Nada pode substituir o contato com a natureza para o desenvolvimento da consciência ambiental [...] (Genebaldo Freire Dias)
ISSN 1678-0701 · Volume XX, Número 77 · Dezembro-Fevereiro 2021/2022
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Arte e ambiente
05/06/2008 (Nº 24) Da Estética à Ética das manifestações artísticas contemporâneas
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Da Estética à Ética das manifestações artísticas contemporâneas

 

Cláudia Mariza Mattos Brandão[i]

 

 

O artista francês Marcel Duchamp (1887/1968) é reconhecido por ter redefinido o fazer artístico de modo radical. Dono de uma poética singular criou obras que resultam de associações criativas que ampliaram a natureza do fenômeno artístico e seus territórios, através de formas indiferenciadas que propõem a invenção de novos sentidos para o mundo.

Suas experimentações e provocações levaram-no a adotar idéias radicais como os peculiares ready-made (figura 1), construídos com objetos banais do cotidiano que o artista escolhia aleatoriamente, elevando-os ao estatuto de obra de arte, às vezes acrescentando detalhes, outras, atribuindo-lhes títulos arbitrários, sugestivos ou irônicos.


Figura 1: Marcel Duchamp

Roda de Bicicleta, 1913, ready-made, madeira e metal, altura 126 cm.

Fonte: http://locus.cwrl.utexas.edu/jbrown/files/Marcel%20Duchamp.jpg

 

Duchamp rebelou-se contra a "arte da retina", alegando que os significados eram apreendidos somente através das impressões visuais. Sem a pretensão de criar objetos belos ou interessantes optou pela banalidade intrigante de seus elementos, produzindo estranheza principalmente pela descontextualização.

Na opinião do crítico e historiador Giulio Carlo Argan seus ready-mades podem ser lidos tanto como críticas agressivas contra a noção comum de obra de arte, assim como declarações da aceitação de qualquer objeto como artístico, desde que desse modo seja designado pelo artista.

Das propostas conceituais de Duchamp para cá, entrar numa galeria ou numa grande exposição de arte, como as Bienais, por exemplo, pode ser intimidador. Isso se deve em grande parte ao fato da arte contemporânea cada vez mais confundir-se com a própria realidade, um estatuto que a aproxima das vivências cotidianas, com pouca ou nenhuma perspectiva histórica, afastando-a das interpretações óbvias, já que não existem parâmetros para comparações ou modelos a serem reproduzidos.

Nesse novo universo que se descortina aos espectadores a cada evento surgem mais obras classificadas como "estranhas", realizadas em meios inéditos, que nem sempre são bem aceitas pela crítica, principalmente pelos questionamentos éticos que algumas suscitam.

Figura 2: Gunther von Hagens

Body Worlds

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u11661.shtml

Um desses exemplos são as produções do médico anatomista Gunther von Hagen (figura 2) que criou e patenteou a técnica por ele denominada “plastinação”, que envolve a troca da água das células por material a base de silicone, transformando os corpos humanos em peças modeláveis.

Embora os estudos de Von Hagens datem da década de 70, sua primeira exposição, intitulada Body Worlds, aconteceu em 1995, em Tóquio, percorrendo depois alguns países da Europa. No Brasil as “esculturas” foram apresentadas em março de2007, em São Paulo.

Como bizarras construções, os corpos são posicionados de forma artística, imitando movimentos e ações, muitas vezes macabras, como o homem que carrega sua própria pele, e o outro posicionado sobre um cavalo segurando seu cérebro em uma mão e o do animal em outra.

Essas produções, que o médico pretende que sejam consideradas “artísticas”, causaram controvérsias em todos os locais onde foram expostas. As questões mais polêmicas dizem respeito à procedência dos cadáveres, que até hoje não foi plenamente esclarecida, e ao direito de manipulação dos restos mortais de seres humanos e de animais com finalidades duvidosas.

É inegável o forte apelo sensacionalista das obras do Dr. Gunther que gosta de comparar-se ao mestre renascentista Leonardo da Vinci. Embora apresentadas sob a égide da didática, elas provocam profundos e perturbadores confrontamentos aos freqüentadores desse já conhecido circo de horrores, que tem se revelado uma excelente fonte de renda para seus organizadores.

...mas os estranhamentos provocados pela produção artística contemporânea não param por aí!

Em 2007 o costarriquenho Guillermo Habacuc Vargas pegou na rua um cão vira-lata, amarrou-o a uma corda, prendendo-o à parede de uma galeria de arte em Manágua (Nicarágua), onde o animal definhou até morrer de fome (figura 3). Tratava-se, segundo ele, de uma obra de vanguarda (!), que permaneceu exposta à visitação pública.

 

Figura 3: Guillermo Vargas

Obra Perecível, 2007.

Fonte: http://minhanoticia.ig.com.br/materias/461501-462000/461759/461759_1.html

 

Não podemos negar a atitude condenável do “artista” que teve a iniciativa de condenar à morte o indefeso animal, no entanto, o que dizer dos que foram assistir a esse horrendo espetáculo? As notícias divulgadas não fazem referência a nenhuma manifestação efetiva contra essa atitude. Será que ninguém tentou soltar o cachorro? Ou chamar a polícia ou a sociedade protetora dos animais? Nenhuma pessoa que compareceu a essa exposição tentou alimentar ou dar água ao animal?

Sabe-se que muitas petições e mensagens de repúdio continuam circulando na internet, sobre as quais Vargas ainda não se manifestou, porém, são posteriores ao acontecido. As discussões ficaram ainda mais acirradas quando foi divulgado o convite feito pela Bienal de Arte Centro-Americana de Honduras (2008) para que ele repita durante o evento o mesmo espetáculo de crueldade e sadismo.

Provavelmente nem Duchamp entenderia a finalidade dos ready-mades de carne e osso de Gunter von Hagens, muito menos o de carne, osso e vida apresentado por Guillermo Vargas!

Com certeza essas são facetas da arte em sua ininterrupta renovação, interagindo com a política, a filosofia, a psicologia e a tecnologia, além de influenciar a produção cultural em todos os seus segmentos. O que não podemos esquecer é que acima de tudo essas “obras” explicitam mentalidades, comportamentos e valores vigentes, como assustadores exemplos das relações estabelecidas nas sociedades pós-modernas.

Tais propostas nos levam a questionar os limites éticos das produções artísticas contemporâneas e o próprio estatuto da obra de arte. Porém a questão mais séria que fica é a indagação sobre a qualidade moral e ética da contemporaneidade. Como discutir preservação ambiental quando a própria humanidade do humano parece ter desaparecido?

 

 

Referência bibliográfica:

ARGAN, Giulio Carlo. Arte Moderna. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

 



[i] Mestre em Educação Ambiental, professora de Artes do Centro Federal de Educação tecnológica de Pelotas, CEFET-RS, coordenadora do PhotoGraphein – Núcleo de Pesquisa em Fotografia e Educação, FURG/CNPq.

Ilustrações: Silvana Santos