HÁ OITO ANOS, LUCIANE BORRMANN MANTÉM ‘CAMINHADA FLORESTA SAUDÁVEL’ NA MATA SANTA GENEBRA
Atividade acontece às quintas-feiras e percorre um trecho de 5 km, em uma área que contorna parte da floresta
Mariana Camba/mariana.camba@rac.com.br
01/08/2026
Segundo Luciane Borrmann, a natureza está sendo pressionada pelos avanços da urbanização, com a diminuição das áreas de convívio dos animais; por isso, os espaços de mata se tornaram refúgio que demanda estruturas de conexão e preservação (Rodrigo Zanotto)
Um “trabalho de formiguinha”, capaz de despertar a consciência ambiental e o amor pela natureza, foi criado e desenvolvido em Campinas pela jornalista e técnica em meio ambiente Luciane Borrmann, há oito anos, por meio do programa voluntário “Caminhada Floresta Saudável e Comunidade Saudável”. A atividade é desenvolvida na Área de Relevante Interesse Ecológico (ARIE) Mata de Santa Genebra, localizada em Campinas, entre encontros semanais que proporcionam um momento de lazer e contemplação do meio ambiente, em um espaço de calma em que o “tempo parece parar”. “A partir desse contato, o público desenvolve o pertencimento à mata. Estamos aqui para plantar essa sementinha, em uma atividade que exercita o corpo e a mente, e que promove a educação ambiental para além da floresta”, contou Luciane.
A técnica em meio ambiente se inscreveu para atuar no trabalho voluntário em 2018 e, desde então, fez de tudo um pouco, da plantação e semeadura de mudas no viveiro ao exercício coletivo. A iniciativa de reunir pessoas para fazer uma caminhada em meio à natureza partiu de Luciane, no ano seguinte à sua inscrição, com a proposta de fazer uma atividade física diferente. Além de movimentar o corpo, quem participa da caminhada conhece um pouco da história da área e da importância da conservação da fauna e flora local. A atividade acontece às quintas-feiras e percorre um trecho de 5 km, em uma área que contorna parte da floresta. A cada encontro, entre 8 e 10 pessoas formam o grupo conduzido pela voluntária.
Os visitantes usam a atividade física para se conectar com a natureza, refletir sobre o meio ambiente e desenvolver uma nova concepção de qualidade de vida. Diferente de uma trilha, a ação conduzida por Luciane propõe a contemplação dos exemplares de plantas e eventuais visitas dos animais nativos enquanto a atividade continua, sem paradas durante o deslocamento. “Eu sou guia e monitora. A gente se une para um exercício diferente, porque, enquanto a gente se movimenta, desenvolvemos essa ideia da educação ambiental”. É importante que essa consciência seja desenvolvida pelo trabalho voluntário, acrescenta, para que ela possa reverberar na rotina das pessoas e alcançar áreas e propósitos que vão além da floresta.
“Muitos acreditam que tudo que está na natureza é perigoso. Estamos aqui para desmistificar esse tipo de informação errada”, alertou. Para a jornalista, a aproximação com a natureza lembra os tempos da sua infância, de quando ela vivia em um sítio com a família. Atualmente, Luciane mora em Barão Geraldo para ficar mais próxima das áreas verdes de Campinas. “Aqui é o meu lugar ideal, onde eu encontro a minha paz interior, algo que vai além de mim. Por meio da caminhada e de outras atividades, eu tento passar o que eu sinto para as pessoas. Tudo começou com um encontro despretensioso e que se tornou algo surpreendente”, declarou.
Luciane insiste para que as pessoas tenham, pelo menos uma vez, a experiência de sentir a natureza de perto e conhecer a dinâmica desse ambiente vivo. “Não é todo mundo que gosta, porque a gente se suja um pouco, tem os mosquitos, mas vale a tentativa. “O importante é que a maioria se identifica com os inúmeros benefícios dessa vivência”, disse. Para ela, é importante que a geração atual não se esquive da responsabilidade com o verde. “Hoje, a gente vivencia as consequências do desmatamento e da poluição. Por isso, temos ainda mais razões para priorizar o meio ambiente e perpetuar os cuidados necessários para manter o que restou vivo”, opinou.
