ISSN 1678-0701
Número 35, Ano IX.
Março-Maio/2011.
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10/03/2011ORIENTAÇÕES DE FORMAÇÃO EM ATIVIDADES DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL DESENVOLVIDAS NO PARQUE MUNICIPAL VILA DOS REMÉDIOS DA CIDADE DE SÃO PAULO  
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ORIENTAÇÕES DE FORMAÇÃO EM ATIVIDADES DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL DESENVOLVIDAS NO PARQUE MUNICIPAL VILA DOS REMÉDIOS DA CIDADE DE SÃO PAULO

ORIENTAÇÕES DE FORMAÇÃO EM ATIVIDADES DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL DESENVOLVIDAS NO PARQUE MUNICIPAL VILA DOS REMÉDIOS DA CIDADE DE SÃO PAULO

 

Mauricio dos Santos Matos

Docente do Departamento de Psicologia e Educação da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto - Universidade de São Paulo. Contato: Av. Bandeirantes, 3900. Monte Alegre, Campus USP, DPE/FFCLRP, Ribeirão Preto – SP. E-mail: maumatos@ffclrp.usp.br. Tel: (16) 3602-3848.

 

Tathiana Popak Maria

Gestora do Parque Municipal Vila dos Remédios e doutoranda do Programa de Pós-Graduação Interunidades em Ensino de Ciências da Universidade de São Paulo. E-mail: popak@usp.br.

 

Myrna Elisa Chagas Coelho-Matos

Psicóloga do Instituto de Análise do Comportamento em Estudos e Psicoterapia – IACEP e líder do Grupo de Pesquisa em Psicologia Comportamental e Educação Ambiental da USP. Contato: Rua Dr. Eneas de Carvalho Aguiar, 104, Jardim América, Ribeirão Preto – SP. E-mail: myrna@iacep.com.br

 

Resumo

Nesta pesquisa, foram analisadas as atividades de Educação Ambiental realizadas no Parque Municipal Vila dos Remédios, localizado na cidade de São Paulo – SP, buscando-se reconhecer as orientações de formação expressas nessas atividades. A pesquisa foi desenvolvida por meio de uma abordagem qualitativa, utilizando-se registros em vídeo e caderno de campo para a coleta das falas entre a monitora do parque e uma turma de dezessete escoteiros, com idades entre nove e dez anos, que participaram das atividades. Todas as falas foram transcritas e analisadas por meio da metodologia de análise de conteúdo, priorizando-se as unidades de contexto para a identificação das orientações de formação, assumindo correspondências com categorias já consolidadas na literatura. Como resultado, foi identificada a predominância da orientação acadêmica com abordagem enciclopédica, como resultado da presença marcante de um viés científico e informativo nas atividades desenvolvidas durante a trilha monitorada. A pouca diversidade de orientações de formação e a ausência de uma orientação social-reconstrucionista creditam às atividades de Educação Ambiental analisadas um baixo potencial para uma Formação Ambiental que resulte na transformação dos sujeitos envolvidos.

 

 

Introdução

 

       O termo “formação” é muito utilizado pela área educacional, principalmente em estudos sobre formação inicial e continuada de professores em contextos escolares. No entanto, a escola não pode ser considerada como o único ambiente formativo, responsável pela formação do cidadão. Espaços não-formais de ensino, como parques, museus, entre outros, também possuem um papel fundamental nesta formação, apresentando potenciais formativos que se diferem daqueles presentes em ambientes escolares.

       A riqueza e a diversidade natural, presentes nos parques, os credenciam como espaços legítimos para discussões sobre o universo natural e para o contato direto das pessoas com a fauna e a flora, como também para o desenvolvimento de “atividades de Educação Ambiental”. No entanto, há uma extensa literatura que mostra que a Formação Ambiental do ser humano não pode estar apenas restrita a compreensões do universo biótico e abiótico e, sim, incorporar outros aspectos valorativos que conduzam a uma Formação Ambiental crítica, emancipatória e reflexiva (MATOS & COELHO-MATOS, 2010). Nesse sentido, é de fundamental importância compreender a natureza das atividades desenvolvidas em parques e sua efetiva contribuição para a Formação Ambiental dos visitantes, de forma a possibilitar uma maior compreensão sobre o tipo de Educação Ambiental que é preconizada nesses espaços.

