Que meu andar, meu viver seja cada vez mais no ritmo das bicicletas... (José Matarezi)
ISSN 1678-0701 · Volume XXI, Número 79 · Junho-Agosto/2022
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Arte e ambiente
07/12/2014 (Nº 50) A CIDADE DE CADA UM: O ESPAÇO URBANO E SUAS REPRESENTAÇÕES
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A CIDADE DE CADA UM: O ESPAÇO URBANO E SUAS REPRESENTAÇÕES

 

Cláudia Mariza Mattos Brandão[i]

 

Resumo: O artigo tem por objetivo refletir sobre o desenvolvimento histórico das cidades e a condição dos espaços urbanos contemporâneos, focando a produção do artista visual Eduardo Srur e suas intervenções urbanas.

 

 

 

            As cidades de alguma forma escapam ao nosso reconhecimento e apreciação. Embora frutos do trabalho e da inventividade humana, muitas vezes elas são percebidas como um dado da natureza, ignoradas em sua complexidade constitutiva. Resultantes da condição sedentária dos povos e da crescente concentração de massas humanas, elas se constituem na tradução física da opção humana por uma vida gregária ao longo dos séculos.

            Caracterizadas como polos de atração, centros da ordem social, cultural e política, a vida social urbana paulatinamente determinou uma desmedida exploração do meio natural e, também, uma progressiva degeneração da própria paisagem urbana. Sendo assim, as discussões que giram em torno do tema Educação Ambiental não devem desconsiderar os fenômenos relativos aos espaços urbanos, um tema cada vez recorrente na produção artística contemporânea, em especial na Arte Urbana.

Historicamente a cidade se consagrou como o lugar onde o fato se funde à imaginação, na contínua interação criativa da vida urbana, se transformando em cenário privilegiado para as produções artísticas e suas demandas simbólicas.  Vinculadas ao imaginário individual e/ou social, é possível identificar nas formas da Arte Urbana diferentes possibilidades de percepção e expressão das tensões culturais, sociais, políticas e históricas.

E é no universo de interferências dos seres humanos sobre o espaço, construindo e re-construindo os cenários, que é possível demarcar a produção do artista Eduardo Srur (São Paulo, 1974), como uma reflexão crítica e estética acerca do ethos comunitário na amplitude do que abarca. Suas intervenções urbanas problematizam as questões ambientais e a vida cotidiana nas grandes metrópoles, aproximando Arte e Vida. Portanto, pois mais banais que pareçam:

                                                                                               

Os símbolos que vemos na rua e nas paredes não estão em caso algum desvinculados do tempo a que dizem respeito. Quer seja sobre as ideias políticas, quer do que se entende como estético ou dos objectivos que se persegue no momento, esses símbolos dão-nos, com frequência, uma solução, antes de que aquilo que representam se transforme em bem comum da cultura oficial (STAHL, 2009, p.8).

  

As manifestações artísticas sempre tiveram lugar de destaque no espaço urbano, seja como protesto ou como marco alegórico aos triunfos da humanidade, assim como acontecia na antiguidade. Sendo assim, a percepção do urbano reúne os elementos sociais e comunicativos aos estéticos e funcionais, revelando o ritmo e as características próprias das populações. Portanto, é possível afirmar que as estratégias de representação, fundadas em posicionamentos e ações culturais promovidas no âmbito da Arte, nos revelam a organização dos diferentes setores que interferem na construção da urbe.

As atividades criativas que tem como inspiração o espaço urbano, mais do que expoentes da criação artística, são importantes indicadores históricos. Isso, pois as tramas urbanas são assim como composições estéticas que o artista interpreta visando promover o conhecimento do meio a partir de sua experiência pessoal, de acordo com a dinâmica das relações estabelecidas.  

