ISSN 1678-0701
Nmero 38, Ano X.
Dezembro/2011-Fevereiro/2012.
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14/12/2011IMPLICA합ES DAS REPRESENTA합ES SOCIAIS DE MEIO AMBIENTE NA RELA플O HOMEM-NATUREZA PARA A EDUCA플O AMBIENTAL: UM ESTUDO A PARTIR DAS DEFINI합ES DE ALUNOS MORADORES DA ZONA RURAL DO PARAN  
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IMPLICA합ES DAS REPRESENTA합ES SOCIAIS DE MEIO AMBIENTE NA RELA플O HOMEM-NATUREZA PARA A EDUCA플O AMBIENTAL: UM ESTUDO A PARTIR DAS DEFINI합ES DE ALUNOS MORADORES DA ZONA RURAL DO PARAN

 

 

Prof. Esp. Vanessa Oenning, Escola Rural Municipal Abelardo Luz, Barra Bonita, 85485-000, Trs Barras do Paran, PR; Telefone: (45) 3235-1010; e-mail: oenning.van@hotmail.com

 

Prof. Dr. Irene Carniatto, Centro de Cincias Biolgicas e da Sade, Universidade Estadual do Oeste do Paran, Rua Universitria, 2069. Jardim Universitrio, 85819-110. Cascavel, PR; e-mail: irenecarniatto@yahoo.com.br

 

 

Resumo: O estudo das representa寤es sociais de meio ambiente tem sido apontado como uma importante ferramenta para o diagnstico da percep豫o ambiental de determinado grupo, servindo como base para o planejamento de programas de Educa豫o Ambiental. Esta pesquisa analisou, por meio de questionrios, as representa寤es de meio ambiente dos alunos de 5 a 8 sries do Ensino Fundamental de uma escola pblica localizada na zona rural de um distrito situado a Oeste do Estado do Paran. O estudo constatou o predomnio de uma viso naturalista de meio ambiente, correspondendo a 76% do total de alunos. Ao analisar os conceitos separados por srie, observou-se que na 5 e 7 sries a viso naturalista apareceu em 100% das respostas, na 6 srie predominou a viso antropocntrica, e apenas na 8 srie apareceu a viso globalizante, mas ainda na minoria das respostas. Esses resultados revelam a necessidade de se construir junto aos alunos uma concep豫o mais globalizante de meio ambiente, por meio de atividades que levem o aluno a reconhecer a complexidade de intera寤es que envolvem o ambiente, que vo alm da esfera ecolgica, alm de perceber-se como integrante do meio ambiente, cujas a寤es podem interferir na qualidade desse meio.

 

 

1. Introdu豫o

 

A crise ambiental, cada vez mais eminente no mundo atual, j no admite mais que as a寤es do homem na natureza continuem da forma exploratria que culminou na atual situa豫o, na qual a cultura do consumismo somada ao crescente aumento da popula豫o mundial intensificam a presso sobre os recursos naturais. Esta situa豫o est produzindo um ambiente cada vez mais frgil e contribuindo para o declnio da qualidade de vida do planeta que assim se v ameaado pela escassez de gua, prolifera豫o de doenas, altera寤es climticas e vrios outros sintomas dessa crise.

Boff (2007) acredita que esse talvez seja o momento oportuno para que a humanidade reformule seus valores e crie alternativas que sirvam de base para um novo ensaio civilizatrio, transformando o desafio da crise ambiental em crise de passagem para um nvel melhor na rela豫o do homem com a natureza. Mas para isso, necessrio superar a chamada crise de percep豫o humana, ou seja, a viso distorcida de mundo, baseada no individualismo e na dificuldade que se tem em reconhecer a inter-rela豫o existente entre todas as coisas e que, segundo Capra (1982), a origem da crise ambiental assim como de outros problemas visveis no nosso tempo.

Portanto, a realidade atual exige profundas mudanas na rela豫o entre homem e natureza, considerando que uma transforma豫o efetiva requer, antes de qualquer coisa, uma mudana de comportamento individual baseada na reformula豫o de valores no s econmicos, mas principalmente estratgicos e ticos. Por conseguinte, essa transforma豫o de que se fala mais humana do que qualquer outra, mas deve ocorrer em grande escala (TORRES et al., 2002).

