ISSN 1678-0701
[Exibindo artigos de todos os números]
Números anteriores 
Início   |   Cadastre-se!   |   Procurar   |  Apresentação   |  Artigos   |  Dicas e Curiosidades   |  Reflexão   |  Textos de sensibilização   |  Dinâmicas   |  Dúvidas   |  Entrevistas   |  Saber do Fazer   |  Culinária   |  Arte e ambiente   |  Divulgação de Eventos   |  O que fazer para melhorar o meio ambiente   |  Sugestões bibliográficas   |  Educação   |  Você sabia que...   |  Plantas medicinais   |  Contribuições de Convidados/as   |  Trabalhos Enviados   |  Folclore   |  Breves Comunicações   |  Meio Ambiente e Experiência da Diferença   |  Educação Ambiental e Comunicação   |  Reportagem   |  Normas de Publicação   |  Práticas de Educação Ambiental   |  Colaboradores antigos   |  Soluções e Inovações
Trabalhos Enviados

No. 26 - 13/12/2008
Qualidade de água como tema para a socialização do conhecimento científico em região semi-árida brasileira
Pessoas que vivem na região semi-árida do Brasil periodicamente sofrem com a seca em função da má distribuição anual das chuvas nessa área. Este fenômeno contribui para piorar a qualidade da água dos reservatórios que já é afetada por efluentes de atividades agrárias, industriais e domésticas cada vez mais comuns devido à demanda gerada pelo crescimento da população. Com o objetivo de sensibilizar as populações ribeirinhas para evitar a proliferação dos problemas ambientais e manter a qualidade da água em trechos da barragem Engenheiro Armando Ribeiro Gonçalves, foram realizadas atividades de educação ambiental [...]

 

QUALIDADE DE ÁGUA COMO TEMA PARA A SOCIALIZAÇÃO DO CONHECIMENTO CIENTÍFICO EM REGIÃO SEMI-ÁRIDA BRASILEIRA

 

 

Luiz Sodré Neto1, Magnólia Fernandes Florêncio de Araújo2.

 

1Universidade Federal do Rio Grande do Norte – Mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento e Meio Ambiente, Bolsista DAAD. luizsodreneto@oi.com.br

 

2Universidade Federal do Rio Grande do Norte – Professora Dra. do Departamento de Microbiologia e Parasitologia. Centro de Biociências - Campus Universitário, Lagoa Nova – Natal/RN. CEP 59.072-970.

 (84)3215-3437. mag@cb.ufrn.br

 

 

 

 

RESUMO

 

            Pessoas que vivem na região semi-árida do Brasil periodicamente sofrem com a seca em função da má distribuição anual das chuvas nessa área. Este fenômeno contribui para piorar a qualidade da água dos reservatórios que já é afetada por efluentes de atividades agrárias, industriais e domésticas cada vez mais comuns devido à demanda gerada pelo crescimento da população. Com o objetivo de sensibilizar as populações ribeirinhas para evitar a proliferação dos problemas ambientais e manter a qualidade da água em trechos da barragem Engenheiro Armando Ribeiro Gonçalves, foram realizadas atividades de educação ambiental. A pesquisa se constituiu na divulgação de resultados sobre a qualidade da água na barragem, na realização de uma oficina para professores de escolas públicas e na aplicação de um questionário para análise da concepção desses professores sobre questões relacionadas à água. O diálogo com as pessoas da comunidade durante a atividade de divulgação científica, assim como a análise dos questionários, permitiu concluir que a população precisa ser incentivada para buscar conhecimentos sobre as questões ambientais locais, o que implica na necessidade de uma interferência mais freqüente por meio de pesquisas e de práticas de educação que busquem a formação de uma cidadania ambiental.

 

 

Palavras-chave: Qualidade de água; educação ambiental; divulgação científica.

 

 


INTRODUÇÃO

 

A região semi-árida brasileira é caracterizada por apresentar períodos cíclicos de seca em função da irregularidade têmporo-espacial das chuvas e do clima quente e semi-árido. A carência hídrica na região acentua o problema da perda de qualidade da água ocasionado, seja pela contaminação dos corpos de água por produtos químicos provenientes das atividades industriais ou agrárias, seja pelo recebimento de efluentes domésticos não tratados.

Na medida em que a qualidade da água dos rios e reservatórios diminui, devido à demanda gerada pelo crescimento da população, cresce a necessidade de incentivar a conservação de bacias hidrográficas. Logo, são aspectos importantes a serem trabalhados, além da pesquisa sobre a qualidade da água, o desenvolvimento de programas de educação ambiental nas comunidades ribeirinhas e a divulgação de resultados encontrados em pesquisas realizadas nessas áreas.

