OS OBSTÁCULOS ENCONTRADOS PELOS PROFESSORES EM SE TRABALHAR EDUCAÇÃO AMBIENTAL
EDUCAÇÃO AMBIENTAL
NO ENSINO MÉDIO:
CONHECIMENTOS,
VIVÊNCIAS E OBSTÁCULOS
Fernanda Alves Zuquim
Alysson Rodrigo Fonseca
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RESUMO
A educação ambiental, nas suas
diversas possibilidades, abre um estimulante espaço para repensar as
práticas sociais. Nesse sentido, torna-se fundamental que os
professores possam mediar e transmitir um conhecimento suficiente
para que os alunos tenham a possibilidade de adquirir uma base
adequada de compreensão do meio ambiente global e local. Este
trabalho buscou investigar as concepções didático-pedagógicas,
vivências e obstáculos encontrados por professores do ensino médio
em relação à educação ambiental. Do ponto de vista metodológico,
o estudo realizado insere-se numa perspectiva quali-quantitativa de
investigação. Os elementos essenciais constitutivos desta
investigação, a saber, a prática do professor e seus conhecimentos
e aplicações sobre educação ambiental caracterizaram-se pelas
convergências obtidas a partir de análises feitas sobre os
discursos de professores em uma escola pública e uma particular, no
município de Arcos, Minas Gerais. Os resultados demonstram que, de
um modo geral, os
professores não estão habilitados para trabalhar a educação
ambiental ou ainda não se sentem preparados para desenvolver o tema,
uma vez que a grande maioria deles não possui conhecimento e
preparação específica. Aliado a isso, o estudo identificou que as
dificuldades apresentadas pelos professores para implementação da
educação ambiental nas escolas possivelmente são causa e
conseqüência de bases oriundas de uma educação escolar
tradicional, assim como da falta de interesse por parte dos docentes
em questão.
Palavras-chave:
Educação Escolar. Meio Ambiente. PCN’s. Transdisciplinaridade.
INTRODUÇÃO
O mito do desenvolvimento social,
cultural, econômico, educacional e político através da exploração
da natureza foram fortificados por uma complexa transformação
humana. Essa transformação intensificou as mais diversas formas de
produção e exploração por parte do homem, gerando efeitos, muitas
vezes, irreversíveis à natureza. Tais efeitos atualmente geram
questionamentos quanto ao futuro do planeta e, principalmente, dos
humanos, uma vez que tem se percebido na atualidade grandes
alterações climáticas, sendo a maior parte delas decorrentes do
descaso humano ao ambiente.
Essa problemática nos alerta para os
diversos modos que a sociedade humana tem se relacionado com o meio
construído (humano) e o não-construído (natural). Autores como
Ribeiro (1998); Raynaut; Lana; Zanoni (2000); Medina (2001);
Ruscheinky (2002); Guattari (2006) discutem incessantemente sobre
formas de alterar a consciência da população e assim, modificar o
olhar da cultura capitalista que permanece ativa em toda sociedade.
Uma forma de transformar a realidade
atual é incorporar à educação tradicional sistemas que permitam
trabalhar de forma multidisciplinar o conhecimento. Esse conhecimento
propicia a formação de cidadãos suficientemente informados,
conscientes e preparados para modificar o presente, para que as
questões ambientais possam ser não apenas discutidas, mas para que
se busquem soluções para as mesmas (LUCATTO; TALAMONI, 2007).
Nesse sentido, a educação fornecida
no âmbito escolar apresenta-se como uma possibilidade dos seres
humanos de apropriar-se de conhecimentos produzidos ao longo do
tempo, buscando assim valores que possam contribuir para o
desenvolvimento e melhoria do modo de viver. Dessa forma, é possível
perceber que a educação ambiental surge como obrigação legal,
ética e moral da escola, uma vez que a atualidade pede mudanças
profundas de valores e comportamentos humanos. Nesse contexto, buscar
alternativas de sustentabilidade nas relações entre a humanidade e
a natureza saudável e equilibrada torna-se um desafio diário de
todos os seres humanos interessados no meio ambiente.