Nesse contexto, tem-se reconhecido o papel da educa豫o em compreender, prevenir e mitigar problemas ambientais. A tecnologia, por si s no capaz de prever e solucionar esses problemas, cujas razes geralmente esto em fatores sociais, econmicos e culturais. Dessa forma, o que deve ser feito incidir principalmente sobre os valores, atitudes e comportamentos dos indivduos e dos grupos com rela豫o ao meio ambiente (DIAS, 2004), e nesse processo que se destaca como rea do saber a Educa豫o Ambiental, cujo trabalho requer uma abordagem holstica, de forma que se reconhea a dimenso dos temas ambientais e as reais implica寤es que as altera寤es no meio ambiente provocam no planeta.

Entende-se por Educa豫o Ambiental um processo que consiste na compreenso crtica e global do meio ambiente, de forma a elucidar valores e desenvolver atitudes que permitam adotar uma posi豫o participativa, frente a questes relacionadas com a conserva豫o e adequada utiliza豫o dos recursos naturais, para a melhoria da qualidade de vida, sempre permitindo a liberdade para decidir caminhos alternativos de desenvolvimento. Assim, a Educa豫o Ambiental deve seguir como pressupostos tericos a viso holstica e crtica, a interdisciplinaridade, a participa豫o e o carter permanente e poltico (MININNI-MEDINA, 1999).

A incluso da temtica ambiental no contexto escolar est prevista nas recomenda寤es da Agenda 21, documento assinado por 198 pases durante a II Conferncia Mundial para o Meio Ambiente e Desenvolvimento (Rio-92), cujo contedo consta de um programa de a寤es recomendadas para se atingir as metas de preserva豫o propostas que devem ser realizadas durante o sculo XXI. O documento prope a integra豫o dos temas meio ambiente e desenvolvimento como tema interdisciplinar ao ensino de todos os nveis. No entanto, embora recomendada por conferncias internacionais, exigida pela Constitui豫o e declarada como prioritria por todas as instncias do poder, a Educa豫o Ambiental est longe de ser uma atividade tranquilamente aceita e desenvolvida, j que sua realiza豫o implica em mudanas profundas e nada incuas (BRASIL, 2001a).

Nesse contexto, Mininni-Medina (1999) reconhece que, para cumprir os propsitos da Educa豫o Ambiental, muito ainda precisa ser feito, sendo necessrios investimentos importantes principalmente na capacita豫o e orienta豫o de professores que devero estar preparados para os desafios surgidos nesse processo.

Para Cunha e Zeni (2007), o trabalho com Educa豫o Ambiental pode ser facilitado pelo conhecimento por parte do professor da realidade em que ele ir atuar, ou seja, ao planejar suas atividades o professor precisa compreender como seus alunos percebem o meio ambiente no qual esto inseridos, seu conhecimento, valores, hbitos, necessidades e sentimentos em rela豫o ao meio, pois, de acordo com Faggionato (2007), cada indivduo percebe, reage e responde diferentemente s a寤es sobre o meio, sendo que suas manifesta寤es so resultantes das suas percep寤es, julgamentos e expectativas individuais. Dessa forma, o estudo das representa寤es ambientais tambm contribui para a compreenso das rela寤es entre homem e meio ambiente e, por diagnosticar a realidade com a qual se deseja trabalhar, uma ferramenta que atua como ponto de partida para o planejamento de atividades e programas de Educa豫o Ambiental.

Da mesma forma, Layarargues (2000) destaca que se a proposta da Educa豫o Ambiental est na transforma豫o de valores para criar uma conscincia ecolgica condizente com  comportamentos ambientais saudveis, a primeira etapa a ser desenvolvida o prvio mapeamento das representa寤es do pblico-alvo.

Nesse intuito, essa pesquisa buscou conhecer as representa寤es de meio ambiente de alunos do ensino fundamental, na escola de uma comunidade rural, alm de discutir os possveis fatores que influenciam nessas diferentes vises. Tambm, so apresentados os apontamentos de diversos autores da rea acerca de como cada representa豫o de meio ambiente pode interferir na forma como cada indivduo interage com o seu meio e suas sugestes de como se deve trabalhar o conceito de meio ambiente com os alunos, diante das diversas classifica寤es das reperesenta寤es de meio ambiente.

