ISSN 1678-0701
Volume X, Número 36
Junho-Agosto/2011.
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Artigos

No. 36 - 04/06/2011
Educação ambiental sobre o ecossistema Manguezal junto a uma comunidade do município de São Luís – MA  
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Revista Educação Ambiental em Ação 36

EDUCAÇÃO AMBIENTAL SOBRE O ECOSSISTEMA MANGUEZAL JUNTO A UMA COMUNIDADE DO MUNICÍPIO DE SÃO LUÍS – MA

 

Ana Luiza Privado Martins 1

Izabel Cristina Silva Almeida Funo 2

Hellen Cristine Alves Vinhote 3

Mirella Nascimento Giusti da Costa 4

Cristian Cristine Teófilo Durans 5

 

 

1 Bióloga, MSc. em Sustentabilidade de Ecossistemas / Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Maranhão – Campus Codó.

2 Bacharel em Ciências Aquáticas, MSc. em Engenharia de Pesca / Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Maranhão – Campus Maracanã.

3 Bacharel em Ciências Aquáticas, MSc. em Sustentabilidade de Ecossistemas / CVT Estaleiro Escola do Maranhão.

4 Bióloga, MSc. em Biodiversidade e Conservação / CVT Estaleiro Escola do Maranhão.

5 Bacharel em Ciências Aquáticas, Esp. em Engenharia Ambiental / Secretaria de Estado da Ciência e Tecnologia do Maranhão.

Endereço: Povoado Poraquê, S/N-Zona Rural – Codó-Ma/CEP: 65.400-000.

   Fone: (99) 3669-3000

   E-mail: ana.lpm@ifma.edu.br

 

RESUMO

 

O presente artigo relata atividades voltadas para a educação ambiental relacionada ao ecossistema manguezal, as quais ocorreram no CVT Estaleiro Escola do Maranhão, no município de São Luís, durante 21 meses (agosto/2007 a maio/2009), atingindo um total de 225 pessoas. Durante o processo ensino-aprendizagem, foram realizadas aulas expositivas dialogadas, dinâmicas de grupo, atividades ludo pedagógicas e aulas de campo. A técnica do “survey” foi utilizada para comparar o entendimento dos alunos antes da ação educativa com o adquirido após a realização das atividades, levando à conclusão de que o processo foi eficiente para construir o conhecimento sobre o manguezal junto ao público-alvo.

 

Palavras-chave: Manguezal, Educação Ambiental, Ações Educativas.

 

INTRODUÇÃO

 

O manguezal é um ecossistema de transição entre os ambientes terrestre e marinho, onde ocorre, no geral, o encontro das águas de rios com as águas do mar, sendo típico de regiões tropicais e subtropicais (BENFIELD et al., 2005). Nesse ecossistema é característico o solo lamoso, salobro e formado por depósitos de silte, com muita matéria orgânica em decomposição, pouco oxigênio e odor característico (MOCHEL & MEDEIROS, 1988). Forma uma unidade faunística e florística de muita importância, representada por um grupo típico de animais e plantas (VANNUCCI, 2002). As funções fundamentais do manguezal estão relacionadas à fixação do sedimento, fornecimento de produção primária, manutenção da biodiversidade, constituição de berçário e área de refúgio para muitas espécies (BENFIELD et al., 2005).

O Brasil possui uma das maiores extensões de manguezais do mundo, estendendo-se do estado do Amapá, até o estado de Santa Catarina (KRUG et al., 2007; SCHAEFFER-NOVELLI, 1989). O litoral maranhense é o que apresenta a maior área de manguezais do país, com cerca de 500.000 hectares, distribuídos pela costa oriental, pelo Golfão Maranhense e pelas reentrâncias do litoral ocidental (REBÊLO-MOCHEL, 1995).

Apesar de toda importância desse ecossistema para o equilíbrio ecológico e, conseqüentemente para o homem, ele continua sofrendo destruição por meio de processos urbano-industriais de ocupação do litoral. Além da delicada situação em que se encontra o manguezal, a falta de conhecimento sobre a importância desse ambiente é um dos maiores entraves para sua preservação e conservação (ALARCON & PANITZ, 1998).