Com este intuito, a educação
ambiental assume cada vez mais uma função transformadora, na qual a
co-responsabilização dos indivíduos torna-se um objetivo essencial
para promover um novo modelo de desenvolvimento, chamado por muitos
de desenvolvimento sustentável. Entende-se, portanto, que a educação
ambiental constitui uma das condições necessárias para modificar o
quadro de crescente degradação sócio-ambiental, com ênfase em um
modelo educacional que vise equacionar o relacionamento entre homem e
natureza. Dessa forma, a inserção desse tema na escola representa
uma possibilidade de orientar aos alunos em um caminho que venha a
transformar as diversas formas de participação social em possíveis
fatores de dinamização que permitam melhor interação entre escola
e comunidade.
Assim sendo, a educação ambiental,
nas suas diversas possibilidades, abre um estimulante espaço para
repensar práticas sociais. É papel dos professores mediar e
transmitir um conhecimento suficiente para que os alunos tenham a
possibilidade de adquirir uma base adequada de compreensão do meio
ambiente global e local, impulsionando transformações de um modelo
educacional que assuma um compromisso com a formação de valores
visando a sustentabilidade como parte essencial de um processo
coletivo. Tal percepção possibilitaria uma visão mais ampla da
interdependência dos problemas e soluções relacionados ao meio em
que vivemos, superando o reducionismo e estimulando o pensamento
voltado para um meio ambiente diretamente vinculado ao diálogo entre
saberes.
Entretanto, a implementação da
educação ambiental nas escolas tem se deparado com alguns
obstáculos, como a adequação do currículo na preparação dos
docentes. A práxis pedagógica demonstra que ainda há uma hegemonia
tradicionalista, cujo pragmatismo geralmente não permite uma
contextualização dos temas e conteúdos. De forma semelhante,
geralmente não há incentivo a novas descobertas, transformando a
educação em um mero ato de depositar, no qual os educandos são
depositários e o educador depositante (CORTELLA, 2004). Em adição,
Freire (1987) afirma que essa forma tradicionalista de pensar e
praticar a educação impossibilita a reflexão, geradora de
transformação.
Por conseguinte, há ainda a
necessidade da implantação de metodologias inovadoras e
abrangentes, que possibilitem a inserção da Educação Ambiental de
forma a contemplar o currículo das escolas de forma pedagógica. Tal
assertiva está estabelecida pela Política Nacional de Educação
Ambiental, Lei 9.795/99, em seu artigo 11°, quando afirma que a
dimensão ambiental deve constar nos currículos de formação dos
professores, em todos os níveis e todas as disciplinas (BRASIL,
1999). Dessa forma, além de atender as necessidades de novos
conhecimentos, valores e competências dos educandos, as escolas
devem colocar em foco, no currículo, a dimensão ambiental de forma
articulada e interdisciplinar. Assim, as escolas de formação
inicial devem se adequar ao novo quadro do ensino fundamental, cuja
proposta está pautada nos PCN’s, que objetivam estimular os
indivíduos a enfrentar o mundo atual como cidadãos participativos,
críticos e profundos conhecedores de seus direitos e deveres
(BRASIL, 1997).
Graça; Campos (2009, s/n) vão mais
longe ao afirmar que:
A realidade da educação
em nosso país ainda não é a que sonhamos graves problemas ainda
impedem um bom desempenho escolar e resultados positivos do sistema
de ensino. Esses empecilhos repercutem no próprio desenvolvimento
brasileiro, porém não podemos esquecer que os danos ambientais
aumentam assustadoramente, em conseqüência da ausência de cuidados
e do descaso provenientes da ação humana.
Tendo em vista
esta discussão,
infere-se que os professores devam ser veículos de comunicação e
conhecimento, de forma a conduzir o estudante na conscientização da
importância de pensamento e ação voltados para a sustentabilidade,
implementando, assim, uma integralização dos discentes com o meio
em que vivem. Neste contexto,
este estudo constou de uma investigação sobre os conhecimentos,
vivências e obstáculos encontrados pelos professores sobre o seu
cotidiano escolar, tendo como tema principal a educação ambiental.