 

As representa寤es sociais de meio ambiente

 

O termo 뱈eio ambiente tem sido definido como 뱔m 멷spao (com seus componentes biticos e abiticos) em que um ser vive e se desenvolve, trocando energia e interagindo com ele, sendo transformado e transformando-o. O homem, a partir da intera豫o com os elementos do seu ambiente, provoca tipos de modifica豫o que se transformam com o passar da histria. E ao transformar o ambiente, os seres humanos tambm mudam sua prpria viso a respeito da natureza e do meio em que vive. Assim, as representa寤es sociais so dinmicas e evoluem rapidamente e devem ser trabalhadas tanto com os alunos, quanto nas rela寤es escola-comunidade. Alm disso, as representa寤es iniciais acerca da questo ambiental, denominadas por muito autores como representa寤es de 몊enso comum, so muitas vezes consideradas distorcidas e/ou pouco rigorosas do ponto de vista cientfico. Portanto, na escola esses conceitos so revisados e enriquecidos com informa寤es cientficas,  apontando para as rela寤es recprocas entre sociedade e meio ambiente (BRASIL, 2001a; BRASIL, 2001b, p. 31).

Reigota (1995) classificou as diferentes representa寤es de meio ambiente em trs categorias: naturalista, antropocntrica e globalizante. Na categoria naturalista se encaixam as defini寤es que associam a ideia de meio ambiente de ecossistema, priorizando seus aspectos naturais como fauna, flora e aspectos fsico-qumicos. J a viso antropocntrica considera a natureza como fonte de recursos a serem utilizados e gerenciados pelo homem, ou seja, o ambiente serve s necessidades humanas. Finalmente, a viso globalizante coloca o homem numa rela豫o com os demais seres da natureza, sem pressupor seu poder dominante sobre a mesma, e engloba os diversos aspectos, entre eles os naturais, polticos, sociais, econmicos, filosficos e culturais.

A constru豫o da representa豫o simblica de ambiente no depende apenas das condi寤es materiais que cercam o sujeito, mas tambm de conhecimentos e contedos afetivos, ticos, ideolgicos, que condicionam sua prpria percep豫o (SAHEB & ASINELLI-LUZ, 2006). Assim, cada uma dessas representa寤es tm origens e implica寤es diferentes. Considerando que a viso de meio ambiente do indivduo determina sua forma de interagir com esse meio e sabendo que o prprio ambiente social contribui para a forma豫o desses conceitos, os projetos educativos devem sempre considerar a realidade de cada grupo, alm de procurar conhecer as causas determinantes que podem estar influenciando na sua percep豫o ambiental, a fim de saber interferir de maneira adequada no processo de constru豫o de valores com rela豫o ao meio ambiente.

De acordo com Saheb & Asinelli-Luz (2006), o trabalho com Educa豫o Ambiental nas escolas, quando bem realizado, pode contribuir para a constru豫o de representa寤es de meio ambiente, j que possibilita o acesso a informa寤es que mais tarde podem auxiliar no desenvolvimento de uma conscincia global das questes ambientais, resultando em uma posi豫o mais preocupada e engajada com a sua prote豫o e melhoria. Nessa perspectiva a proposta pedaggica no trabalho com Educa豫o Ambiental deve ir alm da mera difuso de informa寤es tcnicas sobre meio ambiente e os conceitos da Ecologia. Portanto, a escola tem uma grande responsabilidade neste processo formativo e educativo e a Educa豫o Ambiental deve ser vivenciada amplamente, considerando-a uma grande contribui豫o filosfica e metodolgica educa豫o em geral.

 

 

2. Materiais e mtodos

 

2.1 Sujeitos da pesquisa

 

 A pesquisa foi realizada em uma escola pblica, localizada em uma pequena comunidade da zona rural situada na regio Oeste do Estado do Paran  e envolveu um total de 30 alunos de 5 a 8 sries do Ensino Fundamental. Ressalta-se que a pesquisa envolveu 100% dos alunos matriculados nas sries citadas, sendo que o nmero pequeno de estudantes da escola deve-se ao fato de a mesma pertencer a uma comunidade rural, com poucos habitantes.