            Alicerçadas na concepção de que é possível aproximar o conhecimento científico da sociedade, e frente à demanda social por esses conhecimentos, as iniciativas de educação ambiental buscam um efetivo diálogo entre as diferentes culturas, entre os conhecimentos científicos e tradicionais, e entre as variadas formas de entendimento sobre a temática ambiental.

            Higuchi e Azevedo (2004) consideram a educação ambiental como uma possibilidade que congrega o amplo diálogo, um novo pensar e um novo agir, ressaltando a importância de se ter conhecimento da concepção das pessoas sobre o ambiente, para então se iniciar um programa de construção de conhecimento que fomente a necessária modificação de valores e condutas pró-ambientais de forma crítica e responsável.

A educação ambiental deve, assim, fornecer instrumentos para a sociedade ampliar discussões e ações concretas em relação às questões ambientais, sobretudo no âmbito das escolas, de modo a ter uma população consciente e educada para tais questões (ALMEIDA et al., 2004). Nas escolas, a educação ambiental pode sensibilizar o professor e o aluno para que construam coletivamente o conhecimento por meio de estratégias pedagógicas. Tais práticas podem servir para estimular as competências dos alunos, bem como proporcionar ao professor uma preparação e a aplicação dos conhecimentos às temáticas relacionadas com o cotidiano.

No que diz respeito à formação do profissional para a educação ambiental, faz-se necessário superar a definição do professor como perito em aulas, para assumir a definição de professor com atitudes inovadoras, devendo saber reconstruir o conhecimento e colocá-lo a serviço da cidadania (ARAÚJO, 2004). Os educadores devem estar cada vez mais preparados para reelaborar as informações que recebem, principalmente as que se referem às questões ambientais, para então poderem decodificar e transmitir para os alunos a expressão dos significados em torno do meio ambiente e da ecologia nas suas múltiplas determinações e intersecções (JACOBI, 2005). 

Nesse contexto, o papel do professor deve ser o de buscar os instrumentos pedagógicos que possibilitem uma atividade conjunta de professores e alunos com a finalidade de promover as condições pelas quais estes assimilam conhecimentos, habilidades e atitudes. Um desafio, para Jacobi (2003), é evitar cair na simplificação de que a educação ambiental poderá superar uma relação pouco harmoniosa entre os indivíduos e o meio ambiente mediante práticas localizadas e pontuais, muitas vezes distantes da realidade social de cada aluno.

 Portanto a educação ambiental deve ser capaz de gerar propostas adequadas, baseadas em valores e condutas sociais ambientalmente favoráveis para um mundo em rápida evolução (TOMAZELLO e FERREIRA, 2001), assumindo, de maneira crescente, a forma de um processo intelectual ativo, enquanto aprendizado social, baseado no diálogo, fornecendo os instrumentos para a construção de uma visão crítica e reforçando práticas que explicitam a necessidade de problematizar e agir em relação aos problemas socioambientais (JACOBI, 2005).

Aliadas à educação ambiental, as práticas de divulgação científica se destacam como iniciativas imprescindíveis na atual sociedade. Para Valério (2005) a divulgação científica figura socialmente como um valioso instrumento de popularização de saberes e valores científicos, como importante ferramenta educacional e como um esforço de democratização do conhecimento científico, entre outras atribuições.

Analisando a evolução nas práticas de divulgação científica, Fayard (1999) considera que:

[...] passamos de uma estratégia direta, iniciada a partir dos conteúdos e que privilegia o emissor, a uma estratégia de inspiração indireta baseada na relação e que privilegia o receptor; em outras palavras, passamos de uma lógica de difusão a uma lógica de comunicação na qual a eficácia se valora com base na recepção.

Segundo Marandino et al., (2004) alguns autores atribuem a mesma função às expressões divulgar e ensinar. Contudo, entre outros autores que discutem divulgação científica, encontram-se posições que fazem questão de diferenciá-las, atribuindo à divulgação o papel motivador como instrumento pedagógico sem substituir o aprendizado sistemático. Albagli (1996) afirma que a divulgação científica ou popularização da ciência pode ser definida como o uso de processos e recursos técnicos para a comunicação da informação científica e tecnológica ao público em geral. Nesse sentido, divulgação supõe a tradução de uma linguagem especializada para uma leiga. Para Silva (2006), dada a área de especialização, um cientista é sempre mais ou menos leigo, portanto a divulgação científica também está envolvida na interlocução cientista-cientista.

