Educação Ambiental em ação 30
ANÁLISE
DAS CONCEPÇÕES DE MEIO AMBIENTE DE UM GRUPO DE PROFESSORES
Flávio Roberto Chaddad
Graduado
em Engenharia Agronômica pela UNESP/Botucatu, especialista em Educação
Ambiental pelo Departamento de Educação do Instituto de Biociências da
UNESP/Botucatu e Mestre em Educação para o Ensino Superior pela PUC-Campinas.
e-mail: flaviorobertochaddad@hotmail.com
RESUMO
As concepções
de ambiente dos projetos de educação ambiental são importantes para se
entender qual concepção educativa está sendo construída. Se a concepção de
meio ambiente é naturalística, aquela que entende o homem separado da
natureza, o processo educativo ambiental irá se transformar em uma simples prática,
pontual e estritamente utilitária, muitas vezes desvinculada da realidade de
cada sujeito. Se a concepção for socioambiental, aquela que entende o meio
ambiente como uma articulação e interação entre o homem e a natureza, como o
espaço da política, ela se tornará uma prática crítica e transformadora.
Este trabalho teve como objetivo principal analisar quais concepções de
ambiente são norteadoras das práticas educativas ambientais de um grupo de
professores. Os dados coletados por meio de um questionário semi-estruturado
foram interpretados segundo a análise de conteúdo. Pode-se demonstrar que
os professores questionados não souberam definir o meio ambiente como o espaço
integrativo entre a política, a cultura e a natureza. Estas respostas abrem
espaço para que se desconfie que as suas concepções de ambiente signifiquem
algo fora ou externo aos seres humanos, trazendo sérias implicações para o
processo educativo ambiental.
Palavras-chave:
Educação ambiental crítica; Educação ambiental conservadora; Concepções
de ambiente; Pesquisa-ação-participativa.
ABSTRACT
The
atmosphere's conceptions of environmental education projects are important for
understanding of which educational conception is being built. If the environment
conception is naturalistic, which understands the men separated from nature,
environmental educational process will turn into a simple practice, punctual and
strictly useful, in many times they are not entailed to reality of each subject.
If the conception is social environmental which understands the environment
as an articulation and interchange between men and nature, like politics space,
it will be a critical and transformable practice. This work had a main objective
to analyse which atmosphere conceptions are guides of environmental educational
practices from a group of teachers. The data collected through a half-framed
questionnaire were interpreted according to the content analysis. Can
demonstrate that teachers when questioned did not know how to define the
environment as the integrate space between politics, culture and nature. These
answers open space for suspecting that atmosphere's conceptions mean something
out or outward of human being, bringing serious implications for the
environmental educational process.
Key-words: Critical environmental
education; Conservative environmental education; Environment conceptions;
Sharing-action-research.
1.
Introdução
Segundo
Capra (1999), as últimas três décadas vêm registrando um momento crítico e
sem precedentes em toda história da humanidade. Esta ação destruidora do
homem sobre a biosfera não se manifesta apenas sobre o ambiente natural. Mas,
através de um sistema predatório e exploratório, o capitalista, também
empurra milhões de pessoas para a miséria e a alienação. A conseqüência
desta progressiva degeneração dos modos de vida humanos, individuais e
coletivos, manifesta-se através da fragmentação da subjetividade
(singularidade ou alteridade), ou seja, daquilo que confere ao homem, segundo
Guattari (2001), a sua aspereza, “a consciência do seu estar” dentro de sua
comunidade e do planeta – na linguagem de Capra (2001): o seu pertencer ao
universo.
A
raiz desta crise está na maneira que o homem conhece e transforma a sua
realidade, produto de uma ética funcional ou utilitarista, que não permite a
reflexão das conseqüências dos atos humanos, mas que foi e continua sendo
motivadora de uma progressiva desvalorização dos processos integrativos em
prol de uma gritante racionalização decompositora de todos os processos
subjetivos, sociais e naturais.