A idade dos alunos variou entre 10 e 15 anos. De acordo com Mansano (2006), a idade dos sujeitos da pesquisa um fator importante a ser considerado no estudo da percep豫o ambiental, j que o estgio de desenvolvimento em que o indivduo se encontra pode influenciar na forma como ele v e interage com o mundo. Assim, segundo o mesmo autor, baseando-se nas fases de desenvolvimento propostas por Piaget e nos estudos de Parra (1983), a maioria dos alunos envolvidos na pesquisa encontra-se na fase das opera寤es intelectuais formais (que abrange idades entre 11 e 15 anos, aproximadamente). Nessa faixa etria, o pensamento dos jovens torna-se mais flexvel permitindo-lhes fazer rela寤es entre sua vida, o meio que o cerca e os valores sociais e morais, ou seja, a sua percep豫o torna-se mais aguada, e sua forma de ver o mundo comea a mudar.

Os alunos envolvidos na pesquisa residem todos na zona rural e so, em sua maioria, filhos de pequenos agricultores da regio.

 

2.2 Coleta e anlise dos dados

 

Foram distribudos questionrios com questes discursivas nas quais os alunos deveriam explicar o que eles entendem por meio ambiente, alm de descrever o ambiente em que eles vivem. Os questionrios foram aplicados aos alunos coletivamente no horrio das aulas, sendo respondidos na presena do pesquisador.

Os resultados foram organizados em dois grficos: um representa a viso geral dos alunos e o outro compara os conceitos entre os alunos de cada srie. As discusses dos resultados, implica寤es pedaggicas e recomenda寤es so apontadas no decorrer da apresenta豫o dos resultados, a fim de discutir melhor cada caso.

 

 

3. Resultados e discusses

 

A anlise dos questionrios aplicados aos alunos revelou as diferentes representa寤es de meio ambiente, sendo agrupadas de acordo com as categorias descritas por Reigota: naturalista, antropocntrica e globalizante. A figura 1 mostra a porcentagem de cada representa豫o de meio ambiente implcita nas respostas do total de alunos de todas as sries agrupadas.

 

 

Figura 1.JPG

 

Figura 1. Representa寤es de meio ambiente de alunos de 5 a 8 sries do ensino fundamental de uma escola pblica rural de acordo com as repostas obtidas nos questionrios

 

 

Verifica-se o predomnio da viso naturalista, correspondendo a 76%  do total das respostas. possvel observar a presena desse conceito implcita em respostas como as seguintes:

 

(Aluno 15) Para mim meio ambiente so as florestas, os animais os mares, rios, tudo na natureza.

 

(Aluno 27) tudo o que faz parte da natureza.

 

Como apontado por Reigota (1995), a viso naturalista confunde meio ambiente com o conceito de ecossistema, no incluindo o ser humano como um integrante do sistema.

Branco (2002) diferencia esses dois termos explicando que:

 

O meio ambiente inclui o elemento antrpico e tecnolgico enquanto o ecossistema, com suas caractersticas homeostticas de controle e de evolu豫o natural no comporta o homem, pois incompatvel com o finalismo e a delibera豫o caractersticos dessa espcie atualmente. O homem, no entanto, no deixa de participar de um sistema maior e mais complexo: o Meio Ambiente, cujo equilbrio coordenado por um conjunto de informa寤es de ordem diferente do que preside o ecossistema, porque emanada de um princpio criador consciente, em permanente integra豫o com o sistema como um todo.

 

A confuso com esses  termos comum, j que a viso naturalista observada em vrios discursos, inclusive nas imagens e expresses veiculadas pela mdia que geralmente associam a ideia de meio ambiente de natureza pura, de forma que, quando se fala nesse termo, a maioria das informa寤es transmitidas a respeito nos remetem a pensar naquilo que natural, que no foi feito pelo homem, na natureza intocada.

Algumas respostas classificadas como de origem naturalista tambm apresentaram essa ideia de natureza intocada:

 

(Aluno 21) a natureza sem destrui豫o e polui豫o e com muitos animais vivos e felizes.

 

(Aluno 14) Meio ambiente para mim um lugar cheio de rvores, um lugar preservado.

 

(Aluno 23) Para mim uma paisagem limpa, sem lixo, sem um papel de bala sequer.

 

Ainda na viso naturalista observa-se a ideia da necessidade de preserva豫o de acordo com as respostas transcritas a seguir:

 

(Aluno 22) o respeito com a natureza ter cuidado no jogar lixo no meio ambiente deixar tudo limpo.