A necessidade de se estabelecer um diálogo parece ser um desafio particular para a divulgação científica, visto que, diferentemente do ensino, suas práticas não estabelecem propriamente espaços de diálogo. Contudo, entre as preocupações da divulgação deve estar o reconhecimento dos possíveis conhecimentos prévios do público ao qual se dirige. É importante salientar que a divulgação científica não precisa ou deve pressupor o ensino de conteúdos científicos como seu atributo, mas sim que o tratamento de temas científicos contribuirá sempre, de uma ou outra maneira, para a educação pública em ciências (VALÉRIO, 2005).

            Diante da possibilidade de aproximar a universidade de comunidades ribeirinhas da região semi-árida, o presente trabalho teve como objetivo divulgar resultados da pesquisa sobre qualidade de água da barragem Engenheiro Armando Ribeiro Gonçalves para pessoas dos vários setores da sociedade, bem como organizar e executar oficinas de atividades práticas com professores do ensino fundamental e médio de escolas públicas dos municípios de Itajá e São Rafael, localizados às margens do reservatório, e entender a concepção desses professores sobre qualidade de água.

 

PERCURSO METODOLÓGICO

Caracterização da área de estudo

            O estudo de qualidade da água foi realizado na barragem Engenheiro Armando Ribeiro Gonçalves (bacia do rio Piranhas-Assu). A barragem tem capacidade para comportar um volume de 2,4 bilhões de metros cúbicos de água e a bacia na qual está inserida é responsável pelo abastecimento de 46 municípios no estado do Rio Grande do Norte (IGARN, RN), sendo de grande importância sócio-econômica para esta área da região semi-árida. Dentre os municípios que são abastecidos, Itajá e São Rafael foram inicialmente escolhidos para a realização das ações para a socialização do conhecimento científico, tanto pelo contato direto dos seus habitantes com a água da barragem em função da proximidade, quanto por corresponderem aos dois pontos de coleta das amostras de água referenciados pelas coordenadas geográficas (5°40’31.70”S e 36°53’00.01”W) e (05°47’50.38”S e 36°55’33.38”W), respectivamente.

 

Figura 1: Localização da Barragem no estado do Rio Grande do Norte.

 

Estudo sobre a qualidade da água em Itajá e São Rafael (RN)

            Foram analisadas, durante 01 ano, em intervalos de três em três meses, amostras de água coletadas nos dois pontos da barragem Engenheiro Armando Ribeiro Gonçalves. Dessas amostras, obtiveram-se dados de clorofila, fósforo total, densidades do bacterioplâncton e protozooplâncton, além de coliformes totais e fecais.

Esses dados foram interpretados e organizados em gráficos e tabelas, que, junto às informações gerais e às figuras e esquemas ilustrativos sobre a situação da água no cenário local e global, numa linguagem simples e direta, constituíram o conteúdo das atividades de socialização com a comunidade.

 

Socialização do conhecimento científico

Para realizar os trabalhos de socialização junto à comunidade, as escolas foram contatadas por telefone. Nesse processo, ficou acertada a realização das atividades pedagógicas na Escola Estadual João Tertulino no município de Itajá e na Escola Estadual Tristão de Barros no município de São Rafael. Definiu-se que as escolas convocariam professores, pais e alunos destas e de outras escolas, assim como políticos destes municípios e representantes de entidades voltadas para a temática ambiental. Para cada município foi programado um dia de atividades dividido em dois momentos, no qual, um primeiro momento seria aberto ao público e um segundo seria restrito aos professores.

 

Divulgação científica

Visando a primeira etapa das atividades, aberta para toda a comunidade, foi organizado um seminário para a apresentação de informações importantes sobre a situação da água no planeta e de dados, sobre a qualidade da água da barragem, obtidos por meio das análises das amostras de água realizadas no Laboratório de Microbiologia Aquática da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

Programou-se o seminário para que houvesse a participação de pessoas da comunidade. Em função disto foi destinada uma primeira parte para a apresentação dos slides e, em seguida, uma segunda parte para questionamentos e comentários do público presente.

 

Oficina de atividades práticas com os professores

Destinada ao segundo momento das atividades e restrita aos professores, a oficina foi planejada inicialmente visando à participação de aproximadamente 100 professores do ensino fundamental e médio de escolas públicas dos municípios de Itajá e São Rafael.

            Foram programadas 05 atividades práticas para serem desenvolvidas com os professores em seus grupos. Essas atividades (Quadro 1) foram previamente elaboradas e disponibilizadas como roteiros durante a oficina.

