Nada pode substituir o contato com a natureza para o desenvolvimento da consciência ambiental [...] (Genebaldo Freire Dias)
ISSN 1678-0701 · Volume XX, Número 77 · Dezembro-Fevereiro 2021/2022
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Arte e ambiente
10/09/2018 (Nº 53) UM FLÂNEUR EM BUSCA DAS MEMÓRIAS DE UMA CIDADE EM VIAS DE DESAPARIÇÃO
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UM FLÂNEUR EM BUSCA DAS MEMÓRIAS DE UMA CIDADE EM VIAS DE DESAPARIÇÃO

 

 

Cláudia Mariza Mattos Brandão[i]

Ítalo Franco Costa[ii]

 

 

 

RESUMO: Neste texto discutimos sobre o impacto que as ruínas de uma cidade provocam em seus antigos moradores, analisando o caso de General Câmara (RS). Para tanto recorremos às práticas da flâneurie e da fotografia, na busca de reconstruir memórias pessoais e coletivas do espaço urbano.

 

 

 

Quando refletimos sobre a relação dos indivíduos com os espaços urbanos, locais de maior concentração populacional em nosso país, analisamos as ligações dinâmicas estabelecidas entre sujeitos e espaços no contexto de suas rotinas cotidianas. Isso envolve observarmos a natureza objetiva do ambiente, sem prescindir da consideração das implicações do meio geográfico sobre os comportamentos afetivos. Ou seja, avaliamos a experiência física do cidadão com o contexto urbano, sem desconsiderar que os fatos se fundem à imaginação, fruto de relações particulares, subjetivas, e reconstroem a cidade da memória e das afecções.

Sendo assim, nos questionamos sobre o impacto que as ruínas de uma cidade provocam em seus antigos moradores. Se os espaços dos antigos afetos, da memória familiar e social desaparecem, nós sobreviveremos a sua falta?

Neste artigo nos propomos a discutir um caso em especial, o desaparecimento gradativo da cidade de General Câmara e os sentimentos que se esvaem sob a ação do tempo. Recorremos à prática da flâneurie e aos registros fotográficos para tentar recompor histórias do ambiente urbano em vias de desaparição.

 

 

1.    Sobre a cidade General Câmara

 

 

            General Câmara é um município, no interior do Rio Grande do Sul, localizado a 76 km da capital Porto Alegre. Não possui mais do que nove mil habitantes, cuja maioria vive fora da cidade em propriedades rurais. Sua economia gira basicamente em torno de um pequeno comércio localizado no centro da cidade, os chamados “bazares de 1,99”, e os produtos gerados pelos agricultores.

            Uma cidade historicamente importante, General Câmara alcançou o seu ápice econômico com a construção do Arsenal de Guerra, ponto militar que defendia durante a Segunda Guerra Mundial o rio que margeia a cidade. Sendo assim, clubes e residências foram construídos para os oficiais que lá moravam de modo que tivessem espaços destinados ao lazer das famílias, tais como clubes, campos de futebol, etc. Porém, com o término da guerra e a passagem do tempo a cidade começou a se esvaziar. O Arsenal de Guerra teve seu prestígio diminuído e pouco a pouco aquele centro outrora promissor começou a se transformar.

 

 

Figura 1: Casa abandonada, Ítalo Franco, fotografia, 2014.

           

Figura 2: Clube abandonado, Ítalo Franco, fotografia, 2014.

 

Hoje a cidade está praticamente abandonada. Há poucos moradores no centro, muitos deles antigos residentes. Várias das casas estão largadas à ação do clima, em sua maioria são residências pertencentes ao Arsenal, caracterizadas pelas cores branca e azul (Figura 1). São casas que estão vandalizadas, que não possuem portas, janelas ou que correm risco de desabar. Os clubes da cidade, antigamente lotados pelos seus associados, hoje, absolutamente vazios, apenas apresentam o esboço, um fantasma do que já foram (Figura 2).

            Mas o que faz os moradores dessa cidade não se preocuparem com a situação do local onde vivem? Estarão acostumados com a paisagem a ponto de não notá-la? Provavelmente vivem correndo para ganhar seu sustento ou estejam alienados do mundo, plasmados frente a uma televisão. A percepção desses moradores é limitada à área onde vivem, uma vez que as casas abandonadas em pior estado estão no interior da vila militar, que tem um formato quadrangular, ficando assim bem escondidas. Sendo assim, torna-se difícil perceber a mudança e o vazio que toma conta da cidade.

Entretanto, a contemporaneidade começa a cobrar seu preço, o de enxergar o mundo através do olhar do outro. Como Margaret Morse (MORSE in: ARANTES, 1990, p.193) explica:

 

Em última análise, a distração relaciona-se com a expressão de dois planos de linguagem representados simultaneamente ou alternativamente: o plano do sujeito em um aqui-agora, ou discurso, e o plano do ausente ou não-pessoa, em outro tempo, alhures, ou história.