       Nessa perspectiva, esta pesquisa buscou focalizar seus estudos nos aspectos relativos às orientações de formação, elegendo a seguinte questão de pesquisa: Quais orientações de formação estão presentes nas atividades de Educação Ambiental desenvolvidas durante uma trilha monitorada no Parque Municipal Vila dos Remédios?

       A partir dessa questão de pesquisa, este trabalho buscou, como objetivo principal, identificar as orientações de formação expressas nas atividades de Educação Ambiental desenvolvidas durante uma trilha monitorada. A identificação dessas orientações justifica-se por possibilitar, a partir delas, reconhecer o tipo de formação que tem sido priorizada em atividades rotuladas de “atividades de Educação Ambiental”.

       Da mesma forma que, no Brasil, a área educacional utiliza a expressão “formação de professores”, ao invés do uso da expressão “educação de professores” (teacher education), utilizada em outros países, optamos pelo uso da expressão “Formação Ambiental” em substituição da expressão “Educação Ambiental”, driblando os múltiplos significados e classificações associadas a essa expressão (SORRENTINO, 1998; TOZONI-REIS, 2007; LAYRARGUES, 2004, SAUVÉ, 2005) e que refletem a heterogeneidade de visões e disputas entre os diferentes sujeitos que compõem uma área ou um campo ainda em formação.

 

 

Metodologia

 

O pesquisador enquanto gestor do parque

 

            Um aspecto relevante a ser considerado nesta pesquisa é o envolvimento diferenciado do pesquisador com o contexto investigado, tendo em vista que o pesquisador também é o gestor do parque, o que proporciona uma melhor interação com o contexto investigado, bem como uma relação mais próxima com as atividades e sujeitos envolvidos na pesquisa. Essa grande aproximação com o contexto analisado e o conhecimento da dinâmica das atividades foram fatores potencializadores para uma compreensão mais aprofundada de alguns aspectos relativos às atividades de Educação Ambiental desenvolvidas durante a trilha monitorada. No entanto, devido a essa grande proximidade do gestor com o objeto de estudo, a coleta e a análise de dados foi realizada buscando-se um posicionamento do gestor enquanto pesquisador, de forma a propiciar um maior distanciamento e imparcialidade na análise dos dados, mesmo assumindo que os valores do pesquisador e do gestor estão fundidos e fazem parte do processo de produção do conhecimento e reflexão sobre este.

 

 

O Parque Vila dos Remédios

 

Situado na cidade de São Paulo, à Rua Carlos Alberto Vanzolini, 413, coordenadas geográficas 23°30’51”S, 46°45’01”W, o parque (Figura 1) possui, como área total, 109.800 m², dentre os quais, aproximadamente 70.000 m² são constituídos por bosques de Mata Atlântica, classificados pelo Atlas Ambiental do Município do São Paulo (SEPE & TAKIYA, 2004) como “Floresta Ombrófila Densa”. O primeiro bosque, intitulado “Bosque das Trilhas”, é o de maior extensão e possui quatro trilhas abertas utilizadas para passeio e para atividades de Educação Ambiental em trilha monitorada.

 

Figura 1 - Foto aérea do Parque Municipal Vila dos Remédios.

 

As quatro trilhas (Trilha das Corujas, Trilha da Juruviara, Trilha do Pica-pau e Trilha do Pitiguari) são identificas por placas e nomeadas de acordo com o nome das aves que são visualizadas no local. No segundo bosque, intitulado “Bosque da Nascente”, não há trilhas devido à presença de uma nascente d’água que, juntamente com diversos afloramentos d’água, abastecem três lagos (Lago da Nascente, Lago da Garça e Lago dos Cisnes) de grande importância ecológica para o município de São Paulo, por se constituírem como locais de alimentação para diversas aves aquáticas. O local representa, ainda, um complexo ecossistema constituído por diversas espécies de fauna e flora em interação. Já no terceiro bosque, intitulado “Bosque da Igrejinha”, há apenas uma trilha, enquanto que no quarto bosque (Bosque do Córrego) há um pequeno córrego que interliga dois lagos (Lago da Garça e Lago dos Cisnes), constituindo-se, também, como uma área de preservação, ausente de trilhas. Além dos bosques de Mata Atlântica, o parque possui outras áreas, denominadas de “Áreas de Lazer”, e que são caracterizadas pelo dossel fechado. Nessas áreas, ao invés da vegetação, há equipamentos destinados ao lazer da população, um pequeno viveiro para produção de mudas para uso no próprio parque e uma infraestrutura básica, composta por sanitários, bebedouros e bancos para descanso. A localização das áreas de lazer, bosques, trilhas e lagos é apresentada na figura 2.