Em vista da elevada degradação dos manguezais no estado do Maranhão e, levando-se em consideração a sua extrema importância social, econômica e ambiental, faz-se necessário o entendimento desse ecossistema. Dessa forma, este trabalho teve como objetivo proporcionar a uma comunidade de São Luís (Maranhão) a compreensão, de maneira contextualizada e participativa, da importância do manguezal, incentivando sua utilização de forma sustentável e promovendo uma educação ambiental para a transformação.

 

METODOLOGIA

 

Ambiente de Trabalho e Público Alvo

 

As atividades de educação ambiental ocorreram no CVT Estaleiro Escola do Maranhão, situado no Sítio Tamancão, na área Itaqui-Bacanga do município de São Luís. Esse local é margeado pelo estuário do rio Bacanga e por extenso manguezal. O público alvo da ação educativa foi constituído por moradores das comunidades circunvizinhas à escola, os quais possuíam a partir de 15 anos de idade e haviam concluído o ensino fundamental.

O trabalho educativo faz parte do curso de Educação Ambiental para as comunidades circunvizinhas ao estaleiro. As atividades tratadas aqui ocorreram durante 21 meses (agosto/2007 a maio/2009), atingindo um total de 225 pessoas. Durante esse tempo, foram formadas quatro turmas do curso, sendo que o período de aprendizagem para cada uma delas foi de cinco meses. O conhecimento, no presente contexto, foi adquirido através da disciplina intitulada Ecossistema Manguezal, possuindo esta um total de 40 h/aula/turma.

 

Descrição das Atividades

 

Sabendo-se que este trabalho foi realizado em quatro turmas e que cada uma delas reagiu de forma diferenciada às atividades aplicadas, neste artigo estão descritas apenas algumas das ferramentas utilizadas e alguns dos resultados obtidos.

 

Aplicação de questionários

 

Para o desenvolvimento deste trabalho, antes de uma interferência educativa, foi primeiramente realizada uma avaliação do entendimento dos alunos sobre o ecossistema manguezal. Segundo CANDIANI et al. (2004):

 

Essa técnica, conhecida como “survey” (levantamento), permite investigar e descrever uma situação, sendo um procedimento no qual a informação é sistematicamente coletada de uma população ou amostra pertencente à mesma, para identificar fatores predisponentes a determinadas motivações de um indivíduo, a fim de impulsionar ou restringir práticas.

 

Dessa forma, foram aplicados previamente questionários às pessoas que participariam das atividades educativas, para que se tivesse uma visão do conhecimento das mesmas sobre o manguezal. Essa mesma ação também foi realizada ao fim das atividades, como uma forma de avaliação do conhecimento adquirido pelos envolvidos no processo. O questionário constava das seguintes perguntas:

1. Qual a importância do ecossistema manguezal?

2. Quais os principais impactos ocorrentes no manguezal de São Luís?

As respostas dadas foram classificadas em “Correta”, “Parcialmente Correta”, “Errada” e “Não Respondeu”.

 

Aulas expositivas dialogadas

 

Ao longo do processo educativo foram ministradas aulas, utilizando-se o diálogo como mediador do trabalho em sala de aula. Para que esse mecanismo servisse como ferramenta eficiente, foi utilizado em função de temas específicos, com objetivos concretos e aplicado de acordo com a realidade dos alunos.

Os temas abordados foram os seguintes: Introdução ao Estudo sobre Manguezais (Ecossistemas Costeiros, Características, Origem e Distribuição do Manguezal); Biodiversidade do Manguezal (Fauna e Flora); Relação entre Sociedade e Manguezal (Importância e Impactos Ambientais); Legislação Ambiental e Uso Sustentável do Manguezal.

Para ministrar as aulas foram utilizados diversos recursos, como televisão, computador, data show, vídeos, quadro e pincel. Outros materiais, como cartolina, lápis de cor, tesouras, réguas e cola, foram usados pelos próprios alunos para realização de atividades propostas em sala de aula, como elaboração de cartazes e cartilhas, dentre outras.

Durante as aulas sempre era feito um levantamento do conhecimento prévio dos alunos a respeito da temática a ser tratada, partindo-se do princípio de que o educando é um construtor do conhecimento, e não simplesmente um mero receptor de informações pré-estabelecidas.

Realizaram-se também amostras de vídeo, pois se sabe que as mesmas promovem maior concentração nos alunos, consistindo em recursos bastante atrativos. Foram apresentados filmes, principalmente da World Wild Fund  (WWF) Brasil, que mostravam a problemática ambiental como um todo, com intuito de conscientizar os alunos sobre a preservação ambiental.

