Que meu andar, meu viver seja cada vez mais no ritmo das bicicletas... (José Matarezi)
ISSN 1678-0701 · Volume XXI, Número 79 · Junho-Agosto/2022
Início Cadastre-se! Procurar Área de autores Contato Apresentação(4) Normas de Publicação(1) Artigos(6) Notícias(6) Reflexão(4) Para sensibilizar(1) Entrevistas(1) Saber do Fazer(1) Arte e ambiente(1) Sugestões bibliográficas(3) Educação(1) Sementes(1) Ações e projetos inspiradores(2) Gestão Ambiental(1) O Eco das Vozes(1) Do Linear ao Complexo(3) A Natureza Inspira(1) Relatos de Experiências(3)   |  Números  
Arte e ambiente
23/05/2006 (Nº 17) Retratos, reflexos, reflexões: a arte de reconstruir trajetórias
Link permanente: http://www.revistaea.org/artigo.php?idartigo=415 
  

Retratos, reflexos, reflexões: a arte de reconstruir trajetórias.

Profª MSc. Cláudia Mariza Mattos Brandão[1]

Profª Arzila Pertile[2]

A construção de um olhar estético-crítico sobre o mundo implica na compreensão da importância da leitura visual nos processos de formação do cidadão contemporâneo. No documentário Janela da Alma o escritor José Saramago afirma que estamos cegos e, mais do que nunca, vivendo na caverna de Platão: - Ver é muito complicado, proclama.

De todos os órgãos dos sentidos, os olhos são os de mais fácil compreensão científica, pois a sua física é idêntica à física óptica de uma máquina fotográfica; no entanto, existe algo na visão que não pertence à física. O ato de ver não é uma coisa natural, ele precisa ser aprendido. Nietzche sabia disso e afirmou que a primeira tarefa da educação é ensinar a ver.

Rubem Alves nos diz que a diferença entre visão e olhar se encontra no lugar onde os olhos são por nós guardados. Se estiverem na caixa de ferramentas, eles são apenas utensílios que usamos por sua função prática; ao contrário, se estiverem na caixa de brinquedos, eles se transformam em órgãos de prazer: “brincam com o que vêem, olham pelo prazer de olhar, querem fazer amor com o mundo.”

O encontro entre os sentidos e os saberes sociais transforma a visão em olhar, as vivências em experiências. O desenvolvimento do olhar crítico, das capacidades sensíveis associadas às cognitivas, permite a percepção do mundo através de suas manifestações cotidianas, significando contextos e favorecendo a formação do sujeito estético-crítico.

A humanidade não nasceu para conquistar e possuir, mas simplesmente para aprender a enxergar

John Gray

Em suas múltiplas e sempre novas formas de apresentar o mundo a si mesmo, a fotografia possibilitou a redescoberta de novas oportunidades e potencialidades, sem às quais a humanidade, em seu percurso cotidiano sucumbiria em seu processo de construção e manutenção de culturas e identidades.

Levando em conta a superação dos limites do homem e da técnica rumo às novas descobertas, pode-se dizer que a fotografia, assim como a Arte em geral, gradativamente serviu-se de elementos internos e externos à seus países, contribuindo de maneira relevante para a estruturação social, política e econômica das sociedades em processo de desenvolvimento, de cada povo e cultura.

Responsável pelo desencadeamento de meios possíveis de relacionamentos em todas as esferas da sociedade, a fotografia contribuiu de forma relevante com rompimento à tradições acadêmicas estagnadas apontando para a liberdade de criação e de pesquisa estética, em coerência com a cultura e a realidade de cada povo.

Assim como a música, a fotografia tornou-se uma linguagem universal. Com características particulares e constantemente aperfeiçoadas, a mesma passa a representar o homem, a mulher, os problemas individuais e coletivos, a cultura, os sentimento, os anseios, as esperanças e frustrações de grupos, comunidades e realidades especificas, com dignidade e competência, ora questionáveis, ora insuperáveis.

Porque não oportunizar essa experiência a educação, seja ela formal ou informal? Fazer de cada ser humano um descobridor e um inventor de um novo mundo, não aquele paraíso maravilhoso prometido pelos primeiros colonizadores, mas sim construído a partir do cotidiano, do prazeroso, do possível e viável para o bem estar de todos? O que é mais urgente hoje, construir máquinas que produzam exaustivamente produtos de consumidor, ou seres humanos que re-avaliem seu papel no mundo? São tantos os caminhos que se tornaram atalhos. São tantas as simplicidades que se tornaram vaidades.

