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Somos o que fazemos, mas somos, principalmente, o que fazemos para mudar o que somos. Eduardo Galeano
ISSN 1678-0701 · Volume XXIII, Número 94 · Março-Maio/2026
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ELA CUIDA, RECUPERA E DEVOLVE À NATUREZA; TUDO DE FORMA VOLUNTÁRIA Nem sempre o cuidado com a natureza acontece em reservas ambientais ou centros especializados. 1 de março de 2026 Flaviane Antolini Alegrete
Em Alegrete, parte desse trabalho ocorre de forma voluntária, dentro da casa da bióloga Mariana Costa, que há anos se dedica à recuperação de animais silvestres resgatados em situação crítica. Servidora pública municipal desde 2019 e recentemente chamada para atuar também como professora da rede estadual, Mariana construiu sua trajetória profissional unindo ciência, serviço público e educação ambiental, áreas nas quais passou a ser reconhecida pela dedicação e pelo compromisso com a comunidade. Paralelamente à carreira profissional, porém, desenvolve uma atividade pouco conhecida da comunidade: o acolhimento e a reabilitação de animais encaminhados principalmente pela Polícia Ambiental. A rotina não segue horários fixos. Sempre que um resgate é realizado e não há estrutura imediata para atendimento, a casa da bióloga transforma-se em abrigo temporário. Aves debilitadas, animais do banhado, corujas, marrecos, pombas, filhotes órfãos e até pequenos predadores já passaram pelo local. Muitos chegam desnutridos, feridos ou incapazes de sobreviver sozinhos. Recentemente, dois pequenos gaviões com lesões nas pernas passaram a integrar a lista de animais em recuperação. Sem apoio financeiro institucional, Mariana arca pessoalmente com alimentação, medicamentos e manutenção das estruturas necessárias para o cuidado. Gaiolas adaptadas ocupam parte do espaço doméstico, transformado em um verdadeiro centro informal de reabilitação. Diferentemente de um abrigo permanente, o trabalho realizado tem uma finalidade clara: devolver o animal à natureza. Após o período de recuperação, os animais são encaminhados novamente à Polícia Ambiental ou liberados em locais adequados, respeitando critérios de segurança e adaptação ao ambiente natural. Uma das histórias mais marcantes foi o resgate de um filhote de veado-campeiro. Extremamente pequeno e debilitado quando chegou, o animal recebeu cuidados intensivos até recuperar força suficiente para sobreviver sozinho. Meses depois, já desenvolvido, foi reintroduzido em área rural com acompanhamento. Dias após a soltura, produtores da região enviaram imagens mostrando o animal pastando livremente no campo — confirmação de que o processo de reabilitação havia sido bem-sucedido. Todo o trabalho é realizado de forma voluntária. Não há remuneração, convênio ou estrutura pública permanente vinculada à atividade. O atendimento acontece por iniciativa pessoal, motivado pela formação acadêmica e pela consciência ambiental. Segundo especialistas, ações individuais como essa contribuem diretamente para a preservação da fauna silvestre, especialmente em regiões onde centros especializados são escassos. O pensador indiano Mahatma Gandhi afirmava que “a grandeza de uma nação pode ser julgada pelo modo como seus animais são tratados”. A atuação de Mariana exemplifica essa ideia na prática cotidiana. Colegas destacam sua capacidade de dedicação e organização, qualidades que também se refletem no cuidado ambiental realizado fora do expediente. Apesar do impacto das ações, Mariana raramente divulga o trabalho realizado. Muitos dos resgates só se tornam conhecidos por relatos da própria Polícia Ambiental ou de pessoas que acompanham as solturas dos animais recuperados. Entre chegadas urgentes, tratamentos longos e despedidas necessárias, o ciclo se repete continuamente. Animais chegam fragilizados. Recebem cuidado. Recuperam a força. E voltam para a natureza. Sem
cerimônia.
Fonte: Ela cuida, recupera e devolve à natureza; tudo de forma voluntária |