METODOLOGIA
A pesquisa foi realizada na cidade de
Arcos, município do estado de Minas Gerais, localizado na região
Centro-Oeste, numa altitude de 740 metros. Dados do IBGE (Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística) apontam que a população
residente no município no ano de 2007 era composta por 34.763
habitantes.
O estudo baseou-se em representações
sociais sobre os
conhecimentos, vivências e obstáculos encontrados pelos professores
do ensino médio em relação à Educação Ambiental, em
duas escolas do município de Arcos - MG, sendo uma pública e outra
particular. Participaram do estudo todos os professores que atuavam
no ensino médio em ambas as escolas, independente da disciplina que
lecionavam.
A escolha dessas escolas deu-se por
serem as maiores escolas do município, o que permitiu um universo de
estudo mais ampliado. Para a realização da pesquisa, foi obtido um
termo de anuência da Secretaria Estadual de Educação e dos
diretores das escolas pesquisadas. Por se tratar de uma pesquisa que
envolve diretamente seres humanos (Resolução 196/96 CNS), o projeto
foi encaminhado para o Comitê de Ética da FUNEDI, obtendo aprovação
em 18/12/2008.
Para o delineamento metodológico
optou-se pela utilização da técnica do Discurso do Sujeito
Coletivo (DSC), segundo metodologia proposta por Lèfreve e Lèfreve
(2005). As informações foram coletadas por meio de entrevistas
individuais e semi-estruturadas. Segundo Gil (1999) a utilização da
entrevista na pesquisa social é importante, pois possibilita a
obtenção de dados referentes aos mais diversos aspectos da vida
social, além de permitir maior flexibilidade, uma vez que o
entrevistador poderá esclarecer qualquer dúvida a fim de que o
entrevistado apresente uma melhor compreensão.
As entrevistas foram realizadas no
período de 15 de junho de 2009 a 10 de julho de 2009, na própria
escola onde os professores trabalhavam, em horários variados,
adequados à disponibilidade dos mesmos, sendo registradas através
de gravação e posteriormente transcritas para análise. As
entrevistas foram realizadas a partir de um roteiro que abrangia um
universo de três perguntas: Qual a sua preparação para trabalhar
educação ambiental? Quais as dificuldades em se trabalhar a
educação ambiental em sala? O que você conhece dos PCN’s sobre
educação ambiental?
A ordem de entrevistas foi realizada
por sorteio, através de duas listas (uma para cada escola) numeradas
com o nome de todos os professores que atuavam no ensino médio,
independente da disciplina que lecionavam.
Análise dos dados quantitativos foi
realizada através de estatística descritiva simples, utilizando-se
de gráficos. Os dados qualitativos foram analisados através da
teoria das representações sociais, utilizando o DSC, conforme
apontado anteriormente. Através dessa análise, buscou-se
estabelecer uma relação entre a parte e a totalidade social,
mediante a investigação de práticas sociais e conhecimentos dos
professores do ensino médio.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
A partir da pergunta: “Qual a sua
preparação para trabalhar educação ambiental?” os professores
evidenciaram, de um modo geral, uma nítida despreparação para
ministrar aulas que contemplem o assunto em questão. Nesse sentido,
a Figura 1 apresenta as respostas dos professores da escola estadual,
na qual, 33,33% deles disseram não ter nenhuma preparação para
trabalhar educação ambiental. Aproximadamente 60% daqueles que têm
alguma preparação, estes as obtêm por conta própria, através de
informações obtidas pela internet, revistas, jornais e televisão.
Ao referenciar sobre os atributos dos educadores para o século 21
(BRASIL, 2002), os técnicos do Ministério da Educação e Cultura
(MEC) citam que a formação de um profissional da educação deve
estimulá-lo a aprender o tempo todo, pesquisar, investir na própria
formação, utilizando criatividade, sensibilidade e capacidade de
interagir com outras pessoas. Assim, acredita-se que essa
potencialidade deva ser incentivada ou incrementada, através de uma
efetiva participação dos cursos oferecidos pelo governo. Contudo,
Bernardes (2006, p.24) acredita que a não participação dos
professores nos referidos cursos se deva a vários motivos, dentre
eles “a falta de tempo e de cursos específicos oferecidos na
região”.