Conforme
Hinkelammert (2000), o sujeito investido pela razão funcional ou por esta ética
utilitarista é o indivíduo calculista que age sempre em função de seus
interesses materiais, de sua satisfação pessoal. É o indivíduo da alta
produtividade obtida às expensas da exploração e expropriação do homem e da
natureza. Não é capaz de pensar em si mesmo como ser vivente, muito menos em
seus iguais – enfim, na totalidade da qual faz parte. Imerso neste sistema,
utiliza-se de todas as formas para atingir seus objetivos, mesmo que estes
afetem diretamente e contribuam para a destruição dos sistemas ecológicos e,
conseqüentemente, a sua própria destruição.
Conforme
este autor, esta ética tem sua raiz no cogito cartesiano: “Penso, logo
existo” (DESCARTES, 2000). A divisão entre corpo e matéria, além de
atribuir existência à somente aqueles que pensam, ou seja, aos homens,
contribuiu para que os seres humanos se reconhecem como egos isolados dentro de
seus corpos, trazendo sérias implicações éticas para outros dois dos três
registros ecológicos que compõem o que se entende por meio ambiente: as relações
sociais e a subjetividade.
Para
este sujeito atomizado e transcendental, o do cogito cartesiano, não há relações
que impliquem tornar o outro (homem/natureza) pessoal, tudo se reduz numa ética
da coisificação, num mundo de relações onde os “objetos”
(homem/natureza) têm que ser dominados (explorados e expropriados) para
satisfazer sua parte imperfeita funcionando, ou seja, o seu corpo, durante seu
trajeto na Terra.
Diante
desta crise, várias são as discussões que apontam a educação, em seu
espectro maior, a educação ambiental, como um dos meios capazes de gerar uma
mudança qualitativa em toda a visão de mundo imperante, indo em direção à
construção de um novo paradigma, baseado, sobretudo, no desenvolvimento de uma
consciência democrática (REIGOTA, 2002).
Como
procedimentos e práticas pedagógicas que buscam fomentar esta nova postura da
humanidade diante deste quadro crítico em que se encontra, multiplica-se, mesmo
que ainda de forma incipiente, as propostas de projetos de educação ambiental.
Mas como avaliar se estes projetos estão inseridos numa concepção naturalística
ou “ingênua” de meio ambiente, influenciados, sobretudo, pela dualidade
cartesiana entre sujeito e objeto, mente e corpo e, por fim, homem e natureza?
Ou então, estão envolvidos por uma concepção socioambiental de ambiente?
Neste
sentido, torna-se necessário definir o que representam estas duas concepções
de ambiente e quais as suas implicações para a reprodução ou para a mudança
da visão de mundo até agora imperante e, conseqüentemente, para a transformação
da sociedade como um todo.
Segundo
Campos (2000), Brügger (2004) e Oliveira e Novicki (2004), a concepção
naturalística ou ingênua de ambiente, além de associá-lo apenas e somente
aos aspectos naturais, como, por exemplo, à fauna; a flora; aos fatores climáticos
e aos acidentes geográficos, não entende a participação do homem como
sujeito biológico (parte integrante da natureza) e agente político, consciente
e crítico na transformação da sociedade – o ser humano é tido como o indivíduo
transcendental ou atomizado. Nesta concepção, o que importa é a base científica
e tecnológica (a razão instrumental), sob a ótica reducionista, para a
utilização racional e a conservação dos recursos naturais.
A
ação educativa ambiental, baseada nesta concepção conservadora de meio
ambiente, irá se traduzir e se reduzir numa pretensa solução técnico-científica,
um movimento isolado, muitas vezes alienado das problemáticas ambientais
locais. Assim, a concepção de uma educação ambiental conservadora está
pautada numa concepção naturalística de ambiente, informada pelo paradigma
cartesiano. Por conseguinte, tende a se transformar numa simples prática,
voltada para a solução de um problema de forma “pontual”, estritamente
utilitária e desvinculada dos fatores sociais, políticos e econômicos.
Por
outro lado, a concepção de uma educação ambiental crítica, popular e política
está relacionada a uma concepção socioambiental de ambiente. Ela privilegia a
resolução dos problemas ambientais enquanto tema gerador, baseando-se em uma
práxis transformadora, na medida em que os sujeitos, partindo dos fatores
cotidianos e locais, ampliam a discussão atingindo níveis cada vez mais
complexos e globais de conhecimento e ação (CAMPOS, 2000; BRÜGGER, 2004;
OLIVEIRA e NOVICKI, 2004).