Ocorreram também aulas de campo em um ecossistema de manguezal próximo ao Estaleiro Escola.

 

Dinâmicas de Grupo

 

As dinâmicas de grupo também são consideradas ferramentas que possibilitam a criação e recriação do conhecimento, gerando um processo de aprendizagem libertador.

 

Desenvolver relações humanas com base em dinâmica de grupo significa criar um espaço psicossocial alternativo, em que desconfianças, temores e conflitos possam ser aceitos e trabalhados, mediante experiências reconstrutivas, em termos de tarefas e processos que minimizem as ameaças ao "ego" e desenvolvam formas de interação compatíveis com uma ampliação quantitativa e qualitativa de cognições, afetos e condutas (PILON, 1987, p. 348).

 

Sabendo-se disso, em alguns dias, começava-se a aula com alguma técnica de “quebra-gelo”, possibilitando maior entrosamento do grupo como um todo. Algumas outras dinâmicas também sempre eram utilizadas com o objetivo de facilitar o aprendizado por parte dos alunos.

 

Técnicas ludo pedagógicas

     

A atividade ludo pedagógica ajuda o aluno no aprimoramento de determinadas competências essenciais ao seu desenvolvimento. Esse tipo de atividade facilita a aprendizagem, pois consiste em uma técnica que promove maior interesse por parte dos educandos, facilitando sua participação e assimilação. O aluno, dessa forma, tem a oportunidade de assimilar os conteúdos com maior prazer, aprendendo, por exemplo, através de jogos. Esse método é facilitado quando se leva em consideração o conhecimento prévio dos alunos, pois este ponto é base para a aprendizagem significativa pretendida.

 

Avaliação

 

Sabe-se que o processo avaliativo se faz bastante necessário para o processo ensino-aprendizagem. Portanto, ao final de cada aula, era observado se o objetivo da mesma havia sido alcançado, ou seja, era avaliada a aquisição de conhecimentos dos alunos.

As avaliações realizadas no decorrer da disciplina foram feitas em cada aula através de atividades, como elaboração de textos e cartazes, formação de grupos de discussão e apresentação de trabalhos. A participação em sala de aula também foi amplamente explorada.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

 

As análises das aulas revelaram que os alunos detinham algum entendimento prévio sobre os assuntos abordados em sala. Por morarem em áreas próximas ao manguezal, os educandos sempre falavam sobre a realidade do local onde vivem.

Cabe dizer, portanto, que é significativo levar em consideração a experiência vivida pelo aluno, pois este muitas vezes possui um conhecimento anterior acerca do assunto a ser tratado em sala. Conhecer a percepção prévia é fundamental para obtenção de resultados satisfatórios. Além disso, a busca da participação permite a construção do conhecimento, pois o professor não é o único detentor do saber.

 

Uma perspectiva construtivista do ensino desafia os professores a criarem ambientes inovadores, subjacentes às estratégias construtivistas e investigativas, propícios a uma aprendizagem com significado pelos estudantes. Um ambiente construtivista considera que quem aprende é a pessoa na sua globalidade, e a aprendizagem repercute-se também globalmente na pessoa, no que ela sabe, na sua forma de ver a si própria e aos outros. Um ambiente construtivista deverá propiciar o máximo envolvimento por parte dos alunos e proporcionar-lhes o tempo necessário para pensarem e refletirem acerca das suas idéias e dos seus procedimentos, das suas aprendizagens e dos problemas que têm de superar (GOLVEIA & VALADARES, 2004, p. 202).

 

O assunto “Ecossistemas Costeiros” foi abordado gerando sempre grandes debates devido ao fato de que os empreendimentos imobiliários, cada vez mais presentes nesses ambientes, têm destruído, dentre outros, o ecossistema manguezal. Para finalizar esse tema, a turma, dividida em grupos, deveria propor um projeto alternativo viável, importante em termos socioeconômicos e ambientais para essas áreas, através de uma propaganda.

Os alunos se empenharam bastante para realizarem uma boa apresentação, com confecção de maquete por uma das equipes. Durante as apresentações, houve discussões sobre qual seria o projeto mais viável em termos ambientais, sociais e econômicos a longo prazo. O objetivo dessa atividade era incentivar o poder de argumentação e questionamento por parte dos alunos.