 

Configuração das Trilhas Monitoradas

 

            A trilha percorre um caminho em torno de mil metros, com duração média de uma hora e trinta minutos e com quatorze paradas pré-estabelecidas para o desenvolvimento das atividades do roteiro que, neste trabalho, chamaremos de momentos. Assim, a trilha envolve quatorze momentos de atividades pré-estabelecidas. O local de realização e a descrição de cada um dos momentos é apresentado na figura 3 e no quadro 1, respectivamente.

 

Procedimento de coleta de dados

 

            Para a presente pesquisa, foram acompanhadas as atividades de Educação Ambiental desenvolvidas em cada um dos momentos da trilha monitorada, envolvendo um grupo de visitantes formado por dezessete escoteiros, com idades na faixa de nove a dez anos de idade. Todas as atividades foram filmadas, utilizando-se duas câmeras digitais, concomitantemente, de forma a se assegurar da efetiva coleta dos dados. Como o foco principal da pesquisa era a atividade desenvolvida, todas as filmagens focalizaram apenas a monitora, preservando os visitantes, já que estes, por serem crianças, só poderiam ser filmados com autorização dos pais, o que não foi possível providenciar. Assim, para uma descrição das atividades desenvolvidas, também foi necessário o registro em cadernos de campo, de forma a compor, com as imagens de condução da atividade pela monitora, um quadro mais detalhado dos acontecimentos. As filmagens foram realizadas por dois estagiários, de forma a possibilitar que a pesquisadora acompanhasse a atividade de trilha monitorada com liberdade para anotar, em seu caderno de campo, informações e reflexões que considerasse relevante. Todas as falas, registradas durante as filmagens, foram transcritas e analisadas mediante o uso da metodologia de Análise do Conteúdo.

 

Figura 2 – Esquematização de zoneamento e localização de equipamentos, áreas de lazer, bosques, trilhas e lagos no Parque Municipal Vila dos Remédios.

 


Momentos da trilha monitorada

Objetivo das atividades

Descrição das atividades

1º Momento

Histórico do Parque

Apresentar o parque aos visitantes

A monitora narra o histórico do parque, informando tratar-se de um remanescente de Mata Atlântica que deve ser preservado, visando à conservação da biodiversidade.

2º Momento

Orientações para Andar nas Trilhas

Instruir os visitantes sobre as regras de comportamento durante a trilha monitorada

A monitora orienta sobre os comportamentos adequados que o grupo deve possuir durante a caminhada pelo interior da mata, tais como: não sair das trilhas, não jogar lixo no chão e fazer silêncio.

3º Momento

Alimentação do Pica-pau

Possibilitar aos visitantes a compreensão sobre o comportamento alimentar do pica-pau

A monitora explica o comportamento alimentar do pica-pau de bicar o tronco da árvore para procurar uma região oca que possa conter insetos como cupins e formigas.

4º Momento

Fungos

Possibilitar aos visitantes a compreensão sobre o processo de decomposição da madeira e o ciclo de nutrientes

A monitora aponta para os fungos “orelha-de-pau” e explica sobre o processo de decomposição da madeira, a importância dos fungos para este processo e o ciclo de nutrientes.

5º Momento

Liquens:

Possibilitar aos visitantes a compreensão sobre as relações de mutualismo e o papel dos liquens como bioindicadores

A monitora explica a associação entre as algas e os fungos, na qual a alga fornece água e o fungo fornece nutrientes, formando, assim, uma relação de mutualismo, na qual as duas espécies se beneficiam. A monitora também ressalta que os liquens são bioindicadores da qualidade do ar e dificilmente são encontrados em locais de grande poluição atmosférica.

6º Momento

Tatu

Possibilitar aos visitantes a compreensão sobre o impacto de um animal exótico num ecossistema e o problema do tráfico de animais silvestres

A monitora aponta para um buraco no solo feito por um tatu trazido por um dos funcionários do parque. Após contar este fato, a monitora fala sobre os problemas que podem ser gerados por um animal exótico num ecossistema e fala sobre o crime de tráfico de animais silvestres.

