COMUNIDADE TRANSFORMA CENÁRIO AMBIENTAL DA BAÍA DE GUANABARA
Participação social quer resgatar fauna e flora de municípios ao redor
Cristina Indio do Brasil - Repórter da Agência Brasil
Publicado em 02/03/2026 - 08:21
Rio de Janeiro
A
participação comunitária de povos tradicionais
vem modificando o cenário ambiental de manguezais na Baía
de Guanabara. Por meio de projetos de limpeza de resíduos
sólidos, conscientização de pescadores e
catadores de caranguejo, recuperação da fauna e flora
locais, o cenário vem sendo recuperado em vários
municípios ao redor.
Em
janeiro e fevereiro, ações do Projeto Andadas
Ecológicas, da Organização
Não governamental Guardiões do Mar,
recolheram 4,5 toneladas de rejeitos em Magé. Pescadores
artesanais, catadores de caranguejo, adolescentes e crianças
da comunidade de Suruí e adjacências, no recôncavo
da Baía de Guanabara, são os beneficiários
diretos.
Além
da limpeza
de manguezais, o
Andadas Ecológicas desenvolve a formação
do ecoclube. Nessa atividade, ocorre o Pagamento por
Serviços Ambientais (PSA) por meio da utilização
da Moeda Azul, a Mangal – uma tecnologia social inédita.
Durante dois anos e dois meses, o projeto vai envolver escolas,
espaços comunitários e moradores das margens do Rio
Suruí, em Magé, na Baixada Fluminense.
Limpeza
de resíduos em manguezal de Magé.
Rodrigo
Campanário/ Divulgação
Eixos
Para o presidente da Guardiões do Mar, Pedro Belga, o projeto Andadas Ecológicas tem diferenciais e não se limita a recolher o lixo do mangue e do mar. O ambientalista destacou a importância do trabalho de educação ambiental que vai ocorrer ao longo das duas margens do Rio Suruí, onde as comunidades moradoras vão ser incentivadas a recolher o seu resíduo sólido pós consumo, não só deixando de descartar de forma incorreta, como catar aqueles que têm condição de ser reciclados.
Assim, famílias, crianças e jovens vão ser incentivados a trocar esses resíduos sólidos pelas moedas Mangal e, posteriormente, vão poder trocar as moedas por objetos em um bazar.
Retorno financeiro
O pagamento por serviços ambientais, segundo Belga, foi adotado pela Guardiões do Mar em 2001 na primeira ação que realizou na Baía de Guanabara, na comunidade da Ilha de Itaoca.
“A partir daí, entendemos a importância de como vale a pena contratar essas comunidades para fazer a limpeza.”
Segundo ele, ao incluir o termo de Pagamento Por Serviço ambiental, as comunidades se sensibilizam e se tornam agentes ambientais. Elas constatam depois que a limpeza traz mais produção de peixes e caranguejos e mais qualidade no manguezal.
De acordo com o ambientalista, a limpeza dos mangues já é uma atividade esperada, principalmente, pelos catadores de caranguejo por causa do período de defeso, que no Rio de Janeiro ocorre de 1º de outubro a 30 de novembro. Nesse momento, não se pode coletar, transportar, comercializar o caranguejo- uçá. “Essa bolsa-auxílio, que é paga por serviço ambiental prestado pela comunidade, é de extrema importância.”
O presidente da Associação de Caranguejeiros e Amigos dos Mangue de Magé, Rafael dos Santos, destacou que o Turismo de Base Comunitária, que é outra atividade econômica desenvolvida pelos moradores, também é influenciado pela limpeza de resíduos sólidos. “O cenário do rio e do manguezal mais limpos atrai visitantes para a região.”
Projeto
desenvolve educação ambiental de povos tradicionais em
Magé.
Rodrigo
Campanário/ Divulgação
LimpaOca
O
projeto vai ser ainda uma extensão da Operação
LimpaOca, de acordo com o coordenador Rodrigo Gaião.
Desde as primeiras ações de limpeza dos manguezais na
região da APA de Guapimirim, na região
Metropolitana do Rio, em 2012, a ação já
recolheu mais de 100 toneladas de resíduos. No Andadas
Ecológicas, pela primeira vez, se estenderá da foz à
nascente do Rio Suruí.
Gaião
relatou que, entre os resíduos recolhidos estão sofás,
tubos de imagem de televisão, lixo eletrônico, peças
inteiras de madeira como portas, brinquedos, mas embora tenham
mudança nos tipos de resíduos, sempre o plástico
ou de algo de origem plástica é mais frequente no
cenário.
“[Entre os resíduos], o plástico domina, seja em forma de garrafa pet ou outros tipos de potes plásticos e sacolas em quantidade absurda. Dependendo do tempo que aquilo está no manguezal, é grande a quantidade de fragmentos.”
Os
projetos de limpeza dos mangues no entorno da Área de Proteção
Ambiental de Guapimirim começaram no ano 2000, após o
rompimento de um duto da Petrobras que ligava a Refinaria Duque de
Caxias (Reduc) ao terminal Ilha d'Água, na Ilha do Governador,
zona norte do Rio. Por causa do vazamento, a Petrobras pagou multa de
R$ 51 milhões ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e
dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e aplicou R$ 15
milhões na revitalização da baía.
Desde
lá, o tema avançou até começarem as
operações de limpeza em projetos da ONG Guardiões
do Mar como o Do Mangue ao Mar, Dia de Limpeza da Baía de
Guanabara, Sou do Mangue, Guanabara Verde, o LimpaOca e o Uçá.
“Não
é um projeto que chegou de uma hora para outra. Ao contrário,
foi construído com grandes passos deles e isso valoriza eles
não só no território, mas na qualidade de vida”,
observou. “Tem bastante pescador já ciente que a sua
própria luta não está sendo em vão.”
Fonte: Comunidade transforma cenário ambiental da Baía de Guanabara | Agência Brasil