Na aula sobre “Fauna e Flora do Manguezal” foi enfatizado que as espécies típicas desse ecossistema têm adaptações que possibilitam sua permanência no mesmo, como lenticelas e pneumatóforos presentes na vegetação. O jogo chamado “Dica” foi utilizado para exploração dos termos vistos em aula. Para realização do mesmo, a turma foi dividida em duas equipes. A cada rodada era escolhido um representante de cada grupo, o qual sorteava uma palavra vista durante a aula. Este teria que dar dicas ao seu grupo de outras palavras que lembrassem a que havia sido sorteada. Caso a equipe errasse, a dica passaria ao outro grupo. Se a resposta desse último fosse errada, o representante do grupo pagaria uma prenda.

Alguns termos são de difícil assimilação pelos alunos, por isso, jogos que relembrem as novas palavras vistas durante a aula são sempre muito importantes para facilitar a aprendizagem. LUDKA et al. (2003) acredita que um jogo bem elaborado pode contribuir para que o processo de ensino-aprendizagem se torne mais eficiente e, ao mesmo tempo, mais motivante para os alunos, sendo possível aproximar os aspectos lúdicos dos cognitivos.

  Para tratar sobre a “Importância dos Manguezais”, destaca-se a realização de uma dinâmica intitulada “A grade”. Para sua execução, pediu-se que os alunos fizessem um círculo de mãos dadas em pé, formando uma “grade” humana. Outros cinco deveriam ficar no centro da roda e tentar ultrapassar a barreira formada pelos outros alunos em círculo. Essa dinâmica tinha o objetivo de descontrair os educandos, mas principalmente demonstrar a importância do manguezal como protetor da linha costeira, funcionando como um obstáculo contra a ação de ondas. A barreira formada pelos alunos representou o mangue, a qual impedia a passagem dos outros alunos, que estavam representando as ondas. Dessa forma, a turma pôde aprender de maneira divertida uma das grandes importâncias desse ecossistema, que além de proteger a linha de costa, funciona como berçário natural, filtro biológico e local rico em nutrientes, dentre outras coisas.

A aula “Impactos Ambientais no Manguezal” foi iniciada com uma dinâmica de grupo intitulada “A folha”. Para realização da mesma, distribuiu-se uma folha de revista para os alunos, pedindo que cada um amassasse a sua. Posteriormente, pediu-se que eles desamassassem a folha. Porém, por mais que tentassem, não conseguiam desamassá-la por completo. Através dessa atividade os participantes puderam perceber que uma atitude de desrespeito ao meio ambiente como um impacto ambiental, em específico ao ecossistema manguezal, pode destruí-lo de tal forma que o mesmo não conseguirá voltar a ser como antes. Desmatamentos, aterros, esgotos, lixo, derramamento de óleo, carcinicultura, desrespeito ao período de defeso do caranguejo, além de outros problemas também foram discutidos durante essa aula. Mostraram-se ainda alguns vídeos da WWF revelando impactos ambientais em ecossistemas costeiros. Foi pedido que os alunos elaborassem uma redação a respeito do que viram. Dentre o que foi elaborado pela turma, destaca-se a seguinte poesia:

 

Área inigualável

De valor imensurável

Preserve-a com respeito,

Para que não falte seu direito

Preservar é necessário

Este maravilhoso santuário

Se não houver sensibilização

O que será da nossa nação?

                 

O que será do futuro

Com a eliminação de tudo?

Com a destruição do nosso manguezal

Isso nos causaria um grande mal

Sem alimento e conhecimento

Só haveria lamento

Se pensamos em destruições

Isso será fruto de nossas ações

 

Agindo de maneira desprezível

Vamos contribuir para a possível destruição

Através de nossa não conscientização

(DAYANNA MICHELLE SOARES SANTOS, 2008)

 

É importante dizer que para que haja preservação dos ecossistemas é importante que se conheçam as leis sobre o meio ambiente. Devido a isso, falou-se em sala de aula sobre a “Legislação Ambiental Brasileira”, iniciando-se com um breve histórico do surgimento das leis ambientais no país. Posteriormente, a turma foi dividida em 3 equipes (Empresários, Comunidades Atingidas e Secretaria de Meio Ambiente) para realização de uma “Audiência Pública Simulada”. A equipe dos empresários deveria criar um projeto de construção de um Shopping Center na área Itaqui-Bacanga; o grupo das comunidades atingidas pelo projeto teria a oportunidade de protestar, levantando argumentos contra a construção do Shopping; e a equipe da Secretaria de Meio Ambiente deveria estar respaldada em leis e em estudos ambientais para dar o veredicto final. As equipes elaboraram alguns cartazes para essa atividade.

