ISSN 1678-0701
Número 68, Ano XVIII.
Junho-Agosto/2019.
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Dinâmicas e recursos pedagógicos

No. 68 - 11/06/2019
A ÁRVORE-MÃE E A MOTOSSERRA  
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Liti Belinha Rhenheimer é natural de Gramado/RS, mas mora há tempos em Novo Hamburgo/RS. É escritora, professora e fundadora da Academia Literária do Vale dos Sinos (ALVALES). Ela também é minha amiga e minha professora de Alemão. Gut Lehrerin! Entre conversas, ela me falou sobre suas obras e sobre este roteiro, que escreveu nos seus primeiros tempos de professora, em 1962. Ela fez o roteiro e encenou-o com seus alunos. Fizeram várias apresentações! A atualidade da peça evidencia que Liti sempre foi uma pessoa muito à frente do seu tempo. Quando li a peça, me encantei. Mudanças de época não impedem, infelizmente, que esta obra seja mais atual do que nunca, em momentos em que a floresta está indefesa, sendo covardemente devastada. Valorizar a floresta é uma das mais nobres formas de reverenciar a vida. Parabéns, Liti! Bela peça! Bere Adams

Liti Belinha Rheinheimer - Fundadora da ALVALES/NH-RS

30 Anos




A ÁRVORE-MÃE E A MOTOSSERRA

Roteiro de peça teatral infanto-juvenil para jovens de 7 a 97 anos

Autora: Liti Belinha Rheinheimer



Personagens:

Peri, indiozinho de 10 a 12 anos

Jaguar, pessoa vestida como tal

Boi-tatá, pessoa vestida como tal

Leonardo, cientista

Cientista-chefe

Lenhador e índio

Alguns lenhadores-empregados

Pessoal de apoio: sonoplasta (luzes e sons), contrarregra, ponto, voz da árvore.



Objetos:

Arco e flecha, peixes (imitação), unguento(pomada verde), lanterna, aviãozinho, cabaça de coco, armas e facões de brinquedo, motosserra (imitação).





INTRODUÇÃO

Este roteiro de peça de teatro tem a intenção de ser alerta sobre o desmatamento irresponsável. Pode ser representado por atores humanos ou fantoches.

Numa linguagem lúdica e descontraída, a criança vê e sente o problema da destruição de uma árvore secular, pela falta de conscientização do valor de conservar árvores.

O Boi-tatá é um símbolo das lendas brasileiras. Ele é trazido para maior entretenimento das crianças, por ser da natureza destas gostar do mundo da fantasia, aceitá-lo como real. Usará vestimenta reluzente, com um grande rabo que arrasta, por simbolizar uma cobra. Boi, na linguagem indígena é cobra. Deverá vir acompanhado, se possível, de luzes e sons de raios.

O jaguar é o símbolo dos animais felinos brasileiros, muitas vezes desconhecido do público infantil da atualidade, por lhes serem apresentados, através da televisão, animais de outros países.

Portanto, através de linguagem simples, rindo, brincando, descontraindo, a criança se conscientizará da importância de preservar a natureza.



CENÁRIO:

No meio do palco estará uma árvore frondosa. A base será de tal forma grande que formará uma caverna. Alguns personagens esconder-se-ão ali no decorrer da ação da peça. A raizama que encobre a entrada deverá estar como que solta e será puxada por um contrarregra postado atrás da árvore, a cada vez que um dos personagens quiser entrar ou sair dela. Estas raízes deverão dar a ideia de abrirem sozinhas, como num passe de mágica.

A iluminação é importante. Caso não seja possível jogo de luzes de forma elétrica, pode-se usar uma lanterna.

Iª CENA

Peri (entra no palco, com arco e flecha, mas não nota a paisagem às suas costas) – Olá! O que temos aí? Onde estou? De onde saiu tanta gente? Pensei que estava numa floresta... (Talvez as crianças falem alguma coisa. O ator pode dialogar um pouco com elas. Vai depender a capacidade dele o quanto pode conversar com elas.).

Vocês sabem o que é uma floresta?... E uma aldeia de índios?... Pois eu nasci lá e meu nome é Peri.

Mas cresci depressa. Desde muito pequeno gostei de observar a natureza. Quando as flores abrem suas pétalas, fico encantado com a sua beleza e fico parado diante delas, olhando-as. Os insetos também merecem a minha atenção. Quando chegam perto de mim, zunindo ou pousando numa flor ou folha, eu os admiro. Quando os pássaros passam em bando, cantando entre as árvores, ergo os olhos, feliz, e os saúdo.

Amo a natureza, sou amigo dos animais e das plantas e gosto de novidades. Vocês devem estar perguntando: como ele sabe falar português? Pois, eu aprendi na escola. Hoje em dia, os índios também vão à escola.

Hoje saí a passear. Deixei a aldeia e entrei mata adentro. Encontrei tantas coisas bonitas, tantas plantas diferentes, animais estranhos. Segui para onde me mandaram meus olhos. A cada passo mais encantado fiquei com as novidades que encontrei.

(Pausa)

(Depois triste) - E me perdi. Não sei onde estou. Como vou voltar para minha oca? (Olha à volta e admira a paisagem que vê) - Que coisa fantástica! Um buraco enorme! Quadrado! E esta árvore grande que estende suas raízes sobre a rocha! Parecem braços a alcançar o fundo do buraco. (Peri olha maravilhado o que vê) - Que raizama! E parecem soltas. O que haverá por trás delas? (Ergue as raízes. Espia.)- Parece um corredor escuro!... Já sei!... Deve ser uma caverna! (Afasta as raízes que devem erguer-se. Aí aparece um jato de luz de dentro para fora, a fim de clarear um pouco a caverna, sem, no entanto, iluminar o jaguar.)- As raízes se ergueram! Parece que sabem que alguém entrou aqui. (Tateia as paredes.)- Ih! As paredes são úmidas!...

