Nada pode substituir o contato com a natureza para o desenvolvimento da consciência ambiental [...] (Genebaldo Freire Dias)
ISSN 1678-0701 · Volume XX, Número 77 · Dezembro-Fevereiro 2021/2022
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Arte e ambiente
20/09/2003 (Nº 6) COM RIO GRANDE NA RETINA
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COM RIO GRANDE NA RETINA:

Dissertação de Mestrado em Educação Ambiental, FURG, defendida em 29/03/03.

 

Cláudia Mariza Mattos Brandão

Arte-educadora, Mestre em Educação Ambiental

 

 

 

 

Hoje eu atingi o reino das imagens, o reino da despalavra.

Daqui vem que todas as coisas podem ter qualidades humanas.

Daqui vem que todas as coisas podem ter qualidades de pássaros.

Daqui vem que todas as pedras podem ter qualidade de sapo.

Daqui vem que todos os poetas podem ter qualidades de árvores.

Daqui vem que os poetas podem arborizar os pássaros.

Daqui vem que todos os poetas podem humanizar as águas.

Daqui vem que os poetas devem aumentar o mundo com suas metáforas.

Que os poetas podem ser pré-coisas, pré-vermes, podem ser pré-musgos.

Daqui vem que os poetas podem compreender o mundo sem conceitos.

Que os poetas podem refazer o mundo por imagens, por eflúvios, por afeto.

 

(Despalavra, Manoel de Barros, 2000:23)

 

 

 

São os sonhos que se perdem, as pessoas que se apertam, os passos que não se cruzam ... o cotidiano que sufoca.

 

É a cidade que nos devora e nos dispersa, numa tensão constante entre memória e esquecimento. 

 

Olhar a cidade do Rio Grande no tempo do obturador fotográfico mostrou-me que viver o (e no) mundo implica relacionar-se com ele através da percepção, num processo dinâmico e contínuo que acompanha toda a existência humana. Juntamente com o tempo, o espaço é o primeiro elemento do universo que percebemos e é no espaço contextualizado que nossas percepções nos relacionam com a realidade.

 

Percebi que a aproximação dos detalhes, a sobreposição das mensagens, as composições transitórias e a comunicabilidade das construções nos fornecem matéria para uma recepção coletiva simultânea e propõem o aprendizado de olhar e repensar o espaço urbano de acordo com o processo de aceleração das cidades contemporâneas. Para qualquer observador mais atento, é possível identificar que os desvios criados pelas constantes mudanças - determinadas pelo acúmulo de objetos, de mensagens e de pessoas - alteram a paisagem, provocando o gradativo deslocamento dos referenciais que garantem a manutenção da cultura de uma comunidade, e a conseqüente perda da alteridade do homem urbano.

 

... e tudo começou com um velho fogão abandonado...

 

Em 1995, aluna da disciplina de Fotografia comecei – como prática de aprendizagem – a fotografar sistematicamente a paisagem ao meu redor, e a praia do Cassino - a maior em extensão da América do Sul - foi o primeiro cenário escolhido.

Aos poucos, descobri uma quantidade absurda de objetos, que dia a dia acumulavam-se - tanto na orla marítima, como nas ruas mais distantes -, formando bizarras combinações e transformando a paisagem num grande lixão a céu aberto. Dentre todas, uma em especial chamou minha atenção: um fogão sobre uma duna de areia. A descontextualização de um objeto tão familiar e significativo a todos nós, chamou minha atenção para o descompromisso da comunidade local com a manutenção da integridade física de seu ambiente natural, principalmente por tratar-se de uma área de preservação ambiental.

 

Paulatinamente minha câmera desvelou uma cidade desrespeitada, tanto pelo poder público como pelo cidadão comum. A sensação de estranhamento que a situação suscitou, despertou meu interesse para a questão e, a partir de então, meu olhar começou a buscar essas estranhas composições oriundas da ação cotidiana do homem sobre o meio, determinando minha proposta de pesquisa.

