reais e que busquem o conhecimento necessário para entendê-las e procurar solucioná-las (BRASIL, 2002). Assim sendo, a educação contemporânea deve buscar uma ciência contextualizada capaz de contribuir para uma aprendizagem significativa (AUSUBEL, 1982), que garanta a formação de cidadãos conscientes e comprometidos com a construção de uma sociedade sustentável.

Nesse contexto, a Educação Ambiental (EA) vem ganhando espaços cada vez maiores nos sistemas de ensino. Há que se destacar a publicação dos PCNEM em 1997, os quais trazem o meio ambiente como tema transversal (BRASIL, 1997), e também a promulgação da Lei 9.795/99, que estabelece a Política Nacional de Educação Ambiental, colocando-a como uma obrigação legal e de responsabilidade de todos os setores da sociedade, da educação formal e informal (BRASIL, 1999).  

De acordo com Sato (2004), a EA não pode ser considerada um objeto de cada disciplina isolado ela deve ser abordada em uma dimensão que desenvolva atividades nos aspectos físicos, biológicos, sociais e culturais. A EA deve ser inserida em todas as disciplinas. Nesse sentido, cabe aos Professores desenvolver atividades que favoreçam a implantação da EA , considerando problemas locais e atuais como exemplos.

Nessa perspectiva Costa, Santos e Gomes (2013), através de uma pesquisa qualitativa que foi desenvolvida com alunos de uma escola rural de Coaraci, município localizado no Sul da Bahia, permitiu o desenho de um panorama do meio onde os estudantes residem e qual a sua percepção sobre os malefícios e benefícios acerca do uso de agrotóxicos em suas propriedades. De com acordo os autores a temática abordada nessa pesquisa contribuiu de forma eficaz para a promoção da EA, haja vista que, a percepção ambiental dos estudantes foi melhorando durante as atividades, ganhando um vocabulário mais elaborado e uma maior articulação de ideias.

Assim, é de extrema importância o vínculo da EA com a realidade do sujeito, considerando então suas particularidades, a sazonalidade e o modo de vida. Desse modo o presente trabalho procurou construir, com a contribuição dos alunos, uma abordagem que permitisse a conscientização no que se refere às questões ambientais. Assim, como norte para nossa pesquisa, selecionamos a temática água, uma vez que a cidade, na qual a pesquisa se desenvolveu vem sofrendo com uso abusivo de seus mananciais e constantes problemas relacionados a distribuição de água de boa qualidade. 

 

2.            A EDUCAÇÃO AMBIENTAL E A CONSCIENTIZAÇÃO QUANTO AO USO DA ÁGUA

 

        Uma reflexão sobre as práticas sociais referentes ao meio ambiente, tais como, preservação, uso racional de recursos naturais, reutilização de materiais, reciclagem, é indispensável dentro do âmbito escolar como forma de desenvolver, de maneira interdisciplinar, e responsável, propostas de como trabalhar a EA com os alunos de modo a promover uma compreensão de quais ações podem ser úteis no combate imediato contra a degradação ambiental do meio no qual estão inseridos, por isso a necessidade de entendimento do que vem a ser EA. Nesse sentido são apresentadas a seguir variadas concepções do ponto de vista de alguns autores acerca da importância da mesma.

A EA deve ser uma concepção totalizadora de Educação e que é constatada quando é originada de um projeto que englobe a escola, a comunidade e os movimentos populares organizados comprometidos com a preservação da vida em seu sentido mais profundo (GUIMARÃES, 2007). Segundo Loureiro (2004) a EA necessita vincular os processos ecológicos aos sociais na leitura de mundo, na forma de intervir na realidade e de existir na natureza. Reconhece, portanto, que nos relacionamos na natureza por mediações que são sociais, ou seja, por meio de dimensões que criamos na própria dinâmica de nossa espécie e que nos formam ao longo da vida (cultura, educação, classe social, instituições, família, gênero, etnia, nacionalidade, etc.). Somos sínteses singulares de relações, unidade complexa que envolve estrutura biológica, criação simbólica e ação transformadora da natureza.

