revista educação ambiental em ação 32
A
CRISE DO MEIO AMBIENTE ENTRE AS VÁRIAS AGENDAS CONTEMPORÂNEAS
Boaz
Antonio de Vasconcelos Lopes
Emial:
lopes40-@bol.com.br
RESUMO:
Neste artigo, iremos evidenciar as principais agendas
para a gestão dos recursos naturais sem deixar de desvendar as contradições
interna a todo o processo de desenvolvimento sócio-ambiental. Optamos por uma
dissertação em que são identificadas as seguintes categorias de análise: visão,
procedimento, instrumento, agentes principais e espaço. Então, com esse
encaminhamento são caracterizadas as seguintes agendas da gestão ambiental: a
tese de Pigou, a tese de Coase, a tese da gestão Integrada dos recursos
naturais e da crítica radical ao modelo de produção e consumo vigente.
Palavras-chave:
Ambientalismo; gestão ambiental;
agendas ambientais; recursos naturais.
1. Introdução
A partir do efeito midiático da Eco 92, a
crise do meio ambiente passou a ser uma percepção muito mais presente na vida
de todos. Todavia, as soluções para os problemas ambientais não são
consensuais, ao contrário, elas dependem da visão de mundo e de interesse de
cada um dos atores sociais. Existem opiniões divergentes sobre suas causas e os
seus efeitos e quais são as respostas mais adequadas para a gestão de seus
recursos.
O atual modelo capitalista de produção e
consumo tem uma tendência "natural" de expandir sua centralidade econômica.
Sua lógica é transformar os valores de uso, aqueles que satisfazem as
necessidades humanas, em valores de troca, aqueles que satisfazem as
necessidades do mercado, cada vez mais globalizado.
É clássico o conhecimento de que o modelo
de crescimento dominante, desde a Revolução Industrial, tem gerado uma massa
cada vez maior de excluídos sociais. Agora, o modelo tem degradado, às vezes
de forma irreversível, o meio ambiente. Estamos diante de um novo tipo de
crise, nunca vista, a sócio-ambiental.
Inicialmente, podemos aceitar a definição
de meio ambiente como sendo o produto da interação entre os homens e a
natureza de forma equilibrada. Essa noção, perpassa, também, a interação
entre os próprios homens, em espaços e tempos concretos e com dimensões históricas
e culturais específicas que expressam também o significado político e econômico
das mudanças que se pretende induzir ou sustar. Esta visão está dentro de um
escopo de estudo chamado desenvolvimento sustentável.
O Relatório Brundtland, um dos
documentos mais importante sobre o assunto (Bruseke, 2003), traz uma das definições
mais conhecidas, a qual afirma que o desenvolvimento sustentável é aquele que
atende às necessidades das gerações presentes sem comprometer a possibilidade
das gerações futuras atenderem suas próprias necessidades. Neste sentido, é
indispensável pensarmos um desenvolvimento em que é considerada a correlação
entre, pelo menos, as seguintes dimensões: sociais, ambientais e econômicas.
Assim, uma pergunta se faz necessária: há compatibilidade entre o atual
sistema de produção/consumo de riquezas e uma saída sustentável para o
desenvolvimento?
Mediante
a análise de algumas obras, neste artigo, iremos evidenciar as principais
agendas para a gestão dos recursos naturais sem deixar de desvendar as contradições
interna que envolve todo o processo do desenvolvimento sustentável em prática.
Optamos,
também, por uma dissertação em que são identificadas as seguintes categorias
de análise: visão, procedimento, instrumento, agentes principais e espaço.
Problemática:
O que está em jogo nessa problemática é
que tipo de desenvolvimento queremos e como ele se articula com a gestão dos
recursos naturais?
2. Solução
econômica para a crise ambiental
Durante
muito tempo, desde a Revolução Industrial, os insumos naturais têm sido
usados de forma infinita. A partir do momento em que o fornecimento deste
insumo, fundamental para o processo da reprodução do modelo econômico, começou
a ficar crítico, o paradigma dominante buscou, no controle econômico deste,
uma solução para o problema.
Na
perspectiva da crise da escassez de recursos naturais, o controle econômico do
consumo das fontes naturais tem se constituído como uma solução duplamente útil.
