Que meu andar, meu viver seja cada vez mais no ritmo das bicicletas... (José Matarezi)
ISSN 1678-0701 · Volume XXI, Número 79 · Junho-Agosto/2022
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Arte e ambiente
15/12/2015 (Nº 54) CARTO/FOTO/GRAPHANDO AS PRAÇAS
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CARTO/FOTO/GRAPHANDO AS PRAÇAS

 

 

Cláudia Mariza Mattos Brandão[i]

Rodrigo de Assis Brasil Valentini[ii]

 

 

Resumo: O artigo foca a discussão nos resultados de atividades carto/foto/gráphicas acerca de diferentes percepções sobre o espaço urbano, em especial as praças, relacionando a objetividade das representações fotográficas com as subjetividades que habitam as cidades.

 

 

 

O PhotoGraphein – Núcleo de Pesquisa em Fotografia e Educação (UFPel/CNPq), sediado no Centro de Artes da Universidade Federal de Pelotas (Pelotas, RS), tem por objetivo desenvolver pesquisas voltadas para as vivências cotidianas e seus imaginários. Nelas, a linguagem fotográfica é associada a processos educativos, relacionada ao desenvolvimento dos sujeitos contemporâneos e suas representações. Almejamos estimular outros modos de observar o mundo e as ações a nossa volta, considerando que existe sinergia entre o espaço urbano e a sociabilidade. E essa relação cria um mundo original no qual a relação particular de cada indivíduo interage com o contexto social e natural. 

Entendemos as metrópoles como resultantes de jogos interacionais, elaboradas a partir dos encontros banais entre os indivíduos/cidadãos que tecem histórias cotidianamente. Logo, o espaço urbano é percebido como uma visualidade que permite a compreensão dos seres em suas diversas modulações, atitudes e humores, engendrando uma infinidade de redes que produzem sutilmente a ordem simbólica da paisagem.

Ponderamos que o universo simbólico é concebido como a matriz de todas as significações socialmente objetivadas e subjetivamente reais. E tal perspectiva poética nos possibilita analisar o cotidiano urbano com seus fluxos e refluxos de signos, códigos, mensagens e relatos. Nesse universo são várias as questões que nos instigam: Como olhamos a cidade? Como a cidade nos olha? Que segredos escapam aos nossos olhos anestesiados pela correria diária? Como narramos a cidade que repousa em nosso imaginário?

E tais indagações nos levaram a refletir sobre os mapas urbanos e as influências que tais desenhos/abstrações exercem sobre os cidadãos: Eles nos orientam? Como são percebidos?

Os mapas, também chamados Cartas, são construções imaginárias produzidas como ideário de representação. Eles são registros de memórias e narrativas da geografia que dão visibilidade a significados historicamente constituídos. ... mas as cidades transbordam para além dos limites de mapas e suas significações/convenções.

E foram tais questões que propomos como mote para as atividades desenvolvidas pelos integrantes do PhotoGraphein durante as Jornadas de Fotografia (2014 e 2015), organizadas pela Fototeca Municipal “Ricardo Giovannini” de Rio Grande (RS). Com a intenção de provocar mentes, instigar olhares e dar visibilidade às sensibilidades que afloram das cartas urbanas, nós estimulamos leituras sensíveis de duas praças da cidade, a Xavier Ferreira e a Tamandaré, pelo viés da fotografia, buscando a construção coletiva de microcosmos simbólicos, apresentados como cartografias do sensível.

            Para problematizar as diferentes percepções desses espaços de convivência coletiva/comunitária, propomos a realização de carto/foto/graphias, e relacionando a objetividade das representações cartográficas com as subjetividades que habitam a cidade, traduzidas em fotografias.

 

1.            (Re)significações da Praça Xavier Ferreira

 

A Xavier Ferreira está localizada no coração político da cidade de Rio Grande, em região de aterro realizado no início do século XIX. Em seu entorno se encontram a Prefeitura Municipal, a antiga sede do Quartel Militar, a Biblioteca Rio-grandense, o Mercado Público, o prédio da Câmara do Comércio, a antiga Alfândega (prédio que hoje abriga a Receita Federal e o Museu da Cidade), o Museu Sacro e construções residenciais e comerciais ao longo da Rua Marechal Floriano Peixoto, perfazendo um dos mais nobres endereços da cidade.

Ela foi planejada no século XIX, mas recebeu esse nome em homenagem a Francisco Xavier Ferreira, pioneiro na implantação da primeira tipografia na cidade, durante as comemorações do primeiro centenário de elevação da vila do Rio Grande à cidade, em 26 de junho de 1935. Ela integra um dos cartões postais de maior beleza plástica da cidade, tendo sido utilizada/desfrutada pela população rio-grandina ao longo do tempo.

E foi neste cenário espetacularizado (DEBORD, 2005) que propusemos em 2014 a realização de uma cartografia sensível do local, tendo a fotografia como meio.