Jacobi (2003) entende que a EA é condição necessária para modificar um quadro de crescente degradação socioambiental, sendo considerada uma ferramenta de mediação utilizada entre culturas, comportamentos diferenciados e interesses de grupos sociais para a construção das transformações desejadas.

De acordo Marodin, Barba e Morais (2004), a EA visa o desenvolvimento sustentável, ou seja, busca mudar hábitos enraizados na sociedade para possibilitar que as gerações futuras também possam fazer uso dos recursos naturais disponíveis atualmente. Para tanto, é indispensável que o máximo de indivíduos sejam conscientizados acerca da crescente degradação ambiental decorrente do uso exaustivo dos recursos naturais disponíveis no intuito de evitar o desperdício e incentivar o uso apropriado e racional dos materiais. Um exemplo muito comum sobre as degradações que o meio ambiente vem sofrendo está relacionado à poluição e o desperdício da água.

Para Moraes e Jordão (2002) a disponibilidade de água é ameaçada pelas ações indevidas do homem, resultando em prejuízo para a própria humanidade. Fatos cada vez mais evidentes como a escassez de água, especialmente nas grandes cidades, se justificam por ações irresponsáveis como o esbanjamento e o verdadeiro desperdício de água de alguns.

Segundo Cortez (2004) em 2000, estimava-se que 20% da população mundial sofria da escassez de água, sendo que este índice poderá subir para 30% em 2025. A origem da escassez está muitas vezes relacionada com o uso ineficiente, o desperdício ou a contaminação.

                A crescente degradação dos recursos hídricos é resultado da ação antrópica. Assim, muitas regiões apresentam problemas relacionados com a água, seja pela sua disponibilidade, por sua qualidade ou por ambas (CASTRO, 1988). No geral, algumas causas e prejuízos decorrentes de posturas negativas em relação à água ocorrem devido a ocupação de mananciais e exclusão de matas ciliares, que podem ocasionar alterações do ciclo hidrológico, a contaminação do solo e da água, impermeabilização do solo em áreas urbanas, escoamento inadequado de águas pluviais, assoreamento e erosão, além do desmatamento.

Nesse sentido, trabalhar a EA torna-se de fundamental importância para a sustentabilidade ambiental, pois esta só será alcançada através do fortalecimento da conscientização ambiental do maior número possível de pessoas. O desenvolvimento de uma consciência ambientalista, muito mais do que medidas punitivas, ainda é o meio mais eficaz de diminuir esse grande problema da falta de concientização sobre o uso racional de água. As gerações atuais precisam de uma nova cultura em relação ao uso da água, pois, além da garantia de seu próprio bem-estar e sobrevivência, devem cultivar a preocupação com as próximas gerações e com a natureza, as quais também têm direito a esse legado (MORAES; JORDÃO, 2002). Desta forma, a necessidade de consciência quanto ao uso da água deve ser realizada com o máximo de equilíbrio, racionalidade e senso de responsabilidade coletiva.

 

3.            METODOLOGIA

As atividades realizadas foram frutos de uma parceria entre alunos da Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC) e a Secretaria de Educação de Itabuna. As atividades foram desenvolvidas durante a semana de meio ambiente realizada na Escola Municipal Raimundo Jerônimo com alunos do nono ano do Ensino Fundamental, participaram da pesquisa 30 alunos com idade média de 13 anos. As atividades foram realizadas por meio de oficinas temáticas, que foram ministradas durantes quatro dias consecutivos. Nesta pesquisa os instrumentos adotados como coleta de dados foram questionários semiestruturados e relatos de experiência. A pesquisa proposta atende as características da pesquisa qualitativa, que de acordo com Lüdke e André (1986), tem o ambiente natural como sua fonte direta de dados e o pesquisador como seu principal instrumento; os dados coletados são predominantemente descritivos; a preocupação com o processo é maior que com o produto e a análise dos dados tende a seguir um processo indutivo.

