ISSN 1678-0701
Número 61, Ano XVI.
Setembro-Novembro/2017.
Números anteriores 
Início      Cadastre-se!      Procurar      Submeter artigo      Fazer doação      Contato     Apresentação     I Prêmio Educação Ambiental em Ação     Normas de Publicação     Artigos     Dicas e Curiosidades     Reflexão     Para sensibilizar     Dinâmicas e recursos pedagógicos     Entrevistas     Saber do Fazer     Culinária     Arte e ambiente     Sugestões bibliográficas     Educação     Contribuições de Convidados/as     Folclore     Práticas de Educação Ambiental     Sementes     Educação e temas emergentes     Ações e projetos inspiradores     Logística Reversa     Gestão Ambiental     Cidadania Ambiental     Relatos de Experiências     Notícias
Reflexão

11/09/2017A ESCOLA PRECISA FAZER SENTIDO PARA O ALUNO  
Link permanente: http://www.revistaea.org/artigo.php?idartigo=2838 
" data-layout="standard" data-action="like" data-show-faces="true" data-share="true">

A ESCOLA PRECISA FAZER SENTIDO PARA O ALUNO

 

Juliano Tatsch

 

 

Para Priscila Cruz, do Todos pela Educação, modelo atual é ultrapassado

 

À frente do movimento Todos pela Educação, a mestra em Administração Pública pela Harvard Kennedy School of Government Priscila Cruz aponta o déficit educacional histórico do País como um ponto nevrálgico a ser superado para que os indicadores no Brasil avancem. Nesta entrevista ao Jornal do Comércio, a presidente executiva da entidade aponta o subfinanciamento, a má gestão e o ensino inadequado aos tempos atuais como os pontos principais a serem tratados pelos governos.

 

Jornal do Comércio - O que se pode fazer para melhorar os indicadores da educação sem que sejam necessários grandes investimentos?

 

Priscila Cruz - Em geral, temos uma ineficiência das gestões de educação. E, muitas vezes, não é nem mesmo por má vontade ou incompetência do gestor, e sim porque há gorduras históricas. Até você mudar a legislação que cristalizou um caminho que hoje em dia não faz mais sentido tem um longo caminho. Às vezes, na crise, você fala, "ou muda isso, ou o Estado vai continuar a andar para trás", que é o que está acontecendo. Tem o seguinte também: com algumas mudanças, principalmente quando dizem respeito a coisas cristalizadas, alguém vai sair perdendo. Um grupo sai perdendo para toda a educação ganhar. O gestor recebeu um mandato do povo para fazer isso, para pensar no direito de todos e não no direito de grupos. Dá para fazer, dá para melhorar, mas precisa ter vontade política, um bom diagnóstico técnico, e excelência na implementação. Muita coisa bem-intencionada fica na gaveta porque não é sequer implementado, ou é implementado de uma forma torta, dando resultados ruins.

 

JC - E isso é um círculo, pois baixo investimento em educação em razão da crise econômica acaba afetando a competitividade do Estado no mercado.

 

Priscila - Totalmente. Um dos principais gargalos do Brasil é a educação. Temos uma lacuna de habilidades e conhecimentos na nossa população diante das necessidades produtivas e de inovação que o século XXI nos impõe. O momento histórico de globalização e crise econômica mundial impõe uma capacidade que não está instalada no Brasil ainda por falta de uma educação que esteja sintonizada a isso tudo e que ofereça, minimamente, as ferramentas para a população poder produzir nessa realidade tão complexa.

 

JC - Currículos defasados, métodos inadequados de ensino ou de avaliação. Qual o diagnóstico do Todos pela Educação para o problema?

 

Priscila - Temos um investimento por aluno que ainda é muito baixo, e isso é agravado pelos desvios, seja por corrupção, seja por ineficiência; temos uma implementação que é muito malfeita - uma política começa no gabinete e vai sendo deturpada, mal implementada e, quando chega onde tem de chegar, que é na escola, quase não sobra nada daquilo que foi pensado no gabinete. Então, a implementação é muito ruim. E tem o fator inovação. Acho que são os três grandes pontos: subfinanciamento, má gestão e inovação. Hoje é como se a gente estivesse dando uma oferta escolar para a população brasileira que poderia até fazer sentido na primeira metade do século XX, mas já não faz mais sentido para a primeira metade do século XXI. Continuamos a falar, a ensinar e a garantir aprendizagens para um modelo que não faz muito sentido. Muitas vezes, nem garantimos isso. E também tem a questão curricular. A Base Nacional Comum que deve sair neste ano moderniza, mas muito pouco, muito aquém daquilo que precisávamos. Provavelmente vamos sair com uma Base Nacional do feijão com arroz mesmo. Aquele mínimo, com muita coisa que não é necessária e coisas muito importantes para a vida atual não entrando.

 

JC - Como o movimento avalia a reforma do Ensino Médio?