Os “empresários” tentavam convencer o público com seus argumentos de melhoria da qualidade de vida da população:

 

Nosso Shopping Bacanga proporcionará um futuro melhor para a comunidade do Itaqui-Bacanga, pois garantirá grande número de empregos. A população terá acesso fácil e rápido a lazer e entretenimento para toda a família. Ofereceremos restaurantes, cinemas, parque, dentre outros benefícios. A área que vocês moram se tornará valorizada.

 

Por outro lado, a “comunidade atingida” rebatia com argumentos que demonstravam um declínio da qualidade socioambiental caso houvesse a construção do empreendimento, principalmente por causa da destruição das áreas de manguezal do local, causando dentre outras coisas, diminuição da produtividade pesqueira. Um dos relatos merece destaque:

 

A gente só sabe pescar, como vai ficar nossa situação se o manguezal, que é área de criação dos nossos peixes, vai ser destruído? O restaurante que vende frutos do mar depende de nós, pescadores. Mas se o manguezal for aterrado, como vamos pescar?... A gente vive aqui desde criança, e agora vai ter que deixar esse local.  Nossos pais estão enterrados aqui, numa das áreas que vai ser aterrada. Isso não é justo!... Ouvi dizer que vai ter parque nesse shopping, áreas de lazer. Mas já estou acostumada com essas promessas, e sei que tudo é só para os ricos. A gente não tem dinheiro para pagar entrada de cinema. Para os nossos filhos não vai restar nada, nem o rio que é o lazer natural deles. Não queremos shopping nenhum aqui!

 

Mesmo com argumentos de capacitação profissional para a comunidade atingida, os empresários não conseguiram convencer os representantes da “Secretaria de Meio Ambiente”, que se pronunciaram respaldados em leis, relatando um parecer no qual se posicionaram contra a construção do empreendimento.

Atividades de discussão são sempre muito importantes para a formação do aluno, pois se deve levar em consideração que a escola não serve apenas para prepará-lo para o mercado de trabalho, como também para formar o aluno-cidadão, pronto a interferir como agente de mudança no meio em que vive. É importante dizer que atividades como a acima descrita constituem situações problemáticas, as quais estimulam o raciocínio dos educandos.

Cabe citar também que o uso de materiais ilustrativos permitiu aumentar o interesse dos alunos pela ação educativa, revelando a contribuição dessa estratégia para o processo de ensino. TRAJBER & COSTA (2001) consideram de fundamental importância que o educador utilize todos os materiais didáticos para trabalhar além dos conteúdos, competências para a formação do espírito crítico e do desenvolvimento do pensamento hipotético e dedutivo.

Para falar sobre a “Utilização Sustentável do Manguezal”, foram mostrados alguns trabalhos no Brasil que fazem uso desse ecossistema sustentavelmente. Em seguida, a turma foi dividida em três equipes para elaboração de um projeto sustentável hipotético para uma área de manguezal. Essa atividade gerou uma discussão sobre qual projeto proposto seria mais viável para esse ecossistema em termos socioeconômicos e ambientais.

Os alunos revelaram muita criatividade durante a elaboração dos projetos. Um dos que se destacou foi o “Turismo Sustentável no Manguezal”, o qual tinha o objetivo de mostrar aos turistas a importância dos manguezais na cidade de São Luís. As atividades envolveriam palestras e saídas para conhecimento do ecossistema, promovendo conscientização ambiental e lazer.

A atividade final foi uma aula de campo, para vivenciar o ecossistema manguezal do entorno do estaleiro escola. A turma foi dividida em equipes, para maior dinamicidade durante o trabalho. Posteriormente, elas saíram ao redor do estaleiro para observar o manguezal. Os alunos fizeram um estudo de caso na área, relacionando o que estava sendo visto com o que haviam aprendido em sala de aula, com ênfase nos seguintes pontos:

1.  Elementos da flora observados.

2.  Elementos da fauna observados.

3.  Tipo de solo em que a vegetação está crescendo.

4.  Impactos ambientais verificados no ecossistema local.

5.  Responsáveis pelos impactos.

6.  Elaboração de uma proposta para que o manguezal observado seja um ecossistema sustentável, levando-se em consideração os fatores sociais, econômicos e ambientais.