 

 (Aluno 30) um lugar limpo que a gente tem que cuidar, preservar.

 

Tais cita寤es podem ser resultado da influncia do discurso preservacionista, cada vez mais presente no cotidiano da sociedade atual, que, ao abordar o tema 뱈eio ambiente geralmente traz questes relacionadas aos problemas ambientais. Da mesma forma, os programas de Educa豫o Ambiental nas escolas muitas vezes tratam da necessidade de preserva豫o sem previamente trabalhar os conceitos e as rela寤es entre homem e meio ambiente. Assim, ao se falar em meio ambiente o aluno automaticamente associa ideias de preserva豫o, presentes em grande parte dos discursos ambientais a que ele tem acesso.

Sauv (1994, apud SAUV, 1997) ressalta que essa viso de 밶mbiente como natureza a ser apreciada e preservada, dissocia o homem do ambiente, ou seja, o ser humano no se percebe como parte desse meio, criando a falsa ideia de independncia entre ambos. Esse sentimento de independncia, segundo Rebollar (2009), pode levar a constru寤es mentais que justificam a explora豫o irracional dos recursos, o que caracteriza a viso antropocntrica de meio ambiente.

A viso antropocntrica apareceu em 20% das respostas:

 

(Aluno 28) O que mantm o ser humano vivo (...)

 

(Aluno 8) Para mim tudo o que temos: as matas, os rios, lagos, a gua, a terra, a camada de oznio, em fim, o que precisamos para viver.

 

(Aluno 9) a nossa vida, porque sem o meio ambiente ns no vivemos, ento temos que cuidar muito bem.

 

(Aluno 11) Para mim, o meio ambiente um meio de vida, ele d para ns a vida que o ar.

 

O conceito antropocntrico reconhece a dependncia humana em rela豫o aos recursos naturais, no entanto pressupe o homem como gerenciador desses recursos a fim de buscar a melhor forma de utiliz-los a seu favor.

Segundo Sauv (1994, apud SAUV, 1997), essa viso de 밶mbiente como recurso alimentada por alguns princpios do desenvolvimento sustentvel e pela ideia de preserva豫o da natureza como fator necessrio para assegurar a manuten豫o dos seus benefcios ao homem, cujas prticas adotam uma viso limitada do ambiente, que percebido essencialmente como um recurso.

De acordo com Carvalho et al. (2004), nas ltimas dcadas, muito se tem falado em desenvolvimento sustentvel, embora seu conceito, principalmente aps a Conferncia da ONU sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, a Rio 92, seja ainda um desafio para as sociedades. O termo 밺esenvolvimento sustentvel tem recebido interpreta寤es diversas que o remetem a diferentes propsitos e prticas, sendo que lidar com a polissemia do desenvolvimento sustentvel tambm um grande desafio para os educadores (CARVALHO et al., 2004).

A viso antropocntrica caracterizada, tambm, pelo sentimento de superioridade do homem em rela豫o aos demais seres vivos. Tal percep豫o pode ser fruto de aspectos culturais e at mesmo religiosos: o homem foi criado imagem e semelhana de Deus e, portanto, est acima dos demais seres: 밅rescei e multiplicai-vos e enchei a terra, e sujeitai-a, e dominai sobre os peixes do mar, e sobre as aves do cu, e sobre todos os animais que se movem sobre a terra (GNESIS, 1: 28). Essa cita豫o pode ser interpretada de forma a pressupor que a natureza foi criada para o homem, o qual deveria habit-la e se servir de seus recursos, j que Deus lhe deu direitos sobre os mesmos. Vanzella (2011, p. 4), esclarece que esse mandato divino foi ideologicamente interpretado, de forma que muitos entendem que deveramos 뱒ubjugar a natureza e sug-la em vista da satisfa豫o dos nossos interesses, principalmente os econmicos.볾 expresso 밺ominar a natureza, no entanto, carrega outro sentido: A palavra vem do latim dominus, que significa senhor. Dominar exercer o senhorio. Deus o nico Senhor, e ele o modelo de exerccio de senhorio sobre a natureza.