Portanto,
através deste exercício democrático e crítico, as ações coletivas podem
ser capazes de transformações profundas no modo de produção, consumo e
organização social, o que transforma os seres humanos em sujeitos históricos,
construtores de um novo modelo de sociedade (MARX, 1975; OLIVEIRA e NOVICKI,
2004; TRISTÃO, 2005).
Desta
forma, a metodologia de pesquisa que atende a uma proposta de educação
ambiental crítica e transformadora, viabilizadora desta nova práxis, na resolução
dos problemas ambientais, refere-se às metodologias participativas. Estas
metodologias requerem o conhecimento da realidade e a intervenção conjunta,
envolvendo o pesquisador e os membros da situação estudada para a solução de
problemas concretos. Em síntese, estas metodologias possibilitam o encontro
entre diferentes atores sociais na busca de soluções para um problema
concreto, visando à conscientização dos participantes e transformação da
realidade. O efeito deste processo de construção de conhecimento coletivo e
participação nas decisões, numa leitura gramsciana, objetiva forjar o
intelectual das classes populares (OLIVEIRA e NOVICKI, 2004).
Através
destas discussões, percebe-se que esta proposta para a realização de uma
educação ambiental realmente profícua, baseada numa concepção
socioambiental de ambiente, fundamenta-se no paradigma da teoria crítica. Desta
maneira, visa contribuir para a revisão de valores e transformação da
sociedade como um todo, por meio da superação da alienação e instauração
de uma nova práxis pautada em princípios ecológicos e de justiça social.
Em virtude
da importância que vem adquirindo a concepção de meio ambiente para o fomento
de uma educação ambiental de caráter crítico e democrático foi levantado o
seguinte problema:
• O que
pensam um grupo de professores que realizam projetos de educação ambiental
sobre a concepção de meio ambiente?
2. Objetivos
Tendo
em vista aprofundar com maiores detalhes o problema em questão, os objetivos
desta pesquisa podem ser enunciados da seguinte forma:
·
Identificar quais os professores de educação básica estão envolvidos com o
desenvolvimento de projetos de educação ambiental na diretoria de ensino de
uma cidade do interior paulista;
·
Analisar quais as concepções de ambiente são norteadoras destas práticas
educativas ambientais através da aplicação de questionários
semi-estruturados nos responsáveis por estas atividades;
·
Sugerir como deve ser a formação destes educadores para a realização destas
práticas educativas ambientais através da estruturação de um curso de
especialização “Formação de Educadores Ambientais”.
3. Metodologia
Para
se ter uma visão geral a respeito da quantidade de projetos de educação
ambiental que são desenvolvidos pelos professores do ensino básico e as concepções
de ambiente que os norteiam foi escolhida, como palco desta investigação, a
diretoria de ensino de um município do interior paulista.
Esta
escolha partiu da hipótese de que são poucos os projetos de educação
ambiental realizados por estes professores, em decorrência das grandes jornadas
de trabalho a que estes estão submetidos para dar conta da manutenção de suas
necessidades básicas e da falta de preparo técnico para a realização dos
mesmos.
Moraes
(2002, p.14) salienta que estes dois pontos são alguns problemas inerentes à
falência da escola pública brasileira. Conforme a investigação desenvolvida
durante mais de dez anos por consultores do Banco Mundial sobre a reprovação
nas escolas do nordeste brasileiro, chegou-se a quatro conclusões principais,
dentre as quais podem ser citadas a falta de uma política de valorização e a
baixa qualificação do professor:
O
documento apresenta como última conclusão à existência de profissionais de
profissionais desmotivados e sem qualificação necessária, e alega que a falta
de uma política de valorização do professor nos últimos anos tornou o magistério
uma área um pouco prestigiada e de baixa atratividade no mercado de trabalho. A
inexistência de um plano de carreira com salários dignos afeta todo o sistema,
exige do professor um malabarismo descomunal para garantir sua sobrevivência
pessoal e familiar. Ao redor dessa questão estão os salários aviltantes, o
baixo nível de exigência de escolarização dos profissionais da área e uma
capacitação que não consegue superar as distâncias de uma formação inicial
inadequada.