Assim considerando, neste artigo são discutidas algumas produções do artista visual Eduardo Srur[ii] que enfatizam a deterioração das relações entre os indivíduos e o meio urbano, social e natural. Um artista que a partir de suas construções criativas, busca fomentar uma cultura de cunho simbiótico entre a visão funcionalista e as visões estéticas e simbólicas dos elementos sociais que constituem os espaços urbanos contemporâneos. E para isso considero pertinente refletir acerca do desenvolvimento histórico das cidades.

 

 

1.    A cidade na história

 

 

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Figura 1: Atenas

Disponível em http://fabulasecontos.com.br/

 

Caracterizando o projeto de uma emergente estrutura social, a urbana, a cidade antiga (Figura 1) se desenvolveu como um conjunto ordenado de edificações. E esses agrupamentos resultaram da utilização de meios para dominar a paisagem natural, convertidos em método. Como consequência disso, uma ordem estática foi estabelecida pela racionalidade das técnicas, uma ordem “ortogonal” em contraposição à ondulação natural da paisagem.

As ruas eram regulares e construídas em ângulo reto, oferecendo a possibilidade de melhor aeração, protegendo do mosquito da malária e proporcionando boa visão geral sobre o espaço urbano. A limpeza e a conservação das ruas eram prioridade na antiguidade, demonstrando a preocupação dos governantes com a saúde humana (COULANGES, 2000).

Provavelmente, a consciência social da necessidade de preservação da qualidade dos mananciais e o caráter mítico da água foram fatores favorecedores da preservação do meio ambiente neste período. Entretanto, tais preocupações não foram suficientes para evitar a devastação das áreas ocupadas.  As migrações humanas que então ocorreram, levaram populações rurais a construir as cidades medievais (Figura 2).

 

 

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Figura 2: Elvas, Portugal.

Disponível em: http://www.portalsaofrancisco.com.br/alfa/espanha/toledo-4.php

 

 

As cidades medievais eram circundadas por muros fortificados que as isolavam do contexto, e se caracterizaram pelas estreitas ruelas. A pouca diferença entre a vida rural e a urbana fez desses espaços lugares de precárias condições higiênicas. O acúmulo de detritos nas vias públicas provocava a formação de ar malcheiroso, um típico fenômeno de traçados sinuosos. E todas essas condições adversas possibilitaram o alastramento de epidemias (LIEBMANN, 1979).

No século XV a visão de mundo assentada em bases metafísicas do medievo foi substituída pela razão antropocêntrica. E a sistematização racionalista do pensamento renascentista norteou o planejamento urbano (ARGAN,1998). Como resultado, a natureza foi incorporada às estruturas a partir de uma concepção utilitarista. O estruturalismo dos projetos estabeleceu uma relação urbanística e alegórica da cidade com seu contexto espacial e espiritual, caracterizando o espaço urbano das primeiras cidades modernas.

Cenário das disputas em busca da afirmação do poder e da superioridade humanos, a paisagem urbana se transformou. A modernidade se definiu pela separação crescente do mundo objetivo do da subjetividade (TOURAINE, 1994) rompendo definitivamente com a unidade sagrada do mundo antigo.

 

O emprego da energia fóssil teve um impacto direto sobre a indústria, os meios de transporte e a agricultura, sendo a propulsora da Revolução Industrial inglesa, circunstância histórica responsável pelo nascimento da ‘grande cidade moderna’ como decorrência da redistribuição espacial da população. Num curto período de tempo se verificou no mundo ocidental uma grande migração do meio rural para o meio urbano, já em processo de industrialização:

 

O aumento da área de terras aráveis, o aperfeiçoamento da agricultura, a difusão demográfica e a multiplicação de cidades verificam-se lado a lado, no decorrer da História; nunca tanto como durante o século passado (XIX). Muitos países estão ingressando agora numa era em que a população urbana será não simplesmente maior que a população rural, mas em que a área real ocupada ou invadida pelo crescimento urbano rivalizará com aquela dedicada ao cultivo. Um dos sinais dessa mudança tem sido o aumento do número, área e população das grandes cidades. Megalópolis está rapidamente se tornando uma forma universal e a economia dominante é uma economia metropolitana, na qual não é possível qualquer empreendimento eficiente que não se ache firmemente ligado à grande cidade (MUMFORD, 2004, p.567).

