A
Canoagem como estratégia educativa face aos desafios da educação ambiental
Rodrigo de Magalhães e Celso Sánchez
Fisioterapeuta , canoísta Esp.
Educação Ambiental –ONG BIOética
Biólogo, MSc. Ecologia Social, Dr.
Educação – PUC-Rio/UCAM
Celso.sanchez@hotmail.com
RESUMO
Este trabalho
visa tecer considerações sobre as possibilidades de utilização da prática
esportiva da canoagem como estratégia educativa, em especial para o campo da
educação ambiental (EA). Parte-se do princípio que a EA é uma das mais
importantes ferramentas para o enfrentamento da crise civilizacional
contemporânea. Portanto, tendo em vista os desafios da EA, acredita-se que a
prática da canoagem pode ser entendida como possibilidade de fruição do tempo
disponível para o lazer e o desenvolvimento pessoal e social. Assim, através de
uma discussão no campo da sociologia do lazer e da EA, espera-se contribuir
para a oxigenação teórica de práticas em EA. É nesse sentido que se analisaram
as interações e possibilidades oferecidas pelo diálogo entre os conteúdos do
lazer presentes no esporte canoagem e os pressupostos éticos e metodológicos da
EA.
Introdução
Vivemos um
momento de crise paradigmática que abrange todos os campos da atuação humana
seja científico, social, cultural e econômico, e que diz respeito, a
questionamentos sobre caráter racional e utilitarista assumido pelas sociedades
contemporâneas e sobre a predominância de valores orientados pela lógica do mercado
e da lucratividade. Segundo Mangabeira Unger:
“A
crise que hoje atravessamos é uma crise de visão do mundo, de civilização. É,
portanto, uma crise de sentido, uma crise de caráter espiritual. Entendemos
visão do mundo como a trama de representações, conceitos e valores por cuja
mediação os homens tecem sua inserção na vida.” (UNGER, 1991,p. 53).
Os efeitos
colaterais do progresso levaram a sociedade industrial à contestação dos
próprios fundamentos da sua cultura, sendo que a questão ambiental ganhou
especial importância e notoriedade devido a sua estreita relação com
desenvolvimento econômico e social. De acordo com Grün (2007), o advento da EA
foi precedido por uma “ecologização” das sociedades iniciada após a explosão da
primeira bomba H e do lançamento das bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki
no final de 1945. Partindo do pressuposto de que a origem da atual crise
ambiental está no sistema cultural da sociedade moderna, ou seja, que a crise
ambiental reflete uma crise de civilização, e que a EA, representa um dos
instrumentos aos quais se atribui maior importância no processo de mudança
paradigmática, pretendemos fazer uma aproximação da canoagem, enquanto
atividade de lazer, com a EA, tentando apontar as semelhanças existentes entre
ambas as manifestações e verificar as possibilidades de utilização da canoagem
em sintonia com os princípios éticos e metodológicos da EA. A escolha do tema
se justifica por serem tanto o esporte como o lazer fenômenos sócio-culturais
contemporâneos que, a exemplo da educação ambiental, carregam tensões advindas
das relações complexas que estabelecem com os aspectos econômicos, políticos e
sociais da realidade, sendo, assim, plenos de possibilidades para gerar
questionamentos da ordem social, ambiental e econômica.
Além disso,
concordamos com Hilsdorf (2002), para quem o caiaque, por suas características
de leveza e versatilidade, representa uma excelente opção de lazer e diversão,
permitindo uma aproximação da natureza, a vivência de novas experiências e o
despertar de uma agradável sensação de pertencer ao mundo. Vale ressaltar
também que, como prática corporal, a canoagem propicia muitos benefícios para a
saúde, contribuindo para a conservação do nosso primeiro meio ambiente: nosso
corpo.
Há um consenso
de que a crise ambiental é, na verdade, uma crise da cultura ocidental
globalizada, o que implica que devemos considerar os aspectos políticos,
econômicos, culturais, sociais e éticos, já que a própria crise ambiental é
conseqüência dessa complexa relação. Como afirma Soffiati (2005), “por derivar,
de forma complexa, de atitudes culturais e políticas e de práticas sociais e
econômicas, a crise ambiental do presente revela seu aspecto horizontal e,
consequentemente, global” (p. 51).