7.  Elaboração de um desenho esquemático do ambiente observado.

Posteriormente, as equipes voltaram para a sala de aula, onde trabalharam em grupos para elaboração dos relatórios da aula prática. Os desenhos esquemáticos do manguezal observado pelos grupos foram muito bem confeccionados. A turma se animou bastante por entender melhor a dinâmica do manguezal, fazendo diversas perguntas sobre o ecossistema, fauna e flora.

Nota-se que quando o aluno visualiza na prática o que é visto na teoria, a aprendizagem se torna muito mais significativa. Isso foi observado nos relatórios das aulas de campo, os quais descreveram muito bem o que foi visto no manguezal em estudo.

Segundo FARRAPEIRA & PINTO (2005), a exploração de um ambiente natural é um importante recurso didático para várias disciplinas e se adéqua a vários níveis de escolaridade, constituindo-se uma oportunidade para desenvolver vínculos afetivos dos alunos com o ecossistema e os seres vivos, através da observação e do reconhecimento das espécies, de seus hábitos e suas relações ecológicas. Para DIAS (2004), esta atividade pode ser utilizada também na educação ambiental, pois provê meios de percepção de fatores que interagem no tempo e no espaço, para modelar o meio ambiente. É importante, portanto, relacionar a teoria com a prática.

Com relação aos questionários aplicados aos alunos para avaliação do conhecimento adquirido pelos mesmos ao longo das aulas, o resultado foi satisfatório. Observa-se que antes do início da disciplina, metade dos alunos (50%) respondeu à primeira pergunta (qual a importância do ecossistema manguezal) de forma errada, enquanto ao fim da mesma, apenas 6% responderam errado. Além disso, 78% responderam corretamente à pergunta na última avaliação, enquanto na primeira, apenas 10% haviam acertado.

      Com relação à segunda pergunta (quais os principais impactos ocorrentes no manguezal de São Luís), antes das aulas, 22% dos alunos responderam-na de forma correta, e 25% responderam de forma completamente errada. Após a ministração das aulas, o percentual de acertos aumentou consideravelmente, chegando a 80%, enquanto os erros diminuíram, alcançando apenas 4%.

      Levando-se em consideração a área carente da cidade de São Luís em que as ações educativas se realizaram, pode-se dizer que a aprendizagem foi bastante significativa, pois muitos alunos tinham dificuldade em se fazerem presentes em todas as aulas, devido à necessidade de trabalho, dentre outros problemas. Apesar disso, a maioria deles adquiriu grandes conhecimentos a respeito do manguezal.

 

CONCLUSÕES

 

Os alunos se mostraram muito participativos ao longo da disciplina Ecossistema Manguezal, entendendo assim, a importância desse ambiente para si e para sua comunidade, sendo incentivados continuamente a interferirem no meio em que vivem para a preservação do mesmo.

Todas as ações realizadas tinham o propósito não somente de divulgar as características do ecossistema, mas principalmente de levar o público ao entendimento da sua importância ecológica, social e econômica. As atividades permitiram um estímulo à participação, levando à ampliação do olhar crítico dos educandos.       Pôde-se perceber que a turma, como um todo, tomou uma postura diferente diante das problemáticas relacionadas ao manguezal, pois com o passar das aulas, continuamente chegavam com questionamentos a respeito desse ecossistema.

Pelo fato de a maioria dos estudantes morarem próximo ao ambiente em questão, seu conhecimento prévio sobre o mesmo demonstrava basicamente entendimento sobre a utilização de seus recursos. A ação educacional interativa, ao utilizar recursos visuais múltiplos sobre o manguezal e verificar o conhecimento anterior dos estudantes, demonstrou, de um modo geral, eficiência na abordagem dos conceitos bioecológicos desse ecossistema.

Durante a visita ao ambiente natural, os alunos puderam colocar em prática os conhecimentos adquiridos e se familiarizar mais com o ecossistema, tornando-se mais conscientes sobre a problemática ambiental. Eles, desta forma, adquiriram um novo olhar sobre o manguezal, mudando seu comportamento perante a sociedade e se tornando multiplicadores do conhecimento adquirido.