 

 

3.1 Etapas Desenvolvidas

3.1.1 Primeira Etapa - Conhecimentos prévios

 Em um primeiro momento, foi aplicado um questionário semiestruturado contendo 6 questões , a saber: 1) Qual a importância da água para o ser humano?; 2) Por que devemos evitar o desperdício de água? Dê algumas sugestões para evitar o desperdício.; 3) Qual a importância do conhecimento da Química para a obtenção de água potável?; 4) Para onde vai a água depois da utilização?; 5) Quais são as etapas no processo de tratamento de água? Descreva pelo menos um. Dessa forma objetivou-se através desse questionário conhecer a visão dos alunos sobre os conhecimentos essenciais que a população deveria ter sobre o consumo consciente da água

3.2.1 Segunda Etapa – Questões gerais sobre a água.

No segundo momento, foram lançados alguns questionamentos para que houvesse uma interação com os alunos acerca de perguntas fundamentais divididas em três blocos. O primeiro bloco a ser discutido foi o correspondente à água enquanto recurso natural finito ou infinito. Nesse contexto falou-se sobre a importância da água, a disponibilidade total de água doce e salgada no planeta, a quantidade total de água doce no planeta e quanto dessa água está disponível para consumo. 

No segundo bloco, a abordagem relacionou-se com o atendimento à demanda de água de boa qualidade. Nessa perspectiva, foi utilizado um mapa da região hidrográfica  contendo a localização dos principais rios desde o estado de  Sergipe até o estado do Espírito Santo e uma legenda sobre sua qualidade para consumo.  A partir disso, foram discutidos alguns fatores responsáveis pela falta de água de boa qualidade. Para encerrar esse segundo momento, o terceiro bloco remeteu-se ao consumo, desperdício, curiosidades e dicas de como economizar água.

3.3.1 Terceira Etapa – Demostração de dados importantes na conta de água e informações de como racionalizar o seu uso.

No terceiro momento utilizamos uma conta de água para mostrar as unidades de medidas para contagem da tarifa, onde se localiza o valor total da tarifa e como calcular o valor do litro de água com o objetivo de incentivar um possível controle do consumo como forma de promover a cidadania a partir do consumo consciente.

3.3.2 Quarta Etapa – Simulação do Tratamento de Água

O quarto momento teve como foco da apresentação explicar como ocorre o processo de tratamento de água. Foi mostrado aos alunos um esquema animado do processo desde a captação até a distribuição nas residências e indústrias, bem como, as reações químicas existentes nesse processo, como forma de promover o entendimento do experimento sobre o tratamento de água que eles fizeram em grupos após o término dessa apresentação.

            Para a atividade experimental, os alunos foram divididos em grupos, cada grupo auxiliado por um monitor. Os materiais selecionados para construção do filtro foram alternativos e de baixo custo, sendo estes disponibilizados aos alunos para que cada grupo construísse seu próprio filtro.

 

 

 

4. RESULTADOS E DISCUSSÃO

Para melhor visualização, os dados serão apresentados conforme a ordem cronológica em que foram coletados.

4.1 Primeiro momento: Analisando o conhecimento prévio.

O número de alunos que participaram da oficina chegou a 30; obtivemos 26 questionários a serem analisados, utilizados como instrumento para obtenção dos conhecimentos prévios dos alunos, entre os quais buscamos apresentar a maior quantidade de informações neles presentes. A partir disso, notamos que eles apresentavam algum conhecimento sobre o tema em abordado ao responder a primeira questão do questionário:

4.1.1 Questão 1 - Qual a importância da água para o ser humano?

“Porque é com a água que o corpo humano se hidrata.” (Aluno A)

“Hidratar a pele, se alimentar bem e tomar banho.” (Aluno B)

“A água é muito importante para nós porque ela é utilizada em várias atividades e também é a fonte de energia mais usada por nós”. (Aluno C)

Observamos nessas respostas o conhecimento em comum de que a água é uma substância que hidrata o corpo humano, sendo isto benéfico para o mesmo. Apesar do termo ‘hidratar’ ser pertinente ao conhecimento científico, não notamos uma concepção científica, mas genérica sobre a questão. É vista também como fonte de energia para o corpo.  O aluno não tem o conhecimento de que ela funciona no corpo como transportadora de cargas que culminarão em reações químicas liberando a energia necessária para o funcionamento do corpo humano.