Para Braun
(2001), a origem da crise atual pode ser associada ao surgimento da concepção
iluminista do mundo “que apoiada pelos filósofos contemporâneos acarretou um
enaltecimento do pensamento racional” e que, a partir desse momento, “o
conhecimento racional não só prevaleceu sobre a sabedoria intuitiva como também
a ciência sobre a religião, a competição sobre a cooperação e a exploração
intensa dos recursos naturais sobre as atividades de conservação”. (p. 25).
Halken, Lovins
e Lovins (2004) acrescentam ainda que:
“A
revolução Industrial que deu origem ao capitalismo moderno expandiu
extraordinariamente as possibilidades de desenvolvimento material da
humanidade. E continua expandindo até hoje, se bem que a um custo elevadíssimo.
A partir de meados do século XVIII, destruiu-se mais a natureza que em toda a
história anterior. Se os sistemas industriais alcançaram apogeus de sucesso,
tornando-se capazes de criar e acumular vastos níveis de capital produzido pelo
homem, o capital natural, do qual depende a prosperidade econômica, vem
declinando rapidamente, sendo que o índice de perdas cresce na mesma proporção
dos ganhos em termos de bem-estar material.” (p. 2).
Essa
interpretação encontra eco no pensamento de diversos outros autores, entre os
quais, Bruhns (2004), que aponta, por outro lado, a existência de um movimento
de reação à crise:
“A
racionalidade instrumental utilitarista numa ética baseada em benefícios
imediatos regeu por um tempo considerável (se é que podemos afirmar o seu desaparecimento)
a economia e o processo de acumulação, buscando atingir o crescimento
econômico. Nesse processo os recursos naturais sofreram uma deterioração e
devastação comprometendo a vida no planeta, provocando desigualdades sociais e
um entendimento equivocado de conservação ambiental traduzida como nichos
isolados. Esse quadro provocou uma crise e uma reação contrária, impulsionando
uma nova racionalidade social diferente da racionalidade cientifica
prevalecente.” (p. 152).
Os autores situam a crise no contexto da evolução histórica das sociedades
ocidentais e a associam ao modelo de desenvolvimento adotado na Europa no final
do século XVIII; demonstram, também, uma clara preocupação com a rápida
diminuição da disponibilidade de recursos úteis e, porque não dizer, vitais à
existência humana. Bijos (1994, apud Grün, 2007) identifica, além da depleção
de recursos, o crescimento exponencial da população, os sistemas produtivos
poluentes e ineficientes em termos energéticos e os sistemas de valores que
estimulam o crescimento ilimitado do consumo material. Grün (op. cit.)
complementa a lista acrescentando as alterações climáticas e a antropização dos
ecossistemas nativos e seus efeitos sobre a biodiversidade.
2. A Educação
ambiental como alternativa a crise
Há décadas somos advertidos sobre a gravidade da crise gerada pelas atividades
humanas. Schumacher (1973, p.69) já identificava os perigos que ameaçavam a
humanidade e enfatizava que suas causas não derivam da falta de conhecimento
técnico e científico, mas sim da falta de sabedoria e discernimento ao
utilizá-los, indicando um importante papel a ser desempenhado pela educação na
tarefa de transformação da sociedade.
Influenciada
pelas tensões sociais, econômicas, e políticas manifestas pela dinâmica da
sociedade, a EA apresenta uma grande diversidade de conceitos e práticas.
Carvalho (2001) observa que:
“[...]
para além de um primeiro consenso em torno da valorização da natureza como um
bem, há uma grande variação das intencionalidades sócio-educativas,
metodologias pedagógicas e compreensões acerca do que seja a mudança ambiental
desejada”, sendo, portanto, fundamental abordar as diferentes tipologias de
educação ambiental, a fim de conhecer suas diferenças e suas conseqüências no
plano político e pedagógico (p. 44).
Nesse sentido,
Sauvé (1997) nos fornece subsídios fundamentais para compreensão do arcabouço
conceitual no qual estão inseridas as diversas correntes da educação ambiental.
Essa pesquisadora identifica seis concepções paradigmáticas sobre o ambiente e
nos revela suas influências nos conceitos de desenvolvimento sustentável, assim
como na abordagem pedagógica e nas estratégias propostas pelos diferentes
linhas educacionais. A tabela 1 mostra a síntese da tipologia das concepções
sobre o ambiente na educação.
