Que meu andar, meu viver seja cada vez mais no ritmo das bicicletas... (José Matarezi)
ISSN 1678-0701 · Volume XXI, Número 79 · Junho-Agosto/2022
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Arte e ambiente
05/06/2010 (Nº 32) Graphias em preto-e-branco
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GRAPHIAS EM PRETO & BRANCO


Silvio Cesar dos Santos Franzi

Cláudia Mariza Mattos Brandãoii




Os nossos olhos são como câmeras escuras. No entanto, mais do que permitirem a entrada da luz, através deles penetram as imagens do mundo. Assim, as imagens guardadas em nossa memória passam a fazer sentido e nos permitem estabelecer os modos de viver em sociedade. A construção desta sociedade vem do desejo humano de se perguntar sobre o mundo, de como transformá-lo e de como tentar recriá-lo assim como os nossos olhos o percebem.

Através da arte o homem sempre buscou um modo de expressar os sentimentos que o olhar instiga. Desde o início do processo civilizatório a pintura, o desenho e a escultura permitiram que interpretássemos e reconhecêssemos o passado distante através da interpretação dos artistas. No entanto, a partir do século XIX isto começou a ser feito também através da fotografia.

A fotografia, que pode ser entendida como o desejo de fixar o que se entendeu a respeito de um momento vivido, de reter esta luz que atingiu nossos olhos e que em nós desperta interpretações do mundo, modificou drasticamente a imagem daquilo que chamamos “realidade”.

Dentre tantos artistas fotógrafos, Sebastião Salgado é um dos que merece destaque. Este fotógrafo tem em seu trabalho características herdadas de autores que já no fim do século XIX buscavam, mais do que retratar a realidade, a interpretação do vivido. Os problemas relativos às desigualdades sociais e, consequentemente, a degradação das relações do humano com o entorno geopolítico ficam claras nos projetos fotográficos desenvolvidos por Salgado. Seu trabalho atinge o objetivo pelo apuro de sua estética fotográfica e nos conduzem à reflexão sobre os valores das sociedades contemporâneas.

A relação de Salgado com seus antecessores nos temas relacionados ao humano nem sempre estão ligados pela estética, mas, sim, pelo que está por trás da imagem fotográfica. Em suas fotografias está intrínseca a denúncia das injustiças provocadas por um sistema socioeconômico que ainda permanece presente em nossos dias, mostrando de forma mais clara o que seus antecessores preconizaram ao longo do século XX.

O século XX inaugurou em sua primeira metade uma nova etapa da documentação fotográfica com o surgimento do profissional do fotojornalismo, que busca elementos na imagem fotográfica para a tradução visual da notícia jornalística, o que antes era um atributo exclusivo da escrita. Esse modo de comunicação direciona o olhar do sujeito leitor para a intencionalidade de quem produz a notícia.

A aura de compromisso com a verdade, mostrando os horrores das guerras, os crimes, os problemas cotidianos da sociedade, atraem o público cada vez mais interessado pela imagem fotográfica, pela relação de realismo que a fotografia propõe. Contudo, é preciso filtrar as informações e os conteúdos para dar a credibilidade aos profissionais comprometidos com a fotografia como documento que estabelece a relação de testemunho com a verdade.

As fotografias em preto e branco de Sebastião Salgado, frente às possibilidades tecnológicas atuais, demonstram num primeiro momento uma ortodoxia dentro da linguagem fotográfica, sobretudo nas artes. Contudo, o olhar mais apurado sobre suas produções nos permite perceber o apuro técnico associado a uma percepção estética refinada, digna daquilo que chamamos objeto artístico.

O tema fotografado surge de um olhar atento que busca unir o ético ao estético, e a utilização do p&b não é casual, é uma opção consciente com o propósito de atrair o olhar do espectador para realidades delineadas pela sombra.

O espectador leigo não se atém às questões técnicas, mas sensibiliza-se pelo contraste que impacta o olhar. Percebe de imediato que os temas propostos dizem respeito às desigualdades sociais. Já para o observador técnico, o crítico e o intelectual do mundo das artes, Sebastião Salgado oferece composições clássicas com seus enquadramentos em primeiro plano, o uso preferencial das linhas horizontais e verticais, a qualidade no tratamento da luz e o equilíbrio entre forma e conteúdo.

Este mineiro, de Aimorés (Vale do Rio Doce), é uma pessoa diferenciada. Sua ideologia é permeada pelos valores humanitários que busca o auto-reconhecimento através da construção de uma sociedade mais equilibrada e baseada nos princípios ecológicos de sustentação do planeta.

Marcado por pertencer à juventude estudantil brasileira dos anos 60, que foi perseguida pelos militares, Salgado mudou-se para Paris, onde completou seus estudos em Economia, fazendo o doutorado pela Universidade de Paris. É neste período de consolidação da carreira acadêmica que a fotografia surgiu em sua vida.