 

4.1.2 Questão 2 - Por que devemos evitar o desperdício de água? Dê algumas sugestões para evitar o desperdício.

”Porque existe pesquisa, que a água vai se tornar muito excarssa. Devemos evitar, fechando a torneira, evitar gastar no banho, em lavagens de carros e outros. (Aluno B)

“A Terra só tem 3% de água potável então devemos preservar o que temos. Fazer o necessário e o útil para nós.” (Aluno D)

“Porque corre o risco de um dia acabar e sem ela não poderíamos viver. Fechar a torneira enquanto escovamos os dentes.” (Aluno E)

 Os alunos demonstraram algum conhecimento sobre a importância de evitar o desperdício da água. Analisando as respostas percebemos uma concordância entre as afirmações, no que diz respeito  a água potável como recurso natural imprescindível para o homem e seu fim caso não haja uma política de uso adequado. Provavelmente, essa conscientização quanto ao uso da água ocorre tanto nas escolas, quanto em casa através dos pais por uma questão de economia financeira isso gera uma redução no consumo, mas não é suficiente, por isso a importância do conhecimento sistematizado para que eles entendam o porquê de não desperdiçar. O valor apresentado pelo Aluno D de água potável está incorreto, apesar disso, eles demonstram saber que existe um volume de água potável pequeno e o Aluno B respalda sua afirmação na existência de pesquisas indicando a escassez da água potável.

4.1.3 Questão 3 - Qual a importância do conhecimento da química para obtenção de água potável?

“A química ajuda a pesquisar modos com que a água se torne potável.” (Aluno A)

“Incentivar e conscientizar que a água é um elemento raro e pode acabar com o passar do tempo se não tivermos cuidados. Ex: não poluir rios e lagos não jogar sacolas plásticas etc.” (Aluno C)

“Para que a água tenha uma boa conservação. Para que a água não fique do jeito que veio dos rios, cheios de bactéria.” (Aluno G)

Nessas respostas esses alunos demonstraram entender que a química possui várias funções importantes. Como instrumento de pesquisa para tornar a água potável, como uma forma de conscientização da escassez e como ferramenta de limpeza e conservação. Os alunos demonstraram ter pouco conhecimento da química como uma Ciência que estuda as reações e transformações da matéria e que nesse caso específico, o conhecimento químico é importante na escolha de um procedimento organizado e substâncias adequadas para retirar as várias impurezas presentes na água que podem agredir o organismo humano, tornando-a desse modo, potável. É notório que eles reconhecem a importância do conhecimento químico, mas também é perceptível a dificuldade em  explicar de que forma esse conhecimento pode ser empregado.

4.1.4 Questão 4 - Para onde vai à água depois da utilização?

“Para os rios onde se escorre em direção ao mar.” (Aluno A)

“Para o esgoto.” (Aluno B)

“Córregos, esgoto ou se for bem tratada uma estação de tratamento.” (AlunoD)

“Para esgotos e rios.” (Aluno E)

“Para o tratamento outra vez.” (Aluno F)

“Para o solo terrestre.” (Aluno H)

Aqui estão representadas as diferentes respostas encontradas nos questionários. É possível observar que os alunos apresentam as diferentes realidades sobre o destino da água após seu uso. Todas as afirmações são pertinentes. Infelizmente a maior parte da água utilizada em nossa região é direcionada para os esgotos e despejadas em rios sem nenhum tratamento, uma vez que o número de Estações de Tratamento de Esgoto no Brasil é insuficiente.

4.1.5 Questão 5 - Quais são a etapas no processo de tratamento de água? Descreva pelo menos um.

Os alunos demonstraram possuir pouco conhecimento sobre as etapas existentes no tratamento de água. Isso ficou claro nas poucas respostas obtidas.