Figura 1
– Capacitação dos professores do Ensino Médio de uma escola
estadual do município de Arcos - MG, quanto ao tema educação
ambiental.
No que se refere aos resultados
obtidos para os professores da escola particular, observou-se uma
parcela significativa possui preparação própria, onde 21,42% diz
obter informações pela internet, jornais e revistas e ainda 28,57%
através de leituras pessoais. Nota-se ainda que 14,28% dos
professores não possuem nenhuma preparação, este número é
preocupante, especialmente se levado em consideração que o
professor necessita de um mínimo de preparação para ensinar
(Figura 2).
Pimenta (1999: p.05) afirma que:
A formação de professores na
tendência reflexiva se configura como uma política de valorização
do desenvolvimento pessoal e profissional dos professores e das
instituições escolares, uma vez que supõe condições de trabalho
propiciadoras da formação contínua dos professores, nos locais de
trabalho, em redes de auto-formação, e em parceria com outras
instituições de formação.
Segundo Zaldivar (2002) a sociedade
atual transforma-se a todo instante e a instituição de ensino
juntamente com seus professores devem oferecer um conhecimento
adequado, atualizado para os alunos que ali buscam formação. O
autor afirma ainda que os profissionais que quiserem continuar
atualizados em relação às mudanças do mundo têm que estar em
permanente processo de capacitação.
Quanto aos professores que buscam
conhecimento por conta própria, se somados chegam a quase 50% dos
entrevistados. Será que é uma atribuição do professor ir atrás
de recursos sozinho? Obviamente, como transmissor de conhecimento,
este necessita estar sempre estudando e se atualizando, contudo, não
seria papel também da escola oferecer meios para que o professor
possa se sentir mais preparado?
A Legislação da Educação
Brasileira, Lei nº 9.394, Lei de Diretrizes e Bases da Educação
Nacional (LDB), (BRASIL, 1996), publicada em 23 de dezembro de 1996,
demonstra, mesmo que de forma fragmentada e dispersa em vários
artigos, a necessidade do desenvolvimento profissional dos
professores. O Parecer nº 16 do CNE/CEB, de 21 de janeiro de 1999,
ressalta que as competências dos professores devem ir além do
conhecimento do conteúdo técnico. Dessa forma, a escola deve
incorporar ações apropriadas de desenvolvimento dos professores no
seu projeto pedagógico, sugerindo que esse preparo deva acontecer em
serviço, ou em programas especiais seguida por ações continuadas
de desenvolvimento profissional (BRASIL, 2001).
Assim, fica claro que a
responsabilidade de formar professores capacitados para trabalhar
educação ambiental na escola é das instituições e dos
profissionais, devendo haver uma parceria para que a educação
ambiental seja uma realidade nas redes de ensino do país.
Um dos problemas da educação,
segundo Meller (1997), se relaciona ao conhecimento: concepções
estreitas, limitação de enfoques e abordagem fragmentada.
Entretanto, o presente estudo verificou que quase 50% dos docentes
afirmam possuir interesse em buscar informações sobre a educação
embiental (Figura 2), demonstrando a consciência da necessidade de
qualificação profissional.
No que se refere ao discurso do
sujeito coletivo é possível destacar seguinte idéia: “Procuro
ler muito e pesquisar”:
Mais é disposição, procura pela
internet, livros, arquivos, revistas, etc.
Essas percepções evidenciam o
despreparo dos professores e ainda leva a questionar o fato de como
eles podem oferecer um ensino em educação ambiental de qualidade,
se os mesmos não estão adequadamente capacitados? Estudos
desenvolvidos por Raggi; Santana (2005) sobre a percepção dos
docentes sobre a educação ambiental no CEFET do Espírito Santo
mostraram que a maioria dos professores não está devidamente
preparada para trabalhar com temas transversais, com a
interdisciplinaridade e tampouco com trabalhos com projetos,
estratégias muito úteis no trato das questões ambientais. Silva
(2008) complementa, apontando que professores mal preparados,
desmotivados e com excesso de trabalho não encontram tempo para
buscar novas formas de ensinar, sendo que aqueles que ainda conseguem
fazê-lo geralmente tropeçam na falta de recursos pedagógicos e
financeiros das escolas.
