PERCEPÇÃO E COMPLEXIDADE AMBIENTAL: UM
SOMATÓRIO TEÓRICO PARA SE ATINGIR A CONSCIENTIZAÇÃO AMBIENTAL
Prof.
Dr. Renato Luiz Grisi Macedo, Departamento de Ciências Florestais, Universidade
Federal de Lavras, 37200-000, Lavras, MG, (35) 3829-1432, e-mail:
rlgrisi@ufla.br
Prof. Dr. Eric Batista Ferreira, Departamento de Ciências
Exatas, Universidade Federal de Alfenas, 37130-000, Alfenas, MG, e-mail:
eric@unifal-mg.ed.br
Resumo: O mundo atravessa uma crise
ambiental que se configura como uma crise de conscientização. Essa crise pode
ser minimizada pela transformação da maneira com que o indivíduo percebe,
analisa e age sobre o ambiente. Nesse contexto, a teoria da complexidade
contribui para modificar visões reducionistas da realidade, promovendo o
raciocínio da interação entre os elementos que compõem o ambiente. O presente
trabalho descreve uma revisão sobre o tema percepção ambiental sob o prisma da
complexidade ambiental e, como exemplo, apresenta uma avaliação qualitativa
sobre percepção ambiental para uma série de profissionais, especialmente da
área de ciências agrárias. Diagnosticou-se que os respondentes percebem o
ambiente essencialmente como natureza, sugerindo que o presente trabalho possa
contribuir para transformar a visão reducionista desses profissionais e de
outros para uma percepção mais complexa e antropizada, contribuindo para a
conscientização ambiental.
1. Introdução
O momento atual é marcado
por desequilíbrios da relação entre homem e natureza, em que o primeiro utiliza
de forma inadequada os recursos naturais, causando um caótico quadro de
impactos ambientais e degradação do meio. A necessidade da sustentabilidade na
utilização dos recursos e da conseqüente conservação ambiental é urgente.
A percepção ambiental pode
ser utilizada como um instrumento para se identificar como acontece a relação
entre o homem e a natureza, bem como compreender o grau de conscientização do
mesmo quanto à problemática ambiental (MACEDO, 2005).
Estudos de
percepção ambiental foram desenvolvidos no sentido de se captar a leitura da
realidade pela perspectiva do objeto de estudo, como o estudo de Luchiari (1997:
pp.59-84), Machado (1999: pp.97-119) e Ferrara (1999: pp.61-80); ou mesmo para
se identificar a percepção ambiental de espaços específicos, como os trabalhos
de Machado (1993: pp.18-33), Del Rio (1999: pp.03-22) e Castello (1999:
pp.23-60); e para se traçar o perfil de percepção ambiental de comunidades
acadêmicas, como reportado por Machado (1994: pp.27-40) e Andretta (2008).
Porém, após a identificação e análise da percepção do ambiente, esses estudos
não apresentaram um referencial teórico que sustentasse a idéia de complexidade
da questão ambiental e, portanto, podem ser ineficazes na tentativa de construir,
de maneira significativa, o conceito de conservação junto ao componente de
maior potencial transformador do ambiente: o homem.
A abordagem reducionista
ou complexa das questões ambientais pode influenciar a maneira de se conceber o
ambiente e, por conseguinte, de se agir no mesmo. Este estudo busca, na teoria
da complexidade ambiental (LEFF, 2003: pp.15-64), o alicerce teórico para se
propor uma abordagem conservacionista do ambiente e utiliza, como
exemplificação, uma análise qualitativa aplicada a uma série de profissionais
da área de ciências agrárias. Os referidos profissionais foram escolhidos como
objeto de análise por, em sua maioria, apresentarem a peculiaridade de
intervenção direta no ambiente.
2. Material e Métodos
A teoria da complexidade
ambiental foi compilada de alguns estudos (FUNTOWICZ & MARCHI, 2003:
pp.65-98; LEFF, 2003: pp.15-64; LEFF, 2004; RIOJAS, 2003: pp.217-240) e
aplicada com o objetivo de se intensificar o conservacionismo ambiental dos
profissionais vinculados às ciências agrárias.