7º Momento

Interior da Mata (Clima)

Possibilitar aos visitantes a percepção das diferenças no clima quando se está dentro da mata e quando se está na cidade, bem como a compreensão sobre as razões destas diferenças

A monitora solicita aos visitantes que agucem suas percepções sobre o ambiente e percebam se há alguma diferença entre o ponto do parque em que se encontram e outros ambientes urbanos. As diferenças, comumente notadas, referem-se ao clima, devido ao efeito térmico da presença da vegetação. Assim, a monitora explica o processo de fotossíntese e transpiração das plantas e, também, o sombreamento da copa das árvores e sua influência sobre o clima local.

8º Momento

Interior da Mata (Cadeia Alimentar)

Possibilitar aos visitantes a compreensão sobre a importância da cadeia alimentar e o impacto do desaparecimento de uma espécie na sobrevivência de todas as outras.

A monitora apresenta um esquema de uma cadeia alimentar com três seres vivos, buscando exemplificar a função de cada organismo em um ambiente em interação, ou seja, ele se alimenta de um organismo e serve de alimento a outro. Em seguida, a monitora retira uma das espécies da cadeia alimentar, propondo a sua extinção, e questiona os visitantes sobre o seu efeito em relação às demais espécies e da importância de todos os seres vivos para a manutenção do equilíbrio de um ecossistema.

9º Momento

Composteira

Possibilitar aos visitantes a compreensão sobre a importância da compostagem e da redução da quantidade de material orgânico enviado aos aterros sanitários

A monitora retoma o assunto do ciclo de nutrientes e do processo de decomposição, explicando o destino dos resíduos florestais do parque.  Também explica como montar e manter uma pequena composteira doméstica para a produção em pequena escala de adubo orgânico a ser utilizado em vasos e jardins e, também, para reduzir a quantidade de material orgânico enviado aos aterros sanitários.

10º Momento

Lago (Ciclo da Água)

Possibilitar aos visitantes a compreensão sobre o ciclo da água e a importância das nascentes

A monitora aponta para um dos afloramentos d’água que abastecem o lago, explicando o ciclo da água.

11º Momento

Impermeabilização/Enchentes

Possibilitar aos visitantes a compreensão sobre a importância das áreas verdes na absorção da água pluvial

A monitora explica sobre a importância das áreas verdes em relação à absorção da água pluvial e da problemática das enchentes nas cidades.

12º Momento

Metamorfose

Possibilitar aos visitantes a compreensão sobre o processo de metamorfose

A monitora mostra os girinos na água, explicando sobre os anfíbios e seu processo de metamorfose.

13º Momento

Lago Limpo

Possibilitar aos visitantes a compreensão sobre o efeito da poluição no equilíbrio do ecossistema

A monitora supõe poluir o lago, dizendo que vai despejar um esgoto no local. Nesse contexto, discorre sobre as consequências desse ato, tais como: o desequilíbrio provocado numa cadeia alimentar; a mortalidade de peixes que servem de alimento às aves; a mortalidade dos girinos e a consequente diminuição de anfíbios e aumento de insetos.

14º Momento

Reflorestamento/ Finalização da Trilha

Finalizar a trilha e propor aos visitantes que façam o plantio de sementes para produção de mudas

A monitora pergunta se ficou alguma dúvida sobre os assuntos tratados na atividade e afirma que a manutenção de áreas verdes é muito importante para a qualidade de vida humana devido aos aspectos explicados durante a trilha. A monitora também explica sobre os processos de dispersão de sementes e sugere aos visitantes o plantio de sementes para produção de mudas para reflorestamento.

     

 Quadro 1 – Descrição de cada um dos momentos da trilha monitorada.


 

 

 

Figura 3 – Mapa do parque municipal Vila dos Remédios com a localização aproximada de cada um dos momentos da trilha monitorada. O percurso em amarelo ilustra o caminho percorrido pela trilha.