A voz do jaguar de dentro da árvore. – Alto! Quem vem lá?



(Peri se assusta e sai da caverna correndo.) (Neste momento, as raízes se fecham.)



Peri – Uhm!... Que susto! Ufa!(Senta-se um pouco para se acalmar.) - Vocês ouviram? Tem alguém lá dentro! Uhm!... Quem será? Bem... eu não sou medroso!(Levanta, faz pose, mostra os músculos dos braços) – Ou sou? (Corre e se esconde. Depois volta.) – Sou ou não sou? (Esconde-se de novo. Volta. Esconde-se, intercalando a última frase. Bom momento para o ator mostrar suas habilidades artísticas e fazer rir a platéia.) - Vou descobrir quem está lá dentro! É uma voz grossa e forte, vocês ouviram, né?... Vamos ver quem está lá?... (Volta à abertura.) - Ué?! As raízes tamparam novamente o buraco da entrada. (Abre as raízes que novamente se retraem.) Ué! Esta árvore é mágica! (Espia. Grita, apreensivo.) - Ei! Quem está lá??

A voz – Não se aproxime, senão vou devorá-lo!

Peri (medroso. Foge e volta.) - Mas quem é você? (Foge e volta.) Quem está aí? Não vejo ninguém.

Jaguar (arrastando-se para perto e sendo focalizado pela luz, sem sair ainda da caverna.) – Sou um jaguar. Recolhi-me aqui, porque estou ferido. Mas se você se aproximar mais, eu o comerei. Estou com fome. Há dias não como.

Peri – Por favor, não vou lhe fazer mal algum, mas também não quero ser comido por você. Meu nome é Peri e sou amigo dos animais.

Jaguar – Já ouvi falar de você, Peri. Dizem mesmo que você é amigo dos animais. Por isso, não gostaria de comê-lo. Mas, já disse, estou faminto.

Peri (retirando-se)- Espere um pouco! Já volto! (Sai do palco correndo.)

Jaguar – Ué?! O que este indiozinho vai fazer?... (Pausa) Ai! Ai! Estou ferido e com fome! Como vou ajudar a mim mesmo? Um bicho ferido na floresta é uma isca fácil de ser devorada.

Peri (retorna com um feixe de ervas e oferece ao animal na entrada da caverna.) – Pronto! Aí tem alguma coisa para comer!

Jaguar (meio sem jeito) – Sinto muito, Peri. Jaguar não come plantas, só carne.

Peri (desajeitado) – Oh! Eu não sabia. Desculpe. Carne é mais difícil de arranjar. (Coça a cabeça.) – Mas tentarei conseguir alguma coisa para você. (Sai)

Jaguar – Espere, menino. (Pausa) – Ele já se foi. Ouvi dizer que ele é amigo dos animais, mas não pensei que fosse tanto. (Ouve-se um ronco de avião.) – Ué? Que barulho esquisito é este? (Passa um aviãozinho que deve dar ideia de altitude) – Que coisa é esta? (Pausa) Tomara que o Peri traga alguma coisa para eu comer. Mas onde ele achará carne? Como fará? Não sei se ele é caçador. Tinha arco e flecha na mão, mas é tão jovem ainda.

Peri (Volta com peixes.) – E agora? Servem estes peixes?

Jaguar – Claro! Claro!(E faz de conta que os devora.)

(Aparecem na lateral do palco dois olhos luminosos que logo se retiram. É o Boi-tatá.)

Peri – E agora? Está contente, Jaguar? Ainda quer me comer?

Jaguar – Ainda estou com fome, mas acho que posso aguentá-la agora?

Peri – Onde é que você está ferido?

Jaguar – No lombo. Um índio mau atirou-me uma flecha.

Peri – Você ainda está com a flecha nas costas?

Jaguar – Sim, a ferida dói muito. Mal posso mover-me.

Peri – Espere, Jaguar. Vou retirá-la.

Jaguar – Não, não. Dói. (Peri e Jaguar dialogam sobre tirar a flecha e os fiascos do Jaguar, dizendo que dói até que, enfim, Peri retira a flecha e sai do palco correndo.)

Jaguar – Que vai fazer? Espere! Menino...(Peri não responde.) – Uhm!... Esse menino! Tão bom! Até parece bicho! (Ouve-se passos, galhos quebrando, vozes.)- Ui! Que barulho esquisito. Aí tem coisa! Vou me esconder! (Arrasta-se para o fundo da caverna, na escuridão. (Entram desbravadores, lenhadores, cientistas.)

Um dos lenhadores – Disseram que era por aqui que se encontra a Árvore-mãe. Mas não se vê nada de diferente. É tudo igual: mato e mais mato.

Lenhador Leonardo (pensativo) – Pensar que este é o último lugar do mundo, onde há matas, é coisa que dói na alma da gente.

Outro lenhador ou cientista – Convém procurarmos em outro lugar.

Um deles – Tem razão. Vamos! (Retiram-se pelo outro lado. Depois de uma pausa, o Jaguar reaparece.)

Jaguar – Vocês viram isto? E ouviram? Que gente mais esquisita! Que roupas estranhas! Nunca vi os índios vestidos deste jeito! Será que são de outro planeta? E que conversa estranha! Procuravam a Árvore-mãe. Que eu saiba, a Árvore-mãe é esta que me abriga. Ela até tem alma! Fala, pensa e se move. Por que a senhora não disse quem era? (Fala, olhando para a árvore que protege a entrada e cujas raízes se contraem, quando alguém entra na caverna.)