Para Sauvé (op.
cit.), embora cada uma das concepções apresentadas adiante possa ser
predominante em determinadas abordagens educativas, é fácil constatar que as
estratégias podem ser enriquecidas por uma outra concepção, ou pela combinação
dos elementos característicos de duas ou mais concepções, tendo em vista que
são eminentemente complementares.
“O
ideal seria que a compreensão dos processos educativos considerasse uma dessas visões
complementares do ambiente, de uma forma cumulativa, através de uma cuidadosa
orquestra de intervenção, ou preferencialmente, utilizando um enfoque
pedagógico integrado. Infelizmente, as propostas da EA são restritas em uma
dessas concepções, limitando o principal objetivo da educação: o ambiente não é
percebido de uma forma global e consequentemente, a rede de inter-relação
pessoa-sociedade-natureza (que é o centro da EA) é percebida somente
parcialmente. Por exemplo, certas teorias e práticas relativas à educação para
o DS adotam uma visão limitada do ambiente, essencialmente como um recurso,
assim como a visão de que o ambiente é um grande armazém genético que precisa
ser gerenciado ou que precisa ser assegurado para os benefícios em longo prazo.
Nesse contexto, as intervenções focalizando a atenção para a campanha dos 3 Rs,
prescrevendo o comportamento cívico individual para a reciclagem, podem ser
pertinentes num determinado contexto, mas são limitadas se forem consideradas
na perspectiva de um processo holístico. Por outro lado, o fórum democrático
sobre o gerenciamento dos resíduos sólidos numa comunidade cria uma
inter-relação entre o conceito do "ambiente como recurso" e o
"ambiente como projeto comunitário", enriquecendo o propósito da
educação em sua prática de intervenção (Sauvé, 1997).
Tabela 1 - Tipologias das
concepções sobre o ambiente na educação ambiental (Sauvé, 1997).
|
Ambiente
|
Relação
|
Características
|
Metodologias
|
|
Como natureza
|
para ser apreciado
e preservado
|
natureza como
catedral,
ou como um útero,
pura e original
|
· exibições;
· imersão na natureza
|
|
Como recurso
|
para ser gerenciado
|
herança biofísica
coletiva,
qualidade de
vida
|
· campanha dos 3
Rs;
· auditorias
|
|
Como problema
|
para ser resolvido
|
ênfase na poluição,
deteriorização e
ameaças
|
· resolução de
problemas
· estudos de
caso
|
|
Como
lugar para
viver
|
EA para, sobre
e no
para cuidar do
ambiente
|
a natureza com os
seus
componentes
sociais,
históricos e tecnológicos
|
· projetos de
jardinagem;
· lugares ou lendas
sobre a natureza
|
|
Como biosfera
|
como local
para ser
dividido
|
espaçonave Terra,
"Gaia", a interdependência
dos seres vivos
com os
inanimados
|
· estudos de caso em
problemas globais;
· estórias com
diferentes cosmologias
|
|
Como
Projeto
comunitário
|
para ser envolvido
|
a natureza com foco
na análise
crítica,
na participação
política
da comunidade
|
· pesquisa(ção)
· participativa
· para a transformação
comunitária;
· • fórum de discussão
|
As práticas em
educação ambiental também são influenciadas pelos diversos paradigmas
educativos. A análise desses paradigmas, sintetizada na tabela 2 permite relaciona-los
às concepções sócio-culturais, favorecendo o esclarecimento sobre as escolhas
educacionais.
Tabela 2 - Tipologias dos
paradigmas educativos na EA
(Bertrand & Valois,
1992 in Sauvé, 1997)
|
Paradigma
sócio-cultural
|
Paradigma
associado
|
Principais
características
|
Abordagem
Pedagógica
|
|
Industrial:
"lei do
mais forte", com alta competitividade e incentivo à produtividade
|
Racional
|
transmissão
de conhecimento pré-determinados (modelos técnico-científicos)
|
apresentações
formais; "treinamentos"
|
|
Existencial:
respeito pela
natureza em harmonia intra- e interpessoal
|
Humanístico
|
desenvolvimento
ótimo de aprendizagem,"freedom to learn"
|
abordagem
confluente
educação-natureza
e na EA de valores
|
|
Simbiossinergético: entre as
relações humanas, sociais e naturais
|
Inventivo
|
construção
crítica de conhecimentos para as transformações sociais, aprendizagem
cooperativa
|
EA
"grass-roots";
EA
socialmente crítica
|
Do ponto de vista da EA, o
Desenvolvimento Sustentável(DS) pode ser considerado sob diferentes
perspectivas: pode ser seu objetivo principal ou um dos seus objetivos
específicos. Seja como for, o DS entrou definitivamente nos debates da EA,
sendo desejável conhecermos suas tipologias para compreendermos suas relações com
as diferentes propostas educativas. A tabela 3 contém um resumo de uma
tipologia apresentada por Sauvé (op. cit.), inspirada no trabalho da
Organização Inter-Americana do Ensino Superior e do Grupo de Estudos da Calgary
sobre a América Latina.