 

            A banalização das experiências cotidianas em muito se deve ao ritmo vertiginoso do homem contemporâneo. Ele, que muitas vezes só reconhece as trilhas que o conduzem a seus objetivos imediatos, não percebe que é parte integrante – e pulsante – da urbe, com uma história representativa que se soma a dos demais, configurando a história da cidade. A cidade, um espaço político por excelência, que representa o ethos comunitário.

Certamente que tal alienação não é uma regra, as exceções existem, esses são aqueles que conseguem notar o verdadeiro panorama da cidade, pessoas que, pode se dizer assim, tem um ar de flâneur. O significado para essa palavra foi proposto por Charles Baudelaire, como uma designação para os que perambulam pela cidade com o intuito de descobri-la, experimentá-la.

           

O Flâneur tem sua origem na Paris do início do século XIX, quando, entre 1800 e 1850, construíram-se cerca de 30 galerias que proporcionavam espaços fechados para caminhar e olhar, gastar tempo e folgar, como vemos no exemplo muito citado do Flâneur que mostrou sua indiferença ao ritmo da vida moderna, levando uma tartaruga para passear. Por um lado, o Flâneur é o preguiçoso, o desperdiçador; por outro é o observador ou o detetive, a pessoa suspeita que está sempre olhando, observando e classificando, a pessoa que, como disse Benjamin, “faz pesquisas botânicas no asfalto”. O Flâneur busca uma imersão nas sensações da cidade, “banhar-se na multidão”, perder-se nas sensações, sucumbir ao arrasto de desejos aleatórios e aos prazeres da escopofilia (ARANTES, 2000, p. 192).

           

 

            Quando se visita General Câmara é difícil resistir ao desejo de entrar em uma das casas abandonadas. Desde crianças somos bombardeados pelas histórias de grandes segredos escondidos entre paredes antigas, ou ainda, de casos em que os visitantes não se dão muito bem (como nos filmes de terror). Ou seja, o mistério e a curiosidade são forças que nos impulsionam e fascinam. Não é raro, por exemplo, ver crianças entrando no matagal para invadir as casas do velho Arsenal.

            Ao perambular pela cidade é até possível vê-la como uma alegoria dos mortos, são os prédios servindo como monumentos de faces vazias a serem preenchidas pelas memórias dos que um dia viveram ali. Para Benjamin a cidade está “desde sempre em ruínas”, e saber até que ponto esse sentido de monumentalização e ruína ainda se oculta dentro da “arquitetura feliz”, cosmetizada que encontramos em diversos lugares (ARANTES, 2000) é uma questão interessante a ser analisada nas fotografias.

           Talvez uma das explorações mais interessantes em General Câmara tenha sido a do antigo clube. Anos atrás quando o Ítalo morava na cidade o clube já estava abandonado, porém ainda possuía parte de sua mobília e cortinas nas janelas. Um dia uma das paredes desabou e então fizeram uma limpeza no local. Resolveram tentar reconstruí-lo, mas o projeto foi abandonado por algum motivo. Agora sua estrutura se encontra a céu aberto, podendo-se ver uma parte da escada, banheiros, o bar e uma grande quantidade de azulejos originais, alguns no lugar, outros empilhados. E ninguém parece interessado nem em furtá-los, sem sequer perceber que a construção está se tornando invisível, e com ela a história da cidade e dos que ali moraram vai lentamente se apagando.

            A chamada Praça dos Namorados antigamente era onde os casais se reuniam nos bancos em volta do coreto. Hoje a praça está deserta, poucos passam por ali além de algumas eventuais senhoras. O coreto já perdeu sua imponência e mostra-se apagado, sem uma revitalização, sem a banda ou o coral. 

           

 

2.     Diálogo Entre Memórias

 

 

            A percepção de quem retorna ao local onde viveu parte da sua infância foi importante para analisarmos os aspectos de memória complementando a estranha realidade que agora se apresenta na forma de ruínas, fruto de jogos sociais, políticos e econômicos que determinam os destinos de uma comunidade. Retornar a esses espaços vazios, sem vida aparente, traz de volta alguém com a visão focada nas mudanças ocorridas em sua ausência. Assim como a visão “de toupeira”, de quem vê o mundo de baixo pra cima, percorrendo os becos, as casas abandonadas e as passagens que contém a vida desgarrada, as lembranças e a história (ARANTES, 2000).

            A antiga casa do Ítalo foi uma das primeiras construções que visitamos. Estava com a pintura lascada e a parede branca havia se tornado uma enorme tela para pichações. O interior estava trancado, mas as janelas estavam quebradas revelando um vazio gelado. O jardim um dia bem cuidado havia se transformado em um matagal, não florescia mais (Figuras 3 e 4).

 

 

Figura 3: Janela do meu quarto, Ítalo Franco, fotografia, 2014.

