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Somos o que fazemos, mas somos, principalmente, o que fazemos para mudar o que somos. Eduardo Galeano
ISSN 1678-0701 · Volume XXIII, Número 94 · Março-Maio/2026
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ENTREVISTA COM RUBEM SCHNEIDER PARA A 94ª EDIÇÃO DA REVISTA EDUCAÇÃO AMBIENTAL EM AÇÃO Por Bere Adams
Rubem Schneider – foto – fala da importância do cuidado com árvores plantadas em espaços públicos (imagens – arquivo pessoal do entrevistado) APRESENTAÇÃO – Tenho a imensa alegria de apresentar Rubem Schneider, morador da cidade de Novo Hamburgo e nosso amigo, como entrevistado desta edição. Exercendo plena cidadania ambiental, ele decidiu fazer algo inédito: ser guardião de mais de 200 árvores plantadas por uma empresa (como forma de compensação ambiental), em 2015, ao longo da avenida que divide a cidade, às margens do Arroio Luiz Rau, também chamado de Valão, em Novo Hamburgo (RS), no Vale dos Sinos. Rubem colabora para que explosões de amarelo aconteçam sobre os ipês quando anunciam a chegada da primavera, antes mesmo do calendário confirmar. Colabora para que as árvores cresçam e se mantenham saudáveis. recebendo os cuidados de que precisam e que merecem. Este aparentemente simples gesto individual pode se tornar um marco, um exemplo de cuidado com a arborização urbana, e o exemplo é inspirador e pode educar uma cidade inteira. Mas por que será que Rubem Schneider decidiu cuidar, de uma por uma, destas árvores? É justamente o que vamos descobrir com esta entrevista. Bere – Começo a nossa entrevista te agradecendo por aceitar o convite de compartilhar tua iniciativa tão importante, muito obrigada! Rubem, o que despertou em você a decisão de cuidar das árvores que foram plantadas ao longo dessa avenida? Rubem – Eu caminho naquele trecho há mais de 20 anos, mesmo antes da construção do metrô. Aquela via sempre teve excelente arborização. Era uma área com muito verde junto ao leito do arroio. Com as obras do metrô e o alargamento do leito do arroio, as árvores originais foram cortadas, deixando o trajeto inóspito, sem sombra. Junto com o metrô, foi implantada a ciclovia. Para cumprir exigência de compensação ambiental, foram plantadas, num determinado trecho da Ciclovia 260, mudas de ipês (a maioria amarelos, mas também brancos e roxos).
Bere – Em que momento você percebeu que precisava agir, em vez de apenas constatar problemas referentes aos cuidados com a arborização daquele espaço? Rubem – Na primeira semana, já era visível que aquelas mudas não resistiriam em um espaço público, onde circulavam bicicletas e transeuntes. Estacas de sustentação logo foram arrancadas e arvorezinhas quebradas. Como caminhava ali cotidianamente, acompanhava a rápida degradação.
Bere – Houve algum episódio marcante que tenha sido o ponto de partida dessa iniciativa? Rubem – Sim. Certo dia, caminhava no local com o meu irmão e comentei que aquelas mudas não vingariam, que não daria certo. Foi então que meu irmão me disse de supetão: – “Então por que você não assume esta tarefa!” Foi o que passei a fazer, a partir daquele dia. Bere – Você sempre teve vínculo com a natureza ou isso foi se construindo ao longo da vida? Rubem – Nasci no interior onde meu pai foi professor: lecionava de manhã e a tarde trabalhava na lavoura. Mudamo-nos para a cidade quando eu tinha cinco anos. Depois disso passávamos as férias escolares na casa dos avós na minha terra natal. O contato com a roça, a terra arada para o plantio de batatas, bebendo água cristalina de córregos foram influências marcantes.