Porque, ao mesmo tempo em que se
diminui o consumo destes recursos, dirigindo-os para lógica da indústria,
conserva-se o paradigma vigente, uma vez que o modelo tem fundamento, também,
na ordem da economia de mercado.
O campo
da economia que o paradigma dominante aplica à teoria econômica, a questões
ligadas ao manejo e à preservação do meio ambiente é chamado de Economia
Ambiental ou Economia do Meio Ambiente. Essa é uma das razões que, nos últimos
anos do século XX, justificam um claro crescimento da preocupação e do
interesse das empresas com os assuntos relacionados ao meio ambiente. Entre as
razões apresentadas para esse crescente interesse corporativo pelo meio
ambiente, podemos citar:
a) Sobrevivência
corporativa a longo prazo: está relacionada à necessidade de
tecnologias que possibilitem a geração de recursos básicos para a manutenção
de alguns importantes setores da economia, como, por exemplo, energia e
celulose.
b) Oportunidades
de mercado: um exemplo de mercado gerado a partir de ações de preservação
do meio ambiente é a venda de quotas de absorção de CO2.
c) Mercado
financeiro: devido a novas regulamentações e a um agressivo clima de
litígio, um atestado de saúde ambiental está tornando-se cada vez mais vital
para assegurar investimentos e financiamentos a novos projetos nos mais diversos
setores produtivos.
d) Responsabilidade
criminal e legal: as novas leis de proteção ao meio ambiente têm sido
responsáveis pela adequação tecnológica de várias empresas, sob pena de
inviabilizar a implantação ou a ampliação das mesmas.
e) Informação
globalizada: a globalização traz consigo a distribuição praticamente
uniforme da informação, o que está derrubando as práticas indiscriminadas
dos recursos naturais.
A seguir
trataremos de conceitos fundamentais para a economia do meio ambiente como
premissas e importantes instrumentos de análise, constituindo-se em
conceitos-chave para o desenvolvimento de nosso estudo, são eles:
- Critério
de Pareto: é o critério utilizado para
julgar se a alocação do recurso é ou não o mais eficiente, é indicado
para estabelecer um ponto ótimo para a sociedade nas negociações entre
governo e mercado para a preservação do meio ambiente.
- Externalidade:
a compreensão desse conceito demonstra a idéia de como o mercado faz uso
dos recursos naturais, muitas vezes não atribuindo o devido valor a esses
bens por usufruir deles gratuitamente.
- Internalidade:
alternativa econômica para a compensação pelos níveis de poluição
provocados pelo uso dos recursos naturais no processo de produção das indústrias.
Mediante inclusão dos custos ambientais no cálculo de custo da produção.
- Taxa
pigouviana: constitui-se no estabelecimento de uma taxa sobre a emissão
de poluentes. É uma política de cunho econômico de controle dos níveis
de poluição feito pelo poder público.
- Teorema
de Coase: faz um contraponto às taxas
pigouvianas, propondo o controle da poluição pelo mercado por meio
de quota para poluir fornecido para as indústrias. Esta teoria usa o conceito de equilíbrio competitivo
mediante o critério de Pareto.
3. Fundamentos
da tese de Pigou
A taxa pigouviana, assim chamada em homenagem ao economista
inglês Arthur Cecil Pigou, quem primeiro sugeriu essa taxa, conceitualmente,
trata de um imposto sobre unidade de poluição emitida que deve ser igual ao
custo marginal social dessa poluição no nível ótima da emissão.
A alternativa proposta por Pigou, para o
controle da escassez dos recursos naturais, seria a aplicação de uma taxa que
igualaria o montante total do custo marginal imposto à sociedade. Dessa forma,
o fabricante passaria a assumir o total dos custos de sua produção pelo
pagamento de uma taxa pré-fixada pelo Estado.
Analisemos um exemplo proposto por Costa
(2002), o caso de dois poluidores: um deles pode reduzir sua poluição a um
custo relativamente pequeno, enquanto o outro tem de arcar com pesadas reduções
em seus lucros para cada unidade produzida a menos. Nesse caso, seria mais
coerente impor uma redução maior àquele poluidor que pode fazê-lo a baixo
custo. Esse objetivo seria automaticamente alcançado com o mecanismo da taxa
pigouviana.