Procedimento de análise de dados

 

            A pesquisa apropria-se da metodologia de análise de conteúdo que, segundo Bardin (2004), caracteriza-se como um conjunto de técnicas de análise das comunicações, que utiliza procedimentos sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo das mensagens. A opção pelo uso da análise de conteúdo nessa pesquisa é possibilitar a inferência de conhecimentos relativos às condições de produção. Segundo Lüdke e André (1986) as inferências são necessárias porque as mensagens transmitem experiência vicária, fazendo com que o pesquisador faça inferências dos dados para o seu contexto, já que no processo de decodificação das mensagens, o receptor utiliza não só o conhecimento formal, lógico, mas também um conhecimento experiencial, percepções, impressões e intuições. No caso dessa pesquisa, este aspecto mostra-se ainda mais relevante devido à pesquisadora também ser a gestora do Parque e pelo fato da análise das falas serem cruzadas com percepções e impressões registradas no caderno de campo pela gestora/pesquisadora. Outro cuidado que foi estabelecido na interpretação das falas transcritas foi apresentar os vídeos gravados da trilha para a monitora responsável, a fim de se esclarecer algumas dúvidas acerca da interpretação das falas sob análise.         Baseando-se nesses referenciais, as falas transcritas foram analisadas a partir da seleção de unidades de registro, caracterizadas por trechos que, pelo contexto, puderam expressar orientações de formação. A identificação desses trechos foi realizada com base na interação pesquisador-objeto de pesquisa a partir de leituras e análises exploratórias do conjunto total das transcrições analisadas. Além das unidades de registro, todas as informações foram tomadas no seu conjunto, caracterizando-se unidades de contexto, devido à dificuldade de associar as orientações de formação a termos específicos, presentes no registro das falas. Após a organização dos dados, que envolveu leitura e releitura dos materiais analisados, foram construídas categorias de análise que, segundo Bardin (2004), possuem o objetivo de classificar os elementos que constituem o conjunto, por diferenciação e, seguidamente, por reagrupamento, assumindo critérios previamente definidos. Como base para o agrupamento da informação em categorias, foram considerados os aspectos que aparecerem com certa regularidade, expressando orientações de formação que foram, posteriormente, associadas a categorias preexistentes, organizadas por García (1999).

 

 

Resultados e Discussão

 

Em relação às orientações de formação, foi identificada a predominância da orientação acadêmica com abordagem enciclopédica (Quadro 2) que, conforme Grossman (1990), enfatiza a importância do conhecimento do conteúdo e inclui os modelos conceituais de explicação ou paradigmas que se utilizam tanto para orientar a pesquisa numa disciplina como para dar sentido aos dados ou o conhecimento sintático que é o meio pelo qual se introduz um novo conhecimento, esperando-se o aceite da comunidade. Percebe-se que essa abordagem enciclopédica está associada à presença de um viés científico e informativo nas atividades desenvolvidas durante a trilha monitorada. Esse viés científico reflete os objetivos das atividades (quadro 1), priorizando a informação do conhecimento científico e apropriando-se do ambiente como um sistema a ser compreendido, conforme as categorias de ambiente propostas por Sauvé (2005).

 

 

 

Momentos da Trilha

Orientações de Formação*

AC

TC

PE

PR

SR

EC

CP

T

RF

Histórico do parque

X

 

 

 

 

 

 

Orientações para andar nas trilhas

 

 

 

 

 

 

 

Alimentação do pica-pau

X

 

 

 

 

 

 

Fungos

X

 

 

 

 

 

 

Liquens

X

 

 

 

 

 

 

Tatu

X

 

 

 

 

 

 

Interior da mata: Clima

X

 

 

 

 

 

 

Interior da Mata- Cadeia Alimentar

X

 

 

 

 

 

 

Composteira

X

 

 

 

 

 

 

Lagos (ciclo da água)

X

 

 

 

 

 

 

Impermeabilização: Enchente

X

 

 

 

 

 

 

Metamorfose

X

 

 

 

 

 

 

Lago Limpo

X

 

 

 

 

 

 

Reflorestamento/ Finalização da Trilha

X

 

 X

 

 

 

 

Obs. X representa a presença da concepção. *Siglas utilizadas para cada uma das orientações de formação: AC: acadêmica, EC: abordagem enciclopédica, CP: abordagem compreensiva, TC: tecnológica, PE: personalista, PR: prática, T: abordagem tradicional, RF: abordagem reflexiva, SR: social-reconstrucionista.

Quadro 2 – Orientações de formação identificadas nas atividades de Educação Ambiental em cada um dos momentos da trilha monitorada desenvolvidas com o grupo de escoteiros.

