APRENDER A REMAR

Começou com uma música tranquila, numa tarde um pouco sem graça, com uma tarefa por executar, ou melhor, várias tarefas. Uma confusão de tudo um pouco. Um peso assombrava: dar conta de tudo. É preciso ser assim? Para onde tudo isso pode estar levando?

No meu tempo de colégio, para todo e qualquer trabalho, tínhamos uma Enciclopédia Barsa na biblioteca e outra na casa de um amigo. Aliás, ir consultar na casa do amigo era melhor. Cada um trabalhava na sua questão, ou na sua parte, se fosse o caso. Era proibido fazer cópia, e sempre parecia que o professor tinha a enciclopédia decorada linha por linha. Enfim, terminávamos o trabalho e, muitas vezes, também nos perdíamos. Um verbete próximo ao procurado, e lá se usava um tempo extra. E as marcações?

Lembro que tínhamos marcado todas as páginas do que fomos reunindo para a pesquisa, até que um volume caiu no chão. E lá se foram as tiras de papel, com uma brisa que resolveu passar naquela hora marcada. O jeito era começar tudo de novo.

Quando o trabalho era dado por terminado, o grupo do qual eu participava ia fazer experimentos de Ciências. Lembro-me de uma época em que estávamos construindo um motor elétrico. Os materiais não eram fartos; era preciso criatividade. Certa vez, conseguimos fazer um barquinho motorizado que ficou girando no meio do lago. Chegar com uma canoa salvou o experimento.

Por que estou colocando isso, em particular? Hoje, ando com acesso a uma quantidade de informações muito maior do que a contida numa enciclopédia, e a facilidade para pesquisar é bem maior. Antes, citei o motor elétrico. Poderia pesquisar rapidamente informações sobre quando foi inventado o motor e citar. Parei de escrever e pesquisei: não levou mais de um minuto para saber que o primeiro motor elétrico foi criado pelo físico e químico Michael Faraday, em 1821. Era rudimentar e provou que era possível converter energia elétrica em energia mecânica.

Fácil e rápido, deixando todo o processo do passado de lado. Nós podemos, em qualquer lugar, encontrar quase tudo o que precisamos em grande volume. Para resolver muitas coisas práticas, consertos, dúvidas, sempre há um vídeo ou um descritivo. Enfim, com tanta comodidade, deveríamos estar com mais tempo livre. E, de fato, talvez estivéssemos, se não fosse o canto da sereia da virtualidade.

A virtualidade canta aos ouvidos com uma possibilidade de existência infinita. Todos vidrados no quadrado na palma da mão. São mensagens, postagens, fotografias, vídeos, reuniões virtuais - deixou de ser necessária a presença do outro, ao vivo e presente. Posso até manter o controle, uma certa distância saudável das redes sociais, mas, ainda assim, sou fisgado aqui e ali.

Isso tudo muitos me dizem que deverá ser assim e pronto. Há empresas que ainda não voltaram cem por cento para o trabalho presencial. É certo que pode haver mais flexibilidade no sentido de tempo. Eu mesmo não estaria escrevendo esta crônica se não me retirasse de tudo e silenciasse para escutar minhas inquietações, compartilhá-las depois, e esperar poder provocar alguma reflexão pela leitura.

No momento, penso que boa parte de nós se perde nesse emaranhado de informações. Talvez o primeiro gesto seja definir quais objetivos dão importância à existência. Não precisa ser algo complexo. Podem ser objetivos simples, capazes de abrir um leque com o tempo. Vamos a um exemplo: quero fazer um estudo sobre civilizações antigas para conhecer as questões às quais elas procuravam responder. Qual o sentido da vida?

Depois, tiro um determinado tempo do dia para pesquisar, procurar leituras em fontes, o mais próximas possíveis dos originais, fazer minhas anotações. Algo que pode parecer sem graça, porém, faz diferença. Ficamos expostos a outras formas de pensar, e isso passa a nos provocar. E essa prática pode ser ampliada.

Com o tempo, perceberemos que não estaremos mais folheando uma “Barsa virtual” sem nenhum objetivo. Não estaremos simplesmente presos a mensagens curtas sem conteúdo de valor, achando engraçado assistir a dezenas de vídeos de poucos segundos. Enfim, começaremos a ficar um pouco mais livres do tempo perdido nas redes sociais.

Temos muitas coisas boas na virtualidade. Seria tolice negar isso. Ela nos permite encontrar livros, autores, músicas, mapas, aulas, pessoas e respostas que antes levariam semanas para aparecer. O problema começa quando deixamos de procurar e passamos apenas a ser levados pelos meandros da tecnologia.

Talvez a questão não seja abandonar a tela, mas recuperar o gesto antigo de marcar as páginas. Antes, eram tiras de papel dentro da Barsa; hoje, podem ser anotações, leituras escolhidas, objetivos claros, conversas reais, pausas. Algo que diga “estou aqui, por alguma razão”, porque também é possível ficar girando à deriva, como o barquinho, iluminado por uma tela. A diferença é que, talvez, não venha uma canoa nos buscar, e precisaremos aprender a remar: às vezes de volta; outras vezes, em frente.



Cláudio Loes

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