A taxa pigouviana alcança seu objetivo de
reduzir os níveis de poluição, minimizando o custo dessa redução para a
sociedade. Outro ponto apresentado a favor da taxa pigouviana é o estímulo
gerado para que as firmas busquem desenvolver tecnologias menos poluidoras. Isso
ocorre porque, com a taxa pigouviana, a emissão de poluição passa a ter um
custo e, evidentemente, toda firma busca possuir tecnologias que reduzam seus
custos.
De acordo com a proposta metodológica sugerida
na introdução de nosso artigo, podemos sintetizar a tese de Pigou pelas
seguintes configurações:
- Visão:
solução política e quantitativa para a crise do meio ambiente;
- Procedimento:
gestão gerenciada pelo Estado;
- Instrumento:
econômico.
- Agentes
principais: Estado e os agentes econômicos;
- Espaço:
jurídico.
4. Fundamentos
da tese de Coase
A abordagem econômico-liberal aposta nas forças de autoregulação do
mercado, e parte do pressuposto de que pressão de concorrência, crescimento
econômico e prosperidade levariam automaticamente ao uso racional dos recursos
naturais, ao progresso tecnológico e a novas necessidades de consumo compatíveis
com as exigências do meio ambiente.
Por essa visão, o mercado é o melhor
mecanismo para garantir a satisfação dos desejos individuais, inclusive dos
desejos ambientais na medida em que os consumidores manifestassem sua consciência
ecológica nas decisões de compra, o mercado verde responderia a esta demanda
com a oferta crescente de produtos e serviços ecológicos
Para Ronald Coase, desde que os direitos de
emissão de externalidades sejam adequadamente definidos e que não haja custos
de transação entre as partes, a livre negociação entre as mesmas deve levar
ao nível ótimo de emissão destas externalidades.
Costa (2002), para demonstrar a tese de Coase, descreve o seguinte exemplo:
uma empresa de celulose que se instalou em uma sociedade cuja base econômica são
cooperativas agropastoris. Na localidade onde as duas indústrias estão
instaladas há um importante rio que em um primeiro momento atendia a irrigação
da lavoura e o consumo da criação de gado da cooperativa e da região.
A nova
indústria foi implantada e em pouco tempo foram sentidos danos, principalmente
em relação à água. Os níveis de poluentes emitidos na água geraram a
necessidade, por parte das cooperativas, de tratarem a água antes de consumi-la
para sua produção, uma vez que, o consumo direto gerou doenças no rebanho e
perdas nas plantações.
Nessa situação, ocorre que quanto mais resíduos
lançar no rio a empresa de celulose, que utiliza grande quantidade de água em
seu processo produtivo, maior será o custo das cooperativas da região com
instalações de tratamento para a água, o que resulta em um lucro menor.
A sociedade local encontra-se em um dilema: as
cooperativas da região gostariam que a empresa de celulose reduzisse a emissão
de poluentes, o que reduziria seus custos e aumentaria seus lucros. Por outro
lado, a indústria de celulose não tem interesse em reduzir a poluição que
gera, pois isso só seria possível de duas formas: ou reduzindo a produção,
ou desenvolvendo tecnologias de tratamento para água antes de lançá-la ao
rio. Qualquer uma dessas opções geraria uma redução no seu lucro.
Coase (1960) sugeriu que a indústria poluente
seja levada a emitir o nível ótimo de poluição desde que fosse determinado a
ela o direito de poluir o quanto quisesse, ou seja, até o limite em que o outro
agente tem o direito a usar a água limpa.
Aqui entramos em uma questão que traz uma função
essencial do Estado: a definição e a preservação dos direitos de propriedade
para poluir. Ou seja, se não houver uma determinação legal proibindo que
qualquer indústria polua a água sem prévia autorização, a cooperativa
autorizará a produção até o nível em que será compensada por seus lucros.
Aplicando-se à realidade, quando uma indústria
pretende implantar uma nova sede ou ampliar sua planta, ela deverá pedir
autorização à sociedade, que aceitará ou não conforme seus critérios.
Teoricamente, o representante da sociedade é o Estado, que através dos órgãos
especializados aprova ou não a implantação ou a ampliação de determinada
indústria.