            Enfatizando a imagem fotográfica como fruto do exercício do pensamento simbólico, pedimos a cada participante que registrasse quantas imagens quisesse, respondendo à questão proposta: A praça Xavier Ferreira assim me parece... Com tal provocação, referenciamos a capacidade da fotografia de inscrever, grafar, depoimentos pessoais sobre o mundo, destacando a instância da imagem fotográfica que dá visibilidade a esquemas simbólicos que repousam no Imaginário.

E fomos à rua!

A praça vivia um dia comum em seu cotidiano. Eram camelôs, servidores municipais da limpeza urbana, cães passeando com seus respectivos donos, aposentados, namorados, algumas crianças caminhando com seus pais, e nós. A praça não possui banheiros públicos, nem venda de alimentos de espécie alguma. Ela tem um uso atual de caráter contemplativo, algumas sombras, bancos, monumentos, chafariz, percolado de madeira, obelisco e um lago cercado em seu interior.

A imersão do grupo no ambiente resultou numa volta ao passado aos que já conheciam a praça. E as memórias foram traduzidas em imagens, assim como destacou Luciane ao retratar o banco em que costumava sentar com seu avô (Figura 1).

                

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Figura 1: Assim me parece a Xavier Ferreira, Luciane, fotografia digital, 2014.

 

Entretanto, para os “estrangeiros” o lugar foi traduzido a partir de outros enfoques, assim como a sua relação com a prática do skate, uma ocupação nova para a praça (Figura 2), e característica do público jovem que sempre circula por ali.

 

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Figura 2: Assim me parece a Xavier Ferreira, Bárbara Cezano, fotografia digital, 2014.

 

Do conjunto de imagens resultante das práticas se destaca o enfoque na exuberância da natureza, um “ponto” verde no mapa da cidade que abriga exemplares que remontam à fundação da cidade, além de exemplares únicos, assim como a árvore de pau-brasil. Incrustada no centro histórico da cidade, rodeada de prédios, a praça é percebida como um oásis verde, acolhedor, cujas frondosas árvores proporcionam sombra e ar fresco aos passantes (Figura 3).

 

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Figura 3: Assim me parece a Xavier Ferreira, Daiane, fotografia digital, 2014.

 

As fotos apresentam sínteses simbólicas de memórias particulares fundidas às percepções do atual espaço, reconfigurando o imaginário de cada um e de todos, como destaca o teórico Maurice Halwachs em suas “Memórias Coletivas” (2006). Assim, a cada imagem o grupo foi se apropriando destas diferentes memórias e histórias num processo de reconstrução das marcas individuais que somadas constroem a história da Praça Xavier Ferreira e, por consequência, da cidade de Rio Grande.

 

2.            (Re)descobrindo o espaço da Tamandaré

 

Dando continuidade às nossas pesquisas, em 2015, para a 2ª Jornada de Fotografia, escolhemos a Praça Tamandaré, considerada a maior do interior do Rio Grande do Sul, como foco das discussões. Esse é um local diferente da praça anterior, embora só distem duas quadras entre as esquinas mais próximas.

A Tamandaré tem uma origem mais antiga que a Xavier Ferreira, sendo utilizada nos primórdios da urbe como lugar de busca d’água potável. Seu tempo é mais recuado como falamos, sendo mencionada nos diários de Saint-Hilaire (1987, p.76) que quando em passagem pela cidade comenta: “[...] não há aqui nem nascentes nem fontes de água doce, mas atrás da cidade, entre montículos de areia, em lugar denominado Geribanda, cavaram-se poços onde à pequena profundidade, se encontra água boa”. Seu nome atual é uma homenagem o Almirante Joaquim Marques de Lisboa (1807 - 1897), chefe da esquadra na campanha do Rio da Prata em 1865.

A praça ocupa quatro quadras urbanas, sendo um espaço privilegiado de verde no centro da cidade. Ela foi redesenhada também no final do século XIX, quando foi construído em seu interior um lago artificial, que além de relembrar seu uso inicial, serve como parte integrante do regulador de drenagem do centro da cidade. O lago contorna todo o lugar e se constitui como um canal que funcionava com bombas em caso de cheias movidas a cataventos, estruturas presentes na praça até a década de 1970.

A Tamandaré, diferente da Xavier Ferreira, possui três banheiros públicos, sendo que nela atuam em torno de dez ambulantes vendendo lanches rápidos. Lá também encontramos um pequeno zoológico, pontos de camelôs de origem senegalesa, uma rádio privada, em torno de dez prédios de uso exclusivo do poder público, uma torre de uso da Companhia telefônica Oi, quiosques comerciais construídos em alvenaria.

            Tendo mais uma vez como objetivo geral estimular a construção coletiva de um microcosmo simbólico, estimulamos o exercício de ler o mundo nas entrelinhas da produção artística/estética, associando a linguagem fotográfica aos processos educativos relacionados ao desenvolvimento dos sujeitos contemporâneos e suas representações.