Considerando que o objeto
de estudo é a percepção humana, optou-se por desenvolver uma metodologia
qualitativa para a obtenção dos dados, por meio de um questionário, baseado
numa ficha de identificação e numa questão chave semi-estruturada. Os
resultados foram avaliados por meio da análise de conteúdo e organizados por
meio da estatística descritiva.
O presente estudo de caso
foi aplicado em maio de 2008, durante o primeiro encontro do curso de
pós-graduação “Lato Sensu” em Gestão e Manejo Ambiental de Sistemas
Agrícolas (MAA) da Universidade Federal de Lavras.
3. Resultados e Discussão
3.1 A teoria da complexidade
ambiental
Frente aos problemas
ambientais atuais, o ambiente requer uma metodologia de análise que favoreça o
raciocínio de interação entre seus elementos, processos e fenômenos, para que
as intervenções ambientais sejam planejadas a partir do compromisso de causar um
mínimo de impacto negativo possível. O pensamento reducionista, de grande
destaque na ciência atual, se caracteriza por estudar fenômenos ou elementos
isolados. Dessa forma, as intervenções humanas, mesmo que guiadas pelo
raciocínio científico, tendem a causar degradação ambiental e impactos
indesejados para o ambiente.
Para identificar o início
do raciocínio reducionista na ciência moderna é necessário entender como
aconteceu o desenvolvimento da própria ciência.
A partir do século XVIII,
com o Iluminismo, o planeta passou a ser estudado através da razão científica
humana; esse fato estimulou o desenvolvimento de máquinas, que impulsionaram a
Revolução Industrial. A partir de então, a humanidade ditou a velocidade com
que a exploração dos recursos naturais deveria acontecer.
A ciência passou cada vez
mais a servir aos interesses de uma sociedade que, praticamente, ignorou que o
ambiente apresentava alguns limites à sua exploração. Em decorrência dessa
postura, o século XX vivenciou uma intensa crise ambiental.
Segundo Leff (2003: p.55), a
crise ambiental não é crise ecológica, mas crise da razão. Os problemas
ambientais são, fundamentalmente, problemas do conhecimento.
A crise da razão pode ser
entendida através do raciocínio que, com a busca da verdade racional
cartesiana, a ciência passou cada vez mais a compartimentar seu conhecimento,
valorizando as especializações (BUARQUE, 1994), abandonando a visão filosófica
do estudo do todo, do global, do planetário. Dessa forma, o método científico
passou a reduzir, ou mesmo simplificar, a realidade, que é complexa (LEFF, 2003:
pp.15-64).
Através da
compartimentalização do conhecimento científico, as diferentes áreas do
conhecimento passaram a desenvolver estudos isolados, que deram suporte à
realização de um mosaico de intervenções no ambiente, desvinculados do
comprometimento de pensar sobre o todo planetário e sua capacidade de carga,
resiliência ou sustentabilidade. Estudos com essa característica simplificadora
e reducionista foram valorizados pelo mercado capitalista, que prioriza o
pensamento individualista e resultados no curto prazo.
A complexidade ambiental se
apresenta como uma alternativa metodológica de raciocínio, que visa a restaurar
a visão do todo, evitando as simplificações científicas cartesianas, analisando
o ambiente frente ao cruzamento da maior quantidade possível de componentes, fenômenos
e processos (LEFF, 2003: pp.15-64).
Nesse panorama, a ciência
assume a condição de pós-normal, cujo princípio organizador deixa de ser a verdade
para ser a qualidade (LEFF, 2003: pp.15-64).
A existência da ciência
pós-normal não exclui a ciência positivista, pois quanto mais pontual é uma
intervenção, mais adequada a utilização da ciência tradicional, pois o grau de
incertezas é pequeno (Figura 1). Porém, quanto mais abrangente é o problema a
ser analisado, como é o caso da atual crise ambiental, maior é o grau de
incerteza e, por conseguinte, a ciência pós-normal é mais indicada (FUNTOWICZ
& MARCHI, 2003: pp.65-98; LEFF, 2003: pp.15-64; ROMEIRO, 2003: pp.01-29).