Para Coase (1960) o controle feito pelo Estado
pode ser utilizado como uma grande arma política, favorecendo ou prejudicando
um ou outro grupo de poder. E uma maneira de evitar o protecionismo a alguns
grupos em detrimento de outros seria estipular o nível máximo de poluição
aceito pela sociedade em determinada região e, a partir daí, o mercado fixar
quotas de poluição para as indústrias de uma localidade.
Nesse
caso o Estado define a propriedade para poluir e permite que haja um livre
mercado de quotas de poluição, garantindo à sociedade que seu limite de
aceitação de poluição não será ultrapassado, já que as próprias indústrias
envolvidas auxiliarão os órgãos públicos.
De
acordo com a proposta metodológica sugerida na introdução de nosso artigo,
podemos sintetizar a tese de Coase pelas seguintes configurações:
- Visão:
solução econômica e quantitativa para a crise do meio ambiente;
- Procedimento:
gestão gerenciada pelo mercado;
- Instrumento:
econômico.
- Agentes
principais: indústria;
- Espaço:
mercado de troca.
5. Gestão
Integrada dos recursos naturais
Para Frey (2001), a teoria moderna afirma que o Estado contemporâneo
perde progressivamente sua capacidade de condução hierárquica unilateral à
medida que as redes de negociação entre os diferentes atores dentro de cada
sociedade, como também entre os diferentes Estados, diversificam-se.
A lógica funcional que está na base do
sistema político-administrativo prevalecente nas democracias representativas do
mundo ocidental pressupõe que aqueles que exercem funções públicas deveriam,
a princípio, estar em condições de transformar as concepções politicamente
defendidas também em planos de ação pertinentes e, por conseguinte, em
correspondentes resultados políticos.
Mas, à medida que aumenta a complexidade e a
diferenciação funcional da sociedade moderna, declina a capacidade de condução
e de governabilidade por parte do sistema político-administrativo.
Particularmente os problemas ambientais mostram de forma mais nítida, que a política
deveria conseguir muito e acaba conseguindo pouco, perante a incapacidade de
controle dos resultados do sistema político e da esfera do Estado.
Diante das limitações
desse Estado, a gestão integrada reivindica a transferência de maiores
responsabilidades para os sistemas de negociação da sociedade civil e o
aumento das possibilidades de informação, de influência e de controle
exercidas pela sociedade baseando-se nas teorias da democracia participativa.
As
teorias da democracia participativa e da democracia deliberativa, como também o
comunitarismo, evidenciam a crescente desilusão com o potencial transformador
do Estado. Por outro lado, tentam uma alternativa ao livre mercado como modelo
único de tomada de decisão sobre os rumos de desenvolvimento das sociedades e
da gestão do meio ambiente em crise. Esta nova visão deposita na própria
sociedade civil, a possibilidade de ser o ator principal rumo ao desenvolvimento
sustentável da sociedade.
Em oposição
às abordagens ecocêntricas, cujo foco de atenção é a natureza e sua proteção,
a abordagem política de participação democrática parte do pressuposto de que
o homem e a sociedade devem estar no centro da atenção e de reflexão.
Portanto, essa abordagem pode ser considerada como uma visão sócio-dicursiva
da gestão do meio ambiente e de seus recursos naturais.
A democracia liberal privilegia os interesses econômicos particulares de
pessoas ou grupos sociais afetados, em detrimento dos interesses ecológicos de
caráter geral e difuso. Contudo, a abordagem política de participação democrática
parte da necessidade de uma ampla participação para determinar os objetivos
das políticas ambientais, tomando como princípio a idéia de que todas as
dimensões da relação homem-natureza são fundamentais e importantes.
Outro
ponto crítico é que uma democracia discursiva não trata de uma abordagem
elaborada explicitamente a partir de uma preocupação com a questão ambiental,
porém, a proposta apresentada é possuidora de características que podem ser
úteis para se pensar uma concepção do desenvolvimento sustentável e possíveis
soluções para a crise ecológica mediante a radicalização dos mecanismos
democráticos, quando buscam o consenso na construção da escala de prioridade
da gestão do meio ambiente.
