ISSN 1678-0701
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Entrevistas

No. 24 - 03/06/2008
Educação ambiental: uma escolha de vida
Entrevista com Genebaldo Freire Dias - Por Carmem Carvalho -Assessora de Imprensa do Instituto Martim Pescador (http://www.martimpescador.org.br)

Revista Educação Ambiental em Ação 24

Educação ambiental: uma escolha de vida

Entrevista com Genebaldo Freire Dias

Por Carmem Carvalho - Assessora de Imprensa do Instituto Martim Pescador (http://www. martimpescador. org.br)

 

Quem trabalha com Educação Ambiental com certeza já leu e, até mesmo, tem como "cartilha" as obras do sergipano Genebaldo Freire Dias. Mestre e doutor em Ecologia pela Universidade de Brasília (UnB), Genebaldo se divide entre os bancos acadêmicos, a coordenação do Projeto de Educação Ambiental da Universidade Católica de Brasília e as consultorias ambientais para a iniciativa privada. Entre os livros publicados estão "Ecopercepção - um resumo didático dos desafios socioambientais" e "Pegada Ecológica e Sustentabilidade Humana".

Mesmo com toda a agitação do dia-a-dia, o professor encontrou uma brecha em sua agenda lotada para ceder uma entrevista (que pode ser conferida logo abaixo) à Assessoria de Imprensa do Instituto Martim Pescador. No dia 27 de maio, às 9 horas, ele fará a palestra de abertura do I Encontro Metropolitano de Educação Ambiental, que será realizado na Antiga Sede da Unisinos. O evento é uma promoção do Instituto Martim Pescador, Projeto Apoema, Unisinos, Corsan e Semae. A atividade tem como apoiadores Central de Transportes, Rede Sul Brasileira de Educação Ambiental (Reasul), Consórcio Público de Saneamento da Bacia Hidrográfica do Rio dos Sinos (Pró-Sinos), Comitesinos, Ministério Público do Estado do Rio Grande do Sul, Comitê Lago Guaíba, Conselho Regional de Biologia da 3ª Região (CRBio 3), Grupo Sinos, Olam Ciência & Tecnologia, Karmel - Centro de Estudos Integrados, Broplast, Governo do Estado do Rio Grande do Sul e HyperQZ Mídias.



Martim Pescador - O senhor iniciou sua carreira como professor de Física e também lecionou iversas disciplinas como Ciências, Inglês, Química e Biologia. Neste contexto, quando foi que a área ambiental entrou em sua vida como trabalho?

Genebaldo Freire Dias - No início da década de 70, mais precisamente em 1974, quando tomei contato com um artigo científico que abordava a questão da poluição em Tóquio e as suas conseqüências. À época, até mesmo o termo "poluição" não era usual. Mas, acredito que tudo começou na minha cidade natal (Pedrinhas), um pequeno paraíso tropical, em uma região montanhosa, com Mata Atlântica e vários riachos. Vivi uma infância compartilhando com meus amigos toda aquela maravilha. Muita brincadeira ao ar livre, nadando em águas limpas, respirando ar puro e degustando frutas que encontrávamos pelo caminho. Inesquecível.



Martim Pescador - A partir da vasta experiência, tanto nos bancos acadêmicos como na consultoria de empresas, quais são as dicas que o senhor dá para quem está iniciando na área ambiental?

Genebaldo Freire Dias - Honestidade, honra, sinceridade (nem que custe seu emprego). Atualizar-se sempre. Persistência. Uma boa dose saudável de desconfiança. Nem sempre os seus cinco sentidos colaboram na sua percepção.



Martim Pescador - As empresas estão investindo na consultoria ambiental? Qual a importância disso no desenvolvimento de uma sociedade consciente e sensível às questões ambientais?