 

E é com a carga histórica de seu desenvolvimento que a cidade contemporânea se afirma como um retrato da degradação na relação dos indivíduos com o meio, reconfigurada muitas vezes como uma Megalópolis, assim como a São Paulo de Eduardo Srur.

 

2.    Eduardo Srur e suas intervenções urbanas

 

E é no contexto das discussões apresentadas até aqui, que os artistas contemporâneos interpretam e interpelam o espaço urbano com suas produções:

 

Campo de intersecção de pintura e fotografia, cinema e vídeo. Entre todas essas imagens e a arquitetura. Horizonte saturado de inscrições, depósito em que se acumulam vestígios arqueológicos, antigos monumentos, traços de memória e o imaginário criado pela arte contemporânea. Esse cruzamento entre diferentes espaços e tempos, entre diferentes suportes e tipos de imagens, é que constitui a paisagem das cidades (PEIXOTO, 1996, p.10).

 

Na busca por problematizar a constituição das paisagens urbanas contemporâneas encontramos inúmeros artistas que tem no espaço urbano seus problemas a inspiração para as suas produções, assim como o paulista Eduardo Srur.

Srur iniciou a sua trajetória com a pintura, para no início dos anos 2000 se dedicar à investigação de novas mídias tal como a fotografia, a escultura, o vídeo, a performance, a instalação e a intervenção urbana. Reconhecido por suas intervenções urbanas, a sua produção atual se caracteriza por interferências temporárias no espaço público que alteram provisoriamente a paisagem urbana. Suas produções questionam criticamente o sistema social, sem, entretanto, perder o humor.

Artista/indivíduo engajado com os problemas relativos à preservação da qualidade de vida nas cidades, Srur assume a tarefa de contribuir para a formação de olhares conscientes, o que implica na reciclagem do olhar e do pensamento dos transeuntes/espectadores de suas obras.

 

 

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Figura 3: Móbiles, Eduardo Srur, 2014.

Disponível em: http://www.eduardosrur.com.br/#!mobiles/c5rw.

 

Móbiles (Figura 3) é uma obra criada como celebração à Semana Mundial do Meio Ambiente em 2014, direcionada ao público infantil e elaborada com a colaboração de arte/educadores e cooperativas de reciclagem:

 

A instalação composta por milhares de materiais pós-consumo transformados em objetos lúdicos suspensos em meio a paredes de fardos de materiais recicláveis compactados faz referência poética ao precursor desta estética, o artista americano Alexander Calder e também a  minha intervenção Labirinto realizada nos parques públicos de São Paulo. O interior da obra apresenta uma mesa central onde o público participa de oficinas voltadas à confecção de objetos e brinquedos a partir de garrafas PET, papelão, embalagens plásticas e outros materiais recicláveis (SRUR, 2014, disponível em: http://www.eduardosrur.com.br/#!mobiles/c5rw). 

 

Utilizando materiais oriundos das Estações de Reciclagem do Carrefour, Móbiles é composta por materiais pós-consumo transformados em objetos lúdicos. Ou seja, temos aí não só a reciclagem dos materiais, mas, principalmente, a transformação das mentalidades dos envolvidos nas oficinas oferecidas ao público que circulava durante o evento (Figura 4). Cabe destacar que Eduardo Srur recebeu em 2014 o prêmio “Cidadão Sustentável” oferecido pelo portal Catraca Livre.

 

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Figura 4: Móbiles, Eduardo Srur, 2014.

Disponível em: http://www.eduardosrur.com.br/#!mobiles/c5rw.

 

Na mesma linha de pensamento, em 2014 o artista também criou, a convite da agência Leo Burnett Tailor Made, uma instalação submersa no maior aquário da América do Sul, localizado no litoral paulista, na praia da Enseada no Guarujá (Figura 5).