Tabela
3 - Tipologias das concepções do DS
CalgaryLatin American Studies Group (1994, in Sauvé, 1997).
|
Concepção
do DS
|
Principais
características
|
Concepção
do
ambiente
|
Paradigmas
educativos
|
|
Desenvolvimento
contínuo, com inovação tecnológica e mercado livre baseado no crescimento
econômico.
CREDO: Crescimento econômico, com
princípios neoliberais, que irão resolver os problemas sociais e ambientais
|
Produtividade e
competitividade.
A ciência e a tecnologia para o
crescimento econômico com respaldo nos controles legais.
|
Ambiente como
recurso para o
desenvolvimento e o gerenciamento.
Uso racional
dos recursos
para a sustentabilidade.
|
Paradigma racional:
"treinamentos", transferência e informação
(científicas,
tecnológicas e legais).
|
|
Desenvolvimento
dependente na ordem mundial.
CREDO: Os problemas sociais serão
resolvidos pelo crescimento econômico se houver um controle pelas
organizações superiores.
|
Mercado livre em
grandes escalas e inovações
científicas e tecnológicas para reestruturação das condições
sociais.Organizações: mundial ou pactos regionais, acordos e legislação.
|
Toda a biosfera como
um "pool" de recursos
para ser gerenciado
pelas
organizações superiores.
|
Paradigma racional: mesma abordagem
acima, mas com uma aceitação da possível falha do modelo neoliberal.
|
|
Desenvolvimento alternativo.
CREDO:
Somente uma mudança global nos
valores e nas escolhas sociais irá permitir um desenvolvimento sustentável
nas comunidades.
|
Desenvolvimento
biorregional econômico: com distinção das necessidades e dos desejos, redução
da dependência, utilização dos recursos renováveis, estímulo aos processos
democráticos, participação e solidariedade.
|
Ambiente como
um projeto
comunitário.
|
Paradigma inventivo:
projetos comunitários para as
transformações das
realidades sociais.
|
|
Desenvolvimento
autônomo
desenvolvimento
indígena)
CREDO:
O desenvolvimento é valorado se a
manutenção da identidade cultural e da integridade territorial for preservada
|
Economia de
subsistência,
baseada na
solidariedade,
associada às
distintas cosmologias.
|
ambiente como
território
(lugar para se
viver) e projetos culturais comunitários.
|
Paradigma inventivo:
construção do conhecimento contextualmente significante,
resgatando os
valores
know-how
tradicionais.
|
Percebe-se que a rica diversidade de propostas educativas relacionadas ao meio
ambiente se justifica nas, não menos variadas, interpretações de meio ambiente,
de desenvolvimento, de sustentabilidade e de educação. Os educadores
brasileiros têm contribuído de forma singular nas discussões sobre os
diferentes tipos de educação ambiental, atribuindo ou incorporado novos
conceitos para distinguir as especificidades das linhas educacionais relativas
ao meio ambiente. Alfabetização ecológica, Ecopedagogia, EA Crítica,
Transformadora ou Emancipatória, são apenas algumas das nomenclaturas propostas
pelos autores (BRASIL, 2004).
Por trás da
variedade de termos empregados, está a convicção de que a tendência de educação
ambiental hegemônica não tem sido direcionada para a reflexão crítica sobre os
valores da modernidade, ao contrário, tem se valido dos mesmos fundamentos e
princípios materialistas e instrumentalizantes do sistema socioeconômico
capitalista para justificar suas ações.
Essa tendência,
denominada EA Conservadora por Guimarães (2004), refletindo os paradigmas da
sociedade moderna e focalizada no indivíduo, tende a enfatizar o aspecto cognitivo
da aprendizagem, acreditando que a simples transmissão de conhecimentos, ainda
que descontextualizada da realidade socioambiental dos sujeitos, irá
possibilitar a compreensão da crise e gerar mudanças de comportamentos. Espera
ainda, pela lógica de que a sociedade é o resultado da soma de seus membros,
que a transformação operada no indivíduo resulte na transformação da sociedade.