Ainda sobre a figura 2, observou-se
que 7,14% dos professores afirmam ter como base os conteúdos de seu
estudo formal, ou seja, aqueles estudos na faculdade. Será que esse
conhecimento é suficiente, uma vez que a atualização torna-se cada
vez mais necessária mediante o vertiginoso desenvolvimento
tecnológico, científico e também cultural? Será adequado para o
aluno contar apenas com um conhecimento desatualizado de um professor
que parou de estudar quando terminou sua graduação? Para Farnesi;
Melo (2002) a escola deve se constituir num espaço formação de
professores/pesquisadores contínua e permanente, tanto de formação
inicial como de formação continuada. Viola (2001) complementa,
apontando que é preciso intervir em processos de capacitação que
permitam ao professor embasar seu trabalho com conceitos sólidos,
para que as ações não fiquem isoladas e/ou distantes dos
princípios da educação ambiental.
Os
resultados encontrados corroboram com Carvalho (1994), ao dizer que o
professor está hoje despreparado e sem condições de atender as
exigências de um trabalho que incorpore a temática ambiental de
forma consciente.

Figura 2
– Capacitação dos professores do Ensino Médio de uma escola
particular do município de Arcos - MG, quanto ao tema educação
ambiental.
A comparação dos resultados entre
as duas escolas (pública e particular) evidenciou que a situação
na escola pública parece ser ainda mais grave, pois 33,33% dos
professores disseram não possuir nenhuma preparação. Nesse caso, o
discurso do sujeito coletivo mostra que a idéia central é
“nenhuma”:
Nenhuma, pra trabalhar educação
ambiental, eu não fui preparada pra isso, fui preparada pra ser
professora, uma educadora de um modo geral.
A fala do discurso apresenta certa
comodidade da profissional que diz não ter sido educada para
trabalhar educação ambiental, mas parece se contentar com tal
situação. Como inserir a educação ambiental em um meio, no qual,
os profissionais mostram uma comodidade e aceitação de que não
foram formados para trabalhar tal conteúdo? A forma como alguns
educadores percebem a educação ambiental poderia ser considerada
como um tabu, no qual é melhor não se falar, pois explicita o
receio do professor diante de questões que não fazem parte do
conteúdo ministrado pelos mesmos.
Segundo Rosa; Silva; Leite (2009), na
constituição de um ambiente educativo de caráter crítico, a
construção do conhecimento visa superar a visão de conteúdo
isolado, elaborando uma interpretação da realidade a partir da
interdisciplinaridade e de uma visão ampliada. O que pressupõe
investimentos na formação de educadores, de maneira a propiciar
atualização e aprofundamento das temáticas educacionais,
apoiando-se numa reflexão sobre a prática educativa e promovendo um
processo constante de auto-avaliação que oriente a construção
contínua de competências profissionais (BRASIL, 1999a) e demarque
mudanças efetivas de percepção e de ação.
Quanto à preparação dos
professores para ministrar assuntos referentes à educação
ambiental observou-se que a disposição maior se dá por parte dos
professores da rede pública. Como mostra o discurso do sujeito
coletivo:
Procuro me informar através de
internet, livros, revistas, reportagens. Olha o que a gente lê,
ouve, conhecer, assistir vídeos.
Acredita-se que tal interesse se deva
ao fato de que esses professores dispõem de menos recursos no
ambiente de trabalho e, portanto, devem recorrer a meios próprios de
preparação.
Já por parte da rede particular,
segundo professores, a pesquisa se dá diante da emergência de se
aplicar os conhecimentos adquiridos em suas respectivas disciplinas.
Outra ocorrência inquietante é o fato de não haver nenhuma
capacitação por parte da rede pública em contraposição com a
escola particular em que 14,28% tiveram capacitação específica.
Tais resultados vêm apenas confirmar
o que expõem Rosa; Silva; Leite (2009: p.256) ao dizer que os
professores “não estão recebendo formação suficiente para
romper as correntes que os amarram à perspectiva educacional
conservadora”.