Árvore-mãe (movendo-se toda) – Não poderia fazer isso! Esses homens fariam mal para você e para mim ! E você sabe muito bem que eu abrigo aqueles que procuram refúgio a meus pés.

Jaguar – Oh! Sim! Muito obrigado, Árvore-mãe! Mas a senhora sabe por que eles a procuravam?

Voz da Árvore-mãe– Não! Não tenho a menor ideia!

Peri (entrando, contente) – Veja o que consegui: um unguento para curar suas feridas. E sabe quem me deu? O pajé. Ele foi muito bondoso. Permitiu que eu arrancasse folhas dos galhos de uma árvore medicinal. Deve ter doído um pouco para a árvore, mas ela aguentou firme. As árvores fazem qualquer sacrifício para nos ajudar, não é mesmo?

Jaguar – É, você tem razão. (E olha para a Árvore-mãe.)

Peri – Agora, saia desta toca! Quero colocar o remédio na sua ferida!

Jaguar – Estou com medo!

Peri – Ora, não me faça rir! Você é o bicho mais temido da floresta e diz que está com medo!

Jaguar – Um jaguar ferido não é temido.

Peri – Vamos! Saia daí!

Jaguar – Tem alguém aí para me machucar?

Peri – Não! Não tem ninguém. Só eu. (O jaguar aparece, com um pouco de medo.)

Peri – Agora, abaixe-se!

Jaguar (medroso) – Oh! Será que não vai doer? Estou com medo! Estou com medo! Vai doer! Vai doer! (Faz caretas , esconde-se.)

Peri – Ora, não seja medroso. Vamos lá! (Vai atrás dele, puxa-o de volta para o palco, segura-o. Finalmente, o jaguar abaixa-se e permite que Peri lhe coloque sobre o dorso o unguento de folhas.)

Jaguar (enquanto Peri lhe coloca o unguento.) – Sabe, aconteceu uma coisa estranha, antes de você chegar. Alguns homens esquisitos estiveram na frente da caverna há pouco.

Peri – Homens esquisitos? Estranhos? Estranhos como?

Jaguar – Com roupas estranhas e falas esquisitas. Não eram índios, disso tenho certeza. Conheço o jeito de vocês. Procuravam a Árvore-mãe, mas não sabiam que esta era ela.

Peri – O quê? Árvore-mãe? Não entendo você!

Jaguar – Ora, então você não sabe que esta árvore é considerada Árvore-mãe pelos animais desta floresta? Ela é a mais velha desta região e deu milhares de sementes. Ela é a mãe de muitas outras árvores que crescem por aqui.

Peri – Não, eu não sabia.



(Aparecem dois olhos luminosos que espiam do lado do palco.)(Peri continua falando) –



É por isso que ela parece mágica? Quando a gente quer entrar na caverna, ela levanta a raizama.

(Aparece o Boi-tatá, sem que os outros dois personagens o percebam, esgueirando-se num canto.)

Boi-tatá(para a plateia) – Psiu!... Não façam (Sai novamente.)

Jaguar – É que a Árvore-mãe sente, Peri, tem alma. Ela protege todos os bichos que se abrigam nesta caverna.

Peri – Não diga! Mas isto é maravilhoso! Preciso contar ao pajé! Venha junto comigo para confirmar o que vou dizer!

Jaguar – Você está louco?!... Não se lembra de que sou um jaguar? (Imita o rosnar do animal que pode ser real através de som mecânico.) Se eu chegar na aldeia, vai ser um alvoroço dos infernos! Nem pensar!

Peri – Oh! É mesmo! Tinha-me esquecido que você é um jaguar!

Jaguar – Posso ir junto com você até perto da aldeia, mas entrar lá nunca! Você me ajudou e eu sou seu amigo. Farei tudo que você quiser, menos me mostrar aos homens.

Peri – Oh! Que bom! Então venha!

Jaguar – Já me sinto melhor e acho que posso andar! Vamos devagarinho! (Saem.)

(Entra o Boi-tatá. Exibe-se. Caminha pavoneando-se. Luzes de intenso fulgor espalham-se pelo palco.)

Boi-tatá (para a plateia) – Sou o Boi-tatá e já estava enjoado de esperar esses dois saírem daí. Preciso me esconder! Sim! Preciso me esconder! Os homens civilizados já não acreditam em mim e só os índios e os caboclos me respeitam. E vocês, têm medo de mim ou não têm? (Certamente as crianças dirão que não. O ator poderá explorar esta cena. Por fim, ele se aproximará da caverna.) Vou me esconder na caverna da Árvore-mãe até que os tempos melhorem. (As raízes da árvore erguem-se e ele entra.)



(Aparecem os desbravadores e cientistas. Param e observam a Árvore-mãe.)



Um cientista – Olhem só que árvore magnífica! Esta poderia ser ela, vocês não acham? (Pausa, enquanto todos a observam.) – Mas há outras muito parecidas com ela. Como descobrir a verdadeira?

Leonardo – Acho que não é esta não! Vamos adiante! (Saem todos.)

Boi-tatá (Reaparecendo por entre as raízes.) –Vocês viram? E ouviram? Esses são os homens atuais! Que roupas esquisitas! E que falas! O que será que eles estão procurando? (Ouve-se o rosnar do jaguar.) Epa! Aí vem encrenca! Vou me esconder! (Entra na árvore.)



(Entra o Jaguar.)