 

Quadro 1: Atividades práticas desenvolvidas na oficina

1. Apresentação demonstrativa do material utilizado no laboratório;

2. Observação da contaminação bacteriana das mãos;

3. Verificação da ocorrência de bactérias em águas de ambientes naturais;

4. Observação de protozoários e microalgas em amostras de água;

5. Elaboração de modelos representativos do que foi observado ao microscópio.

As práticas foram desenvolvidas na busca de um melhor entendimento sobre a ocorrência de bactérias nos diversos ambientes e sobre a importância dos microorganismos presentes na água, bem como na intenção de sugerir que os professores trabalhem esses temas com seus alunos, dando aos temas a devida atenção e relevância. Durante o desenvolvimento das atividades práticas, utilizaram-se vários materiais de laboratório (microscópios, lâminas e lamínulas, placas de Petri), materiais didáticos para elaboração de modelos e amostras de água do próprio reservatório.

 

Concepção sobre qualidade de água

Para viabilizar uma coleta de dados sobre a concepção dos professores em relação à qualidade da água, utilizou-se, durante o segundo momento de atividades, um questionário misto com 18 questões de múltipla escolha e uma questão aberta (Quadro 2), todas relacionadas com qualidade de água. O instrumento foi adaptado do trabalho desenvolvido por Almeida e Kurtz dos Santos (1999) com o objetivo de detectar uma visão geral dos professores sobre problemas ambientais relacionados à água. As informações pessoais dos entrevistados foram restritas a sexo, idade, formação acadêmica e disciplinas de atuação.

 

Quadro 2:  Questionário

01. Uma água de aparência limpa tem sempre boa qualidade. (  )

02. Água de boa qualidade é a que não tem organismos que causam doenças. (  )

03. Em água visualmente limpa não há organismos causadores de doenças. (  )

04. Eu produzo esgoto que pode contaminar a água. (  )

05. Tomar banho em águas contaminadas por esgoto é perigoso para a saúde. (  )

06. Os esgotos lançados nas águas podem ser domésticos ou industriais. (  )

07. O lançamento de esgoto na água diminui o nível de oxigênio e causa a morte de peixes. (  )

08. Animais comestíveis como os peixes perdem a qualidade em águas contaminadas. (  )

09. A contaminação por esgotos leva a uma diminuição da qualidade da água. (  )

10. Quanto maior a qualidade da água, maior a quantidade de água potável. (  )

11. Quanto maior a contaminação da água, menor a quantidade de água potável.   (  )   

12. A consciência ambiental diminui os problemas da água. (  )

13. Participo ou desenvolvo ações para minimizar os problemas da água. (  )

14. Conheço o destino do esgoto da minha casa. (  )

15. Conheço o destino do esgoto da minha escola (  ).

16. Conheço o destino do esgoto da minha cidade. (  )

17. Conheço a legislação sobre qualidade de água. (  )

18. Consumo uma água de boa qualidade no meu dia-a-dia. (  )

 

Questão Aberta: Que características são utilizadas para a identificação de uma água de boa qualidade?

 

Embora tendo a desvantagem de poder influenciar o respondente em suas múltiplas alternativas, como adverte Mattar (1994), optou-se por esse tipo de questionário pela facilidade e rapidez na aplicação, além de se ter uma leitura mais padronizada das respostas. Além disso, a questão aberta, também presente, permitia a coleta de informações e esclarecimentos significativos para se interpretar e analisar melhor as perguntas com respostas fechadas. 

Os questionários respondidos foram analisados do ponto de vista quantitativo e qualitativo, com a intenção de se entender a concepção daquele grupo sobre a água e os problemas ambientais locais.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Todo o trabalho programado, que seria desenvolvido nos dois municípios citados, aconteceu em Itajá onde a Escola Estadual João Tertulino, contatada de início por ser a maior escola do município, teve um papel fundamental na convocação de professores, pais e alunos desta e de outras escolas, assim como na convocação do presidente da câmara dos vereadores e de representantes de entidades voltadas para a temática ambiental.

Embora com uma programação confirmada, não foi possível a realização das atividades na escola responsável pelo evento no município de São Rafael.

 

A Divulgação Científica

O trabalho de divulgação se deu a partir de um seminário ministrado no clube municipal da cidade de Itajá, no dia 18 de setembro de 2007. Cerca de 200 pessoas compareceram ao local onde a apresentação transcorreu com a abordagem de informações sobre a água num contexto global e local, de ações preventivas voltadas para a conservação ambiental e sua importância na recuperação ou manutenção da qualidade da água das bacias hidrográficas, seguida de esclarecimentos sobre o ciclo da água e sobre o funcionamento de ecossistemas aquáticos. Além disso, foram apresentados alguns dos resultados encontrados sobre a qualidade da água do local, o que se procurou fazer de forma simplificada, considerada a análise prévia do publico alvo. Tal aspecto precisa ser considerado, pois, em sua relação com o público, a divulgação científica frequentemente se depara com o problema da recodificação da linguagem do conhecimento científico (VALÉRIO, 2005). Para este autor, esta tem sido uma das principais dificuldades das iniciativas de divulgação, logo, a análise do público alvo figura como tarefa fundamental nesta questão.