Com o doutorado concluído, mudou-se para Londres para trabalhar na Organização Internacional do Café, exercendo função dentro de sua área acadêmica com uma perspectiva clara de ter naquela oportunidade de trabalho uma promissora carreira.

Dentre as atribuições de sua função, estavam as viagens ao continente africano e habituou-se a levar a sua máquina fotográfica. Com a seqüência das viagens, sempre que retornava a Londres junto dos relatórios técnicos de análise econômica trazia sempre alguns rolos de filme para serem revelados e ampliados. Ele não demorou muito tempo para perceber que sentia mais prazer em analisar as questões econômicas a partir da estética da contraluz que as suas imagens revelavam. Percebeu, então, que os caminhos científicos das teorias econômicas não possuem variáveis que definam com precisão os sentimentos oriundos do convívio com os habitantes das localidades que visitava.

Com a fotografia, Salgado substituiu os cálculos matemáticos pela relação de convivência. Percebeu que a fotografia, que resulta da mediação da sensibilidade de quem registra, contabiliza e documenta de forma clara o que em muitos casos fica impossível de avaliar através de abordagens econômicas. A partir de então, o economista, o foto-jornalista, o artista Sebastião Salgado passou a utilizar a fotografia como meio de denúncia e crítica sobre as desigualdades sociais, fruto da imposição insensível de políticas econômicas que não privilegiam as classes menos favorecidas.

A descoberta de seu prazer estético pelos discursos fotográficos determinou, em 1973, a sua opção profissional pela fotografia. É importante percebermos que o prazer e a dedicação pelo trabalho têm influência decisiva sobre o resultado de sua obra fotográfica.

No começo trabalhou para as agências Sygma (1974-1975) e Gamma (1975-1979), e até 1994 trabalhou na Magnum Photos, agência fotográfica fundada pelo mestre Henri Cartier-Bresson, uma cooperativa internacional de fotógrafos, marcada pela qualidade e padrão elevado dos profissionais a ela associados.

Nesta agência inicia a sua trajetória de dedicação a projetos de longa duração. Seus trabalhos demandam viagens constantes por regiões isoladas, possibilitam o seu encontro com povos em conflito, habitantes de lugares inóspitos para sobrevivência humana. O ingrediente para se manter motivado é a certeza de estar fazendo o que gosta, ter um objetivo muito claro em mente e, sobretudo, acreditar em suas idéias.

A qualidade dos seus trabalhos encontrou reconhecimento por parte dos meios de comunicação, mas as suas imagens não são produtos a serem “vendidos” pelos veículos de comunicação mais populares. Os aspectos que emergem de fotografias que demonstram acima de tudo a preocupação com o humano foram determinantes para que Salgado fosse acolhido no mundo das artes.

Usar a imagem fotográfica como detonadora de questionamentos desenvolve a percepção estética, o pensamento crítico e reflexivo e a sensibilidade nas relações humanas. Tudo é trabalho, tudo é prazer, e a mistura de todos estes elementos determina um estado motivador para a vida que transcende a escala de mercado.

Esta é a força que alimenta a esperança, mesmo quando se sabe que as mudanças não ocorrem linearmente na sociedade. Como diz Sebastião Salgado: “se assim fosse, traria benefícios para todos, mas ao contrário é provado que as diferenças entre os mais ricos e os mais pobres, em todos os aspectos, então aumentando por todo o planeta”. Identificamos aqui a crença de um fotógrafo que se utiliza da linguagem para despertar nos espectadores o desejo de mudança.


Figura 1: Sebastião Salgado

Fome no Sahel, Etiópia, 1985.

Figura 2: Sebastião Salgado

Fome de Sahel, Hospital de Gourma-Rharous. Mali, 1985.


Figura 3: Sebastião Salgado

Fome de Sahel, Campo Korem, Etiópia, 1984.


Figura 4: Sebastião Salgado

Divisão das crianças no acampamento de refugiados de Korem, Etiópia, 1984.


Figura 5: Sebastião Salgado

Outras Américas Oaxaca, México, 1980.



Figura 6: Sebastião Salgado

Outras Américas, Primeira comunhão em Juazeiro do Norte, Brasil, 1981.


Bibliografia:

KOSSOY, Boris. Fotografia e história. São Paulo: Ática, 1989.

PEQUEÑAS biografías y obras de los grandes maestros de la fotografía mundial. Disponível em: http://www.fotorevista.com.ar/Maestros/Maestros.htm.

SALGADO, Sebastião. Êxodos. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

__________________. Disponível em: http://www.terra.com/sebastiãosalgado


i Acadêmico do curso de Pós-graduação em Artes: Ensino e Percursos Poéticos, IAD/UFPel, pesquisador do PhotoGraphein: Núcleo de Pesquisa em Fotografia e Educação. silviofranz@bol.com.br

ii Professora assistente do Instituto de Artes e Design, Universidade Federal de Pelotas, coordenadora do PhotoGraphein: Núcleo de Pesquisa em Fotografia e Educação, grupo de pesquisa UFPel/CNPq. attos@vetorial.net


Ilustrações: Silvana Santos