Daí
a gestão integrada – sociedade,
instituições, costumes e cultura - como estratégia de desenvolvimento, onde
os recursos naturais possam ser vistos como fonte de bem-estar e de conservação
para manutenção de um meio ambiente equilibrado e saudável e à disposição
das futuras gerações.
De
acordo com a proposta metodológica sugerida na introdução de nosso artigo,
podemos sintetizar a tese da gestão
integrada pelas seguintes configurações:
- Visão:
solução integrada das dimensões da gestão dos recursos naturais;
- Procedimento:
criação de ambiente democrático de decisão;
- Instrumento:
participação social;
- Agentes
principais: todos;
- Espaço:
discursivo-consensual.
6. Visão pela
crítica radical do modelo de produção e consumo
Para Hora
(2007), a estrutura econômica é responsável pela crise ambiental em que
vivemos. Vemos fatores sócio-ambientais como as alterações do equilíbrio
natural causadas por fenômenos como: aquecimento global, as ilhas de calor,
escassez de recursos hídricos, assim como a constante miserabilidade que grande
parte da população do globo enfrenta,
O
que existe é a consolidação de um sistema produtivo capitalista que orienta
uma necessidade vital de manter o atual padrão de consumo. E por outro lado,
uma tentativa de recorrer à teoria de Malthus, para defender a tese de que é o
crescimento populacional, em particular os pobres, os responsáveis pelos
problemas ambientais e sociais.
O processo de urbanização e a atual situação
de crise sócio-ambiental são vivenciados pela globalização e pelo modelo de
desenvolvimento econômico que imputa, aos países do mundo, uma divisão geopolítica
de um norte rico e um sul cada vez mais pobre. É isso que se faz refletir sobre
o tipo e o conceito de desenvolvimento e progresso desejado.
Não é possível mais não pensar em meio
ambiente, quando o mundo já vive problemas de escassez de água, mas também, não
é possível pensá-lo, sem alimentar os milhões de famintos que se encontram
em continentes inteiros. Mas também, já não é possível dar sustentabilidade
aos padrões de consumo dos países desenvolvidos.
Primeiramente, de quê Desenvolvimento Sustentável
(DS) falamos? Se considerarmos a definição da ONU, expressa no Relatório
Brundtland, temos que: “desenvolvimento sustentável é aquele que
atende às necessidades do presente sem comprometer a possibilidade de as gerações
futuras atenderem suas próprias necessidades”. (BRUSEKE,
2003, p. 29)
Aparentemente é coeso, o discurso do
desenvolvimento sustentável, da garantia do “nosso futuro comum”, no
entanto, apresenta-se como uma demanda genérica da sociedade – como elemento
homogêneo e único. Desconsiderando, justamente, as singularidades e
necessidades dos povos do mundo. Não contestando nem apontando para uma
necessidade histórica de superação do atual modelo de crescimento.
A questão ambiental ou do DS pode orientar
matrizes de desenvolvimento diferenciadas e antagônicas, destacando-se de um
lado àquelas que suprimem a idéia da disputa de classe, que serve de suporte
ao próprio modelo capitalista. E por outro, aponta para a superação do modelo
de desenvolvimento atual, para a construção de novas relações societárias.
Quando a ascensão do
ecologismo dilacera o positivismo com suas denúncias contra degradação
ambiental, denota-se não apenas uma preocupação ético-estética do ponto de
vista da vida, mas uma alteração na essência do entendimento da relação
homem-natureza. Neste instante torna-se mais que latente a indagação: de qual
natureza falamos? E ainda: como o meio ambiente torna-se uma questão ambiental?
A questão ambiental tem sido um fator de reprodução
do sistema na proporção em que gera resíduos para garantir a exploração do
trabalho e a construção da mais valia como princípio inato de sua sobrevivência.
Nele, num momento, a natureza precisa ser privatizada e no outro precisa ser
conservada, para ser explorada. Assim, longe de ser um debate fora de seu seio,
é justamente a (re)inserção da visão de mundo que inclui o homem como
elemento da natureza que aponta a forma de sua
reprodução.
É preciso ter
nítido que a proteção da fauna, flora e da mitigação dos impactos
ambientais com a proposta de sistemas de conservação e preservação do meio
ambiente esteja consorciadas à proteção de todos os homens sem a exclusão.