Segundo Luciane, cada vez mais a natureza está sendo pressionada pelos avanços da urbanização, com a diminuição das áreas de convívio dos animais. Por isso, os espaços de mata se tornaram um refúgio que demanda estruturas de conexão e preservação. A conscientização ambiental, portanto, não se restringe à mata; ela se expande entre ações coletivas “e que também devem ser impulsionadas pelo poder público”. “Cada árvore importa”, afirmou.
A jornalista propaga o propósito de cuidado e proteção, inclusive no entorno da sua casa, onde plantou 15 árvores frutíferas e nativas, como a pitangueira, cabeludinha e grumixama, conhecidas nas áreas rurais do interior do Estado. A cada muda plantada, mais pássaros se aproximam e, por consequência, mais a vegetação se dispersa e se expande. “A população tem que se mobilizar e ser portadora dessa voz consciente, com a unificação de ideias em um só movimento”, concluiu.
TRABALHO NA MATA
A caminhada é realizada por pouco mais de uma hora às quintas-feiras, a partir das 8h30, entre outras atividades promovidas na unidade. “Tem gente que traz mudas para plantar dentro da mata, mas isso não pode acontecer, porque são plantas que não pertencem a esse bioma. É importante que essas informações alcancem o maior número de pessoas para que ações assertivas possam ser desenvolvidas”, afirmou. A voluntária reforçou que a vegetação da área é característica da Mata Atlântica de Transição, com especificidades próprias e que requer cuidado adequado.
A Mata Santa Genebra, gerida pela Fundação José Pedro de Oliveira em parceria com o Instituto Chico Mendes para a Conservação da Biodiversidade (ICMBio), é considerada o segundo maior fragmento de Mata Atlântica em área urbana do país. “Mesmo sendo uma área de tamanha importância, muitos campineiros nunca pisaram na mata. A gente ainda se surpreende com a quantidade de visitantes que chegam aqui pela primeira vez. Trabalhamos para que essa experiência possa alcançar cada vez mais e mais pessoas”, observou Luciane. Quem passa pelo local, acrescenta, desenvolve o pertencimento à natureza ao se identificar com a floresta e a atmosfera única do ecossistema, entre sensações e sentidos estimulados pelo próprio espaço.
Entre os retornos e depoimentos que recebe, a voluntária afirma que é um privilégio fazer parte do programa. “Na quinta-feira passada, uma moradora que participava da ação disse que era gratificante estar aqui. É importante presenciarmos isso, o reconhecimento desse espaço, a sua contemplação e a experiência de estar próximo dessa energia única que só a floresta é capaz de dar”, comentou. Quem vai para a mata garante um “banho de natureza”, entre plantas e animais, cores e sons, enquanto os voluntários “plantam a semente da conscientização”. “Queremos que o contato com o meio ambiente desperte a curiosidade e o interesse pelo espaço vivo e que permanece em constante mudança”, concluiu.
A MATA
A doação da Mata de Santa Genebra ao município de Campinas completou 45 anos neste ano. O local, gerido pela Fundação José Pedro de Oliveira, promove uma série de atividades gratuitas, como trilhas, oficinas, visita ao borboletário, exposições e atividades de educação ambiental, além de momentos de interação com animais vivos. O ecossistema conta com área de 251 hectares e abriga, aproximadamente, 660 espécies de plantas e 365 espécies da fauna, entre répteis, anfíbios, aves e mamíferos. Para o presidente da fundação, Rogério Menezes, a Unidade de Conservação Federal classificada como Área de Relevante Interesse Ecológico (ARIE) é considerada a “joia da coroa do meio ambiente de Campinas”.
O espaço vem registrando o aumento progressivo do público, com 16 mil visitantes contabilizados em 2024 e em torno de 21 mil no ano passado. A expectativa é de que, neste ano, mais de 25 mil pessoas passem pelo local. Para monitorar a fauna presente na mata, o espaço conta com 25 câmeras recém-instaladas, além de armadilhas fotográficas que capturam os movimentos e interação dos animais. No ano passado, mais de 800 registros foram realizados e os campeões de aparições foram a onça e o cachorrodo-mato. Entre os macacos, a unidade conta com 55 exemplares de bugios, considerados um dos maiores macacos das Américas, além de dezenas de macacosprego que pulam livremente pelos galhos da mata.
Fonte: Há oito anos, Luciane Borrmann mantém ‘Caminhada Floresta Saudável’ na Mata Santa Genebra