Na seqüência, os conceitos de coliformes, as observações sobre a importância das variáveis físico-químicas como temperatura, oxigênio e pH da água, de nutrientes como nitrogênio e fósforo, bem como os dados de densidades bacterianas e protozoários indicadores da qualidade da água, também foram apresentados. Para Fonseca (2007) a socialização de informações como essas, auxilia na construção de uma consciência pública de valorização dos bens biológicos.

Esta atividade de divulgação foi desenvolvida com a finalidade de promover uma maior sensibilização da comunidade face às questões ambientais, como uma forma de fortalecer sua responsabilidade na fiscalização e no controle de atividades que possam comprometer o ambiente em seu entorno. Nessa direção, Jacobi (2005) cita que a problemática ambiental representa uma possibilidade de abertura de estimulantes espaços para implementar alternativas diversificadas de participação social. Neste evento, grande parte do público presente mostrou-se envolvido com as questões ambientais, principalmente quando, ao final da apresentação, foi aberto um espaço para que as pessoas da comunidade fizessem questionamentos sobre os temas abordados e comentassem as suas ações. Foi muito importante perceber o nível de sensibilização e comprometimento dessas pessoas com o meio ambiente em nível local e global para que o trabalho fosse realizado de forma mais dialógica, implicando em uma visível satisfação dos presentes, pelo fato de estarem entendendo e participando ativamente daquele momento. Marin et al. (2003) afirma que a sensibilização traz a proposta de transposição do enfoque racional na prática educativa e a busca de se atingir dimensão emotiva do ser humano na sua interação com a natureza.

            Das pessoas que participaram do seminário, entre elas líderes comunitários, muitos comentaram seu papel de agente social em mutirões de limpeza das margens da barragem, coletas seletivas de lixo, denúncias contra algum tipo de poluição, dentre outras ações citadas, voltadas para a conservação ambiental. Isso foi um fato relevante para servir de exemplo de comprometimento das pessoas do local às crianças que estavam presentes na apresentação.

 

Oficina de atividades práticas com os professores

O material utilizado nas atividades foi organizado para atender os 50 participantes inscritos para a oficina na Escola Estadual João Tertulino. O público para a oficina foi formado por professores desta e de mais duas escolas: a Escola Estadual João Manuel Pessoa e a Escola Municipal Libânia Lopes Pessoa, todas localizadas no município de Itajá.

Neste segundo momento do dia de atividades houve a participação de 42 professores do ensino fundamental e médio das três escolas do município, sendo 23 professores da escola anfitriã, 13 da Escola Estadual João Manoel Pessoa e 06 da Escola Municipal Libânia Lopes Pessoa.

As práticas foram desenvolvidas no sentido de contribuir para a expansão do conhecimento científico dos professores e colaborar para a formação de um pensamento crítico, como comenta Grynszpan (1999), que favorecesse uma postura participativa desses docentes voltadas para a melhoria da qualidade de vida da comunidade.

Inicialmente, foi apresentado aos professores um material semelhante ao que foi utilizado para analisar a qualidade da água de trechos da barragem referentes às cidades de Itajá e São Rafael. Esse procedimento tinha o objetivo de aproximar a experimentação científica da atividade prática escolar. Em seguida, os professores foram divididos em grupos para a utilização do material disponibilizado. Foram demonstrados os procedimentos para o manuseio adequado dos microscópios, uma vez que as escolas possuíam três desses equipamentos.

A primeira experimentação proposta foi uma prática sobre a contaminação bacteriana das mãos. Cada grupo de professores manipulou placas de Petri disponibilizadas para a simulação desta prática. Como exige um tempo de 24 horas para leitura do resultado, executou-se a prática e apresentou-se um material antecipadamente preparado, como forma de já discutir os possíveis resultados. Assim, foi possível observar e discutir com os professores a formação de colônias bacterianas a partir da contaminação das mãos. As placas manipuladas naquele momento foram deixadas na escola para que fossem feitas as leituras dos resultados pelos próprios professores no dia seguinte. Também foi ensinado como preparar meio de cultura utilizando material de fácil acesso como gelatina e caldo de carne para que as práticas pudessem ser trabalhadas com os alunos em outras oportunidades.