Este
trabalho pode ser enquadrado em uma pesquisa epidemiológica que se insere na
modalidade de estudo transversal.
Segundo
Vieira e Hossne (2001), os estudos transversais são feitos para descrever os
indivíduos de uma população com relação às suas características pessoais
e às suas histórias de exposição a fatores suspeitos, em determinado
momento.
Como
esta pesquisa visou analisar qual a representação de meio ambiente de um grupo
de professores que desenvolvem projetos de educação ambiental na diretoria de
ensino de uma cidade do interior paulista, ela se insere no estudo transversal,
pois os indivíduos foram examinados uma única vez e buscou-se analisar quais são
as suas concepções (características) de meio ambiente.
De
todas as escolas que fazem parte da diretoria de ensino da região foi
verificado, através dos dados da própria diretoria, que apenas dezessete
escolas desenvolvem, conjuntamente com a casa de agricultura de cada município,
projetos com a temática ambiental.
Deste
total de escolas que realizam este projeto, apenas seis
professores-coordenadores responderam e retornaram com o questionário que lhes
foi enviado.
Apesar
de ser importante a obtenção de um número adequado de sujeitos para que se
possa inferir sobre as características desejadas, Minayo (2003) considera que a
pesquisa qualitativa não se baseia somente e apenas no critério numérico para
garantir sua representatividade.
Para
ela, uma pergunta importante neste item é se estes indivíduos sociais têm uma
vinculação mais significativa com o problema a ser investigado.
Levando
em consideração que estes sujeitos encontrados, representantes de
aproximadamente 35% das escolas que desenvolvem projetos de educação
ambiental, têm vínculos diretos com o problema a ser investigado, o autor
deste trabalho considerou este nível
de amostragem satisfatório.
O
presente trabalho também adotou, como parte dos procedimentos metodológicos,
três modalidades de pesquisa: 1) Pesquisa bibliográfica: através de consultas
de livros, artigos e revistas; 2) Pesquisa Documental: através de consultas a
estatutos, regulamentos, normas e outras fontes necessárias; 3) Pesquisa de
Campo: através da aplicação de questionários semi-estruturados nos
profissionais responsáveis por estes projetos.
Quanto
à coleta de dados, optou-se pelo questionário semi-estruturado. Esses questionários
tiveram a finalidade de obter o máximo de informações, permitindo a avaliação
das variações das respostas em diferentes momentos.
A
partir destas considerações, foi adotada “a priori”, como palco
desta discussão, a categoria básica ou simples: As representações de meio
ambiente que norteiam os projetos de educação ambiental.
Com
relação à metodologia de análise, o presente estudo irá adotar a técnica
da análise de conteúdos surgida nos Estados Unidos no início do século XX.
Os primeiros experimentos que utilizavam esta técnica estavam voltados à
comunicação de massa. Até os anos 50 predominava o aspecto quantitativo da técnica
que se traduzia, em geral, pela contagem da freqüência da aparição de
características nos conteúdos das mensagens veiculadas (GOMES, 2003).
Atualmente,
podem ser destacadas duas funções na sua aplicação. Uma se refere à
verificação de hipóteses e/ou questões. Ou seja, através da análise de
conteúdo, não quantitativa, pode-se encontrar respostas para as questões
formuladas e também pode confirmar ou não as afirmações estabelecidas antes
do trabalho de investigação. A outra função diz respeito à descoberta do
que está permeando os conteúdos manifestos, indo além das aparências do que
está sendo comunicado.
Conforme
afirma Reigota (2002, p.73):
A
análise de conteúdo consiste numa busca do sentido contido nos conteúdos de
diversas formas de texto, de maneira a permitir compreender o acesso à informação
de certos grupos e a forma como esses grupos a elaboram e transmitem.
É
necessário salientar que todos os profissionais questionados assinaram o Termo
de Consentimento Livre e Esclarecido.