“Filtração.” (Aluno B)

“Armazenar, colocar cloro, testar a qualidade.” (Aluno D)

“Passa do rio para o tanque depois para a torneira de casa.” (Aluno H)

Os alunos citaram algumas etapas do processo de tratamento de água como filtração e cloração, entretanto não a descreveram, revelando dessa maneira pouco conhecimento sobre o assunto.

 

4.2 Segundo momento: Discussões gerais relacionadas à água.

 

No segundo momento da oficina foram levantados diversos questionamentos em relação ao uso da água. Em um desses questionamentos os alunos foram perguntados se a água era um recurso finito ou infinito. A maioria considerava a água potável como sendo um recurso infinito, ou seja, a água jamais iria acabar para a maioria deles. Levando em conta essa concepção, foram discutidos diversos dados relacionados à distribuição de água no planeta terra.

Inicialmente considerou-se que a água é a substância mais importante para a vida, sem ela provavelmente não existiria nenhuma forma de vida no planeta, sendo essencial para a sobrevivência de plantas, animais e seres humanos. Com toda essa importância, a água vem se tornando um motivo de preocupação para o mundo todo devido a sua poluição, má qualidade e desperdício.

A água é uma das espécies químicas mais abundante da Terra, cobre cerca de 71% de toda a superfície, mas com tantos impactos ambientais que vêm ocorrendo na natureza pela ação do homem, sua qualidade para consumo humano se torna cada vez mais preocupante. Analisar a qualidade da água é um fator necessário para que se possa garantir à população uma melhor qualidade de vida, pois é através da água contaminada que se transmitem várias doenças. Nosso planeta possui 1 trilhão de Km3 com cerca de 1,4 bilhão de Km3  de água. Apesar disso muitas localidades não tem acesso a quantidades de água de potabilidade adequada para consumo humano. Do total de água existente no nosso planeta apenas 2,53% é doce, a maior parte se encontra retida no solo, subsolo e massas de gelo e apenas 0,77% está disponível para consumo humano (GRASSI, 2001).

Outro questionamento levantado se deu em relação às formas de minimizar o desperdício de água. Os alunos relataram algumas formas de desperdício de água como lavar roupas todos os dias, lavar a calçada com a mangueira, tomar banho durante muito tempo e alguns objetos que podem causar o desperdício de água como torneiras com rachaduras ou mal fechadas, descarga de válvula nos banheiros que gastam mais água do que as caixinhas. Foram relatadas também algumas formas de economia de água que eles mesmos realizam em suas casas como escovar os dentes com a torneira fechada, lavar roupas uma vez por semana, lavar o carro, moto ou bicicleta com balde, aproveitar a água da lavagem de roupas para lavar o quintal, regar as plantas com regador e não com a mangueira, etc.

Posteriormente, foram distribuídas cópias da Portaria 518/2004 do Ministério da Saúde e juntamente com os alunos foi feita uma leitura dos tópicos principais. Foi explicado que ao se produzir e distribuir água para o consumo humano, a saúde deve estar assegurada, e o órgão que zela pela saúde da população brasileira é o Ministério da Saúde, portanto a lei que trata especificamente da potabilidade da água distribuída pela empresa de saneamento à população é elaborada por esse órgão. Os alunos puderam então manipular um documento jurídico e conhecer os seus direitos, pois a leitura dos tópicos foi conjunta e a discussão dos mesmos foi coletiva. Dessa forma foi salientado que todos têm direito a saúde e que as empresas distribuidoras de água potável devem cumprir com as normas existentes.

Em seguida foi disponibilizada para os alunos informações relacionadas à quantidade de água gasta em algumas atividades do cotidiano, a fim de conscientizá-los com relação aos cuidados que devem ser tomados no manuseio das mesmas conforme  apresentado na Tabela 1.

 

Tabela 1: Consumo de água para algumas atividades diárias do ser humano.

Atividades

Consumo

Banho em ducha de alta pressão durante 3 minutos

27 litros

Banho de chuveiro elétrico durante 3 minutos

8,1 litros

Escovar os dentes deixando a torneira aberta durante 5 minutos

15 litros/dia

Escovar os dentes deixando a torneira fechada

6 litros/dia

Lavar o carro com mangueira aberta por 30 minutos

560 litros

Lavar o carro com o balde

40 litros

Lavar a calçada com esguicho por 15 minutos

280 litros

Fonte: MACÊDO, 2004.