Portanto, numa viso bblica, o homem um mordomo de Deus, o qual deve cuidar e proteger os demais seres com os quais se relaciona. Este conceito est em conformidade com os documentos planetrios atuais: na Agenda 21; Metas do Milnio para o Desenvolvimento; Declara豫o de Kyoto; Declara豫o dos Povos Indgenas; Declara豫o Universal dos Direitos da 햓ua, e fica bastante claro nos pressupostos da Carta da Terra, conforme expressa Carniatto (2007, p.15):

 

A Carta da Terra, no seu prembulo, traz uma mensagem que deve apelar para cada ser humano, com o propsito de fazer cada um refletir e tomar uma postura adequada, poltica-ambientalmente correta: Devemos somar foras para gerar uma sociedade sustentvel global baseada no respeito pela natureza, nos direitos humanos universais, na justia econmica e numa cultura da paz. Para chegar a este propsito, imperativo que, ns, os povos da Terra, declaremos nossa responsabilidade uns para com os outros, com a grande comunidade da vida, e com as futuras gera寤es. A Terra, como Nosso Lar.

 

Na sociedade capitalista em que vivemos, torna-se difcil vencer a viso antropocntrica imposta pelas ideologias dominantes que so incapazes de compreender o que sociedades tidas como 뱎rimitivas h muito j sabiam, como possvel perceber no trecho da carta escrita pelo chefe indgena Seattle ao governo dos EUA em 1982: 밢 que sabemos isso: a terra no pertence ao homem, o homem pertence terra. Todas as coisas esto ligadas, assim como o sangue nos une a todos. O homem no teceu a rede da vida, apenas um dos fios dela. O que quer que faa rede, far a si mesmo.

No mbito educacional escolar, Reigota (1994, apud SAHEB & ASINELLI-LUZ, 2006) afirma que os conceitos naturalista e antropocntrico podem estar vinculados a prticas associadas concep豫o tradicional de ensino, nas quais os alunos so levados a memorizar enuciados de maneira mecnica, sem uma constru豫o pessoal e sem que os conceitos aos quais esses enunciados se referem tenham liga豫o com outras ideias espontneas do sujeito. O ensino relacionado ao meio ambiente, nesse contexto, se resume transmisso de conhecimentos sobre a natureza, sem estabelecer a devida rela豫o de interdependncia que envolve o complexo saber ambiental.

Isso se reflete nos conceitos de meio ambiente discutidos at aqui, os quais consideram o homem ou como habitante, ou como observador ou ainda como gerenciador do meio ambiente, mas no como um integrante do mesmo. Conforme Fazenda (2002), a civiliza豫o na qual estamos inseridos, tem-nos apresentado o meio ambiente como algo separado de ns, de forma que concebemos o mundo onde os elementos se apresentam de forma fragmentada e desconexa, numa incompreenso da realidade. O homem enquanto mero observador, entendendo a natureza e a humanidade como unidades separadas, no capaz de perceber a rela豫o entre suas atitudes e os impactos provocados ao ambiente e que essas a寤es refletem-se como problemas para a sua prpria sobrevivncia.

Sato (2002) aponta que a Educa豫o Ambiental, diante dessa realidade, deve promover a 뱑enova豫o dos laos com a natureza, tornando-nos parte dela e desenvolvendo a sensibilidade para o pertencimento pois, segundo Oliveira (2006), enquanto o homem no se perceber como mais um dos elementos integrantes do meio ambiente, os problemas ambientais continuaro aumentando.

Assim, sendo objetivo da Educa豫o Ambiental promover uma viso global de ambiente que atente para as inter-rela寤es entre homem, sociedade e natureza, as prticas educativas deveriam trabalhar para desenvolver a viso globalizante de ambiente. Embora as respostas dos alunos avaliados no expressassem um conceito globalizante completo, algumas das coloca寤es foram consideradas como mais prximas do conceito globalizante, por terem considerado o homem como integrante do meio, como por exemplo:

 

(Aluno 25) Meio ambiente todo lugar onde habitamos, so os seres vivos em geral. 햞vores, animais, humanos, etc.

 

Na figura 2 percebemos a diferena entre as representa寤es de meio ambiente dos alunos das quatro sries envolvidas na pesquisa:

 

Figura 2.JPG

Figura 2. Representa寤es de meio ambiente dos alunos separadas por srie

 

Percebe-se que entre os alunos da 5 e 7 sries a viso naturalista unnime. J na 6 srie, o conceito antropocntrico prevaleceu, e apenas na 8 srie apareceram conceitos mais prximos de globalizante.