 

Como exemplo dessa orientação acadêmica com abordagem enciclopédica, podemos citar o diálogo entre a monitora e os escoteiros durante o Momento “Histórico do Parque”. Neste momento, a monitora explica o modelo conceitual dos anéis de crescimento dos troncos das árvores, conforme descrito do trecho abaixo:

 

 

Monitora: (...) a árvore cresce um tanto por ano. Ela cresce tanto pra cima como pros lados. Ela vai engrossando o tronco e se você cortar a árvore assim, na horizontal, você vai ver que no tronco tem vários anéis, tem vários círculos, um mais claro, outro mais escuro. Estes círculos marcam a idade da árvore (...)

Escoteiro: Cada anel é um ano que a árvore tem?

Monitora: Depende. Cada espécie cresce de um jeito. Então, pra saber a idade dela, tem que verificar qual é a espécie. Aí você procura nos livros e vê como que aquela espécie cresce. Ás vezes, faz um anel por ano, ou um anel por estação do ano, tipo um anel na primavera, um no outono, outro no inverno.

 

 

Essa mesma orientação acadêmica, com abordagem enciclopédica, foi observada em todos os momentos da trilha. No entanto, na finalização da trilha (momento Reflorestamento), observou-se também uma orientação tecnológica de formação, de acordo com a análise do trecho a seguir:

 

 

Monitora: (...) como que a semente de uma árvore que tem aqui em cima [parte de cima do parque] brota lá embaixo?

Escoteiros: os bichos levam.

Monitora: Além dos bichos? Quem mais leva a semente de um lugar pro outro? (...) a semente pode ser levada pelo vento, pela água (...) lá no pátio de vocês, no pátio da escola tem bastante árvore igual tem aqui?

Escoteiros: Não...

Monitora: Ia ser gostoso se tivesse bastante arvore lá?

Escoteiros: Ia...

Monitora: Por quê?

Escoteiro: O ar ia ficar mais limpo.

Escoteiro: Ia fazer sombra.

Monitora: E o que vocês acham da gente brincar de passarinho? Como um passarinho pegou a semente daqui e levou lá pra baixo, vocês também vão pegar uma semente daqui, plantar, a gente faz uma mudinha e leva lá pra escola pra plantar. Vocês acham legal?

Escoteiros: Sim...

Monitora: Vocês querem fazer isso?

Escoteiros: Queremos...

Monitora: Então, a gente vai plantar na caixinha. Vai virar uma árvore, uma árvore pequenininha, primeiro. Aí a gente leva ela lá na escola pra ela ficar grandona, igual a essas, e deixar o clima mais gostoso pra vocês lá, mais fresquinho, mais úmido (...)

 

 

O trecho acima mostra uma prática de plantio que, na nossa análise, não caracteriza uma orientação prática, pois não há uma valorização da prática para a Formação Ambiental e nem tampouco a presença de uma prática reflexiva. A atividade foi conduzida dentro de uma perspectiva técnica do plantio, priorizando-se como fazer e como reproduzir. Essas características são típicas de uma orientação tecnológica da Formação Ambiental, contemplando atividades no formato de treinamento, no qual é enfatizada a aprendizagem de receitas, técnicas e práticas relacionadas à Educação Ambiental a serem reproduzidas e seguidas pelos estudantes, de forma a resultarem em atitudes ambientais “adequadas”.

Essa orientação tecnológica observada na finalização da trilha monitorada ilustra bem a superficialidade ambiental das atividades desenvolvidas. O plantio de árvores pode ser compreendido como um “chavão” de uma Formação Ambiental, expressando uma aparente atitude ambiental. No entanto, não podemos falar em atitude quando uma ação é desenvolvida apenas para reproduzir regras ou receitas, não gerando transformação em quem a executa. Nesse ponto, entendemos que as atividades desenvolvidas, não contribuem de forma efetiva para a Formação Ambiental dos visitantes, pois apresentam pouco potencial para operar alguma transformação significativa nos sujeitos envolvidos. Essa relação entre formação e transformação é entendida nessa pesquisa na perspectiva de Carvalho (2008) que explica que existem diferenças entre o que aprendemos e o que nos afeta como seres humanos, pois

 