Jaguar – Fui até perto da aldeia dos índios com o Peri. Ele é um amigão. Arranjou mais unguento para as minhas feridas (mostra uma cabaça de coco) e comida: uma suculenta paca que outro índio caçou. Uhm!... Ainda me lambo só de pensar! Como é bom a gente ter amigos de verdade! Agora vou para o meu esconderijozinho preferido até eu sarar! (Quer entrar na árvore, mas é detido por uma luz intensa que vem de dentro da caverna.)

Jaguar (retraindo-se) – Ui! Que é isto?!... Esta caverna sempre é escura! Como pode ter um jato de luz intenso assim tão de repente?! (As crianças certamente se manifestarão. Depende do ator contornar a situação) Aí tem coisa!(Dirigindo-se à árvore.) Como se explica isto, senhora?

Voz da Árvore-mãe – Nada posso fazer, meu amigo. A caverna já está ocupada.

Jaguar – Ocupada?! Mas como? E por quem?... E eu? Onde vou me abrigar até ficar curado?

Árvore-mãe – Sinto muito, mas parece que o outro ser não quer companhia.

Jaguar – Ora, dona árvore, quem é o atrevido que entrou aí e que tem esta luz intensa e que se arroga o direito de roubar a minha caverna?

Boi-tatá (Aparecendo, raivoso, entre coriscos e raios.) – Quem me chamou de atrevido?

Jaguar (Assusta-se e retrai-se incialmente. Depois fala em tom alto.) – Fui eu, o Jaguar.

Boi-tatá – Pois fique sabendo que não tenho medo de você como os outros bichos. Sou um fantasma, um ser sobrenatural e tu deves ter medo de mim.

Jaguar (Fingindo coragem.) – E quem é você, que mal pergunte?

Boi-tatá (Dá uma volta pelo palco, exibe-se, fala pomposo. Depois, volta para a boca da caverna.) – Sou o Boi-tatá, temido pelos bichos e pelos homens, pois me alimento dos olhos de minhas vítimas. Grrrr!!!(Faz menção de atacá-lo.)

Jaguar (Arrogante.) – Pois saiba que não tenho medo de você. Não serei uma de suas vítimas. E prepare-se, porque vou devorá-lo! (Tenta avançar sobre o Boi-tatá.)

Boi-tatá (esgueirando-se e rindo) – Devorar a mim??... (Ri mais alto.) Diz-me como, se sou feito de fogo?... Vais engolir fogo?...

Jaguar (Para a platéia.) – Bem... não havia pensado nisto. O que vou fazer? Crianças, ajudem-me a pensar! - (Para o Boi-tatá.) – É claro que não vou engolir fogo. Deve haver outra maneira de vencê-lo.

Boi-tatá (Orgulhoso, rindo.) – Qual?... Qual?...

Jaguar – Não sei, mas vou pensar. Preciso desta caverna para me proteger e você roubou o meu lugar. Saia daí!

Boi-tatá – Eu também preciso desta caverna! Já estou dentro dela e não vou sair!



(Entra o Peri, assustado.)



Peri – Jaguar! Jaguar! Preci...Ué?! Que está fazendo fora da caverna? (Vendo o Boi-tatá.) E que coisa esquisita é esta, toda cheia de luzes?

Jaguar – Ééé...

Boi-tatá (Interrompendo.) – Coisa esquisita, perdão indiozinho, meu nome é Boi-tatá e sou muito respeitado, ouviu?

Peri – Ah! Você é o Boi-tatá, aquele que na lenda indígena era uma cobra, a Boiguaçu? Ela comeu os olhos dos bichos mortos e depois comeu os dos vivos. Por isso, ficou reluzente deste jeito?

Boi-tatá – Esse mesmo, às suas ordens.

Jaguar – Pois é. E este Boi-tatá reluzente tomou conta da minha caverna e não quer sair.

Boi-tatá – Esta caverna é minha! Daqui ninguém vai me tirar!

Peri – Não é sua, nem dele! É de todos os animais, não é Dona Árvore?

Voz da Árvore-mãe – É, o indiozinho está com a razão.

Peri – Portanto, nenhum de vocês dois pode se arrogar o direito de ser o dono da caverna. (Ouve-se barulho de gente falando, passos, machados que abrem caminho.) (Os três escutam, apreensivos.) Escondam-se!... Aí vem coisa desconhecida!

Boi-tatá – Na minha caverna ninguém entra! (Raios e coriscos.)(Entra na caverna.)

Peri – Vamos nos esconder atrás da Árvore-mãe, Jaguar! (Escondem-se.)



(Os cientistas e desbravadores entram, mas só passam conversando, abrindo caminho, sem se deter. Podem até andar na plateia em busca do seu objetivo.)(Depois que eles saem, Peri e Jaguar retornam.)



Jaguar – Não lhe falei, Peri? São os mesmos homens que vi da outra vez. Não são esquisitos?

Peri – Sim, são esquisitos! Mas não são de outro planeta! São apenas homens. Mas o que será que eles querem por estas matas?

Jaguar – Não tenho a menor ideia. Mas isto também não me preocupa. O que me preocupa é como tirar o Boi-tatá da minha caverna!

Peri – Vamos pensar! (Sentam-se sobre uma pedra, em atitude de reflexão. Levantam-se e interpelam o público.) O que vocês acham? Ajudem-nos, crianças! (Neste momento poderá haver um bom contato com a platéia, dependendo da habilidade dos personagens. Se nada de importante surgir, Peri falará, triunfante) – Já sei!!! Boi-tatá é fogo! E fogo se apaga com água! Vamos ameaçá-lo com água!

Jaguar (Cético.) – Será que vai dar certo?