 De acordo com Souza et al. (2010), devido ao fato de os alunos residentes na zona rural conviverem mais prximos de um ambiente natural, justifica-se o predomnio de uma viso naturalista, como observado na maioria das sries, no entanto, o fato de a viso antropocntrica tambm ter aparecido pode ser explicado pela existncia de espaos rurais diferenciados, onde o meio natural foi transformado em espaos de cultivo ou cria豫o de animais, e justamente da que essas pessoas retiram o seu sustento e, dessa forma, o meio ambiente visto como fonte de recursos.

Percebe-se, nesse contexto a necessidade de prticas educativas voltadas para uma percep豫o mais integral de meio ambiente. Sato (2002) aponta diferentes formas de incluir a temtica ambiental no contexto escolar, tais como aulas de campo, produ豫o de contedos com foco local, projetos ou qualquer trabalho que leve o aluno a reconhecer-se como agente no processo que norteia a poltica ambientalista. Alm disso, o papel do educador buscar metodologias que favoream a implanta豫o da Educa豫o Ambiental, sempre considerando o ambiente imediato, relacionado a exemplos de problemas ambientais atualizados. O conhecimento do meio possibilita e capacita o homem a saber, pensar e atuar sobre ele, assim como desenvolver competncias especficas em trs grandes domnios que se relacionam entre si: a localiza豫o no espao e no tempo; o conhecimento do ambiente natural e social e o dinamismo das inter-rela寤es entre o natural e o social, agregando progressivamente ao 뱒aber (conceitos adquiridos), o 뱒aber fazer (tecnologia) e o 뱒aber ser (atuar como cidado) (CARNIATTO, 2007).

Tavares (2003) comenta que o espao rural no contexto escolar, por possibilitar uma proximidade com a natureza, permite que as a寤es pedaggicas ambientais tornem-se meios facilitadores para a compreenso da importncia de se conviver em harmonia como o meio ambiente.

Destaca-se ainda que a transi豫o entre o senso comum a um conceito globalizante de meio ambiente um processo extremamente complexo, uma vez que os interesses sociais, econmicos e polticos so conflitantes (BEZERRA & GONALVES, 2007). Alm disso, no existe uma defini豫o precisa e consensual para meio ambiente, o que acaba gerando distor寤es desse conceito ao ser apreendido pelos alunos. Segundo Menghini (2005), a evolu豫o da crise ambiental popularizou o uso da expresso 뱈eio ambiente que tem se tornado presente no vocabulrio cotidiano das mais diversas reas e autores, com enfoques cientficos diferentes e nem sempre claros. O conhecimento sistemtico relacionado ao meio ambiente muito recente, sendo que a sua prpria base conceitual est ainda em constru豫o. As defini寤es para termos como meio ambiente e desenvolvimento sustentvel, por exemplo, no tm consenso nem mesmo na comunidade cientfica, o que justifica que esta ambiguidade conceitual ocorra fora dela (BRASIL, 2001a).

De qualquer forma, a Educa豫o Ambiental deve promover um entendimento mais global do meio ambiente, pois, como destaca Orellana (2001, apud MENGHINI, 2005), o meio ambiente 볣 uma realidade to complexa que escapa a qualquer defini豫o precisa, global e consensual.

Cabe aos educadores comprometidos com a questo ambiental estar atentos a essa diversidade de representa寤es, e, conscientes do seu papel no desenvolvimento de uma percep豫o mais globalizante das questes que envolvem o meio ambiente, trabalhar o tema por meio de uma abordagem que busque quebrar a viso simplista, ingnua, mecanicista e superficial com que muitas vezes as questes ambientais so apresentadas nas fontes de informa豫o a que os alunos tm acesso. Isso implica em demonstrar a estreita liga豫o entre todos os componentes do meio ambiente numa rela豫o de interdependncia, onde cada a豫o individual interfere no funcionamento do todo.

Nesse intuito fundamental levar os alunos a analisar de forma crtica a realidade em que vivem, discutindo como as decises que so tomadas pelos que detm o poder podem afetar a qualidade de vida do planeta, bem como reconhecer como suas prprias a寤es poder interferir no meio ambiente e, portanto, suas decises devem estar comprometidas com a causa ambiental.

 

 

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