FIGURA
1 Tomada
de decisão sob incertezas (FUNTOWICZ & MARCHI, 2003: p.73).
Vale ressaltar que os
estudos ambientais devem evitar o raciocínio reducionista, devido à
complexidade de seus componentes, processos e interações. Porém, quando a
análise ou intervenção for pontual, cabe a aplicação do pensamento científico
reducionista, mas o raciocínio que deverá dar suporte às análises reducionistas
é o da complexidade ambiental.
3.2 Identificação e análise
da percepção ambiental dos profissionais que cursaram MAA
Todos os alunos que
participaram do primeiro encontro do curso MAA em maio de 2008 responderam ao
questionário proposto. A aplicação gerou trinta e três questionários, que foram
devidamente numerados. Os dados da ficha de identificação receberam um
tratamento estatístico descritivo e a questão referente à percepção ambiental
foi analisada por meio da análise de conteúdo (CAPELLE et al., 2003: pp.69-85).
Os dados da
Tabela 1 revelam que 58% dos respondentes são homens e 42% mulheres. Quanto à
faixa etária, 66% dos respondentes estão compreendidos no intervalo de 25 a 45 anos. A análise por gênero revela que 64% das mulheres apresentam idade até 35 anos e que 74%
dos homens apresentam idade igual ou superior a 35 anos.
TABELA 1 Categorias de idade dos alunos do
curso MAA de maio de 2008.
|
CATEGORIAS
|
RESPONDENTES HOMENS
|
RESPONDENTES MULHERES
|
TOTAL
(%)
|
|
< 25 anos
|
0
|
4
|
12
|
|
25-35 anos
|
5
|
5
|
30
|
|
35-45 anos
|
9
|
3
|
36
|
|
45-55 anos
|
4
|
1
|
15
|
|
³
55 anos
|
1
|
0
|
3
|
|
Não declarou
|
0
|
1
|
3
|
Quanto ao ano de formação
acadêmica, 57% dos respondentes declararam que finalizaram sua graduação a
partir do ano 2000, como ilustrado na Figura 1. Vale ressaltar que 79% das
mulheres respondentes finalizaram sua graduação no intervalo compreendido entre
2003 e 2007, apresentando, portanto, uma formação recente.

FIGURA
2
Frequência do ano de conclusão do curso de graduação dos alunos do curso MAA de
maio de 2008.
Quanto à
área de formação acadêmica, os resultados são apresentados na Figura 3. Os
dados revelam que 70% dos respondentes possuem formação na área de ciências
agrárias; esse fato é fundamental, pois as análises e interpretações dos
resultados referentes à percepção serão realizadas objetivando acentuar o
conservacionismo ambiental para esse grupo de profissionais.

FIGURA
3
Porcentagens referentes à área de formação acadêmica dos respondentes.
A questão semi-estruturada
do questionário sobre percepção, ou seja, a questão aberta, cuja pergunta foi
padronizada pelo pesquisador, mas o respondente teve liberdade para expressar
sua resposta (ALENCAR, 2004: pp.83-84), indagou aos respondentes: “Pensando em
meio ambiente, descreva qual a imagem que vem à sua mente?”
As respostas
foram metodologicamente examinadas por meio da análise de conteúdo. A partir
dessa metodologia, primeiramente, a unidade de análise foi definida, que, no
caso, foram os textos das respostas de cada um dos questionários. Na seqüência,
a partir da leitura exaustiva das respostas, foram elaboradas três representações
sociais (categorias), que são sumarizadas na Tabela 1.