Para avançar na questão da educação
ambiental torna-se necessário pensar na formação do educador e dos
demais componentes da escola, no aperfeiçoamento constante que esta
profissão exige. Não basta apenas instituir a lei, se não houver
como colocá-la em prática. Além disso, falta investimento na
formação continuada do professor e valorização do profissional.
As políticas de educação precisam ser pensadas e discutidas a
partir do empírico para que explicitem o concreto e sejam
experimentadas (SCHILLING; et
al., 2005). Por isso,
torna-se de grande utilidade, um aprofundamento e uma preparação
eficiente para que se trabalhe de forma efetiva a educação
ambiental.
Na figura 3, observa-se que os
principais problemas apresentados pela escola pública foram à falta
de material (67%) e adequação do tempo (53,33%). Contudo, o
despreparo por parte dos professores quanto ao saber ensinar sobre o
assunto educação ambiental foi fato citado por 26,26%.

Figura 3
–
Dificuldades
de se trabalhar o tema educação ambiental relatadas pelos
professores do Ensino Médio de uma escola estadual do município de
Arcos – MG.
Diante da emergência de se esgotar o
conteúdo de suas respectivas disciplinas, observa-se uma dificuldade
por parte dos professores de se contemplar temas transversais durante
as aulas, conforme evidencia o discurso do sujeito coletivo:
A falta de tempo, porque a gente
tem aquele conteúdo pra ministrar então a gente é obrigado a
cumprir aquele conteúdo em determinado tempo. Como se diz, a gente
tem um currículo a seguir um plano de aula seguir, um limite de aula
certo para terminar no final do ano então a gente não tem tanto
tempo para outras atividades fora do conteúdo. A questão de
horário, muita das vezes você tem apenas um horário, de cinqüenta
minutos, desses cinqüenta minutos, você tem que levar em conta que
você já desconta dez a quinze minutos pra outras atividades
rotineiras em sala de aula e quando você consegue despertar mais
atenção, eles se abrem ao trabalho, aí o horário acaba.
No que se refere
ao questionamento
“Quais as
dificuldades em se trabalhar a educação ambiental em sala?”, uma
porcentagem de 27,27% dos professores acredita que um dos grandes
obstáculos encontrados para se trabalhar um tema transversal é a
falta de aceitação por parte dos colegas. Nesse sentido, o discurso
do sujeito coletivo ilustra a idéia central de que a “falta de
parceria entre os professores” apresenta-se como uma das maiores
dificuldades para trabalhar educação ambiental em sala de aula:
A dificuldade maior que tem, eu
acho, primeiramente, é a aceitação dos professores de outros
conteúdos no tema Educação Ambiental. Mesmo que o professor não
tenha conhecimento sobre determinado assunto, eles recusam a
participar do projeto falando que a matéria dele não tem nada haver
com aquilo, a matéria tem haver com geografia, com biologia, que não
tem nada haver com matemática e com física. A dificuldade com
parceria, com professores. A educação ambiental precisa de
conhecimentos de todas as áreas, da química, da biologia, química,
das estatísticas, da matemática aplicada, etc.

Figura 4
–
Dificuldades
de se trabalhar o tema educação ambiental relatadas pelos
professores do Ensino Médio de uma escola particular do município
de Arcos - MG.
Ainda no que se refere às principais
dificuldades em se trabalhar a educação ambiental em sala, a falta
de disposição por parte dos professores ficou em segundo lugar, com
18,18% (Figura 4). A principal argumentação é que a cobrança para
se esgotar o conteúdo é muito grande e fica complicado adequar o
tempo. A falta de tempo também foi a resposta de 18,18% dos
professores.
A falta de conscientização dos
próprios educadores gera a falta de interesse nos alunos? Essa
questão deve ser devidamente pensada uma vez que, nos interessamos
por um assunto quando percebemos que a pessoa que fala dele também
acredita em sua importância. Segundo Santos; Carvalho (s/n) um dos
maiores problemas enfrentados para a inclusão da educação
ambiental nos Planos Pedagógicos Escolares é a resistência para
funcionar enquanto assunto transversal, conforme orientação feita
pelos PCN’s. De modo geral, as disciplinas escolares funcionam de
forma individualizada, fugindo do propósito da
interdisciplinaridade.
