Nesses tempos de céus de cinzas e chumbos, nós precisamos de árvores desesperadamente verdes. Mario Quintana
ISSN 1678-0701 · Volume XXIV, Número 95 · Junho-Agosto/2026
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27/05/2026 (Nº 95) TIME ENACTUS LEVA SUSTENTABILIDADE E EMPREENDEDORISMO SOCIAL PARA ESCOLAS DE SANTA MARIA E CAÇAPAVA DO SUL
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TIME ENACTUS LEVA SUSTENTABILIDADE E EMPREENDEDORISMO SOCIAL PARA ESCOLAS DE SANTA MARIA E CAÇAPAVA DO SUL

As crianças têm contato com a educação financeira por meio da ‘Escolinha de Negócios’



Publicado em 21/04/2026



Durante cerca de quatro meses, crianças do quarto ano de escolas públicas foram responsáveis pelo cuidado, rega e crescimento de mudas de temperos diversos. Nas Escolas Municipais de Ensino Fundamental Dagoberto Barcellos, de Caçapava do Sul, e Lourenço Dalla Corte, de Santa Maria, oficinas de sustentabilidade e empreendedorismo social foram responsáveis por introduzir a prática da educação financeira. Promovidos pelo Time Enactus da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), os encontros da ‘Escolinha de Negócios’ tinham como objetivo a conscientização da importância de dois eixos: o cuidado com o meio ambiente e com o dinheiro. 

De acordo com Kamilly Dias, acadêmica da Licenciatura de Educação Física e bolsista do Time Enactus, foi por meio do cuidado com as plantas que as crianças aprenderam sobre o desenvolvimento dos negócios. “Eles escolheram o temperinho que mais agradou e a partir disso trabalhamos negócios, vendas, como lidar com o dinheiro, o que significa custo, preço, como surgiu o dinheiro, como funciona um cartão de crédito, o banco. Tudo de uma forma leve”, conta. Ao entregar a muda de tempero, os integrantes do Time Enactus proporcionaram uma oficina para explicar as diferenças entre os temperos, suas possibilidades de uso e quais cuidados são necessários. Nessa atividade, as e os estudantes elaboraram placas de identificação das plantas e suas características. As crianças também tiveram a oportunidade de participar de uma oficina de customização dos vasos, em que foram trabalhados aspectos da agregação de valor de um produto.

Depois de cerca de quatro meses, as plantas, que eram cuidadas no dia-a-dia da escola, foram comercializadas em feiras de produtores, como a Polifeira, em Santa Maria, e a Feira do Produtor Rural, em Caçapava do Sul. Após a venda, as crianças decidiam o que fazer com o lucro.

Josiane de Oliveira, professora na escola Dagoberto Barcellos, conta que seus alunos foram muito receptivos ao projeto da Escolinha de Negócios. Para ela, os encontros quinzenais agregaram muito no desenvolvimento do tema da educação financeira, que ela costuma abordar durante as aulas de matemática. “Acredito que os alunos desenvolveram o esperado, que foi desde a educação ambiental, de cuidar do meio ambiente, que eles precisaram cuidar e ter responsabilidade com a sua planta, e depois com a educação financeira, de comercializar a plantinha com todos os passos do preço, do lucro, do conhecimento das plantas”, descreve. Para Josiane, além do desenvolvimento da consciência ambiental e financeira, os alunos também aprenderam sobre como se comunicar e conversar com as pessoas, habilidade que foi fundamental para realizar as vendas das mudas no centro da cidade de Caçapava do Sul.

A partir da experiência, Kamilly Dias percebeu que as crianças não tinham muito conhecimento sobre questões básicas de finanças mas, ao mesmo tempo, havia curiosidade em aprender. “Eles desenvolveram sacadas bem legais a partir das percepções. Falávamos sobre salário, sobre CLT, uma pessoa que tem emprego fixo ou que é autônoma. E eles conseguiam se enxergar dentro disso: ‘Ah, meu pai é pintor, então ele é autônomo’”, explica Kamilly.  