 

É fundamental que a participação dos alunos seja desenvolvida para que eles se sintam, comprometidos e envolvidos com o processo educativo, num ensino contextualizado, vinculando este à vida dos alunos, exigindo dos alunos a capacidade de julgamento, definida por dois tipos de juízos, o crítico, que é quando se julga o universal, como as leis e os princípios universais dos direitos humanos, e o juízo político, que é quando se julga a fim de se tomar decisão frente a uma situação particular (SANTOS; SCHNETZLER, 2003).

 

 

4.3 Terceiro Momento: Descrição da conta de água.

 

No terceiro momento utilizou-se uma conta de água, com o objetivo de esclarecer aos alunos os diversos tipos de tarifas existentes e que essas estão relacionadas com o gasto de água e são classificadas em diferentes categorias como, por exemplo, a tarifa social (para pessoas de baixa renda), tarifa residencial, tarifa comercial e tarifa industrial. Esta explicação gerou muita discussão, pois alguns alunos disseram que seus pais sempre reclamavam que a tarifa de água era cara, sem compreender o motivo do custo. Então, foi explicado que no valor da água estão inclusos os valores de captação, tratamento e distribuição, já que a água utilizada no abastecimento público encontra-se no estado bruto. Ressaltou-se ainda a existência de gastos com energia devido ao bombeamento da água do rio (água bruta) até a Estação de Tratamento de Água (E.T.A.) e depois, o bombeamento da água potável até as casas, além da quantidade de pessoas que trabalhavam nessa produção de água. Ao descrever os itens que são cobrados na conta, a maioria dos alunos ficou indignada por se cobrar pela coleta de esgoto.

Foi esclarecida que a cobrança é devida a coleta em tubulações, para que o esgoto não corra a céu aberto e para que ele seja enviado até uma Estação de Tratamento de Esgotos (E.T.E.), de forma que, se faça nessa unidade a remoção das impurezas presentes no esgoto para que o mesmo seja enfim lançado no corpo hídrico sem afetá-lo com carga poluidora. Em relação ao histórico de consumo e a média de consumo (m3/mês) foi informado que a água consumida estava no estado líquido e que, portanto ocupava um volume e que a medida de volume é dada em m3 ou em litro e seus múltiplos e submúltiplos.

Devido ao fato de no município onde foi aplicado a oficina ter um rio importante para a região (Rio Cachoeira), muitos alunos perguntaram, se a cidade possui um rio tão grande, então porque a água não podia ter um preço bem mais baixo. Foi respondido que a água consumida na cidade não era a daquele rio, mas que mesmo assim, independente do manancial, a água deveria ser captada, tratada e distribuída e dessa forma haveria um custo para essas etapas. Durante as discussões também foram explicados os conceitos de água bruta, tratada e potável. Também foi explicado que os microrganismos que transmitem doenças podem estar presentes na água mesmo que ela esteja com aspecto límpido. Então foram explicados os parâmetros citados na conta (Cloro, Flúor, Turbidez, Cor, pH, Coliformes totais e Coliformes termotolerantes).

 

4.4 Quarto Momento: Simulação do tratamento de água.

 

Inicialmente foi salientado que para se ter água potável com seus parâmetros dentro dos limites de qualidade, faz-se necessário que a mesma passe por tratamentos diversos. Assim, de posse de um esquema animado sobre o processo de tratamento da água que vai desde a captação até a chegada da água nas residências, foi discutido com os alunos cada parte desse processo. Para a realização do procedimento experimental foi construído um filtro com material alternativo (garrafa PET, cascalho e areia), a fim de simular as etapas do processo de tratamento de água como descrito a seguir:

·          Cortar uma garrafa PET um pouco acima da metade, deixando a parte com o gargalo com a maior proporção;

·          Prender o aro ao suporte universal;

·          Colocar o cascalho lavado dentro da garrafa plástica presa ao suporte, formando uma camada com aproximadamente 5 cm de altura;