Mudar hábitos
de consumo, repensar os processos produtivos, urbanizar sem causar impactos,
gerar formas alternativas de produção energética, distribuir renda. Enfim,
criar e estabelecer outros princípios e valores perpassa a transformação do
atual modelo dominante de produção e consumo.
Os críticos dessa visão afirmam que não
podemos nos deixar enganar por aqueles que insistem em humanizar o capital.
Porque, o grande desafio é como humanizar a diferença, a pobreza e a degradação
ao mesmo tempo.
A pobreza, a exclusão social e o desemprego
devem ser tratados como problemas planetários. Porque, tanto quanto a chuva ácida,
o efeito estufa, a depleção da camada de ozônio e o entulho espacial, assim
como a maioria dos projetos de gestão dos recursos naturais, estão no cerne
das mesmas concepções de desenvolvimento, e fora da lógica atual do
crescimento econômico global.
De
acordo com a proposta metodológica sugerida na introdução de nosso artigo,
podemos sintetizar a tese da visão pela critica radical do modelo de produção
e consumo pelas seguintes configurações:
- Visão:
postura crítica radical diante do modelo econômico de produção e
consumo;
- Procedimento:
desenvolvimento de uma consciência política ambiental;
- Instrumento:
a política econômica ambiental;
- Agentes
principais: os excluídos do modelo econômico dominante;
- Espaço:
sociológico.
7. Considerações
finais
A crise ambiente não é disciplinar. Não
podemos olhar para um único ponto, nem tão pouco, temos a nossa disposição
um objeto bem definido. Então, o que temos é um objeto complexo que
possibilita várias formas de se olhar.
Lidar com um objeto com esse nível de mobilidade, requer que sejam
mostradas todas as contradições possíveis; que caminhemos por várias dimensões,
sem nos perdemos e sem sermos consumidos por alguma delas. Não basta tentarmos
mostrar conteúdos, até porque eles não existem de forma cristalina. Temos que
avançar no mérito do método e da diversidade, para não sermos apenas
reprodutores.
Por estarmos diante de uma ciência
interdisciplinar, procedemos selecionando entre algumas agendas sobre a gestão
de recursos naturais aquelas que possuem as características mais distintas. De
posse destas agendas, por uma leitura crítica, fomos “enquadrando”, em
nossa proposta de sistema de categorias, os fundamentos de cada uma dessas
agendas.
Assim procedemos, porque pelos motivos já expostos, não foi suficiente
identificar apenas os instrumentos de gestão. Bem mais ainda porque, seja nas ações
científicas ou nas práticas de cotidiano, os instrumentos guardam, no seu
escopo, fundamentos que se estendem além de sua utilidade.
O que guia a prática de uso de um instrumento, nos exercícios da vida
científica ou na sociedade, são as visões de mundo que ficam resguardadas.
Essas ações são feitas mediante procedimentos que beneficiam algum ou vários
agentes, nos limites de um espaço de ações e disputas. Onde não cabe a
neutralidade de posições.
Pela
leitura dessas agendas, sobre a gestão dos recursos naturais, é possível
identificar que em um extremo temos um paradigma que é dominante, que tenta se
apresentar enquanto um mero instrumento, sem muitas pretensões. Este é mais
bem definido, atuante, mais voltado para resultados e sem muitos
questionamentos. No nosso caso, baseado na tese de Coase.
Do outro lado, temos um paradigma totalmente oposto que, mesmo com toda
uma tradição discursiva, apresenta-se, ainda, sem uma vertente instrumental
consistente. Pois, é natural que um paradigma periférico desenvolva mais seu
escopo teórico que instrumental. Esta descrição de visão sobre a gestão dos
recursos naturais foi apresentada pelo modelo de crítica radical do modelo de
produção e consumo.
Assim como, também, temos o “paradigma” que, algumas vezes, está
dentro do escopo da visão dominante da gestão dos recursos naturais, e outra,
defende as teses do paradigma periférico. Este, geralmente, se apresenta mais
bem definido, instrumentalmente, em relação ao segundo. Para esta descrição,
no nosso caso, enquadra-se o conceito de desenvolvimento sustentável.
8.
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