 

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Figura 5: Acqua Mundo, Eduardo Srur, Guarujá, 2014.

Rede de pesca, fio de nylon e lixo sólido recolhido na praia.

Disponível em http://www.eduardosrur.com.br/#!aquario-morto/c1fzc

 

A sala principal do Acqua Mundo conta com 360º de visão e foi dividida ao meio. Um lado manteve as espécies marinhas como tartarugas, peixes e moluscos. O outro tanque recebeu a composição visual com o lixo sólido recolhido das praias da região, formando imagens impactantes nas vitrines de exposição para os visitantes do aquário. Na inauguração, reforçei a importância do simbolismo da obra em que cada um escolhe o que quer para o futuro do mar: um oceano de vidas ou um oceano morto (SRUR, 2014, disponível em http://www.eduardosrur.com.br/#!aquario-morto/c1fzc).

 

As duas intervenções apresentadas são exemplos recentes da preocupação do artista com os hábitos dos cidadãos paulistanos com os seus espaços de convivência. E tal preocupação se apresenta cada vez mais necessária, basta olhar ao redor para identificar as marcas de nossas ações no espaço urbano.

Mas as preocupações de Srur não estão direcionadas somente às nossas “pegadas” visíveis. O artista também volta seu olhar para o não percebido, assim como o faz através da intervenção urbana com coletes salva-vidas em dezesseis monumentos da cidade de São Paulo (Figura 6).

 

 

Description: intervenção urbana Sobrevivência de Eduardo Srur nos principais monumentos da cidade de São Paulo

Figura 6: Intervenção em monumentos públicos de São Paulo, Eduardo Srur, 2008.

Disponível em http://www.eduardosrur.com.br 

 

O trabalho foi realizado em esculturas do século XX que glorificam heróis da história nacional. A ocupação do patrimônio histórico na capital paulista se integra à minha obra com a proposta de reativar visualmente elementos da história, da arquitetura e do convívio social da cidade – territórios abandonados pela imaginação urbana (SRUR, 2014, disponível em http://www.eduardosrur.com.br/).

 

O que vemos, portanto, é que seja com garrafas pets, lixo urbano, boias ou coletes salva-vidas, o artista cumpre com o seu propósito de (trans)formar olhares, resgatando as memórias dos espectadores e, fundamentalmente, retirando os transeuntes da condição de anestesia em que muitas vezes se encontram, em função da dinâmica do cotidiano contemporâneo. Gerando situações em que a cidade olha para si mesma, Eduardo Srur propõe reflexões acerca dos vínculos entre cidadãos e seus espaços de (com)vivência, problematizando as possibilidades de recriação da paisagem coletiva através da ação criativa, artística.

 

 

Referências:

 

ARGAN, Giulio Carlo. História da Arte como História da Cidade. 4ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

COULANGES, Fustel de. A Cidade Antiga. São Paulo: Martin Claret, 2000.

LIEBMANN, Hans. Terra, um planeta inabitável? Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 1979.

MUMFORD, Lewis. A CIDADE NA HISTÓRIA - suas origens, transformações e perspectivas. 4ª ed., 2ª tiragem. São Paulo: Martins Fontes, 2004.

PEIXOTO, Nélson Brissac. Paisagens Urbanas. São Paulo: Ed. SENAC São Paulo: Ed. Marca D’Agua, 1996.

SRUR, Eduardo. Disponível em http://www.eduardosrur.com.br 

TOURAINE, Alan. Crítica da Modernidade. 6ª ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 1994.



[i] Doutora em Educação, mestre em Educação Ambiental, professora do Centro de Artes/Artes Visuais – Licenciatura, da Universidade Federal de Pelotas. É coordenadora do PhotoGraphein - Núcleo de Pesquisa em Fotografia e Educação (UFPel/CNPq). attos@vetorial.net

[ii]Para maiores informações consultar: http://www.eduardosrur.com.br/

Ilustrações: Silvana Santos