A estudante acredita que a educação financeira deveria ser mais trabalhada na escola. “Conseguimos precificar quanto ia sair cada mudinha. Colocamos preço no vaso, na terra, no trabalho que eles tiveram, de cuidar, cultivar, regar. Colocamos preço e valor nessas coisas. E eles conseguiram chegar em um valor final que poderiam vender a plantinha. Eles entenderam que o custo da planta é um e que o lucro que iam ter é outro”, explica Kamilly. Ela também conta que, após a venda das plantas, algumas das crianças optaram por comprar sorvete, enquanto outras pensaram em usar o dinheiro para comprar mais mudas a fim de expandir o ‘negócio’. “Muitos disseram: ‘Ah, profe, eu vou pegar o valor do custo, comprar outras plantinhas, porque aí eu cultivo e vou ter de novo o meu lucro, mas também o valor do meu custo. Vou ganhar R$10,00 na minha planta e com isso eu vou gastar tanto e guardar o resto’”, lembra Kamilly.

Sustentabilidade e empreendedorismo social como bases do Time Enactus

O Time Enactus é uma organização internacional que tem 133 times somente no Brasil. De acordo com Débora Bobsin, coordenadora do Time na UFSM, o propósito é levar, para as universidades, o viés do empreendedorismo social. “Acontecem por meio da execução de projetos que olhem para problemas locais das suas comunidades e que gerem impacto para elas”, explica. Na UFSM, isso se executa por meio de ações de extensão, que é uma das formas de oficializar os times nas universidades. São cerca de 15 estudantes envolvidos, entre bolsistas e voluntários, de áreas como Psicologia, Química, Agronomia, Desenho Industrial, Ciências da Computação, Odontologia, Ciências Sociais, Engenharia de Telecomunicações e Educação Física. 

Formado pelo tripé dos vieses do ambiental, do social e da sustentabilidade financeira, o Time Enactus tem essas temáticas como centrais. Também é por isso que as ações de extensão feitas pelo Time na UFSM têm esse enfoque: “E é muito difícil falar de empreendedorismo social sem falar de questões ambientais, entende? Quando partimos de um problema, eles estão imbricados. E vem pela demanda das escolas, que têm dificuldade de trabalhar questões ambientais de forma transversal”, conta Débora. Para ela, as duas temáticas estão entrelaçadas. “É difícil de desconectar. Pensa nos recicladores: eles trabalham com um negócio que é ambiental, que gera ingresso financeiro e é uma maneira de sustento e que minimiza problemas que nós [a sociedade] criamos”, reflete.

Outras ações de extensão

A ‘Escolinha de Negócios’ dá continuidade a uma iniciativa anterior do Time Enactus, o projeto Florescer. É uma das ações de extensão desenvolvidas pelo Time a partir dos recursos do Programa de Extensão da Educação Superior na Pós-Graduação (PROEXT-PG). De acordo com Débora e Kamilly, a experiência deve continuar em 2026 na escola Dagoberto Barcellos, de Caçapava do Sul, e com outra escola de Santa Maria. Débora também comenta que, no ano de 2026, o Time Enactus deve testar uma modalidade da ação com turmas do ensino médio, com o objetivo de discutir o empreendedorismo a partir da resolução de problemas da escola.

O projeto também tem materiais didáticos, como cartilhas, em processo de editoração, que vão permitir a aplicação do modelo da Escolinha de Negócios em outras escolas, como um guia para as e os professores. Além disso, também trabalham no desenvolvimento de dois jogos: o Ciclus, que trata do descarte correto de resíduos, e outro, de tabuleiro, sobre educação empreendedora, que está na fase de desenvolvimento.

Expediente:

Reportagem: Samara Wobeto, jornalista voluntária.

Fotos: Time Enactus UFSM

Fonte: https://www.ufsm.br/projetos/extensao/proext-pg/2026/04/21/time-enactus-leva-sustentabilidade-e-empreendedorismo-social-para-escolas-de-santa-maria-e-cacapava-do-sul?utm_source=chatgpt.com



Ilustrações: Silvana Santos