Os conhecimentos dos professores
sobre os PCN’s de educação ambiental foi o terceiro tema tratado
nesta pesquisa, sendo os resultados mostrados nas figuras 5 e 6. Os
resultados expostos na figura 5 mostram que 60% dos professores da
escola estadual não conhecem os PCN’s, enquanto que as respostas:
É um tema transversal;
conhecem os PCN’s que se
relacionam com as disciplinas que ministram
e foi um assunto estudado na
faculdade, empatam
apresentando 13,34%, respectivamente.
Tais resultados corroboram com a
pesquisa de Fath; et al.
(2008) que evidencia que os PCN’s são pouco conhecidos pelos
educadores. Apesar de muitos afirmarem ter manuseado o material
publicado pelo MEC, poucos entendem do que se trata. Acredita-se que
isso ocorra, tanto por falta de interesse dos professores que não
tem motivação nem iniciativa de procurarem pesquisar e se inteirar
no assunto, bem como de uma organização institucional que não
viabiliza, nos espaços de formação continuada, a interação com
esse tipo de material. Neste contexto, a discussão sobre essa
problemática geralmente fica restrita ao âmbito acadêmico,
encontros e congressos, dos quais a maioria dos professores não
participa.

Figura 5 –
Conhecimento
dos PCN’s sobre
educação ambiental por
professores do Ensino Médio de uma escola estadual do município de
Arcos – MG.
De acordo com a figura 6, observou-se
que uma porcentagem de 36,36% dos entrevistados nas escolas
particulares desconhecem os PCN’s e ainda, 36,36% afirmaram que até
conhecem os PCN’s, mas estão distantes do cotidiano da escola. Tal
assertiva não se coaduna com o referido PCN, pois eles foram
elaborados justamente no intuito de se adaptar à realidade da
escola. Será que é o cotidiano da escola que está distante ou o
cotidiano dos professores? Haja vista que se percebe certa morosidade
por parte destes para com mudanças nas metodologias e aplicação de
temas transversais por vários fatores.

Figura 6 –
Conhecimento
dos PCN’s sobre
educação ambiental por
professores do Ensino Médio de uma escola particular do município
de Arcos – MG.
A maioria dos professores ao responder
a pergunta: “O que você conhece dos PCN’s sobre educação
ambiental?” disseram não conhecer, fornecendo então o seguinte
discurso do sujeito coletivo:
Eu não conheço nada!
Contudo, algumas respostas mostram
certo conhecimento, ainda que raso, por parte dos professores:
Bom o PCN para mim é um
compensativo de todos os assuntos. Eu conheço o PCN, ele trata a
questão ambiental como tema transversal, como tema transdisciplinar
a ser trabalhado em todas as disciplinas, vinculando assim os
conhecimentos específicos que a disciplina pode dar à contribuição
do desenvolvimento na mentalidade ambiental.
Os resultados expostos acima vão de
encontro com a afirmação de Bizerril; Faria (2001), ao constatar em
sua pesquisa que dos professores entrevistados, especialmente os de
escolas públicas, deixam claro que os PCN’s são, ainda, uma
incógnita nas suas escolas e que têm dificuldades em compreender a
proposta ou, ao menos, em executá-la. Segundo esses profissionais,
as reuniões sobre esse tema nas escolas, na maioria dos casos, são
escassas ou improdutivas. Isto se deve ao desinteresse e despreparo
de alguns professores, mas também à maneira complexa pela qual o
tema interdisciplinaridade é por vezes exposto aos professores,
provocando certa angústia em relação ao assunto.
Em ambas as escolas, as outras
respostas pertinentes ao conhecimento dos PCN’s foram pouco
precisas ou usadas como chavão, uma vez que muitos professores não
admitem a falta de conhecimento:
É um tema transversal, estudo na
faculdade. É interessante.