 

Priscila - Somos bastante favoráveis à flexibilização do Ensino Médio. Essa foi uma das nossas pautas fortes durante todos esses anos. Somos muito favoráveis, pois você precisa modernizar para aproximar a formação em nível médio dos alunos com o projeto de vida deles. Não faz sentido você ter um Ensino Médio que seja único para todo mundo. A flexibilização também é um ótimo exemplo de ideia boa que pode ser mal implementada. Em tese, ela permite o seguinte: você terá 60% de Base Nacional Comum, e 40% de deep learning, que é mergulhar em uma série de conhecimentos de uma forma mais profunda, para não ficar só na superfície. O aluno precisa sair do Ensino Médio sabendo o básico de tudo, mas, em determinada área, ele pode mergulhar, pois é isso que precisamos cada vez mais. Não ser um grande generalista. É preciso que você saiba muito de algumas coisas. O aluno tem de sair do Ensino Médio sabendo mais do que o básico. Depois, se ele quiser ir para a universidade, vai se aprofundar mais ainda; se for para um curso profissional, se aprofunda mais. Ou aquele que vai parar ali, pois é claro que é importante seguir os estudos, mas não vamos deixar de considerar que a maioria dos jovens para no Ensino Médio. Esse é um fato concreto. Para esses, se não tiver uma área em que possa se destacar, vai ficar ainda mais difícil vencer os desafios do século XXI.

 

JC - As escolas parecem ser locais muito fechados em si mesmo. O conceito de educação como um transformador social é levado em conta e aplicado?

 

Priscila - Esse é um problema de governança mais geral do nosso País. O Ministério da Educação cuida da educação, o Ministério da Saúde cuida só de saúde, como se não houvesse uma relação fortíssima entre saúde e educação, assistência/saúde/educação. Essa forma de governança favorece à escola ficar assim: "estou aqui, minha rotina é receber o aluno, dar aula, dou uma merenda, se for o caso, e pronto". Essa falta de integração não é uma coisa da educação, é geral do País. Temos pouquíssima integração entre as áreas. E a educação, especificamente, se beneficiaria demais se fosse mais relacionada com as demais áreas. Se a saúde ajudasse mais a educação, por exemplo, nas áreas de visão e audição, em que temos muito aluno que não aprende porque não ouve ou não enxerga direito. E a educação ajudar a saúde, pois o filho de uma mãe alfabetizada tem 50% menos chances de morrer antes dos cinco anos. Uma beneficia a outra e elas não trabalham de forma coordenada.

 

JC - A escola é atrativa aos estudantes?

 

Priscila - Antes de responder, farei um comentário. É importante que a escola seja atrativa, que faça sentido para o aluno, mas não precisa ser prazerosa o tempo inteiro. Há certas coisas que fazemos porque temos de fazer. Claro, é bom que tenhamos prazer na nossa função laboral, mas, várias vezes, é chato e estamos ali porque é preciso. Só para desconstruir essa imagem um pouco exagerada de que a escola é chata e é por isso que o aluno não vai. É, mas a vida muitas vezes é chata e não podemos ter a obrigação de sermos felizes em 100% do tempo. Vira uma obrigação opressora isso de ter de ter prazer o tempo inteiro. Você não terá. A escola tem de ser atraente fazendo sentido ao aluno. O que não pode é o aluno não ver sentido na aula, não ver sentido no que aprende. Uma escola na qual ele vê que não está aprendendo. Isso acontece demais. O aluno ver que não está aprendendo. Ele está lá passando quatro, cinco horas por dia e a vida dele não está mudando, está parado no tempo. Uma outra questão é a violência. Os alunos se sentem acuados e expostos. E falo não só da violência da criminalidade, mas também da violência moral, do bullying, do jovem que começa a ser zoado, da menina que engravida e passa a ser falada na escola. Essas coisas fazem com que o aluno se afaste da escola. Acho que temos de ter bons currículos e a escola tem de ensinar aquilo que faz sentido para os dias de hoje. Claro que é bom ter prazer, projetos estimulantes, tecnologia que envolva o aluno, games, esportes, cultura, isso tudo ajuda - mas não precisamos ter essa escola-circo, em que tudo é uma atração.

 

 - Jornal do Comércio (https://jcrs.uol.com.br/_conteudo/2017/04/geral/555707-a-escola-precisa-fazer-sentido-para-o-aluno.html)



" data-layout="standard" data-action="like" data-show-faces="true" data-share="true">
 
Início      Cadastre-se!      Procurar      Submeter artigo      Fazer doação      Contato     Apresentação     I Prêmio Educação Ambiental em Ação     Normas de Publicação     Artigos     Dicas e Curiosidades     Reflexão     Para sensibilizar     Dinâmicas e recursos pedagógicos     Entrevistas     Saber do Fazer     Culinária     Arte e ambiente     Sugestões bibliográficas     Educação     Contribuições de Convidados/as     Folclore     Práticas de Educação Ambiental     Sementes     Educação e temas emergentes     Ações e projetos inspiradores     Logística Reversa     Gestão Ambiental     Cidadania Ambiental     Relatos de Experiências     Notícias