·          Colocar a areia grossa, utilizando a mesma proporção do cascalho;

·          Pressionar levemente a areia com a mão para compactar esta camada;

·          Posteriormente, colocar a areia fina com aproximadamente 10 cm de altura;

Antes de se iniciar o experimento foi discutido com os alunos cada etapa do processo de tratamento, a fim de esclarecer possíveis duvidas no decorrer da atividade. As etapas abordadas durante o procedimento foram: peneiração, pré-cloração, coagulação Al(SO4)3  0,02 g/mL, decantação, filtração, verificação do pH e cloração. Durante a atividade os alunos visualizaram através do processo artesanal de tratamento de água proposto como a água é clarificada pelas distintas etapas desenvolvidas durante o experimento.               

      O objetivo através da simulação do processo de tratamento de água foi explicitar para o aluno como são onerosas as etapas desde a captação até a distribuição nas casas e indústrias. A partir disso, foi discutido com os alunos a importância de minimizar ao máximo a quantidade de resíduos domésticos e industriais que são lançados nos mananciais a fim de reduzir seu impacto no meio ambiente.

 

5.      CONSIDERAÇÕES FINAIS

            Na oficina foram discutidos alguns conceitos sobre a importância da água, como é feito o seu tratamento desde a captação nos rios até sua distribuição nas residências e indústrias, bem como sua utilização de forma consciente evitando o desperdício e poluição. Foi possível observar que os alunos entendem que a água é vital para o nosso cotidiano e apresentaram em suas respostas ao questionário diferentes realidades sobre o destino da água após sua utilização. Todavia, notamos também que eles não possuem conhecimentos químicos que permitam a eles descrever as etapas do processo de tratamento.

Vale ressaltar, que é de suma importância que as instituições de ensino abordem assuntos relacionados aos problemas ambientais, já que são nesses espaços que os estudantes adquirem uma base sólida de conhecimento, para que no futuro, possam ter atitudes que não prejudiquem o meio ambiente e, sobretudo, disseminem conhecimento nos espaços sociais em que transitam.

 

6.       REFERÊNCIAS

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BRASIL. Secretaria de Educação Média e Tecnológica - Ministério da Educação e Cultura. PCN+ Ensino Médio: Orientações Educacionais complementares aos Parâmetros Curriculares Nacionais. Ciências da Natureza, Matemática e suas Tecnologias. Brasília: Ministério da Educação e Cultura/ Secretaria de Educação Média e Tecnológica, 2002, 144 p.

 

CASTRO, Nivalde de.  1988. 36 f. Dissertação (Mestrado em Engenharia em Recursos Hídricos e Saneamento Ambiental). Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Instituto de Pesquisas Hidráulicas - Departamento de Obras Hidráulicas, Porto Alegre, 1988.

CORTEZ, Horacio. Aquecimento Global e Água. 1. ed., [S. 1.], 2004. Disponível em: . Acesso em: 13 set. 2013.

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GRASSI, Marco Tadeu. Química Nova na Escola. n.1- Mai. 2001.

 

GUIMARÃES, Mauro. Educação ambiental: no consenso um embate? 5ª ed. Campinas: Papirus, 2007, 99 p.

 

JACOBI, Pedro.  Cadernos de Pesquisa. n. 118, p. 189-205, março/2003.

 

KOFF, Elionara Delwing.Questão Ambiental e o Estudo de Ciências: Algumas Atividades. Goiânia: Editora da UFG, 1995. 114 p.

LUDKE, Menga; ANDRE, Marli. Pesquisa em educação: abordagens qualitativas. São Paulo: Ed. E.P.U., 1986. 99 p.

LOUREIRO, Carlos Frederico Bernado. Trajetória e fundamentos da educação ambiental, São Paulo: Cortez, 2004. 150 p.

MACÊDO, João Antonio Barros de. Águas e Águas. 2 ed. Belo Horizonte: CRQ-MG, 2004.

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SATO, Michele. Educação Ambiental. São Carlos: RIMA, 2004.

 



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