ISSN 1678-0701
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Artigos

No. 25 - 08/09/2008
A Educação Ambiental Aplicada nas Atividades de Controle da Transmissão da Dengue no Município de Jaru, RO
As falhas no processo de urbanização tem tido papel fundamental no agravamento dos índices de doenças transmitidas por vetores, pois a má disposição e a nova composição do lixo urbano forneceu novos ambientes aos vetores que passaram a contar com facilidades nunca antes observadas. [...]

A EDUCAÇÃO AMBIENTAL APLICADA NAS ATIVIDADES DE CONTROLE DA TRANSMISSÃO DA DENGUE NO MUNICÍPIO DE JARU-RO

 

 

 

 

Girlene Maria Ferreira1; Tathyana Rodrigues Leal Rocha2; Vera Lúcia da Silva3

 

 

 

1 Bióloga,discente do Curso de Especialização  em Gestão e Educação Ambiental – FARO. Professora da  rede de Ensino  do Estado de Rondônia.

2 Bióloga, discente do Curso de Especialização em Gestão e Educação Ambiental – FARO. Professora da rede de Ensino do Estado de Rondônia.

3 Bióloga, discente do Curso de Especialização em Gestão e Educação Ambiental – FARO. Funcionária da Divisão de Endemias/SEMUSAU-Jaru/RO e professora da rede  de ensino  do Estado de Rondônia.  E-mail: todabio@yahoo.com.br

 

 

 

RESUMO: As falhas no processo de urbanização tem tido papel fundamental  no agravamento dos índices de doenças transmitidas por vetores, pois a má disposição e a nova composição do lixo urbano forneceu novos ambientes  aos vetores  que  passaram a contar com facilidades nunca antes observadas. O díptera Aedes aegypti, transmissor da dengue no Brasil, é um vetor cujo controle está se tornando a cada ano mais difícil e um dos fatores relacionados à problemática está associada  à presença do lixo residencial nos quintais. O objetivo desta pesquisa foi  avaliar o impacto da campanha de educação ambiental no comportamento da população quanto à disposição do lixo doméstico e suas conseqüências nos índices de infestação predial pelo mosquito Ae. aegypti. A  campanha educativa foi realizada pela Divisão de Endemias SEMSAU/JARU-RO em parceria com  24 Agentes dos programas  PACS/PSF.

 

PALAVRAS-CHAVES: Educação ambiental; lixo; dengue; Aedes aegypti;  entomo-epidemiologia.

 

 

 

 

 

 

INTRODUÇÃO

 

A educação ambiental  como medida sócio-educativa para melhoria da qualidade ambiental foi introduzida no Brasil através da lei  4.771 de 15/07/1965 (Código Florestal Brasileiro), e passou a fazer parte das ações do Sistema Nacional de Meio Ambiente – SISNAMA,  através da lei 6.938 de 31/08/1981. A partir disso, foi criado o Programa Nacional de Educação Ambiental – PRONEA, uma parceria do Ministério do Meio Ambiente e Ministério da Educação, através da Lei 9.795 de 27/04/1999, regulamentando assim a as diretrizes e princípios da educação ambiental no Brasil.

O PRONEA, no seu art. 1º define educação ambiental como os processos por meio dos quais o indivíduo e a coletividade constroem valores sociais, conhecimentos, habilidades, atitudes e competências voltadas para a conservação do meio ambiente, bem de uso comum do povo, essencial à sadia qualidade de vida e sua sustentabilidade.

A qualidade ambiental para promoção da qualidade de vida da humanidade é um dos objetivos das diretrizes estabelecidas na Agenda 21 que, no  capítulo que trata da promoção do ensino, da conscientização e do treinamento,  cita:

 

“Ainda há muito pouca consciência da inter-relação  existente entre todas     as atividades humanas e o meio ambiente devido a insuficiência ou inexatidão de informações” (AGENDA 21, p 540).

 

Neste contexto, a educação ambiental está vinculada a todos os objetivos de proteção ao meio ambiente e desenvolvimento sustentável por ser  um mecanismo capaz de proporcionar  o aumento da consciência pública e, através do envolvimento da comunidade na busca por soluções para os problemas existentes, tem-se a possibilidade da construção de um senso pessoal de responsabilidade em relação ao meio ambiente e ao desenvolvimento sustentável ( AGENDA 21 , 1996).

Estudo realizado pelo Ministério do Meio Ambiente, 2002 (GEO BRASIL, p. 210,) confirma que os vetores de doenças que adaptaram seus locais de criação à nova composição do lixo urbano, rico em materiais ambientalmente persistente, como garrafas de plástico, de vidro, latas de alumínios e pneus, passaram a contar com facilidades nunca antes observadas, dificultando cada vez mais o controle de doenças transmissíveis, como a dengue.