Dessa forma, espera-se que os alunos continuem a agir em suas comunidades como multiplicadores da educação ambiental, em especial com relação a um ecossistema tão dinâmico e cheio de vida como o manguezal.

 

AGRADECIMENTOS

     

À Secretaria de Estado da Ciência e Tecnologia e à Universidade Virtual do Maranhão, pelo financiamento do projeto, e ao Centro Vocacional Tecnológico Estaleiro Escola do Maranhão, pela infra-estrutura e apoio concedido.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

ALARCON, G. G.; PANITZ, C. M. N. Estudo comparativo da percepção ambiental de dois manguezais submetidos a diferentes condições ambientais e de ocupação urbana. In: SIMPÓSIO BRASILEIRO DE ETNOBIOLOGIA E ETNOECOLOGIA, II. 1998, São Carlos. Resumos... São Carlos: Universidade Federal de São Carlos, 1998, p. 13.

 

BENFIELD, S. L.; GUZMAN, H. M.; MAIR, J. M. Temporal mangrove dynamics in relation to coastal development in Pacific Panama. Journal of Environmental Management. [S.l], v. 76, n. 3, p. 263-276, 2005.

 

CANDIANI, G. et al. Educação ambiental: Percepção e práticas sobre meio ambiente de estudantes do ensino fundamental e médio. Revista Eletrônica do Mestrado de Educação Ambiental. Rio Grande do Sul, v. 12, p. 75-88, jan./jun. 2004. Disponível em . Acesso em: 21 ago. 2009.

 

DIAS, G. F. Fundamentos de educação ambiental. Brasília: Universa, 2004.

 

FARRAPEIRA, C. M. R.; PINTO, S. L. Práticas e metodologias do ensino de Zoologia. Recife: Universidade Federal Rural de Pernambuco, 2005.

 

GOLVEIA, V.; VALADARES, J.  A aprendizagem em ambientes construtivistas: uma pesquisa relacionada com o tema ácido – base. Investigações em Ensino de Ciências, Porto Alegre, v. 9, n. 2, p. 199-220, ago. 2004. Disponível em . Acesso em: 23 ago. 2009.

 

KRUG, L. A.; LEÃO, C.; AMARAL, S. Dinâmica espaço-temporal de manguezais no Complexo Estuarino de Paranaguá e relação entre decréscimo de áreas de manguezal e dados sócio-econômicos da região urbana do município de Paranaguá – Paraná. In: SIMPÓSIO BRASILEIRO DE SENSORIAMENTO REMOTO, XIII. 2007, Florianópolis. Anais... Florianópolis: INPE, 2007, p. 2753-2760.

 

LUDKA, M. et al. Dominó ecológico: uma nova ferramenta lúdica para o ensino de ecologia. In: CONGRESSO DE ECOLOGIA DO BRASIL, VI. 2003, Fortaleza. Anais... Fortaleza: Universidade Federal do Ceará, 2003, p. 599-600.

 

MOCHEL, F. R.; MEDEIROS, T. C. C. Cartilha do Mangue. São Luís: EDUFMA, 1998.

 

PILON, A. F. Relações humanas com base em dinâmica de grupo em uma instituição de prestação de serviços. Rev. Saúde Pública, São Paulo, v. 21, n. 4, p. 348-352, ago. 1987.

 

REBÊLO-MOCHEL, F. Manguezais do Maranhão: proteção e desenvolvimento. Manguezais frontais da costa do Pará-Maranhão: razões da proteção integrada. In: REUNIÃO DA SOCIEDADE BRASILEIRA PARA O PROGRESSO DA CIÊNCIA, 47.  1995, São Luís. Anais... São Luís: EDUFMA, 1995, p. 15-16.

 

SCHAEFFER-NOVELLI, Y. Perfil dos ecossistemas litorâneos brasileiros, com especial ênfase sobre o ecossistema manguezal. São Paulo: Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo, 1989.

 

TRAJBER, R.; COSTA, L. B. Avaliando a educação ambiental no Brasil: Materiais áudio-visuais. Petrópolis: Instituto Ecoar para a Cidadania, 2001.

 

VANNUCCI, M. Os manguezais e nós: Uma síntese de percepções. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo. 2002.

 

 

 

 



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