Para a terceira e quarta atividades práticas foram preparadas lâminas com amostras de água do reservatório para a observação de bactérias, protozoários e microalgas presentes nas amostras. Os professores visualizavam os microorganismos aquáticos vivos e fixados nas lâminas montadas junto com eles naquele momento, enquanto era enfatizada a importância desses seres vivos para as cadeias alimentares aquáticas, para a manutenção da qualidade da água e, consequentemente, para o bom funcionamento do ecossistema no qual estão inseridos. Alguns professores fotografaram e filmaram, através das lentes dos microscópios, a atividade de forrageio dos diferentes grupos de protozoários e as diferentes formas das microalgas em amostras vivas.

Na última atividade, utilizando o material didático distribuído para os grupos, os professores criaram modelos representativos do que foi visualizado nas lâminas. Esta atividade foi considerada bastante importante para o conhecimento e memorização das formas encontradas nas amostras. Esse tipo de prática destaca a importância da observação e possibilita a organização e o registro de informações, uma vez que trabalha a sua análise e síntese (ALMEIDA et al., 2004). Para Macagnan e Nascimento Júnior (2006) a atividade lúdica, utilizada como estratégia para trabalhar educação ambiental, é extremamente importante no processo de ensino-aprendizagem e indispensável à vida humana quando situada como um ingrediente que oferece melhoria para a qualidade de vida.

Embora não tenha sido feita uma avaliação da oficina por escrito, foi possível registrar o depoimento verbal dos participantes, sobre a importância das atividades desenvolvidas para a sua formação profissional.

 

Análise dos questionários

Os questionários foram respondidos por 37 professores do ensino fundamental e médio das três escolas em Itajá. O Quadro 3 mostra a formação dos professores e suas respectivas disciplinas de atuação. Alguns professores tinham uma determinada formação e estão trabalhando em várias disciplinas diferentes, o que parece ter sido determinante para o tipo de compreensão expressa sobre qualidade de água, bem como sobre a maneira de se trabalhar a educação ambiental nas disciplinas do currículo escolar.

Quadro 3: Formação e disciplinas de atuação dos professores participantes da oficina.

 

FORMAÇÃO

 

DISCIPLINAS DE ATUAÇÃO

Nº. DE PROFESSORES

            Pedagogia           

Sociologia – Ciências – História – Português – Matemática

19

História

História – Filosofia – Português

7

Geografia

Geografia

5

Letras e Artes

Português – Inglês – Artes

2

Ciências Biológicas

Ciências e Biologia

1

Física

Física – Química

1

Matemática

Matemática

2

 

 

Total = 37

 

As questões fechadas, de múltipla escolha, do questionário permitiram quantificar informações importantes como a impressão que os entrevistados têm da aparência de um corpo de água (questões (01) e (03)) e sobre o que sabiam da relação existente entre esgoto e água (questões (04), (05), (06), (07), (09), (14), (15) e (16)). A questão aberta possibilitou compreender que características esses professores atribuem a uma água de boa qualidade.

Os dados obtidos sugerem que as dificuldades apresentadas por eles são principalmente provenientes da falta de incentivo para o conhecimento das questões ambientais locais, já que durante a atividade de divulgação científica houve uma participação efetiva de alguns deles e uma clara demonstração de interesse pelo tema. Lima (2003) apresenta a falta de promoção e de divulgação de atividades ou campanhas relacionadas ao ambiente figurando entre os principais motivos para uma pequena participação pública em tais atividades em prol da melhoria da qualidade ambiental.

Percebe-se, pela heterogeneidade das respostas, que uma parte dos professores ainda não despertou para o conhecimento das questões ambientais em seu entorno. Por outro lado, ficou clara a atenção e preocupação com o tema quando este foi discutido com a comunidade. Para Jacobi (2005) essa postura de dependência da população decorre principalmente da desinformação, da falta de consciência ambiental e de um déficit de práticas baseadas na participação e no envolvimento dos cidadãos na gestão do meio ambiente nas suas diversas dinâmicas.

Das 18 (dezoito) afirmativas, 05 (cinco) foram selecionadas por melhor representarem as idéias principais do questionário. Para a questão de número 3, referente à ausência de organismos patogênicos em água visualmente limpa, 86,50% dos entrevistados discordaram da afirmativa, evidenciando assim o conhecimento da maioria sobre existência de microorganismos na água. Esse conhecimento pode ser um reflexo de atividades de divulgação cientifica anteriormente realizadas na região sobre a qualidade microbiológica da água.

Dos entrevistados, 59,40% concordaram com a afirmativa de número 4, o que demonstra consciência da possibilidade de contaminação da água por esgoto produzido por eles próprios. Por outro lado, 70,30% utilizaram “não sei” ou “discordo” como resposta à questão 16, a qual se refere ao conhecimento do destino do esgoto da cidade.