4. Resultados e discussões
Este
item foi subdividido em dois sub-itens que visam, num primeiro momento,
apresentar os resultados e discutir as principais representações de meio
ambiente do grupo de professores questionados e suas implicações para a educação
ambiental. Num segundo momento, tendo como base o resultado da pesquisa, ou
seja, as representações das concepções de meio ambiente destes professores,
apresentar um esboço de como deve ser trilhado o caminho entre a concepção de
meio ambiente e o processo educativo ambiental por meio da estruturação de um
curso para a formação de educadores ambientais.
4.1. As representações de meio
ambiente
Pôde-se
notar no discurso de todos os educadores que nas representações de meio
ambiente que baliza seus projetos de educação ambiental há uma busca de uma
maior interação e integração entre o homem e natureza, ou seja, o discurso
enfatiza que o ser humano faz parte integrante da natureza:
A
concepção de ambiente que baliza meu projeto de educação ambiental é a de
que somos parte integrante da natureza, e de que sua diversidade deve ser
preservada, a fim de que haja equilíbrio e qualidade de vida.
A
concepção de ambiente que baliza meu projeto de educação ambiental consiste
num modo de ver o mundo em que se evidenciam as inter-relações e a interdependência
do ser humano com o ambiente.
É
a concepção que visa entender a importância da relação integrativa e
interativa entre o homem-natureza.
É
a interação homem/natureza procurando fazer com que os alunos entendam a
importância de cuidar do meio ambiente.
Na
análise destes discursos, percebe-se, numa primeira leitura, que os professores
se mostram preocupados com uma pretensa visão simplista ou ingênua de meio
ambiente. Para eles, os homens devem ver o mundo como um todo integrado (visão
holística) e interdependente (visão ecológica), onde não há separação
entre o homem e o meio ambiente, pois se encontram em profunda interação e
integração.
É
esta visão também compartilhada por Capra (2007). Através de seus estudos, o
autor apresenta de que forma os dois paradigmas, mecanicista ou cartesiano e o
ecológico, direcionam a ciência, a cultura e a vida social, bem como suas
principais conseqüências. Enfatiza para a necessidade de desenvolver uma visão
ecológica, onde o mundo possa a ser visto como uma rede de fenômenos
interconectados e independentes.
Porém,
numa segunda leitura, mais crítica desta problemática, os professores não
apontam o que entendem por meio ambiente. Ou seja, o discurso parece apontar
para a concepção de meio ambiente como algo externo ao ser humano, um tipo de
vegetação, animais ou outros seres vivos que devem ser preservados para
garantir a melhor qualidade de vida do ser humano, ao invés de retratar o espaço
de sua vila, bairro ou cidade, ou seja, o espaço da política.
Desta
forma, as representações de meio ambiente não são tidas, de forma política,
como o local onde se desdobram as lutas por justiça, por melhores condições
de vida, pela conservação e preservação da natureza local, enfim, pela
felicidade. Pelo contrário, por este viés, o meio ambiente, mais uma vez, é
tido, numa abordagem reducionista ou ingênua, como o “entorno”, algo fora
ou externo ao ser humano oriundo do cogito cartesiano (HINKELAMMERT, 2000;
OLIVEIRA e NOVICKI, 2004).
O
que se pode inferir destas falas é que elas podem refletir o caráter não político
da concepção de meio ambiente, o que traz conseqüências para os processos
educativos ambientais que demandam de uma visão crítica de mundo e conseqüentemente
desnorteia a intervenção consciente e democrática do homem em sua realidade,
porque não entende meio ambiente como o local das relações, onde o homem se
realiza e se reconstrói constantemente.
Conforme
Dias (2000), a concepção socioambiental de meio ambiente está presente nas
recomendações da Conferência de Tibilisi, onde o conceito de meio ambiente
deve integrar as dimensões físico-naturais, econômicas, políticas e sociais
de modo a compatibilizá-lo com as experiências históricas de desenvolvimento
das sociedades, gerando assim uma concepção socioambiental de meio ambiente.