Para este autor, a abordagem conservadora:
“não
contempla a perspectiva da educação se realizar no movimento de transformação
do indivíduo inserido num processo coletivo de transformação da realidade
socioambiental como uma totalidade dialética em sua complexidade. Não
compreende que a educação é relação e se dá no processo e não, simplesmente, no
sucesso da mudança comportamental de um indivíduo.” (p. 27).
Suas propostas
parecem ser resultado do “processo de apropriação e transformação do discurso
ambientalista” pelo mercado (LIMA, 2005, p. 122). Um exemplo claro disso é dado
pelos programas de educação ambiental centrados na questão do lixo, que
priorizam a coleta seletiva destinada a facilitar a reciclagem, ignorando
completamente as iniciativas visando à redução de consumo e à reutilização que,
definitivamente, contrariam os interesses do liberalismo (LAYARGUES, 2005), e
por isso mesmo, são altamente depreciadas pelo sistema de valores vigente. De
acordo com Layargues, “[...] a reciclagem representa, além da salvação da
cultura do consumismo, a permanência da estratégia produtiva da
descartabilidade e da obsolescência planejada, permitindo a manutenção do
caráter expansionista do capitalismo.” (p.189).
Na abordagem da EA
predominante, a leitura do ambiente como recurso prioriza a necessidade de
gerenciamento, a fim de assegurar sua disponibilidade para a atual e futuras gerações.
Está associada ao paradigma sócio-cultural industrial, onde a relação com a
natureza é vista sob o prima da dominação, e ao paradigma educacional racional,
que reduz o ato de educar à tarefa de transmitir um determinado conhecimento a
partir de uma visão hierárquica (de dominação), visando a reprodução de
conteúdos (SAUVÉ, 1997).
Se a “crise ambiental da
atualidade origina-se de uma concepção antropocêntrica, instrumentalizadora e
utilitarista da Natureza (...)” (SOFFIATTI, 2005, p. 50), como uma educação
marcada por esses mesmos traços poderia ser a solução para a presente crise? “O
mecanismo, principalmente, com seu antropocentrismo, culturalismo e
utilitarismo exacerbados, tornou-se um paradigma ecologicamente insustentável”
(p. 31), logo, as propostas de educação ambiental, que tem como base os
paradigmas industrial e racional, não podem dar conta dos impasses gerados por
esses mesmos paradigmas. O contrário seria acreditar, como bem ilustrou Löwy
(2000) referindo-se às tentativas do positivismo de garantir a imparcialidade
científica na boa-vontade dos cientistas, na façanha do Barão de Münchhausen
“que consegue, através de um golpe genial, escapar ao pântano onde ele e seu
cavalo estavam sendo tragados, ao puxar a si próprio pelos cabelos...” (p. 32).
Morin (2000) afirma que o
desenvolvimento da inteligência é inseparável do universo da afetividade, da
curiosidade e da paixão que, em última instância, são os elementos motivadores
da busca de conhecimentos (p. 20). Uma visão educacional exclusivamente ou
excessivamente racional pode dar conta das necessidades do sistema, mas não é
capaz de alcançar a dimensão das pessoas, assim, a racionalidade deve
permanecer aberta ao que a contesta para evitar que se transforme em uma
doutrina fechada em si mesma, certa da sua verdade e refratária à crítica
denunciadora de seus limites.
O que os
educadores objetam na EA predominante, é que ela não faz a crítica dos valores
da modernidade, tenta ser neutra, apolítica e por isso perde seu efeito
transformador (LOUREIRO, 2005, p. 78). Para cumprir seu papel emancipatório,
“ou a Educação Ambiental é política e transformadora da realidade
socioambiental ou não é coisa alguma” (LIMA, 2005, p.132). Para Loureiro
(2005),
“A
Educação Ambiental é uma práxis educativa e social que tem por finalidade a
construção de valores, conceitos, habilidades e atitudes que possibilitem o
entendimento da realidade de vida e a atuação lúcida e responsável de atores
sociais individuais e coletivos. Nesse sentido, contribui para a tentativa de
implementação de um padrão civilizacional e societário distinto do vigente,
pautado numa nova ética da relação sociedade-natureza. Dessa forma, para a real
transformação do quadro de crise estrutural e conjuntural em que vivemos, a
Educação Ambiental, por definição, é elemento estratégico na formação de ampla
consciência crítica das relações sociais e de produção que situam a inserção
humana na natureza” (p. 69).