A dengue é uma arborivose causada por um vírus da família Flaviviridae, Gênero Flavivírus com 4 sorotipos diferentes (Den-1, Den-2, Den-3 e Den-4), e a transmissão do vírus ao homem se dá através do mosquito do Gênero  Aedes, cuja espécie mais importante na transmissão é o Aedes (Stegomyia) aegypti (LINNEAU, 1762).  A fonte de infecção e reservatório vertebrado é o homem, sendo a única espécie em que ocorre o desenvolvimento clínico da infecção pelo vírus.

O mosquito Ae. aegypti foi introduzido no Brasil no século XIX e expandiu sua ocupação geográfica pelo território brasileiro graças às condições ambientais favoráveis à espécie. No ano de 1955 foi considerado erradicado do território nacional devido às intensas campanhas de combate ao mosquito iniciadas em 1903 por Oswaldo Cruz (Consoli & Lourenço de Oliveira, 1994). Porém, no ano de 1967 foi novamente verificada a presença do vetor no Brasil no estado do Maranhão, três décadas depois, foi confirmada a infestação do mosquito em todos os Estados brasileiros (MS,2001).

Até o final de século XX, o Ae. aegypti  foi o principal responsável pelas epidemias de febre amarela urbana que assolaram diversas áreas brasileiras e  a  participação do mosquito no ciclo de transmissão da dengue só foi confirmada em laboratório no ano de 1982, com a primeira epidemia desta arbovirose no Brasil  ocorrida no Estado de Roraima (MS,2001).

Atualmente, sabe-se que a grande disseminação do mosquito Aedes por todo Brasil, deve-se além das condições ambientais ideais,  também  está diretamente relacionada à  grande capacidade de reprodução do mosquito em criadouros artificiais que, associado ao crescimento desordenado dos centros urbanos nas últimas 4 décadas, à falta de saneamento básico entre outros problemas sócio-ambientais e administrativos, fizeram com que a densidade populacional desta espécie  crescesse em números alarmantes, apesar dos esforços e estratégias de  erradicação e controle vetorial implementadas pelo Ministério da Saúde.

Os fatores que atuam na dinâmica entomo-epidemiológica da transmissão da dengue  fazem parte de uma relação estreita entre saúde e meio ambiente no qual  verifica-se que o impacto negativo do homem sobre o meio ambiente está contribuindo negativamente para a manutenção e crescimento dos índices da doença (MMA/IBAMA, 2002), já que a maioria dos criadouros do mosquito Ae. Aegypti são todos os tipos de materiais descartados e mal armazenados e o principal problema é a deposição de lixo doméstico a céu aberto.

A principal estratégia para controle do vetor Ae. aegypti no Brasil tem sido  o uso intensivo de inseticidas, porém essa metodologia além de comprometer a qualidade ambiental, tem colocado em risco a saúde humana e de outros animais e, o alvo, o vetor, tem demonstrado em diversas regiões do Brasil, ser capaz de desenvolver resistência a diversos grupos químicos de inseticidas já utilizados (Carvalho et al, 2004). Este fato tem evidenciado a necessidade de outras metodologias que busquem formas alternativas de controle vetorial que não seja o uso de produtos químicos.

Muito já foi divulgado sobre os fatores envolvidos na epidemiologia da dengue e o papel da população como agente participativo no controle do vetor  Ae. Aegypti, porém nota-se que na prática a população ainda não corresponde com a devida participação para a redução dos índices vetoriais.

Diante desse fato, tem-se questionado que o problema da falta de participação comunitária possa  estar relacionado  a assimilação e compreensão das informações relativas ao dengue, cujo caráter não permanente de divulgação e na forma pela qual elas são elaboradas e passadas à população - fragmentadas, incompletas e, de modo predominante, por meios de comunicação de massa que impossibilitam a discussão e a possibilidade de eliminação de dúvidas, estejam gerando  uma compreensão parcial do problema e miscelânea de interpretações  (LenzI et al, 2000). 

Este trabalho baseou-se  na definição do PRONEA  para as práticas da educação ambiental  não-formal  que afirma:

 

“ A educação não formal são as práticas educativas voltadas para a sensibilização da coletividade sobre questões ambientais e à sua organização e participação na defesa da qualidade do meio ambiente” (LEI 9795, Art. 13º).