Genebaldo Freire Dias - Sim. Por várias razões. Primeiro, porque é obrigatório (Lei). Segundo, porque dá lucro e terceiro (e menos freqüente) por consciência. Esse processo é importante porque as soluções só podem ser alcançadas com a cooperação de todos os setores. Não se pode esperar apenas pela ONU, pelo governo Federal ou outros. Estes são invenções nossa. Podemos mudá-los. As pessoas são entes cósmicos, pertencentes à teia da vida cuja tessitura foge à nossa percepção acadêmica.



Martim Pescador - A Educação Ambiental desempenha papel fundamental no processo de construção de uma sociedade consciente de seus deveres e direitos quando se fala em meio ambiente? Por quê?

Genebaldo Freire Dias - Sim. Mas, não apenas ela. Porém, a Educação Ambiental deve promover a percepção das pessoas. Já passamos do período da coleta seletiva, da horta, das semanas da água. Tudo isso são apenas elementos de gestão. A Educação Ambiental precisa trabalhar na área da emoção, das re-conexões com a Terra, com a vida. Percebersse que se vive na superfície de uma esfera com recursos limitados e captar a magnificência dos processos que permitem que a vida se manifeste.



Martim Pescador - O atual modelo de desenvolvimento econômico está se mostrando ineficaz tanto pelas diferenças sociais quanto pelos impactos causados ao Planeta. Ao que se deve essa ineficiência?

Genebaldo Freire Dias - À falta de percepção da pertinência. O que acabei de citar. As pessoas gastam o seu tempo estudando para se qualificar e arrumar emprego. Depois trabalham para ganhar dinheiro e comprar coisas, pagar impostos, adoecer e morrer. Essa caminhada precisa ser mais rica em experiências. A motivação deve ser a vida, não juntar coisas para depois deixá-las amontoadas em um canto (e seus descendentes encaminharem- nas aos lixões). A educação precisa proporcionar tais percepções. Fora disso, é uma fábrica de iguais. Vão apenas replicar os erros. Aí, ao adquirir o seu sonho de consumo, acredita em sucesso, que logo se desfaz ao conhecer o novo desejo.



Martim Pescador - Em 2007, a grande mídia deu destaque ao Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC, sigla em inglês), da Organização das Nações Unidas, sobre o aquecimento global. Para o senhor, o quê há de mito e verdade quando se aborda o tema?

Genebaldo Freire Dias - Nem mito, nem verdade. Não há mito porque tratam-se de estudos sérios, sistemáticos e competentes. Não há verdade porque não conhecemos isso. Houve e há muita ignorância. A mídia não teve a competência de interpretar os relatórios, decodificá-los para uma linguagem popular. Por outro lado, os cientistas também não se dispuseram a fazê-lo. A mídia falou em previsões. Cientistas não fazem previsões - isso é para as cartomantes e afins -, fazem cenários, tendências. Trabalham com probabilidades.



Martim Pescador - O que podemos fazer para reverter o quadro que se desenha de desastres, falta de água potável e alimentos? Qual o papel da Educação Ambiental neste contexto?

Genebaldo Freire Dias - O maior desastre desenhado é a inação, a ignorância, a perda de tempo em discutir se foi o ser humano ou não o causador dessas mudanças climáticas, ou se são processos cíclicos históricos. Isso é irrelevante. Temos um desafio e precisamos de respostas, ações. As nações ricas já estão fazendo isso. Já se conhece o grau de vulnerabilidade das nações e as mais vulneráveis são aquelas que estão localizadas em latitudes mais altas (região tropical, equatorianas) e que ao mesmo tempo têm baixa governança (desorganizaçã o política, corrupção, educação de má qualidade e outros). O processo educacional deve pautar seus programas dentro desse cenário.



Martim Pescador - Em seu livro "Ecopercepção" , o senhor coloca que deveremos adotar um novo estilo de vida para garantirmos a sustentabilidade do Planeta. Qual é esse estilo? E, essa mudança seria uma alternativa para superarmos as previsões catastróficas do IPCC?