 

Figura 4: Interiores, Ítalo Franco, fotografia, 2014.

 

 

As casas vizinhas estavam abandonadas também, eram abandonos mais recentes, podia-se ver pelo melhor estado conservação. Janelas e portas não haviam sido depredadas ainda. Seguimos por toda a extensão da rua e todas as casas que lembrava um dia estarem ocupadas agora jaziam vazias. Sua rua estava inabitada, e não fazia ideia de onde as famílias que ali moravam haviam partido. E naquele momento uma sensação de vazio prevaleceu, era o passado e o presente se estabilizando em uma unidade. Os cheiros e os barulhos da infância não existiam mais. Eles foram substituídos pelo sibilar do vento e dos insetos, ressoando em uma tarde de verão.

            General Câmara se transformou em uma cidade de transição, a população vem diminuindo cada vez mais, como uma cidade que não tem muito a oferecer para os jovens. Entretanto, há muitas histórias enraizadas ali, e é importante que seus cidadãos as conheçam, saibam de seu passado, de onde vieram. Mas, será que com o gradativo desaparecimento das casas, as memórias pessoais e comunitárias não evaporarão no ar? Sem registros as histórias de um passado representativo não passarão de lendas urbanas somadas aos fantasmas que perambulam pelas ruínas de uma cidade, que um dia possuiu um futuro promissor.

Mas estamos aqui, registrando, observando, rememorando e tentando preservar as memórias de General Câmara em palavras:

           

O princípio dos aforismos são as lojas, casas, placas, cartazes que se encontram numa rua. O leitor é convidado a passear pela rua, a entregar-se a uma pequena flâneire textual. O Flâneur, portanto, não é apenas aquele que perambula pela cidade. É também um método de escrita, de produzir e construir textos (ARANTES, 2000, p. 188).

 

            Mas por que é tão doloroso sentir a mudança da cidade? A percepção da criança misturada com a do flâneur nos dá a noção do tempo, uma noção quase palpável da mortalidade e da efemeridade das coisas. General Câmara é uma cidade que está desaparecendo aos poucos e tal percepção provoca a sensação de impotência frente ao inevitável.

            Como flâneurs nós percebemos a ausência de crianças e dos jovens que mudaram para outros lugares por causa da sensação de estagnação gerada. Notamos os animais perambulando pela cidade quase que livremente. Podemos perceber as flores, os cheiros e os sons da flora que retomam o seu lugar naquele cenário, sobre as construções abandonadas. 

            Concluímos que teríamos que fazer todos os habitantes perceberem e mobilizá-los frente à situação. Talvez os tornando flâneurs de seu próprio tempo, desvelando a cidade que eles mesmos desconhecem através da nossa experiência. Quem sabe assim, não conseguimos prolongar a memória, trazendo à vida General Câmara.

            E assim a cidade deixa de ser um simples cenário e se transforma em um palco para a expressão, lugar de crítica e reflexão:

 

Bachelard não fala do espaço apenas diurnamente, enquanto categoria física e matemática, espaço neutro, impessoal; resgata, no nível do imaginário poético e filosófico, o espaço enquanto lugar: situado, singular, povoado por lembranças pessoais, sítio de experiências, colorido por emoções datadas. Esse espaço, que se desdobra e singulariza em casa, concha, ninho, cofre, gaveta..., é cenário da vida do corpo, morada de afetos, fonte de poiesis artística ou filosófica, fundamento da natureza enquanto paisagem (PESSANHA in: NOVAES, 1988, p.156).

 

Através do pensamento bachelardiano, nós percebermos que a paisagem é, acima de tudo, uma construção simbólica que frutifica dos modos subjetivos de ver (BACHELARD, 1993). E foi nesse universo de interferências humanas sobre o espaço urbano, construindo e reconstruindo a paisagem, que demarcamos a nossa presença em General Câmara.

 

 

Referências:

 

ARANTES, Antonio A. O Espaço da Diferença. Campinas/SP. Papirus, 2000.

BACHELARD, Gaston. A Poética do Espaço. São Paulo: Martins Fontes, 1993.

PESSANHA, José Américo Motta. BACHELARD E MONET: O OLHO E A MÃO. In: NOVAES, Adaulto et al. O OLHAR. São Paulo: Cia das Letras, 1988, p.149-165.



[i] Doutora em Educação, mestre em Educação Ambiental, professora do Centro de Artes, Artes Visuais – Licenciatura, da Universidade Federal de Pelotas. É coordenadora do PhotoGraphein - Núcleo de Pesquisa em Fotografia e Educação( UFPel/CNPq). attos@vetorial.net

[ii] Acadêmico do curso de Artes Visuais – Modalidade Licenciatura (CA/UFPel), pesquisador do PhotoGraphein – Núcleo de Pesquisa em Fotografia e Educação (UFPel/CNPq). italofrancocosta@gmail.com

 

Ilustrações: Silvana Santos