É nessa direção
que apontam as tendências “alternativas” de EA quando qualificam suas propostas
de ecológicas, críticas, emancipatórias, populares, etc., pois associam
conceitos advindos do holismo, da cotidianidade, da teoria da complexidade e da
teoria crítica, sob forte influência do pensamento de Paulo Freire, para quem a
educação deve ser uma prática da liberdade (FREIRE, 1979), ou seja, “um ato de
conhecimento, uma aproximação crítica da realidade” (p. 25) que permita ao
homem ser sujeito da transformação do mundo, da criação da cultura e da
construção da história, pois “a vocação do homem é a de ser sujeito e não
objeto” (p. 34).
Não há mal em
catar latinhas, desde que estejamos empenhados em resolver as questões que
determinam a grande quantidade de latinhas a serem catadas. Podemos tirar a
água da canoa, contanto que estejamos providenciando o conserto do buraco por
onde a água está entrando. Concordamos com Carvalho (2004) quando diz que o melhor enfrentamento da das múltiplas educações
ambientais passa pela abertura de um espaço que contemple o diálogo entre as
diferentes abordagens (p. 15).
Todas essas
considerações parecem indicar que o desafio maior da EA é conduzir a formação
de sujeitos socialmente e ambientalmente responsáveis, apoiando-se em valores
éticos e levando em conta a diversidade de propostas e a necessidade de manter
uma atitude crítica diante dos movimentos hegemônicos, uma vez que “em sociedades cuja dinâmica estrutural conduz á
dominação de consciências, a pedagogia dominante é a pedagogia das classes
dominantes” (FREIRE, 1978, p.1).
Para melhor
compreender as associações que se deseja estabelecer entre a canoagem e a EA,
faz-se necessário esclarecer de início que a canoagem é entendida aqui como um
esporte que oferece ao praticante a possibilidade de aproveitar o seu tempo
disponível para o lazer, sendo, portanto, interessante lançar um olhar na
direção desse fenômeno de extrema importância na sociedade contemporânea.
3. O LAZER COMO CATEGORIA PARA A EA
Os significados
do lazer evoluíram historicamente em consonância com a cultura e os interesses
predominantes das sociedades. O fenômeno do lazer é resultante das tensões
existentes entre as diversas esferas da vida e, perpassado por relações de
hegemonia, “pode contribuir para o mascaramento das contradições sociais ou
representar uma possibilidade de questionamento e resistência à ordem social
injusta e excludente que predomina em nosso meio” (GOMES, 2004-a, p. 125).
Verificamos a
partir da leitura de Marcassa (2004) que o tempo de lazer (ócio) foi muito
valorizado na Antiguidade. Na Grécia, ocupava um espaço educativo e de
contemplação; em Roma, foi encarado como possibilidade de descanso, recreação e
diversão, condições necessárias para a retomada dos negócios, e foi amplamente
empregado como instrumento de controle social. Na Idade Média, as comemorações,
festas, espetáculos e jogos populares foram condenados pela Igreja que, ao
mesmo tempo, promovia procissões e outros eventos oficiais para inculcar os
valores religiosos, morais e políticos do interesse do clero e dos senhores
feudais. Com a reforma protestante, o Renascimento e a expansão do pensamento
liberal, o trabalho passa a ser supervalorizado de forma que o tempo livre e o
lazer aparecem como obstáculos ao processo produtivo capitalista em
desenvolvimento (PADILHA, 2004).
Mas, a redução
do tempo de trabalho, proporcionada pelo progresso tecnológico ocorrido a
partir da Revolução Industrial, provocou uma mudança no entendimento do lazer,
que vai se apresentar como uma “resposta às reivindicações sociais pela
distribuição do tempo liberado do trabalho, nem que fosse para o descanso”,
(GOMES, 2004-b, p. 137). Nesse período, os significados do lazer se
estabeleceram a partir das tensões existentes entre o capital e o trabalho.
Busca-se, então, a racionalização das experiências de lazer com o intuito de
continuar controlando a massa operária oferecendo atividades recreativas
saudáveis e recompensadoras que pudessem satisfazer suas necessidades e
condicioná-la ao trabalho (ROSA, 2004).
