Nesses tempos de céus de cinzas e chumbos, nós precisamos de árvores desesperadamente verdes. Mario Quintana
ISSN 1678-0701 · Volume XXIV, Número 95 · Junho-Agosto/2026
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O Eco das Vozes
27/05/2026 (Nº 95) PRAÇA FRUTÍFERA
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PRAÇA FRUTÍFERA

Adriana Backes

Quando estava na sala de aula, décadas atrás (não me recordo com exatidão o ano), pedi para que as crianças desenhassem algumas frutas, entre elas a goiaba. Então uma das crianças, levantou-se, se aproximou e perguntou:

Profe, como é que uma goiaba?

Perguntei:

Tu não conheces a goiaba?

Não!

Nunca viu um pé de goiaba?

Não!

Fiquei chocada, pois as goiabas e as goiabeiras fizeram parte da minha infância. Subia nas árvores, apanhava o fruto do pé, brincava de casinha, pendurada na árvore, muitas horas da tarde junto com as manas, mano e amiguinhos.

Perguntei para toda a turma e só algumas crianças, pouquíssimas, 2 ou 3 talvez, levantaram a mão dizendo que conheciam. …Então, indaguei fruta por fruta, daquela lista de atividades. Poucas das crianças conheciam as frutas e muito menos tinham tido contato com essas árvores frutíferas.

Naquela época, desenvolvi um projeto e fui à fruteira com as crianças. Compramos frutas, observamos, sentimos os aromas, fizemos salada de frutas, apreciamos o sabor num piquenique à sombra de um pé de jacarandá da escola.

E desse momento ficou a sementinha lançada no meu coração, a do desejo de fazer um pomar público para que as crianças pudessem se aproximar das árvores frutíferas, aprender a identificá-las e poder chamá-las por seus nomes, colher as frutas do pé e desfrutar dos seus sabores e nutrientes.

Comecei a pensar onde poderia plantar, como cuidar da destruição e vandalismo, por ser num lugar público. Como conseguiria as mudas das árvores frutíferas? Com qual verba? No entanto, as demandas da vida vieram, e foram muitas, pois trabalhava 40 horas e tinha 3 filhos pequenos. E assim o tempo foi passando...

Mais de 20 anos depois… Nas férias de 2026, próximo ao meu aniversário, quando estava passeando no Parcão, encontrei um homem que tentava falar com a diretoria de Proteção Ambiental. Como a prefeitura de Novo Hamburgo faz o horário de verão, não tem atendimento nas segundas de manhã, nem as sextas à tarde, eu fui avisá-lo. Então conversamos e ele me contou que era o Pedro Siveris, que fazia mudas de árvores frutíferas, a partir das sementes das árvores que ele tinha plantado. Entre essas, havia as mudas de bacupari, uma árvore frutífera brasileira, que eu não conhecia, e que ele queria doar. Naquele exato momento, a sementinha, plantada no meu coração há mais de duas décadas, germinou com força total. Então, falei entusiasmada que havia um lugar, pra plantar, próximo a minha casa, uma praça, que uma vizinha da frente da praça já estava cuidando e cultivando há algum tempo. Fiz a proposta de plantarmos juntos, no meu aniversário, que estava bem próximo, dando início ao pomar num espaço público, para que todos tivessem acesso às frutas (contei sobre o ocorrido em sala de aula). O senhor ficou muito emocionado, pois ele tinha o sonho de plantar árvores para que as crianças pudessem comer de pé. Então, nossos sonhos se encontraram e assim começou o projeto da praça frutífera, dando preferência às árvores nativas brasileiras, pois se as crianças já não conhecem muitas frutas, menos ainda, as frutas brasileiras. E nesse caso nem crianças, nem adultos. Um exemplo bem emblemático: a maioria de nós conhece a cereja que é nativa da Ásia! Mas poucas pessoas das quais conversei, sabem da existência da cereja do Rio Grande, nossa árvore, brasileira. Sabe-se que para o nosso ecossistema, o mais propício é o cultivo de plantas da região, tanto para a regeneração, quanto a conservação da nossa flora e fauna. Sendo assim, daremos preferência às árvores nativas para o plantio na praça Armindo Nicolau Moder, no bairro Jardim Mauá em Novo Hamburgo, Rio Grande do Sul.

E assim o projeto do Pomar começou, com a doação de uma muda de Bacupari do Pedro Siveris, que não pôde ir no dia do meu aniversário plantar comigo, mas que foi num sábado regar a planta e conhecer a praça. Todos estes momentos estão registrados na página da @fadaarcoiris e @gnomofolha na rede social Instagram.



Ilustrações: Silvana Santos