Bere – Como você realiza este cuidado com as árvores, na prática, e quais são as ferramentas necessárias, conta-nos um pouco de como é este trabalho, por favor. Rubem – No início as mudas ficavam acima das estacas o que fazia com que não raro os vândalos quebravam as pontas. Comecei a colocar estacas mais altas que as mudas. Nos primeiros dias houve uma seca e um calor muito intenso. Todas estavam murchas, parecendo que não resistiriam, que iriam secar. Com um balde comecei a pedir água nas vizinhanças e entorno e molhei todas elas. Nenhuma secou por causa do intenso calor daquele período. Sempre me preocupei para que o caule crescesse reto e à medida que cresciam ia trocando as estacas. Tirava os brotos da parte debaixo para que se expandissem só no topo e não viessem a atrapalhar os ciclistas. Escada, martelo, estacas, fitas para amarração, adubo, tesoura de jardinagem: estas são as ferramentas. Bere – Você encontrou dificuldades para realizar esse cuidado? Rubem – Sempre caminhei cedo e numa determinada manhã logo no início do trajeto encontrei mudas derrubadas. Um ciclista passou e me disse que mais atrás havia inúmeras delas caídas. Dei meia volta, fui até em casa buscar as ferramentas e estacas e voltei. Naquela madrugada parece que houve uma briga de frequentadores de uma boate próxima e no total destruíram 35 mudas. As 10h30 da manhã estavam já todas recompostas. Este episódio foi marcante porque neste dia decidi que nenhum obstáculo me faria desistir daquelas árvores. Uma delas estava arrancada e atirada no asfalto da via onde carros já haviam passado por cima. Hoje está linda e frondosa. Bere – Foi necessário dialogar com o poder público? Rubem – Nunca me reportei a qualquer órgão do poder público. Preferi sempre atuar de forma autônoma. Não envolvi terceiros. Atuo dentro das minhas possibilidades, com as ferramentas que disponho, fazendo o que é possível dentro do meu ritmo, minha agenda, meus horários, meu ânimo. Bere – O que significa, para você, exercer cidadania através do cuidado de árvores? Rubem – Uma frase do livro “Uma ética para o novo milênio” de autoria do Dalai Lama nos ensina que “devemos fazer tanto quanto pudermos.” Cada pessoa tem a possibilidade de contribuir de alguma forma para melhorar a sua rua, seu bairro, o mundo. “Seja a mudança que você quer ver no mundo”. (Mahatma Gandhi). Cada um deve dar a sua contribuição na medida de suas possibilidades. Cuidar das árvores surgiu para mim de forma inesperada, ao acaso, sem nenhuma intenção anterior. A oportunidade surgiu e eu me envolvi.
Bere – O que você sente quando vê estas árvores saudáveis e bem cuidadas? Rubem – Um orgulho interior enorme, uma satisfação muito grande. São como filhos que vejo crescer e acompanho no dia-a-dia. Já não exigem tantos cuidados atualmente porque já estão grandes, fortes, bonitas, saudáveis. Que fornecem sombra e um espaço agradável!
Bere – Você imagina que esse gesto possa inspirar outras pessoas? Rubem – Ao longo destes 10 anos em que estou na ciclovia envolvido com as árvores fiz muitas amizades. Muitas pessoas param para conversar. Algumas me relataram que fazem algo semelhante na sua rua, outras que passaram a fazer igual em alguma praça. Acredito sim que muitas pessoas foram inspiradas. Bere – O que fica evidente e comprovado com sua ação, Rubem, é que não basta plantar, tem que cuidar, é isso? Rubem – Um espaço público é livre, acessível a uma diversidade de pessoas. A maioria educadas, conscientes, civilizadas. Mas nem todas. Uma ocasião caminhava pela ciclovia bem cedo e a minha frente três jovens bêbados que haviam saído da boate próxima davam voadoras contra as arvorezinhas. Não tive coragem de interpela-los. Por questão de segurança me mantive a distância. Não tive qualquer sentimento de indignação ou desprezo por eles. Tive compaixão. Conclui que saíram da boate frustrados, sem terem conquistado “uma gatinha.” Se estivessem bem acompanhados, trocando beijinhos, não teriam tempo para prejudicar as arvorezinhas. Descarregaram tudo nas coitadas! Também ocorrem muitos acidentes de carros que desgovernados acabam danificando-as. Tem os danos dos temporais. Como passo diariamente consigo detectar necessidades e agir de forma imediata. Caso contrário poucas teriam resistido. Depois de 10 anos já não são tão frágeis e exigem menos cuidados. Bere – Que conselho você daria a alguém que quer ajudar nos cuidados da arborização urbana, ou até iniciar um movimento semelhante na própria cidade? Temos muitos espaços que poderiam ser mais bem cuidados como parques, praças... Rubem – No meu caso escolhi agir sozinho, no meu tempo, no meu horário, no meu ânimo do dia! O único compromisso é comigo mesmo, sem agenda, sem obrigação. Isso me manteve focado nestes 10 anos. É o meu jeito. Quando criamos um movimento formando grupos dependemos de cada participante, do horário, da agenda de cada um. Se cada um de nós plantar uma árvore, ou adotar uma árvore na cidade, já teremos um resultado muito transformador. Mas é claro que formar grupos ou movimentos geram uma força maior, de maior visibilidade e impacto. Bere – Qual mensagem você gostaria de deixar para quem está lendo esta entrevista? Rubem – O planeta Terra é a nossa morada e seus recursos são finitos. Temos que contribuir para preservá-la para que as gerações futuras também possam vivenciar a natureza exuberante que ainda nos resta. Temos que pensar no longo prazo. Estamos avançando rápido demais na destruição dos recursos naturais visando apenas o resultado imediato, o lucro a qualquer custo. Este é o único planeta que temos e cada um tem a sua parcela de responsabilidade para preservá-lo! Bere – Muito se fala, Rubem, da importância de plantar árvores, e com a sua ação podemos ver que, plantar sem cuidar pode se transformar em uma ação vazia. Que sua ação inspire muita gente a plantas, mas também, cuidar das árvores que já estão plantadas, como você fez. Nós, da equipe da revista ficamos honrados com a tua participação, muito obrigada!
Para mais, entre em contato com o entrevistado pelo e-mail: rubemschneider@yahoo.com.br
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