Tendo em vista os resultados obtidos
nesse trabalho, observou-se que, de um modo geral, os professores
parecem não estar habilitados para trabalhar educação ambiental ou
mesmo ainda não se sentem preparados para desenvolver o tema. É
comum colocar a culpa nas escolas ou mesmo isentar o professor da sua
falta de atuação, justificando suas potencialidades e limites,
diante de sua formação. No entanto, vale ressaltar que muitas vezes
os profissionais têm sua parcela de culpa sendo omissos, deixando-se
influenciar pelo comodismo.
A fim de sanar ou reverter esse
quadro Azevedo; Silva; Sales; et
al. (2009, s/n) sugerem
que:
A escola ressignifique e
reconsidere o seu processo de planejamento, a fim de rever práticas
de ensino e aprendizagem, com a finalidade de possibilitar ao aluno o
envolvimento com atividades prazerosas e significativas, que venham
atender ao seu interesse. Sugerimos também que ela reveja sua
proposta didática, possibilitando ao professor autonomia para
desenvolver um trabalho, junto ao aluno, pautado no conhecimento e
preservação integrando as demais áreas do conhecimento, como
recurso para uma aprendizagem significativa e reflexiva.
Graça;
Campos (2009) completam expondo:
O trabalho pedagógico
com a questão ambiental requer empenho e, principalmente uma
interação da escola com os demais setores sociais. As atividades a
ser desenvolvidas demandam aspectos interdisciplinares que
contribuirão para que a compreensão dos alunos ocorra de maneira
mais fácil, favorecendo o seu entrosamento e atuação junto aos
temas ambientais, passando assim, a fazer parte importante de um
processo de conhecimento e cooperação com o seu bem estar, dos
outros, do meio ambiente e, é claro, do planeta, permitindo que as
próximas gerações também possam usufruir dos enormes benefícios
que a natureza é capaz de proporcionar.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este estudo aponta que as dificuldades
em se trabalhar educação ambiental nas escolas passam pelo
desconhecimento e despreparo dos professores sobre o assunto. Diante
dessa constatação, percebe-se a necessidade de implementação de
ações para que a educação ambiental realmente faça parte do
cotidiano da escola. Nesse sentido, algumas possibilidades de melhora
se revelam na própria fala dos docentes, dentre elas, a capacitação
surge como uma meta a ser alcançada, haja vista que o
desconhecimento sobre o tema foi, no mínimo, inquietante e a falta
de conhecimento pode relacionar-se com as dificuldades que a educação
escolar atravessa de um modo geral.
As propostas da educação ambiental e
as condições necessárias a sua implementação podem auxiliar no
desencadeamento das mudanças de que tanto necessita o ensino formal,
a fim de atingir a efetividade esperada. Daí a importância de se
rever os processos de formação dos educadores no intuito de
capacitá-los e, nesse ínterim buscar melhores formas para que a
educação ambiental seja um tema trabalhado em sala de aula, haja
vista que é um assunto de suma importância para o corpo discente e
o ambiente como um todo.
Contudo, apesar da importância da
mudança na formação dos professores, algumas providências
mostram-se mais imediatas, uma vez que a formação dos professores
demanda tempo, ou seja, acontece no longo período de tempo. Nesse
sentido, o planejamento de projetos e atividades práticas referentes
a situações ambientais cotidianas podem e devem ser estimuladas,
pois oferecem aos professores, alunos e comunidade escolar em geral,
a oportunidade de envolver-se em situações reais. Assim como
também, é possível haver um trabalho interdisciplinar,
principalmente fora de sala de aula, de modo a romper com a educação
tradicional.
A promoção de uma educação
ambiental tornou-se responsabilidade contemporânea, por isso, sua
inserção na escola mostra-se inevitável, já que esta é o veículo
maior de formação humana. Porém seu sucesso depende do
envolvimento de toda a comunidade escolar, de forma a não se
fragmentar pessoas e conhecimentos. A sua realização adequada
pressupõe o esforço da interdisciplinaridade efetiva, na qual, os
professores possam trabalhar a realidade vivenciada com sua
disciplina estabelecendo também ligação entre as outras
disciplinas.
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