 

E, ainda, que o Ministério da Saúde, através das Normas Técnicas de Controle da Dengue, tem orientado  a adoção de atividades de informação, educação e comunicação  com o objetivo de promover a participação comunitária no saneamento domiciliar, eliminando assim possíveis criadouros do mosquito Ae. aegypti. (MS, 2001),  contribuindo ao mesmo tempo com a melhoria da qualidade ambiental.

Partindo destes princípios,  avaliou-se os dados epidemiológicos antes e depois da  campanha educativa realizada pela Divisão de Endemias/SEMSAU –Jaru/RO,  em parceria com os Agentes do programa PACS/PSF (Programa de Agente Comunitário de Saúde/ Programa  Saúde da Família), verificando os resultados obtidos através da aplicação da  metodologia de educação ambiental informal, levantando novas possibilidades de envolvimento comunitário na melhoria da qualidade ambiental e seus benefícios para questões que estão inter-relacionadas com o meio ambiente e que influem diretamente no complexo ciclo entomo-epidemiológico da dengue.

 

 

METODOLOGIA

 

O Município de Jaru possui 12.949 imóveis distribuídos em 13 setores e um total de 29.229 habitantes na área urbana. Todas as residências são bimestralmente visitadas pelos Guardas de Endemias da Divisão de Endemias da SEMSAU-JARU/RO, cujo objetivo é o levantamento do índice de infestação predial pelo mosquito Ae. Aegypti, tratamento e destruição dos criadouros. As informações obtidas através deste trabalho são armazenadas em banco de dados de informações – SISFAD, que pertence ao Programa Nacional de Controle da Dengue (PNCD/MS).

            Devido ao crescente número de casos de dengue no Município e ao agravamento do risco de transmissão da doença nos meses chuvosos, a Divisão de Endemias em parceria com a Secretaria Municipal de Saúde, realizou campanha de educação ambiental com a participação dos Agentes do PACS/PSF

            A campanha teve a participação de 24 Agentes do PACS/PSF e o período da ação de 07/12/2005 à 13/01/2006. a metodologia adotada na campanha foi o diálogo informativo aos moradores de cada residência visitada, sendo abordados os seguintes temas:

  1. Informações sobre as fases de vida do mosquito;
  2. Divulgação dos principais tipos de criadouros, ressaltando a grande importância do lixo doméstico para a densidade do vetor;
  3. Sensibilização para outros agravos de saúde e a contaminação ambiental provocadas pela deposição de lixo doméstico a céu aberto;
  4. Conscientização para a responsabilidade individual para o bem do meio ambiente e para a saúde coletiva.

Foram distribuídos sacos de lixo para veículos  e panfletos sobre a dengue e os principais criadouros de  seu vetor.

Todo o roteiro de visitação pelos setores do Município, bem como as atividades dos Agentes do PACS/PSF foi organizado pelo Sr. João Ferreira, servidor da Divisão de Endemias.

A pesquisa  foi realizada através de consulta ao banco de dados da Divisão de Endemias – SISFAD para levantamento do  índice de infestação predial pelo mosquito em todos os meses dos anos 2001, 2002, 2003, 2004 e 2005, bem como levantamento da freqüência dos depósitos infestados pelo vetor durante o período  citado.

Após a conclusão da campanha educativa junto à comunidade do Município, foram novamente coletados dados  registrados no SISFAD referentes ao IIP (Índice de Infestação Predial) e da freqüência de tipos de depósitos infestados nos meses de janeiro, fevereiro e março de 2006, com o objetivo de avaliar estatisticamente  o impacto da campanha.

 

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

 

No gráfico nº 01 tem-se o resultado da pesquisa referente aos criadouros predominantes do mosquito Ae. aegypti no Município de Jaru nos anos de 2001 à 2006, em que se verifica que  o lixo doméstico  representou mais de 36% dos criadouros em todos os anos avaliados, chegando a  47,25% no ano de 2005, evidenciando assim a estreita ligação entre  má destinação dos resíduos domésticos, seus impactos ambientais e a problemática vetorial da dengue.

                                   

 

Gráfico nº 1

Fonte: SISFAD/DIV. END./ SEMUSA-JARU/RO

 

É possível verificar ainda no gráfico nº 01, que os impactos da campanha educativa nos três meses posteriores a sua realização – janeiro, fevereiro e março/2006, foram positivos em relação à freqüência de lixo doméstico jogados a céu aberto nos quintais, pois a presença de larvas de Ae. aegypti nesses  criadouros apresentou uma redução de quase 20% em relação ao percentual acumulado durante todo o ano de 2005. Note-se ainda que  os demais tipos de criadouros mantiveram-se proporcionalmente nas mesmas freqüências do período anterior à campanha.