[...] a aprendizagem indica simplesmente que alguém veio saber algo que não sabia: uma informação, um conceito, uma capacidade. Mas não implica que esse 'algo novo' que se aprendeu nos transformou em um novo 'alguém'. E essa é uma característica forte do conceito de formação: uma aprendizagem só é formativa na medida em que opera transformações na constituição daquele que aprende. É como se o conceito de formação indicasse a forma pela qual nossas aprendizagens e experiências nos constituem como um ser singular no mundo. (CARVALHO, 2008, p.1)

 

            Dois aspectos são importantes de serem destacados: A) a pouca diversidade de orientações de formação e B) a ausência de uma orientação social-reconstrucionista, que concebe a reflexão como um compromisso ético e social, buscando a capacidade de análise do contexto social.  A presença desses dois aspectos credita às atividades de Educação Ambiental analisadas um baixo potencial para uma Formação Ambiental que resulte, de forma efetiva, na transformação dos sujeitos envolvidos.

 

 

Considerações finais

 

            O principal aspecto observado em relação às orientações de formação nas atividades de Educação Ambiental desenvolvidas durante a trilha monitorada é a predominância da orientação acadêmica, principalmente a de abordagem enciclopédica. Além dessa orientação, apenas a orientação tecnológica foi observada e apenas na etapa final da atividade. Numa análise rápida, essa característica peculiar poderia sugerir um comprometimento das atividades de EA em desenvolver pressupostos teóricos e experienciais durante as atividades no interior da mata, com o objetivo de fornecer um suporte para a atividade prática final. No entanto, ao invés de se constituir numa orientação prática, a atividade prática final, por ser uma atividade de reprodução e que segue uma orientação, remete-se a uma orientação tecnológica.

            Essa hegemonia de uma orientação acadêmica já era esperada por ser compatível com uma perspectiva de heteroformação (DEBESSE, 1982) que caracteriza todo o processo educativo e que, neste caso, desconsidera as características dos visitantes. No entanto, conforme aponta García (1999), é desejável que haja uma multiplicidade das orientações num processo formativo e educativo. Todavia, essa multiplicidade não deve ser entendida apenas dentro de um tipo de atividade (trilha monitorada), mas dentro de um conjunto de atividades possíveis de serem desenvolvidas num parque e que poderiam, assim, contemplar a amplitude que se espera para uma Formação Ambiental.

 

 

Referências Bibliográficas

 

BARDIN, L. Análise de conteúdo. Tradução de Luís Antero Reto e Augusto Pinheiro. Lisboa: Edições 70, 2004.

BOGDAN, R. C.; BIKLEN, S. K. Investigação Qualitativa em Educação – uma introdução à teoria e aos métodos. Tradução de Maria João Alvarez. Sara Bahia dos Santos e Telmo Mourinho Baptista. Portugal: Porto Editora, 1994.

CARVALHO, J. S. F. Sobre o conceito de formação. Revista Educação. Ed. 137. Disponível em:. <http://revistaeducacao.uol.com.br/textos.asp?codigo=12511> Acesso em: 21 set. 2008.

DEBESSE, M. Un Problema Clave de la Educacíon Escolar Contemporánea. In: Debesse M. y Mialaret G. (eds). La Formacíon de los Enseñantes. Barcelona: Oikos-Tau, p. 13-34, 1982.

GARCÍA, C. M. Formação de professores para uma mudança educativa. Trad. Narciso, I. Portugal, Porto Editora, 1999.

GROSSMAN, P. (1990). The Making of a Teacher: Teacher Knowledge and Teacher Education. New York: Teachers College Press.

LAYRARGUES, P. P. (Coord.). Identidades da Educação Ambiental Brasileira. Brasília: Ministério do Meio Ambiente, 2004.

LUDKE, M; ANDRÉ, M. Pesquisa em Educação: abordagens qualitativas. São Paulo: EPU,1986.

MATOS, M. S.; COELHO-MATOS, M. E. C. O conceito de formação e a pertinência de cursos de formação continuada: em busca de uma Formação Ambiental crítica, emancipatória e reflexiva. Educação Ambiental em Ação, Brasília, n.33, set/nov. 2010.

SAUVÉ, L. Educação ambiental: possibilidades e limitações. Educ. Pesqui. v.31, n.2, 2005.

SEPE, P. M; TAKIYA, H. Atlas Ambiental do Município de São Paulo: o verde, o território, o ser humano. São Paulo: Secretária de Meio Ambiente, 2004.

 



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