Que meu andar, meu viver seja cada vez mais no ritmo das bicicletas... (José Matarezi)
ISSN 1678-0701 · Volume XXI, Número 79 · Junho-Agosto/2022
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Arte e ambiente
26/05/2005 (Nº 13) Sob essa pele que nos encobre, recobre e des-cobre
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Sob essa pele que nos encobre, recobre e des-cobre.

 

Profª MSc. Cláudia Mariza Mattos Brandão[i]

Acad. Daniel Rodrigues Duarte Teixeira Correa[ii]

 

 

Quero ficar no teu corpo feito tatuagem

Que é pra te dar coragem

Pra seguir viagem

Quando a noite vem

E também pra me perpetuar em tua escrava

Que você pega, esfrega, nega

Mas não lava

(Tatuagem, Chico Buarque de Holanda)


A matéria prima da arte é a imaginação: ela não só reproduz a realidade que é sua base, mas dá forma a um real autônomo. A expressão artística, como resultado da articulação dos códigos específicos de cada linguagem, possui uma forma que está impregnada da visão de mundo de quem a realiza. Ela expressa a cosmovisão de uma época e, como tal, busca ser uma resposta para os questionamentos do seu tempo histórico. Como criação, é uma transfiguração do real. A arte é a expressão máxima da relação do homem com o meio, constituindo-se em seu primeiro canal de comunicação, na busca de estabelecer vínculos com o grupo.

 

Tal qual uma tatuagem, perpetuando crenças, mitos e ritos, as pinturas realizadas nas cavernas há milhões de anos atrás, continuam informando...

 

 

 

Figura 1: Pintura rupestre

                                                Parque Nacional da Capivara, Piauí.

 

Na Pré-História, a Arte respondia à necessidade do homem de comunicar-se, de representar - re-apresentar, expressar - suas idéias e angústias frente a um mundo que não conseguia decifrar em sua totalidade. As pinturas do homem pré-histórico tinham um caráter místico, como um ritual de magia através do qual pretendiam apropriar-se de seus inimigos, geralmente animais de grande porte, realizando assim, seus desejos de caçador.

 

 

 

Figura 2: Pintura rupestre

                                                Parque Nacional da Capivara, Piauí.

 

Tal e qual uma pintura rupestre, que como uma segunda pele reveste, até hoje, os ambientes de subjetividade, impregnando-os da sensação de presença, o Grafitti é uma autêntica expressão da criatividade humana: - mais uma manifestação da capacidade que os seres humanos têm de inscreverem-se no mundo!

 

Das inscrições paleolíticas, passando pelos grafitti de Pamplona - testemunhas do pensamento de uma cultura soterrada pelas larvas do Vesúvio –, chegamos à metrópole contemporânea recoberta por uma capa que desvela a forma de ser de uma geração.  

 

 

Quero pesar feito cruz nas tuas costas
Que te retalha
em postas
Mas
no fundo gostas
Quando a noite vem
Quero ser a cicatriz risonha e corrosiva
Marcada a frio, a ferro e fogo
Em carne viva

(Tatuagem, Chico Buarque de Holanda)

 

 

Na década de 60 os jovens da cidade de New York começaram a pintar seus nomes nos vagões e estações do metro, como uma forma de registro de presença, continuando uma tradição iniciada a milhões de anos pelos primeiros pintores pré-históricos. O graffiti, considerado por muitos uma sub-cultura metropolitana, hoje se constitui num dos episódios mais revolucionários da arte contemporânea. Embora nem todos o considerem uma expressão artística, ele converteu-se num movimento que mobiliza legiões de jovens, representando, para a maioria, uma apaixonada forma de expressão e um estilo de vida através do qual adolescentes do mundo todo cruzam os limites da legalidade. Constitui-se numa expressão visual e simbólica, que pode ou não ter uma dimensão estética, porém sempre revela o pensamento da cultura urbana, e é um tema de grande pertinência para a análise da nossa sociedade.