A noção
restrita de que o lazer é um tempo subtraído ao trabalho, que deveria ser
organizado, racionalizado e adequadamente preenchido está presente na obra de
vários autores, contudo, desde a segunda metade do século XX, o conceito de
lazer vem se modificando.
Dumazedier,
citado por Gomes (2004-a), coloca o lazer em oposição ao trabalho propondo um
sistema que caracteriza os aspectos específicos constituintes do lazer. Para
esse autor o lazer incorpora um caráter libertário pela necessidade de
liberação das obrigações e por resultar de uma livre escolha; um caráter
desinteressado, pela insubmissão a um propósito, profissional, financeiro,
político, social; um caráter hedonista, pela busca de prazer, fruição, alegria,
satisfação e, finalmente, um caráter pessoal, por responder à necessidade
individual de descanso, divertimento e desenvolvimento imposta pela vida
produtiva. Neste sentido, Lazer é para Dumazedier :
“[...]
um conjunto de ocupações às quais o indivíduo pode entregar-se de livre
vontade, seja para repousar, seja para divertir-se, recrear-se, ou ainda para
desenvolver sua formação desinteressada, sua participação social voluntária, ou
sua livre capacidade criadora, após livrar-se ou desembaraçar-se das obrigações
profissionais, familiares e sociais” (p. 121).
Para Gomes
(2004-a) a separação dos universos do lazer e do trabalho parece questionável,
uma vez que as duas manifestações “integram a mesma dinâmica social e
estabelecem relações dialéticas” e que “na vida cotidiana, nem sempre existem
fronteiras absolutas entre o trabalho e o lazer” (p. 121). Marcellino, outro
autor citado por Gomes (2004-a), endossa as idéias de Dumazedier, mas entende o
lazer como cultura vivenciada no tempo disponível, superando a compreensão do
lazer como um conjunto de ocupações e sugerindo que o tempo de vivência do
lazer não é um tempo livre, uma vez que nenhum tempo está livre de normas.
A propósito dos
aspectos educativos do lazer, Marcellino (apud, MARCASSA, 2004) está
convicto de que “Só tem sentido falar em aspectos educativos do lazer, se esse
for considerado [...] como um dos possíveis canais de atuação no plano
cultural, tendo em vista contribuir para uma nova ordem moral e intelectual,
favorecedora de mudanças no plano social” (p. 131).
Para
Mascarenhas (apud GOMES, 2004-a) o lazer representa um espaço de
organização da cultura que amplia as oportunidades de questionamento dos os
valores da ordem social, permitindo que as pessoas não apenas vivenciem, mas
também produzam cultura. Embasado na proposta de educação popular de Paulo
Freire, Mascarenhas (apud, MARCASSA, 2004) ressalta que a intervenção
pedagógica do lazer deve ultrapassar os limites da ação cultural e se articular
com a realidade socioeconômica, visando à superação dos problemas impostos às
camadas populares da população (p. 132).
As abordagens
de Marcellino e Mascarenhas situam-se numa perspectiva crítica, representando
campos de resistência às concepções funcionalistas do lazer que, sob influência
dos interesses do mercado, têm se mostrado hegemônicas. Isso é importante nesse
momento de nossa história, quando o lazer é compreendido como necessidade e
direito do cidadão que, cada vez mais liberado do trabalho, busca, de todas as
formas, exercer alguma atividade no seu tempo disponível. Assim, o campo do
lazer está passando por profundas transformações que, segundo Magnani (apud
MARINHO, 2003), refletem as mudanças no perfil do trabalho e que por isso mesmo
seria possível a partir do lazer refletir sobre as dinâmicas da sociedade e valores
mais gerais.
O interesse
crescente pelas questões ambientais tem influenciado de forma significativa as
escolhas individuais em todos os aspectos da vida. Com relação ao lazer observa-se
um crescimento da demanda por atividades em contato com a natureza, refletindo
as mudanças que estão ocorrendo na forma como vemos e interagimos com o nosso
ambiente (MARINHO, op. cit.).
O ser humano,
em geral, sente grande prazer nas atividades ao ar livre e esse “gosto” tem
motivações muito profundas. Mesmo com todas as facilidades e conforto oferecido
pela vida urbana vivemos de um modo artificial, passando a maior parte do tempo
em ambientes fechados. O barulho, a agitação e as múltiplas agressões da vida
coletiva aos poucos vão provocando alterações orgânicas e comportamentais,
evidenciadas pela significativa incidência de doenças relacionadas ao estresse
e pela banalização da violência (DORST, 1973, p. 367).