Peri – Claro! Queres ver? (Aproxima-se da entrada da caverna. Chama.) Boi-tatá! Ô Boi-tatá! (Luzes acendem-se e apagam dentro da caverna.) Ele não sai!

Boi-tatá (De dentro da caverna.) – Que é? Que querem vocês?

Peri – Nós queremos fazer-lhe uma proposta.

Boi-tatá – Ora essa, menino! Que proposta tens a fazer?

Peri – Você e o Jaguar podem morar juntos na caverna.

Boi-tatá – Que proposta mais absurda! Eu entrei na caverna primeiro e não quero companhia. Portanto, nada feito!

Peri – Se é assim, vamos ter de lutar contra você.

Boi-tatá – Lutar? Lutar? Hi! Hi! Hó! Hó! (Ri muito.) Que engraçado! E como pensam vocês lutar contra um Boi-tatá?

Peri – Muito simples: vamos apagá-lo.

Boi-tatá (Parando de rir.) – Apagar-me?... E como farão isso?

Peri – Jogaremos água contra você. Jogaremos tanta água que você apagará.

Boi-tatá (Aparecendo, humilde, apagado, juntando as mãos.) – Por favor, água não! Aceito a proposta de vocês. O Jaguar pode morar comigo. Pode entrar, Jaguar!

Jaguar – Será que se pode confiar nele?

Peri – Como saberemos que podemos confiar em você, Boi-tatá?

Boi-tatá – Dou-lhes minha palavra de honra!

Jaguar – Palavra de honra? E isto basta?

Boi-tatá – Claro que sim! O Boi-tatá é um ser muito antigo e os antigos cumpriam com a sua palavra de honra.

Peri – É, ele tem razão. Pode confiar. (Ouve-se novamente barulho de gente chegando.) Ei! Parece que vem gente aí!

Boi-tatá – Venham! Vamos todos entrar na caverna! A Árvore-mãe nos protegerá! (Escondem-se na caverna. Entram os lenhadores com um índio.)

Índio – A Árvore-mãe é esta, a mais velha árvore da nossa floresta e aquela que deu origem a todas as outras árvores da mesma espécie.

Cientista-chefe – E as sementes dela encontram-se onde?

Índio – No topo de seus galhos mais altos!

Um lenhador – Eu já desconfiava! E como vamos chegar lá?

Lenhador – Talvez precisemos cortá-la, porque não há como subir nela.

Leonardo – Ah! Isso não!

Outro lenhador – E por que não?

Leonardo – Seria um crime cortar esta árvore centenária. Ela deve ter crescido algumas centenas de anos para ficar deste tamanho.

Lenhador – Mas é velha e pode ser derrubada. Há tantas outras por aí.

Leonardo – Não! Nunca!

Cientista-chefe – Prefere então que a nossa civilização fique sem as sementes?

Leonardo – Não! Mas penso que deve haver outra maneira de solucionar o problema, não sendo necessário cortar a árvore.

Cientista-chefe – Como vai logo anoitecer, sugiro que esperemos até amanhã e estudemos o caso. Voltemos ao acampamento para pensar e descansar. (Saem alguns.)

Leonardo – Vou ficar um pouco mais ao lado da árvore para pensar.

Cientista-chefe – Está bem, mas não se demore, senão ficará sem janta. (Saem todos, menos Leonardo.)

Leonardo (Triste.) – Eu sabia desde o começo que esta era a Árvore-mãe, mas procurei despistar os homens, afastá-los para bem longe daqui. Não consegui. E agora? Estamos aí! Prontos para arrancar desta velha senhora as suas sementes. E como vamos fazer isto? A árvore é enorme e é quase impossível subir por ela. Meus companheiros, homens do segundo milênio, têm soluções rápidas e egoístas: cortar a árvore.

Foi por essa razão que a região de onde eu venho quase se transformou num deserto. Há cinquenta anos atrás florestas enormes esverdeavam o solo, mas vieram os homens civilizados – que de civilizados só têm o nome – e cortaram uma a uma todas as árvores que encontravam. A floresta era a despensa da casa deles. Quando precisavam de madeira, lá iam eles para a floresta cortar árvores. Não lembram que as árvores são como nós, seres vivos



(Sem que Leonardo perceba, os três, que estão na caverna, aproximam-se da boca da entrada e espiam. Escutam a conversa. Leonardo pode ir para a plateia e conversar com as crianças, explicando o mal que os seres humanos podem fazer, destruindo as matas.)



As árvores diminuíram, a chuva veio pouca e os rios secaram. Hoje, quase não chove por lá. Às vezes, passam-se quase dois anos sem chover. A terra fica seca, tórrida, não há água nem para beber. Hoje, a maioria dos homens sabe que os índios é que estavam certos, porque não cortavam as árvores, não destruíam a mata, nem a terra por ela protegida.

(Peri bate palmas. Boi-tatá e Jaguar escondem-se depressa, indo mais para o fundo da caverna. Leonardo assusta-se.)



Peri – Bravo! Bravo! Gostei de ouvir o seu elogio para os índios!

Leonardo – Ué! Quem é você e de onde saiu assim de repente?

Peri – Meu nome é Peri e sou amigo dos animais e das plantas.

Leonardo – Vejo que é um indiozinho. Peri é seu nome?

Peri – Peri para o servir.

Leonardo (Oferecendo-lhe a mão em sinal de amizade.) – Muito prazer, amigo. Meu nome é Leonardo.

Peri – Não posso dizer o mesmo, pois não estou tão contente em vê-lo quanto o senhor em ver a mim. Digo isso, porque não gostei de ouvir o que o senhor e seus amigos falavam sobre a Árvore-mãe. Vocês pretendem mesmo cortá-la?