Foi importante observar concordância por parte de 73% dos professores com a questão de número 13 (Participo ou desenvolvo ações para minimizar os problemas da água.), o que revela o comprometimento dessas pessoas com as questões ambientais relacionadas à água.

Com relação à afirmativa “Consumo uma água de boa qualidade no meu dia-a-dia”, questão de número 18, a resposta “não sei” foi predominante (51,40%), sugerindo um desconhecimento da qualidade da água fornecida na cidade. Ainda para esta questão 35,10% dos professores discordaram da afirmativa enquanto os outros 13,50% concordaram, indicando a existência de diferentes concepções sobre a qualidade da água para o consumo humano. Tal fato implica na necessidade de uma interferência mais efetiva no conhecimento sobre qualidade de água nessas comunidades, pois é sabido que, embora se reconheça a sua importância para sinalizar sobre a ocorrência de doenças de veiculação hídrica como as que causam diarréias, especialmente em crianças, ainda há pouca informação sobre as condições de saneamento e a incidência de doenças relacionadas à água em diversas comunidades brasileiras (BARCELLOS et al., 2006).

            Para a questão aberta do questionário, com o objetivo de verificar a concepção dos professores sobre características utilizadas para a identificação de uma água de boa qualidade, obteve-se uma porcentagem de 51,30% somando-se as questões em branco e as que tiveram “não sei” como resposta. 27% apresentaram “inodora, incolor e insípida” como resposta, 5,40% respondeu que água de boa qualidade é aquela “livre de microorganismos” e 16,30% deram respostas variadas representadas como “outros”.

            Observe-se que o conceito de água, provavelmente oriundo do livro didático, se confunde, para 27% dos entrevistados, com o conceito de qualidade de água, revelando uma confusão entre esses conceitos por falta de esclarecimento do que seja uma água de boa qualidade.

 

CONCLUSÕES

Com este estudo foi possível identificar o grande interesse das pessoas da comunidade sobre a qualidade da água local, a qual não é satisfatória. Isso remete à necessidade constante de se estar em contato com essas populações esclarecendo e contribuindo para melhores práticas higiênico-sanitárias e ambientais relacionadas à água.

            Entre os professores que participaram da pesquisa identificou-se, por um lado, uma abertura ao tipo de atividade de divulgação e formação desenvolvida na comunidade e nas escolas e, por outro, percebeu-se que, independente de terem escolaridade de nível superior, os participantes não dominam as questões referentes à qualidade de água e esgotamento sanitário. Apesar disso, as dificuldades apresentadas por eles pareceram provenientes da falta de incentivo para o conhecimento das questões ambientais locais. Isso implica na necessidade de uma interferência por meio de práticas de educação ambiental e de formação continuada em ciências, no sentido de amenizar essas dificuldades.

            Apesar de não saberem designar uma água de qualidade, os professores entrevistados expressaram um conhecimento acumulado sobre a qualidade microbiológica da água da Barragem Armando Ribeiro Gonçalves, o que pode refletir a utilização de conhecimentos adquiridos em atividades de educação ambiental e educação em saúde para esse grupo de pessoas, ou parte dele, em momentos anteriores.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Tendo em vista que as águas da Barragem Armando Ribeiro Gonçalves são utilizadas pela população para recreação, pesca e consumo doméstico, o comprometimento desse ambiente deve ser constantemente monitorado prevenindo possíveis prejuízos econômicos e sócio-culturais na região. 

A universidade pode ter um importante papel na troca de informações sobre as questões ambientais, nas propostas de atividades de educação ambiental e na formação de professores, inclusive em áreas rurais. Destacadas pela capacidade de inserção na sociedade, práticas como a divulgação científica figuram como ferramentas educativas primordiais, sobretudo para a grande parte do público que não esteve ou não está mais em contato com o ensino formal de ciências.

Nesse contexto, este trabalho tem um sentido de continuidade e permanência de ações junto às populações dos ambientes estudados na busca do fortalecimento da democracia e da formação de uma cidadania ambiental.

 

 

 

 

 

 

 


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ALBAGLI, S. Divulgação científica: informação científica para a cidadania? Ci. Inf., Brasília, v.25, n.3, set./dez. 1996, p. 396-404.

ALMEIDA, L. F. R.; BICUDO, L. R.; BORGES, G. L. A. Educação ambiental em praça pública: relato de experiência com oficinas pedagógicas. Ciência e Educação, v.10, n.1, 2004, p. 121-132.

ALMEIDA, M. T.; KURTZ DOS SANTOS, A. C. Um estudo com alunos do ensino fundamental de Rio Grande, sobre problemas sócio-ambientais no entorno da escola, tendo como base a modelagem semiquantitativa: resultados parciais. Revista Eletrônica do Mestrado em Educação Ambiental, FURG, 1999, p. 199-217.