 

 

Figura 3: Cláudia Brandão

     Fotografia

 

 

Invadindo o espaço urbano e utilizando a cidade com suporte, o grafitti, marca espontânea e autêntica, trabalha com o efêmero: - o não retornável que ressurge através da repetição do ato. É uma prática baseada na rapidez, na imprecisão e na transgressão, e assim como a tatuagem, uma das expressões artísticas que caracterizam o que Omar Calabrese (1999) chama de cultura Neobarroca.

 

Desde os primórdios da civilização o homem busca inscrever-se no mundo, relacionar-se com ele e nele, e, principalmente, manifestar-se numa tentativa de sobrevivência identitária.

 

 

Quero brincar no teu corpo feito bailarina
Que logo se alucina
Salta e te ilumina
Quando a noite vem
E nos músculos exaustos do teu braço
Repousar frouxa, murcha, farta
Morta de cansaço

(Tatuagem, Chico Buarque de Holanda)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Figura 4: Daniel Correa

                    Fotografia digital

 

A tatuagem, que surgiu como marca ritualística, consagrou-se na contemporaneidade como marca diferenciadora. Como uma sobre-pele recobre o corpo utilizando-o como suporte para mensagem. Diferente do grafitti, que se esconde no anonimato da transgressão, a tatuagem é revelação... de idéias, sentimentos, crenças. Alguns críticos supõem que ela passou de cultura para cultura, em função dos grandes movimentos migratórios sobre o planeta. Na pré-história encontramos vestígios de povos que cobriam o corpo com desenhos, e diversas culturas usaram pinturas definitivas por religiosidade.

 

Hoje em dia, é difícil encontrar alguém que não tenha ao menos pensado em fazer uma tatuagem. A chamada "arte na pele" cada vez mais perde o estigma marginal que costumava caracterizá-la e está nos corpos de pessoas de várias idades e classes sociais. De uma simples marca tribal até gigantescos dragões, elas deixaram a clandestinidade para ganhar as ruas.

 

A pele é o revestimento das nossas verdades, captadora de nossas sensações. Através dela o corpo respira, transpira, deseja, arrepia, repele.

 

Nosso contato com o outro é de pele... o calor humano é da pele. As melhores sensações são na pele!

 

A pele – seja a do corpo ou a da cidade - nos identifica e subjetiva... nos apresenta e representa.

 

Múltiplos suportes, cores, formas e nomes dão as expressões artísticas o poder de individualizar manifestações de (e pela) vida, demarcando tempos e espaços... e contando a história das civilizações.

 

 

 

 

 

Figura 5: Daniel Correa

                    Fotografia digital

 

 

Corações de mãe
Arpões, sereias e serpentes
Que te rabiscam o corpo todo
Mas não sentes

(Tatuagem, Chico Buarque de Holanda)

 

 

 

Referências bibliográficas:

 

CALABRESE, Omar. A Idade Neobarroca. Rio de Janeiro: Edições 70, 1999.

OLIVEIRA, Ana Cláudia de e SANTAELLA, Lúcia (org.). Semiótica da Cultura, Arte e Arquitetura. São Paulo: EDUC, 1987.

OSTROWER, Fayga. Universos da Arte. 7ª ed. Rio de Janeiro: Campus, 1991.

PIRES, Beatriz Ferreira. O corpo como suporte da Arte. São Paulo: Ed. SENAC, 2005.

TOURAINE, Alan. Crítica da Modernidade. 6ª ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 1994.

 



[i]Mestre em Educação Ambiental, graduada em Artes Plásticas e Engenharia Civil, é coordenadora do PhotoGraphein: Núcleo de Pesquisa em Fotografia e Educação, Artes Visuais – Licenciatura, DLA, FURG. attos@vetorial.net

 

[ii] Acadêmico do 4° ano do curso Artes Visuais, integrante do PhotoGraphein, que desenvolve a pesquisa De Pele: mensagens corpóreas. daniduarte@vetorial.net

 

 

Ilustrações: Silvana Santos