A metodologia desenvolvida foi a mesma da edição anterior, apresentando-se ao grupo a proposta de trabalho com a imagem enquanto texto não-verbal, na qual se inscreve o espaço cartografado. Logo após trouxemos a discussão sobre as relações entre o publico e o privado, que parece estar visível no debate entre os diversos grupos que transitam nesta praça diariamente, visto que ela possui um uso diferenciado por parte do público, tendo grupos de todas as idades presente em diversos momentos do dia.

 

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Figura 4: Assim me parece a Tamandaré, Eliane, fotografia digital, 2015.

 

Os resultados também não se afastaram dos demais, e a memória do vivido foi o tema recorrente entre os participantes nascidos em Rio Grande, assim como declarou Eliane, analisando a sua imagem do parquinho vazio (Figura 4), justificando que a marca mais profunda deste espaço nela remetia aos tempos em que levava seus filhos para brincar nos brinquedos, agora um espaço vazio, pois seus filhos não estavam mais lá!

Nesta edição das atividades tivemos a participação de algumas pessoas que residem na cidade há pouco tempo, oriundos dos recentes movimentos migratórios que movimentaram Rio Grande em função da instalação de um estaleiro para a construção de plataformas petrolíferas, mobilizando trabalhadores oriundos de diferentes pontos do país, dos setores petroleiro e metalúrgico. A presença dessas pessoas no grupo acrescentou olhares diferenciados sobre o espaço. Todas declararam que gostam da praça, mas que geralmente só transitavam por ela, visto que no seu entorno se localizam as paradas de ônibus que conduzem aos diferentes bairros da cidade, assumindo a condição de terminal urbano da cidade. Ou seja, para essas pessoas a praça é um lugar de passagem não de lazer, e em suas imagens se destaca a preocupação com o estado de conservação do lugar, assim como o do monumento-túmulo em homenagem ao General Bento Gonçalves (Figura 5), que ostenta inúmeras pixações.

 

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Figura 5: Assim me parece a Tamandaré, Cláudia, fotografia digital, 2015.

 

3.            Concluindo etapas e projetando continuidades

 

Nós, pesquisadores do PhotoGraphein, acreditamos que as imagens agem como dispositivos que estimulam a mente a sonhar, refletir, imaginar e produzir, a partir do repertório simbólico interior (mental) e do exterior (o ambiente), sobre instigações que trazem à tona um movimento de pensamentos e discussões internas a cada indivíduo. E foi isso o que comprovamos com as nossas participações nas Jornadas de Fotografia em Rio Grande.

A predominância da cultura da imagem nas sociedades ocidentais contemporâneas, espetaculares como diria Guy Debord (2005), alerta para a preponderância da atividade visual nos sujeitos/atores que habitam os espaços urbanos. Tal característica exige competências e aptidões cognitivas específicas e o desenvolvimento de faculdades intelectuais diferentes, para que os indivíduos desenvolvam novos modos de perceber/ler o mundo ao redor. E essa é exatamente a nossa intenção ao propor o exercício de carto/foto/graphar a realidade.

Como bem destaca Susan Sontag (2008), entendemos que todos têm as mesmas possibilidades de produção, indistintamente, principalmente com a disseminação dos novos equipamentos fotográficos associados a diferentes aparelhos, e quando é possível democratizar as experiências pela tradução de/em imagens, o entendimento das mensagens tem um maior alcance. Sendo assim, a fotografia interpretada como resultado de ações sociais de produção de sentido, simbólicas, pautadas em códigos estabelecidos pela técnica e pelos imaginários dos sujeitos/fotógrafos, amplia os sentidos do daquilo que a imagem apresenta.

Concluímos que frente à banalização contemporânea do ato de fotografar, produzir imagens como fruto do exercício expressivo da linguagem fotográfica, possibilita entendê-las como mediadoras nos processos de compreensão das relações sistêmicas do homem - consigo, com o outro e com o meio social, político e natural - modulando as nossas ações sobre o que entendemos como realidade. As fotografias resultantes das duas práticasa e suas consequentes discussões proporcionaram leituras de mundo das quais emergiram reconstruções simbólicas do espaço urbano como uma mescla de memória, história e sentido de pertencimento.  

 

 

Referências:

DERBORD, Guy. A Sociedade do Espetáculo. Lisboa: Edições Antipáticas, 2005.

HALBWACHS, Maurice. A Memória Coletiva. São Paulo: Centauro, 2006.

SAINT-HILAIRE, Auguste. Viagem ao Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Martins Livreiro, 1987.

SONTAG, Susan. Ensaios sobre a fotografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

 



[i] Doutora em Educação, Professora Adjunta do Centro de Artes da Universidade Federal de Pelotas (RS), líder do PhotoGraphein – Núcleo de Pesquisa em Fotografia e Educação (UFPel/CNPq). attos@vetorial.net

[ii] Graduado em História (FURG), acadêmico do curso de Arqueologia da Universidade Federal de Rio Grande, pesquisador do PhotoGraphein – Núcleo de Pesquisa em Fotografia e Educação (UFPel/CNPq). rodrigovalentini@furg.br

Ilustrações: Silvana Santos