ARAÚJO, M. I. O. A universidade e a formação de professores para a educação ambiental. Revista brasileira de educação ambiental, n.0, 2004, p. 71-78.

BARCELLOS, C. M.; ROCHA, M.; RODRIGUES, L.S.; COSTA C. C.; OLIVEIRA, P. R.; SILVA, I.J.; JESUS, E. F. M.; ROLIM, R. G. Avaliação da qualidade da água e percepção higiênico-sanitário na área rural de Lavras, Minas Gerais, Brasil, 1999-2000.

FAYARD, P. La sorpresa da Copérnico: el conocimento gira alredor del público. Alambique – didática de las Ciencias Experimentales, n.21, ano VI, 1999, p. 9-16.

FONSECA, Maria de Jesus da Conceição Ferreira. A biodiversidade e o desenvolvimento sustentável nas escolas do ensino médio de Belém (PA), Brasil. Educação e Pesquisa, São Paulo, v.33, n.1, jan./abr. 2007, p. 63-79.

GRYNSZPAN, D. Educação em saúde e educação ambiental: uma experiência integradora. Cad. Saúde Pública, v.15, suppl.2, 1999, p.S133-S138.

HIGUCHI, M. I. G.; AZEVEDO, G. C. Educação como processo na construção da cidadania ambiental. Revista brasileira de educação ambiental, n.0, 2004, p. 63-70.

JACOBI, P. Educação ambiental, cidadania e sustentabilidade. Cadernos de Pesquisa, n.118, mar. 2003, p. 189-206.

JACOBI, P. Educação ambiental: o desafio da construção de um pensamento crítico, complexo e reflexivo. Educação e Pesquisa, São Paulo, v.31, n.2, mai./ago. 2005, p. 233-250.

LIMA, R. T. Percepção ambiental e participação pública na gestão dos recursos hídricos: perfil dos moradores da cidade de São Carlos, SP (bacia hidrográfica do rio do Monjolinho). São Carlos: Universidade Federal de São Carlos. (Dissertação), 2003.

MACAGNAN, D. C.; NASCIMENTO JÚNIOR, A. F. Roleta ecológica: o lúdico no ensino da ecologia e educação ambiental. UNIPAR, 2006.

MARANDINO, M.; SILVEIRA, R. V. M.; CHELINI, M. J.; FERNANDES, A. B.; RACHID, V.; MARTINS, L. C.; LOURENÇO, M. F.; FERNANDES, J. A.; FLORENTINO, A. A educação não formal e a divulgação científica: o que pensa quem faz? Faculdade de educação da Universidade de São Paulo, São Paulo, 2004.

MARIN, A. A.; TORRES OLIVEIRA, H.; COMAR, V. A educação ambiental num contexto de complexidade do campo teórico da percepção. INCI., v.28, n.10, out./2003.

MATTAR, F. N. Pesquisa de marketing: metodologia, planejamento, execução e análise. 2.ed, v.2. São Paulo: Atlas, 1994..

RIO GRANDE DO NORTE. Instituto de Gestão das Águas do Rio Grande do Norte. Acesso em: 31 nov. 2007. Disponível em: <http://www.igarn.rn.gov.br>

SILVA, H. C. O que é divulgação científica? Ciência e Ensino, v.1, n.1, dez. 2006.

TOMAZELLO, M. G. C. e FERREIRA, T. R. C. Educação ambiental: que critérios adotar para avaliar a adequação pedagógica de seus projetos? Ciência e Educação, v.7, n.2, 2001, p. 199-207.

VALÉRIO, M. Os desafios da divulgação científica sob o olhar epistemológico de Gaston Bachelard. Associação Brasileira de Pesquisa em Educação em Ciências. Atlas do V EMPEC, n.5, 2005.

 

 


 
Início   |   Cadastre-se!   |   Procurar   |  Apresentação   |  Artigos   |  Dicas e Curiosidades   |  Reflexão   |  Textos de sensibilização   |  Dinâmicas   |  Dúvidas   |  Entrevistas   |  Saber do Fazer   |  Culinária   |  Arte e ambiente   |  Divulgação de Eventos   |  O que fazer para melhorar o meio ambiente   |  Sugestões bibliográficas   |  Educação   |  Você sabia que...   |  Plantas medicinais   |  Contribuições de Convidados/as   |  Trabalhos Enviados   |  Folclore   |  Breves Comunicações   |  Meio Ambiente e Experiência da Diferença   |  Educação Ambiental e Comunicação   |  Reportagem   |  Normas de Publicação   |  Práticas de Educação Ambiental   |  Colaboradores antigos   |  Soluções e Inovações