Figura 1: Arzila Pertile

Fotografia , 2005

Essas questões impulsionaram a proposta do projetoRetratos Femininos: a arte de reconstruir trajetórias”, que teve como objeto de pesquisa a beleza simples e comum das mulheres que participam das oficinas do “Programa Vida e Solidariedade”, desenvolvido em comunidades carentes da periferia da cidade do Rio Grande, com o objetivo de buscar uma nova forma desses sujeitos perceberem-se enquanto mulheres e cidadãs.

A partir de um conjunto de imagens extraídas em diferentes situações cotidianas, foi proposta uma reflexão pessoal e social, cuja temática é a possibilidade de construção de um novo pensamento no que se refere ao papel da mulher, na sociedade moderna e contemporânea, a qual desempenha um papel fundamental na dinamização de formas alternativas de subsistência, a partir de programas comunitários de subsistência alternativa.

Figura 2: Arzila Pertile

Fotografia, 2005.

Constantemente estimuladas a superarem preconceitos e barreiras impostas pelo sistema capitalista vigente cujos parâmetros de beleza e outros estereótipos passam ao largo das grandes e pequenas periferias, assim como os limites impostos pelo marido e filhos, essas mulheres têm demonstrado, nos últimos cinco anos, uma vontade sobrenatural de reconstrução da auto-estima e da dignidade enquanto seres humanos, bem como de sua família.

O objetivo de adentrar no cotidiano desses grupos de mulheres resultou nas mesmas reconhecerem-se tão importantes quanto às demais mulheres da sociedade ou dos protótipos estereotipados construídos ao longo das décadas. Trata-se de pessoas de garra, de persistência e força inquestionável, com potencialidade e dignidade capazes de transformar situações de caos e conflitos de gênero e sociais, não somente de gerar a vida, mas de não medir esforços para mantê-la viva.

A disposição em permitir que outros olhos possam ver além do visível e através deste invisível captar os anseios e as esperanças contidas e escondidas na alma e na memória que habita o olhar de quem se deixa ver, estimulo a busca de metas que ajudem o ser humano a ser melhor, a conhecer suas potencialidades e sua dignidade enquanto pessoa. Sem medo da censura, do preconceito e da discriminação é um passo ousado em direção a uma sociedade justa e igualitária, promotora de um novo olhar.

Figura 3: Arzila Pertile

Fotografia, 2005.

A vivência das linguagens artísticas a partir de discussões sobre as raízes da construção social e suas implicações no cenário contemporâneo possibilita a compreensão do campo de atuação do educador. A percepção sensível do mundo como elemento instigador da criação de suportes simbólicos estimula a reformulação de pensamentos, e a reflexão critica sobre a identidade dos múltiplos sujeitos e as relações de alteridade na contemporaneidade.

Bibliografia:

ALVES, Rubens. Educação dos Sentidos e Mais. São Paulo: Versus Editora, 2005.

ARROYO, Miguel. Ofício de Mestre - Imagens e Auto-Imagens. 2.ed. Petrópolis: Editora Vozes, 2005.

BERGER, John. Modos de Ver. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.

BRITES, Blanca e TESSLER, Élida. O Meio como Ponto Zero. Porto Alegre: Editora da Universidade/URFGS.

BUSSELE, Michael. Tudo Sobre Fotografia. São Paulo: Ed. Pioneira, 1993.

DUBOIS, Philipe. O Ato Fotográfico e Outros Ensaios. São Paulo: Editora Papirus, 1994.

FARIA, Hamilton e GARCIA, Pedro. Arte e Identidade Cultural na Construção de um Mundo Solidário. São Paulo: Instituto Polis, 2002.

NOVAES, Adauto. O Olhar. São Paulo: Companhia das Letras, 1988.



[1] Coordenadora do PhotoGraphein – Núcleo de Pesquisa em Fotografia e Educação, grupo de pesquisa CNPq/FURG.

[2] Arte/Educadora, pesquisadora do PhotoGraphein

Ilustrações: Silvana Santos