Neste
sentido, Oliveira e Novicki (2004) salientam que a concepção socioambiental não
é apenas uma ampliação do conceito de meio ambiente, que incorpora os fatores
sociais, políticos e culturais, pois implica em perceber a mudança de
paradigma gerando uma nova percepção de realidade, que valoriza a interdependência
dos aspectos naturais e sociais e propõe a articulação entre a reflexão e ação.
O
que se pode inferir do discurso destes educadores é a de que não havendo uma
reflexão crítica a respeito de meio ambiente, do que ele seja em toda sua
totalidade e beleza, quer em suas faces que se articulam e se interagem: a
social, a política, a cultural e a natural, o processo educativo ambiental
porque, conforme afirma Brügger (2004), também é dependente do conceito de
meio ambiente, fica traduzido em práticas muitas vezes desarticuladas da
realidade local de cada ser humano e, portanto, não políticas.
Em
decorrência da concepção ingênua de meio ambiente, a educação ambiental
poderá se restringir a aspectos estritamentes instrucionais, sendo
caracterizada por um forte apelo aos aspectos ecológicos e naturais e
desvinculada da dimensão política e democrática. Assim, por este viés, ela
deixa de ser porta voz de uma educação ambiental libertária e promotora de
uma sociedade mais equilibrada e justa (BRÜGGER, 2004; OLIVEIRA e NOVICKI,
2004; TRISTÃO, 2005).
Por
outro lado, quando o conceito de meio ambiente rompe as características naturalísticas
e simplistas e abarca o espaço social e político, a educação ambiental se
transforma em uma ação política, que tem como eixo principal à pesquisa-ação-participativa,
onde o sujeito constrói democraticamente novos valores éticos com o outro e a
natureza e, partir disso, busca intervir criticamente em sua e na realidade
mundial (BRÜGGER, 2004; OLIVEIRA e NOVICKI, 2004).
A
partir desta construção com o outro e com a natureza percebe-se que a educação
ambiental é um processo que proporciona temas geradores, em níveis cada vez
mais complexos de conhecimento e ação, vislumbrando um novo paradigma para a
humanidade: ecologicamente equilibrado e mais solidário, através de uma nova
práxis (CAMPOS, 2000; GUATTARI, 2001; OLIVEIRA e NOVICKI, 2004).
Segundo
Oliveira e Novicki (2004), práxis em grego, significa atividade. No sentido que
lhe atribui Marx é uma atividade livre, universal, criativa e autocriativa, por
meio da qual o homem cria, produz e transforma seu mundo histórico e a si
mesmo. Esse processo ocorre a partir da percepção que o homem tem de si mesmo
e do mundo e da capacidade de ações transformadoras da realidade.
Outro
discurso, além de também não definir o que este educador entedia por meio
ambiente, chamou a atenção para o cuidado que o ser humano deve de ter com o
meio ambiente para conservar a sua saúde:
É
a interação do ser humano com o ambiente para a manutenção de sua saúde.
Neste
discurso aparece, num primeiro momento, a necessidade do ser humano em conservar
o meio ambiente para se autoconservar, revelando a necessidade da espécie
humana, como a de todas as outras espécies, de conservar este organismo vivo
(Gaia) - o planeta Terra. Porém, num segundo momento, uma análise mais crítica,
pode revelar uma pretensa transformação do meio ambiente em um bem de
utilidade, perdendo completamente o seu valor intrínseco.
Conforme
Drumond (1992), a questão do valor intrínseco é um grande problema. Para ele,
é muito difícil em nossa tradição cultural judaica e cristã – que ainda
predomina no Brasil, embora não seja a única – pensar, em termos de curto
prazo, se grandes parcelas da população virão a dar um valor intrínseco a
animais, vegetais, minerais e elementos da paisagem. Nossa tradição cultural
se empenha rigorosamente em desencantar a paisagem, em afirmar que a natureza é
destituída de encantos, e será difícil devolver isto a ela.
Para
Gudynas e Weil (1992), reconhecer os valores intrínsecos de todas as coisas é
o que propõe a ética profunda ou ecológica. Enquanto na ética superficial o
valor é essencialmente de troca, de uso, na ética profunda ou ecológica se
reconhecem valores intrínsecos nas coisas vivas e não vivas. Reconhecer
valores intrínsecos é passar ao biocentrismo, que reconhece valores em si
mesmo em todas as formas de vida. O biocentrismo diz que os processos vitais, os
processos que a ecologia intui, são valores em si mesmos, independentemente de
terem ou não um nome para incutir-lhes valor.