(Ouve-se um choro prolongado.)

Leonardo – Quem é que está chorando?

Peri – É ela.

Leonardo – Ela quem?

Peri – A Árvore-mãe, ora!

Leonardo – Como? Não entendo. Árvore não chora.

Peri – Chora, sim, só que vocês não as ouvem, porque têm o coração duro como pedra.

Leonardo – Mas como é que eu estou ouvindo, agora?

Peri – Deve ser por que o senhor luta por ela e tem mais sentimento que os outros homens. (A árvore para de chorar. Aparece o Jaguar, mas Peri e Leonardo não o vêem logo.)

Leonardo – Será mesmo?

Jaguar – É, sim.

Leonardo (Assustando-se.) – Ui! Que é isto? Um jaguar! Socorro!!! (Quer fugir. Peri segura-o.)

Peri – Não tenha medo! Ele não lhe fará mal. Ele é meu amigo. Não é mesmo, Jaguar?

Jaguar – É claro. Não maltrato ninguém que esteja perto do Peri.

Leonardo – Acho que estou ficando doido, sozinho na floresta. Ouço árvores chorando e animais falando. Preciso voltar para junto de meus companheiros. (Quer sair, mas Peri o detém.)

Peri – Espere aí! Não precisa ter medo de nós! Você é um herói, ou melhor, será.

Leonardo – Herói? Eu? Por quê?

Peri – Por que você é aquela pessoa que não quer cortar a árvore e deve lutar por ela.

Leonardo – Isto é verdade. Mas o que vou fazer?

Peri – Escute: nós somos três amigos e eu e o Jaguar temos mais um. Nós seremos quatro amigos a lutar pela sobrevivência da árvore. Você topa? (Estende-lhe a mão.)

Leonardo (Estende-lhe a mão.) – Topo!... (Pausa.) Mas onde está e quem é o outro amigo?

Peri (Titubeando) – É um amigo um pouco esquisito, mas mesmo assim é um amigo e garanto que podemos contar com ele para a luta.

Boi-tatá (Aparecendo.) – Estão falando de mim?

Leonardo (Assustado.) – Ui! Que horror! Que coisa horrorosa é esta?

Boi-tatá – Coisa horrorosa uma ova! Como o senhor é mal-educado! Saiba que eu sou o Boi-tatá, temido pelos bichos e pelos homens, e exijo que me respeite!

Leonardo (Assustado ainda.) – Desculpe!!... Desculpe!!... Mas o senhor é diferente de tudo que eu conheço.

Boi-tatá – E o senhor queria que eu fosse parecido com um bicho feio como você?

Leonardo – Eu? Feio? Mas eu não sou feio!

Boi-tatá – Então é só você que se acha bonito com esses braços compridos e essas pernas que parecem dois paus segurando um pedaço de carne sobre eles.

Peri – Boi-tatá, Boi-tatá, acalme-se, por favor. Nós temos problemas muito mais graves a resolver.

Boi-tatá – Problema? Então não contem comigo! (Volta para dentro da caverna.)

Peri (Falando para dentro da caverna.) – Boi-tatá, Boi-tatá, você vai ajudar ou não? (Raios e coriscos e um grito de NÃO em alta voz pelo Boi-tatá.) – Quer que eu busque água para apagá-lo?

Boi-tatá (Surgindo, sorridente.) – Oh, não! Não!Água não!Vou ajudá-los! Qual é o plano?

Peri (Para o Jaguar.) – Qual é o plano?

Jaguar (Para o Leonardo.) – Qual é o plano?

Leonardo (Para o Peri.) – Qual é o plano?

Peri (Para todos.) – Não há plano ainda. Vamos por a cabeça a funcionar. Primeiro: que queremos?

Jaguar – Salvar a Árvore-mãe.

Peri – Segundo: de quê?

Leonardo – Dos homens que querem cortá-la.

Peri – Terceiro: como?

Boi-tatá – Não sei. Não sei.

Peri – Vamos pensar. (Sentam-se todos num instante de pausa e pensam. Neste momento, os atores podem explorar, cada qual a sua maneira, formas de incentivar a plateia a participar com ideias.)

Leonardo (Num ímpeto.) – Já sei! Já sei! Puxa vida! Como não pensei nisto antes?

Peri – Diga! Vamos!

Leonardo – Vou dizer aos homens que façam uma grande escada. Depois, subam até certa altura. Em seguida, podem colocar pinos como os dos escaladores de montanhas. Aí, poderão subir até aos galhos mais altos, onde encontrarão as sementes. Que vocês acham?

Jaguar – Muito boa ideia.

Boi-tatá – Ótima ideia!

Peri – A ideia é muito boa mesmo, mas você vai conseguir convencê-los?

Leonardo – Acho que sim.

Peri – Você tem de conseguir!

Leonardo – Vou voltar logo para o acampamento e falar com os homens.

Peri – Está bem. Faça isso. Qualquer problema, nós estaremos aqui para ajudá-lo.

Leonardo – Obrigado, amigos. (Aperta-lhes as mãos e se retira.) Obrigado e até amanhã.



(A cena escurece devagarinho.)



Boi-tatá – Como tudo está resolvido e a noite vem chegando, vou voltar ao meu esconderijo para descansar. (Vai entrando na caverna.)

Jaguar – E eu também. Só espero que você, Boi-tatá, apague as suas luzes. (Também entra.)

Boi-tatá (Aparecendo só a cabeça.) – Quando durmo, sou todo apagado.

Peri – E eu vou para minha oca. Até amanhã.(Retira-se.)

Jaguar e Boi-tatá – Até amanhã. (Desaparecem na caverna, cuja entrada é fechada pelas raízes da árvore.)