Na busca por um contato mais intenso com os elementos naturais, os esportes
ditos de aventura tem atraído uma grande diversidade de pessoas. “A natureza
como território da experiência passa a operar um reencantamento do mundo.
Assim, as visitas à natureza traduzidas nas formas de acampamento, caminhadas,
exploração de cavernas e montanhismo tornam-se cada vez mais freqüentes,
desencadeando posteriormente uma série de atividades como o rafting, canyoning,
bóia-cross, cascading, tirolesa e outros” (BRUHNS, 2004, p. 154), entre os
quais a canoagem.
A perspectiva
do lazer inserida no contexto da prática de atividades físicas na natureza, por
sua característica de oposição ao trabalho e à produção, oferece um enorme
campo para a reflexão sobre os valores dominantes no funcionamento social,
político e econômico da sociedade industrial moderna, permitindo estabelecer a
ligação entre o esporte e a Educação Ambiental. Contudo é preciso estar
atento ao aplicar os conteúdos do lazer, pois este é resultante das tensões
sociais, econômicas e culturais, e que, permeado por relações de dominância,
pode, por um lado, contribuir para a alienação, instigando a discriminação,
incitando a evasão da realidade, estimulando a passividade, o conformismo e o
consumismo e, por outro lado, colaborar para a emancipação dos sujeitos, por
meio do diálogo, da reflexão crítica, da construção coletiva, e da contestação
(GOMES, 2004-c).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Diante da crise
socioambiental, que reflete uma crise civilizatória, foi apontada a necessidade
de se adotar uma postura crítica com relação aos princípios e valores que
orientam nosso agir cultural. Considerando a prática da canoagem na natureza
enquanto esporte referido aos conteúdos da educação e do lazer, e entendendo
este último enquanto espaço de questionamentos da ordem socioeconômica,
tentou-se estabelecer um vinculo entre a canoagem e os desafios de uma educação
ambiental que, de acordo com o que foi exposto, requer uma reorientação a
partir do questionamento do paradigma racionalista e instrumental e seus
valores associados.
É a dimensão
estética, contemplativa e lúdica, presentes na prática da canoagem, que
viabiliza sua articulação com a ética, imprescindível ao questionamento
paradigmático reclamado pela educação ambiental. Foi visto que o lazer pode oportunizar ao homem uma
reflexão sobre si mesmo, assim como sobre sua relação com o meio. Pela
perspectiva do lazer, o ser humano pode perceber o ambiente a partir de uma
ótica diferenciada, abrindo-se novas possibilidades de reflexão sobre seu
próprio viver.
Observou-se
também que, a exemplo do que ocorre com a EA, as pressões do mercado se exercem
sobre o lazer e o esporte e que, por isso mesmo, esses fenômenos tem grande
potencial para gerar questionamentos da ordem social, ambiental e econômica.
Esse potencial deve ser aproveitado para trabalhar valores, condutas e
comportamentos que sejam capazes de contribuir para a reversão do atual quadro
de crise.
A prática da
canoagem na natureza pode representar uma nova maneira de se relacionar com o meio
ambiente, e com isso possibilitar uma nova abordagem das questões ecológicas,
assim como, políticas, econômicas e sociais que permeiam a vida, espelhando,
assim, o caráter ideológico dessa EA, que se espera capaz de contribuir parar
uma verdadeira e radical transformação na realidade socioambiental.
Há, portanto, um interesse em interligar a canoagem com a EA já que ela
pode funcionar como intermediário entre essa última e o os conteúdos do lazer. A
canoagem como esporte atrelado à perspectiva do lazer está sujeita às pressões
da indústria do turismo, mas, enquanto praticá-la for divertido haverá
resistência aos modelos impostos pelo mercado, pois diversão (do verbo latim divertere)
é ser diferente, é divergir.
A canoagem,
entendida como espaço de manifestação e produção culturais, ultrapassa os
objetivos da simples transmissão de informações e conhecimentos. Não é simples
instrumento facilitador do processo educativo. É na verdade uma oportunidade de
participação cultural efetiva que está na base do exercício da cidadania,
visando à autonomia.
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