TABELA 2 Categorização sobre
ambiente.
|
CATEGORIAS
|
RESPONDENTES HOMENS (%)
|
RESPONDENTES MULHERES (%)
|
TOTAL
(%)
|
|
Natureza natural
|
42
|
64
|
52
|
|
Natureza antropizada
|
42
|
21
|
33
|
|
Não definiu
|
16
|
14
|
15
|
De acordo com
os resultados, a percepção de um ambiente isento de alterações humanas foi
abordado pela maioria dos respondentes (52%). Isso demonstra que os
profissionais que cursaram MAA em maio de 2008 apresentam uma imagem, ou
definição, naturalista sobre ambiente, o que exclui, ou desconsidera do espaço
geográfico, o homem e suas interferências ou construções. A análise por gênero
revela que a mesma porcentagem de homens que optou por natureza natural (42%),
também optou por natureza antropizada. Porém, as mulheres deram maior peso à
definição de ambiente como sendo natureza natural (64%). Esse fato revela que,
para essa turma de MAA, as pessoas que apresentam idade até 35 anos e que
tiveram uma formação mais recente na graduação, tendem a construir uma imagem
de ambiente naturalista, que revela seu aspecto reducionista de pensamento,
pois não considera a complexidade das relações quando se enquadra o homem como
um componente do ambiente.
Como resultado,
a Tabela 2 também apresenta que 33% dos respondentes apresentam um raciocínio
possivelmente mais complexo, pois já consideram o homem como um componente do
ambiente e, provavelmente, suas relações e interações. A análise por gênero dessa
turma de MAA revela que os homens, que apresentam idade igual ou superior a 35
anos, tendem a apresentar uma representação de ambiente que engloba o ser
humano, vinculando um raciocínio de complexidade.
3.3 Uma proposta de
abordagem em prol da conservação ambiental
A necessidade de
conservação ambiental é uma ação prioritária para a humanidade, pois se refere
à manutenção de qualquer manifestação de vida. Os profissionais ligados às
ciências agrárias merecem especial atenção, pois intervêm constantemente no
ambiente e essas intervenções devem ser realizadas por meio do raciocínio que
contemple a complexidade ambiental.
Este estudo considera que
as ações dos indivíduos são orientadas por teorias, seja de forma consciente ou
não. Assim, como principal resultado deste estudo, são apresentados dois
esquemas de raciocínio que poderão orientar a maneira de pensar e,
consequentemente, de ação ambiental.
O primeiro esquema de raciocínio
(Figura 4) se refere à definição de ambiente, que deve contemplar o raciocínio
de complexidade, apresentando o homem como um componente do ambiente, inserindo
suas interações e sua característica de principal interventor.

FIGURA 4 Esquema de raciocínio para a
definição de ambiente.
Analisando o esquema proposto na
Figura 4, o raciocínio deverá seguir no sentido da base do leque para a extremidade.
A partir da base, os componentes ambientais devem ser destacados e a
extremidade do leque conclui o raciocínio, agrupando os componentes num
raciocínio de ambiente entendido como um complexo sistema de interações entre
esses elementos.
O segundo esquema de raciocínio
(Figura 5) se refere à temática “problemática ambiental” dentro da complexidade.
Nesse esquema, o raciocínio de um indivíduo sobre os problemas ambientais deve
contemplar a idéia de que os problemas ambientais se refletem na biodiversidade
do planeta e, portanto, não priorizam a conservação da vida.

FIGURA 5 Esquema de raciocínio para a problemática
ambiental.
Analisando o esquema
proposto na Figura 5, o raciocínio deve seguir no sentido da base do leque para
a extremidade. A partir da base, os problemas ambientais deverão ser destacados,
por exemplo, como problemas climáticos, problemas referentes aos solos,
desmatamento, problemas sociais, etc., e a extremidade do leque conclui o
raciocínio, englobando os problemas ambientais no raciocínio de que esses
problemas corroboram para a diminuição da vida, pois contribuem para a
diminuição da biodiversidade.
4. Conclusões
Este estudo atingiu seu
objetivo ao propor um estímulo à conscientização e conservação ambiental,
partindo do diagnóstico da percepção ambiental somado à contribuição da teoria
da complexidade ambiental, gerando, como principais resultados, dois esquemas
de raciocínio em leque.
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Agradecimentos
À Coordenação de
Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) pela bolsa concedida (à
M.R.F.).