(Escurece a cena. Ouvem-se barulhos da noite na floresta: coaxar de rãs, pios de corujas, etc.)

IIª CENA

(O cenário clareia aos poucos. Pássaros chilreiam, anunciando a manhã. Ainda na cena um pouco obscura, aparece o Leonardo e chama pelos companheiros.)



Boi-tatá (Aparece na caverna, esfregando os olhos e iluminando toda a cena) – Que é? Quem está perturbando o meu sono?

Leonardo (Afobado) – Sou eu, Boi-tatá, sou eu. O plano não deu certo. Os meus companheiros não aceitaram a minha ideia. Para eles é mais fácil cortar a árvore. Que vamos fazer?

Boi-tatá – Pois eu também não sei. É melhor chamar o Peri.

Leonardo – Então vai logo!

Boi-tatá – Mas eu não posso. Toda a aldeia dos índios ficaria horrorizada, se eu aparecesse por lá. Vamos mandar o Jaguar. (Chamando para dentro da caverna.)- Jaguar! Ô Jaguar! Acorde depressa!

Jaguar (Aparecendo, sonolento) – O que foi? Que aconteceu?

Leonardo – Os homens, Jaguar, os homens não aceitaram a minha ideia. Querem cortar a árvore, porque dá menos trabalho. Precisamos chamar o Peri.

Jaguar – Eu vou buscá-lo. Podem deixar comigo. Vou e volto logo. Trarei o Peri nas minhas costas. (Sai depressa.)

Leonardo – Os homens virão para cá depois do café da manhã. Trarão uma motosserra. Já fizeram os cálculos. Para cortar com a motosserra, levarão apenas alguns minutos e todas as sementes logo estarão no chão. Para fazer as escadas levarão dias. Muitos homens teriam que subir à árvore e apanhar as sementes. Isto daria trabalho e levaria muito tempo.

Boi-tatá – Uhm!...como estes seus companheiros são imediatistas! Querem que tudo corra depressa, o mais ligeiro possível. Isto me dá uma ideia. Vou fazê-los correr também, correr o mais depressa possível. (Ri.) – Imaginem como correrão de um Boi-tatá!

Leonardo (Desolado) – Não adianta, Boi-tatá. Eles não terão medo de você. Eles não acreditam em Boi-tatás.

Boi-tatá – Ah! É? E você acredita?

Leonardo – Eu não acreditava... até que conheci você.

Boi-tatá – E agora que me conhece, tem medo de mim ou não tem?

Leonardo – Ora, Boi-tatá, você sabe que não. Você não me inspira medo, você me inspira amizade.

Boi-tatá (Soltando faíscas.) – Mas e quando você me viu pela primeira vez?

Leonardo – Ah! Aí sim! Da primeira vez, tive medo de você.

Boi-tatá (Ri feliz. Entram o Jaguar e o Peri.)

Peri – Eis-me aqui. Durante a viagem o Jaguar contou-me tudo e eu já bolei um plano de ação. Cheguem mais perto. (Unem-se as cabeças e cochicham.) (Depois de algum tempo, erguem as cabeças e Peri comanda.) Muito bem. Todos a seus postos. (O Jaguar esconde-se na caverna. Boi-tatá e Peri escondem-se no palco, um à esquerda e outro à direita da plateia. Leonardo fica em cena.)

Boi-tatá (Para a plateia) – Crianças, vocês ainda me vêem? (As crianças dizem sim ou não e ele se ajeita até que elas digam não. É um momento para o personagem dialogar com a platéia e conquistá-los. Depois de se ter escondido, reaparece.) Quando os homens vierem, fiquem bem quietinhos, tá? Se for preciso, darei um sustão nestes caras.

(Aparecem os cientistas e os lenhadores. Um traz uma motosserra e outros estão armados de facões, foices, armas de fogo (de brinquedo, é claro.))



Cientista-chefe – Ué, Leonardo, tão cedo aqui?

Leonardo – Sim, chefe. Vim proteger a árvore.

Cientista-chefe – Proteger? Proteger de quê?

Leonardo – De nós mesmos.

Cientista-chefe – Como assim? Que quer dizer?

Leonardo – Quero dizer que o senhor não deve permitir o corte desta árvore! Então o senhor não percebe que vai destruir em poucos minutos o que a Natureza levou quase mil anos para construir?

Cientista-chefe – Ora, Leonardo, eu já perdi tempo demais com as suas baboseiras. Saia da frente!

Leonardo – Por favor, senhor, pense antes de agir!

Cientista-chefe – O quê? Está me chamando de irracional?

Leonardo – Não é isto, mas...

Cientista-chefe (Interrompe-o, empurrando-o para o lado e ordenando a um dos acompanhantes que carrega a motosserra.) – Vamos, rapaz! Encoste a motosserra na árvore e comece a cortar. Há tantas árvores por aqui. Que diferença faz uma a mais ou uma a menos?

Leonardo (Grita.) – Agora, Boi-tatá!



(Aparece o Boi-tatá numa dança frenética, agitado, soltando fogos e raios para todos os lados e uivando loucamente.)(Alguns homens se assustam e fogem.)



Cientista-chefe – Mas que diabos é isto agora? Deram para fazer besteiras! Isto é algum bicho do mato?... Atirem!... Vamos!... Fogo!...



(Alguns homens atiram, mas o Boi-tatá se agita mais e mais, fazendo com que os homens corram assustados. Deve haver bastante ação nesta cena. Cada personagem pode criar a sua forma de reagir ao susto.)