Genebaldo Freire Dias - Primeiro vamos corrigir: IPCC não faz previsões, mas cenários sob bases probabilísticas. As mudanças de estilo de vida não compreendem apenas as tradicionais recomendações de reduzir consumo, reciclar, preciclar, usar energias complementares, andar de bicicleta, dar preferência a produtos orgânicos, biodegradáveis, não-fósseis e outros. Essa é a parte mais fácil. Essa vamos conseguir. A mudança à qual me refiro é mais profunda. Devemos descobrir (ou redescobrir) o que é viver em um Planeta com recursos limitados; o que é viver uma vida, o que é a vida, qual a nossa missão aqui, o que estamos fazendo, o que devemos fazer para permitir a expressão livre dos processos vitais. Precisamos compreender as bases de sustentação da vida, a aventura de se estar vivo, compreender suas entranhas, seus processos, o acoplamento dos sistemas, as interdependências. Redescobrir os serviços que funcionam nos ecossistemas que permitem a nossa sobrevivência, o papel das espécies, a importância delas no contexto total. Perceber que sem tais serviços funcionando não há economia, não há comércio, não há lucro, nem sustentação qualquer (social, política, ética). Descobrir que somos parte de um todo. Viver valores, fomentar a ética, a contemplação, a calma, a alegria. Restaurar as forças da vida. Viver de forma a voltar a ter vida. Isso é evolutivo, é desafiador, é utópico, mas desejável.



Martim Pescador - Como o governo e a iniciativa privada podem colaborar na implantação desse novo estilo de vida?

Genebaldo Freire Dias - Definindo políticas, estabelecendo programas, destinando recursos, qualificando pessoas. Boa parte disso está em andamento. Infelizmente, não em todas as nações. O Brasil está fazendo um bom papel, apesar das queimadas, dos desmatamentos, da corrupção e da burrice de oferecer carne de boi e soja ao mundo, às custas de desmatamentos e queimadas, poluição das águas e degradação do solo.



Martim Pescador - O que é pegada ecologia?

Genebaldo Freire Dias - É a área ecoprodutiva que uma pessoa precisa para sustentar o seu consumo e absorver os seus resíduos. Logo, depende dos seus padrões de consumo. O Planeta admite uma pegada ecológica de no máximo 1,8 hectares/pessoa/ ano. Muitas nações ricas ostentam pegadas superiores a 5,0 ha/p/ano, ou seja, sustentam-se às custas de áreas de outros países (o exemplo da exportação de carne nos moldes de produção atual).



Martim Pescador - Em seu livro, que leva o nome do termo pegada ecológica, o senhor aborda o cálculo dos impactos causados por uma pessoa ao meio ambiente. Como é realizado esse cálculo?

Genebaldo Freire Dias - Normalmente se calcula o consumo de água, energia elétrica, combustível, gás de cozinha, papel, madeira e produção de resíduos sólidos (lixo). Calcula-se a emissão de dióxido de carbono e a área respectiva de florestas necessárias para a sua neutralização.



Martim Pescador - Qual sua avaliação da Educação Ambiental promovida no Brasil hoje? Como se pode defini-la? É necessário se ter um profundo conhecimento de Ecologia para construí-la e para que o atual contexto seja transformado?

Genebaldo Freire Dias - Hoje, o Brasil está na elite da Educação Ambiental do mundo. Nenhum País tem a estrutura legal, colegiada e capilarizada que temos. Somos um dos poucos países a ter definida uma Política Nacional de Educação Ambiental. Temos um programa nacional, diretorias de Educação Ambiental no Ministério da Educação (MEC) e no Ministério do Meio Ambiente, redes de Educação Ambiental espalhadas pelo País e uma infinidade de ONG´s e instituições privadas e governamentais desenvolvendo programas-projetos de Educação Ambiental. Estamos no topo, somos bons nisso. Todos sabem disso lá fora.



Martim Pescador - Afinal, o que é analfabetismo ambiental?

Genebaldo Freire Dias - O desconhecimento dos processos sócio-ambientais (estrutura, dinâmica e função).

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Carmem Carvalho (MTB/RS 12263) - Assessora de Imprensa do Instituto Martim Pescador


 
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