 

Como forma de inserção no espaço da Educação Ambiental, busquei delinear uma crônica visual narrativa através do registro de aspectos do espaço urbano, tomados como linguagem do espaço social, que informa sobre o modo de vida comunitário. De um conjunto de quase mil imagens realizadas ao longo dos últimos sete anos, selecionei vinte e uma fotografias para comporem o ensaio fotográfico “Com Rio Grande na retina”, apresentado no capítulo 4 da dissertação de mestrado.

 

Em algumas fotos enfoco símbolos vinculados ao imaginário da comunidade, referenciando um passado histórico que evoca tempos em que a condição econômica do município proporcionava uma vida mais digna a seus cidadãos, porém minha cidade pode ser qualquer uma, em qualquer parte do planeta: um lugar comum, onde a cotidiana violência social, política e econômica dilacera pouco a pouco a cidadania de seus habitantes.

 

Os textos fotográficos que seguem são, mais do que uma representação da realidade, a minha interpretação dos fatos: uma produção de sentido e significação. Algumas fotografias foram elaboradas, enquanto outras foram captadas como flagrantes; muitas permanecem somente na memória, entretanto todas remetem à singular questão da degradação nas relações sociais e naturais do homem urbano ocidental, discussão desenvolvida ao longo da dissertação.

 

A linguagem fotográfica, como toda linguagem artística, articula determinados códigos que colaboram na ênfase da mensagem, e são passíveis de leitura. Uma das possibilidades para pensar as relações entre a imagem e o tema é analisar a utilização de determinados elementos expressivos nas composições.

 

Como um modo de destacar a condição de solidão e abandono do homem contemporâneo, dei preferência às imagens que privilegiam os arranjos arquitetônicos em detrimento da figura humana; que, por sua vez, cede espaço ao indicativo de presença. Em comum todas têm a predominância das linhas horizontais, numa alusão ao infinito horizonte que compõe nossa paisagem litorânea, repleta de cores e nomes.

 

Consciente de que não conseguiria ignorar a presença maciça dos fios de iluminação e de telefone na paisagem urbana, optei por incorporá-los aos recortes. Nas janelas e fachadas eles se destacam, muitas vezes encobrindo e mascarando as marcas da história. Como elementos alegóricos, nos remetem à mentalidade tecnicista que estruturou nossa visão de mundo, exibindo os acúmulos de um progresso que não busca a integração dos diferentes tempos históricos. A presença degradada do passado confunde-se no emaranhado de mensagens, e o transeunte muitas vezes não percebe os confusos discursos que se manifestam na urbe.

 

Numa profusão de formas e cores a cidade fotografada se revela como um grande quebra-cabeça. A fotografia, tomada como síntese das relações estabelecidas, dá conta da construção de textos autônomos, que suscitam múltiplas leituras e interpretações de acordo com a bagagem cultural do receptor. A análise que fiz de minhas imagens é uma das possibilidades de abordagem da questão. O que é possível afirmar é que a característica indicial da imagem fotográfica permite a recuperação permanente de sua origem, sem que esse referente impeça novas construções de significado.

 

Minha pesquisa foi desenvolvida numa abordagem qualitativa, percorrendo a vertente da antropologia social, numa opção metodológica atrelada a uma cosmovisão segundo a qual os outros moram em nós, e nós moramos nos outros... ( MORIN, 2002:35), remetendo à questão fundamental da identidade dos vários atores sócio-culturais que co-habitam o espaço urbano. É um estudo na área da Educação Ambiental Informal com a intenção de discutir a nossa vulnerabilidade diante de processos antagônicos e incontroláveis que nos contaminam e assolam nossas cidades, priorizando a importante contribuição da Arte Fotográfica para essa reflexão, bem como, para a construção do pensamento e do saber.

 

 

 

Ilustrações: Silvana Santos