Cientista-chefe (Chama e grita mais com seus acompanhantes.) – Voltem, seus medrosos! Voltem aqui! Atirem mais! (É o único que não se assusta com o Boi-tatá.)



(Quando o Boi-tatá percebe que todos se assustaram bastante e fugiram da cena, ele desaparece rapidamente. Apenas Leonardo e o Cientista-chefe permanecem em cena.)



Cientista-chefe (Para o Leonardo que se mantivera calmo.) – Que bobagem foi esta agora? Você inventou este troço para os meus homens fugirem?

Leonardo – São os espíritos da floresta, protegendo a sua árvore.

Cientista-chefe – Conversa! Espíritos da floresta não existem!

Leonardo – E o que foi que o senhor viu, então?

Cientista-chefe – Não sei, não sei. Você armou este susto. Onde se meteram aqueles medrosos?

Leonardo – Fugiram, claro!

Cientista-chefe (Vai para o lado da cena e chama.) – Voltem, seus medrosos! (Os homens retornam um a um, temerosos.) Vamos!... (Dirige-se àquele que tem a motosserra na mão.) Vamos! Encoste logo esta motosserra na árvore! Acabe com ela! (O homem aproxima-se com a motosserra, mas ouve-se o urro do Jaguar que aparece da caverna e todos se põem a correr. Até o Cientista-chefe quer fugir, mas Leonardo o detém.)

Leonardo – Vai dizer que este jaguar também não existe??

Cientista-chefe (Tremendo) – Existe, sim, mas o que este bicho quer?

Leonardo – Somente proteger a sua árvore.

Cientista-chefe – Quer dizer que ele não vai me devorar?

Leonardo – Não... se o senhor poupar a árvore dele.



(Aparece Peri.)



Peri – Calma, Jaguar, calma.

Cientista-chefe – Tirem esta fera daqui!

Peri – Ela não vai lhe fazer mal. Ela só quer salvar a sua árvore.

Cientista-chefe – Está bem. Está bem.

Leonardo – Está bem, o quê? O senhor vai ou não cortar a árvore?

Cientista-chefe – Não, é claro! Vocês não me deixariam, não é?

Peri, Jaguar e Boi-tatá – Ééééé.

Leonardo – E como vai resolver o problema das sementes?

Cientista-chefe – Vou fazer como você sugeriu ontem: colocar escadas, subir por elas e tirar as sementes sem danificar a árvore.

Leonardo – Vai mesmo? Então, chame os seus homens e lhes dê as ordens agora!

Peri, Jaguar e Boi-tatá – Bravos!

Cientista-chefe – Ora, seu... seu... traidor. Você se juntou aos espíritos da floresta, aos animais e a este indiozinho para nos trair?!

Leonardo – É verdade, mas prefiro ser um traidor por uma causa justa a ser um colaborador de uma causa errada.

Peri – Você falou bem, Leonardo.

Boi-tatá (Reaparecendo.) – Então, chame os seus homens e lhes dê as ordens certas agora, senhor comandante destes homens!

Cientista-chefe (Espantado.) – Está bem! Está bem! Se até os espíritos me aparecem, é porque devo estar errado mesmo. Desculpem e obrigado por me abrirem os olhos! (Chama os empregados que entram mais assustados que antes.) Entrem! Entrem! Podem entrar sem medo! Um espírito da floresta, um animal, um índio e um dos nossos homens ainda acreditaram no valor de uma árvore e lutaram para conservá-la em pé. Não vamos mais cortá-la! Vamos por em prática a ideia do nosso amigo Leonardo. Teremos assim as nossas sementes e a árvore permanecerá de pé. Teremos um pouco mais de trabalho, é verdade, mas preservaremos o que a Natureza levou centenas de anos para construir. (Põe a mão sobre o ombro de Leonardo e agradece. Ouve-se um riso de alegria e uma canção que fala de árvores.)

Cientista-chefe – Ué? Quem está rindo e cantando?

Peri – É ela.

Cientista-chefe – Ela quem?

Leonardo – A árvore, ora. Ela está feliz com o que acaba de acontecer. Não sabemos quantos anos ela já viveu, talvez esteja próxima dos mil anos, por isso é tão grande a sua raizama, podendo até formar uma caverna.

Um lenhador – Ainda bem que você lutou por ela. Quase nós fazíamos mais uma besteira: cortar mais uma árvores velha. Já há tanta gente fazendo o mesmo, sem pensar, só para ganhar dinheiro. Somos muito imediatistas, temos pressa, sempre queremos fazer tudo rapidinho, mas, às vezes, é preciso ter um pouco de paciência. Dou meus parabéns para você, Leonardo, e você, Peri, e você, Jaguar.

Boi-tatá – E eu? Não vou ganhar parabéns?

Cientista-chefe – Vai, Boi-tatá, vai. (Bate nas costas dele, em sinal de agrado.)

Peri – E, agora, que estamos todos contentes, felizes e satisfeitos, quem mais quer falar?

Lenhador (que empunha a motosserra.) – Eu. Quero dizer que aprendi uma lição, hoje. A partir deste dia, vou cuidar mais onde vou colocar esta motosserra. Ela é uma arma perigosa, criminosa. Pode destruir em poucos minutos uma árvore que a Natureza levou centenas de anos para construir. Acho que as árvores ficam tremendo de medo, quando veem esta arma. Coitadas! A motosserra é para as árvores o que o revólver é para os homens. Ela mata a árvore tão depressa como o revólver mata uma pessoa. Vou tomar cuidado! (Ergue a motosserra e mostra-a à plateia.)



(Pano fecha lentamente.)

FIM

Contato com a autora:

Liti Belinha Rheinheimer litibelinha@gmail.com







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