O Gráfico nº 2 mostra o comportamento do vetor no período de janeiro de 2001 até dezembro de 2005 quanto à freqüência de criadouros de Ae. aegypti  nas residências urbanas, confirmando que a sazonalidade vetorial apresenta variação populacional crescente que se inicia juntamente com o início do inverno – mês de outubro,  e decrescente  a partir do fim da estação chuvosa – maio. Este comportamento está relacionado à disponibilidade de água nos criadouros, o que possibilita a conclusão do ciclo biológico do vetor desde a fase de ovo até o adulto (Consoli & Lourenço de Oliveira, 1994).

Os resultados obtidos  referentes ao índice de infestação predial pelo mosquito Ae. aegypti, relacionam a informação de cada 100 residências visitadas pelos Agentes de Saúde da Divisão de Endemias ao percentual de residências que positivas para  larvas do mosquito.

                           Gráfico nº 2

Fonte: SISFAD/DIV. END./ SEMUSA-JARU/RO

 

O impacto da campanha educativa foi avaliado também em relação ao índice de infestação predial por Ae. aegypti ocorrido durante todo o ano de 2005 em relação aos 3 primeiros meses de  2006, período pós-campanha (Gráfico nº 3). Nota-se que nos meses referentes ao período chuvoso (janeiro,fevereiro,março e de outubro a dezembro/2005) o índice de infestação predial na área urbana do Município manteve-se acima de 5%, o que é considerado um fator de risco de epidemia (MS/2001). É possível observar que nos meses janeiro,fevereiro e março de 2006,  ocorre uma diminuição no índice de infestação predial, que apresentava-se em 9,49% em dezembro de 2005, reduzindo até  4,5% em março/2006, uma diminuição de quase 50% do índice entre o período anterior e posterior à campanha educativa e consequente exclusão do risco de epidemia por dengue em de Jaru.

 

 

 

 

 

 

 

 

Gráfico nº 3

FONTE: SISFAD/DIV. END./SEMUSA/JARU-RO

 

Segundo Maria Lúcia F. Penna, 2003, a dengue é hoje um  problema que diz respeito ao meio ambiente urbano e a efetividade do controle vetorial depende de uma cooperação efetiva entre  ações de restauração ambiental e saúde pública.

            Neste trabalho, todos os indicadores avaliados demonstram que a campanha educativa obteve um bom resultado junto à comunidade pois, a redução da freqüência de lixo doméstico com a presença de larvas de Ae. aegypti ,bem como a redução do índice de infestação predial pelo vetor, evidenciam a sensibilização da comunidade com relação à destinação correta do lixo, diminuindo os números de depósitos domésticos para a criação das larvas do mosquito e também contribuindo melhorando a qualidade do meio ambiente.

 

 

 

BIBLIOGRAFIA

 

Carvalho, M. S. L. Caldas, E. D. Degallier, N. Vilarinhos, P. T. R. Souza, L. C. K. R. Yoshizawa, M. A . C. Knox, M. B. Oliveira, C. Suscetibilidade de larvas de Aedes aegypti ao inseticida Temefós no Distrito Federal. Revista  de Saúde Pública. Vol. 38, nº 5. Rio de Janeiro, 2004.

 

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Consoli, R.A. G. B. Lourenço De Oliveira, R. Principais Mosquitos de Importância Sanitária no Brasil. Rio de Janeiro: Ed. FIOCRUZ, 1994.

 

Lei N° 4.771, de 15 de setembro de 1965. Código Florestal

 

Lei 6938 De 31/08/1981 .  Política Nacional do Meio Ambiente, seus Fins e Mecanismos de Formulação e Aplicação, e dá outras Providências.

 

Lei nº 9.795 de 27/04/1999. Programa Nacional de Educação ambiental. Diretoria de Educação Ambiental/MMA e Coordenação Geral de Educação Ambiental/MEC.

 

Lenzi, M. F. Camillo-Coura, L. Val, M. B. Do. Estudo do dengue em área urbana favelizada do Rio de Janeiro: considerações iniciais. Cad. Saúde Pública vol.16 n.3 Rio de Janeiro Julho/setembro. 2000.

 

Ministério da Saúde: Fundação Nacional de Saúde. Dengue Instruções Para Pessoal De Combate Ao Vetor: Manual De Normas Técnicas. 3º ed., rev. Brasília, 2001.

 

Ministério do Meio Ambiente: Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis. GEO BRASIL 2002 - Perspectivas do Meio Ambiente no Brasil. Brasília, 2002.

 

Penna, M. L. F. Um desafio para a saúde pública brasileira: o controle do dengue. Cad. Saúde Pública vol.19 no.1 Rio de Janeiro Jan/fev. 2003 


 
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