Um
outro educador, apesar de não definir sua concepção de ambiente, chamou a
atenção que este deve ser significativo para que cada criança perceba a
interdependência entre o meio ambiente e o ser humano. Também tentou
relacionar a concepção de meio ambiente com uma metodologia que implique em
fomentar o espírito crítico nos alunos, porém sem defini-la:
Uma
concepção onde a criança perceba a interdependência do ser humano com o
ambiente. Oferece também a condição que leve o aluno a percorrer caminhos que
desenvolvam nele conceitos críticos, caminhos estes através de observações,
pesquisas e questionamentos.
Neste
discurso, mais uma vez, o educador não definiu o meio ambiente como o espaço
da política, onde o homem constrói a sua realidade com o outro e com a
natureza. O que se percebe, nesta fala, é uma representação cartesiana de
ambiente que se traduz em algo fora ou externo ao seres humanos. Segundo Grün
(2001) e Capra (1999), o modelo advindo do cartesianismo impede de abordar o
meio ambiente em sua forma complexa e multifacetada, impossibilitando assim uma
proposta de educação que seja realmente ambiental, pois esta representação não
leva em consideração os fatores éticos e, principalmente, políticos da situação
ambiental.
Além
disso, este educador associou a concepção de meio ambiente com uma metodologia
que fomente o pensamento crítico em seus educandos, porém não mencionou qual
o tipo de metodologia. O fato é que a concepção metodológica está
intimamente ligada à concepção de meio ambiente, com a visão de mundo de
cada educador - Weltanschauung. Sem
uma definição clara deste há, com certeza, o seu total comprometimento.
Assim, através destas concepções de meio ambiente destes educadores,
conclui-se que o processo educativo ambiental pode, mais uma vez, se resumir em
práticas isoladas, muitas vezes desconectadas da realidade de cada educando,
sem, no entanto, fomentar a mudança de paradigma, tão almejada nos dias de
hoje (CAPRA, 1999; BRÜGGER, 2004; OLIVEIRA e NOVICKI, 2004).
4.2.
Sugestão para a formação dos educadores ambientais
A
construção de um currículo para um curso de “Formação de Educadores
Ambientais”, deve privilegiar a unicidade entre a teoria e a prática. Neste
sentido, além deste currículo contar com uma série de disciplinas e oficinas,
deve promover, como trabalho de conclusão de curso, a implementação e o
desenvolvimento de um projeto de educação ambiental. Por sua vez, cada projeto
de educação ambiental se realizará por meio de práticas pedagógicas
fundamentadas na pesquisa-ação-participativa.
Para
que isto seja possível, o curso também deve contar com seminários de orientação
ao trabalho de conclusão de curso. A partir desses seminários, que se realizarão
através da apresentação dos projetos de educação ambiental, os docentes do
curso podem acompanhar, orientando e avaliando criticamente, o processo de
implementação e de desenvolvimento dos mesmos. Mas, não somente os docentes
do curso deverão participar diretamente deste processo avaliativo. Os próprios
grupos de alunos pesquisadores também podem, a partir das experiências que vão
adquirindo no transcorrer da implementação e desenvolvimento de seus projetos,
discutir e sugerir modificações em cada projeto apresentado.
Assim,
como uma sugestão para um currículo de um curso voltado exclusivamente para a
formação de professores visando à orientação para atividades educativas
ambientais, pode ser feita a seguinte proposta:
Tabela-1.
Proposta de currículo para curso de formação de educadores ambientais.
|
Disciplinas
|
Carga Horária
|
|
1.
Fundamentos da Educação Ambiental
|
64 h/a
|
|
2.
Introdução ao Trabalho Científico
|
40 h/a
|
|
3.
Teorias do Ensino e Aprendizagem
|
40 h/a
|
|
4.
Metodologia da Educação Ambiental
|
64 h/a
|
|
Oficinas
|
Carga Horária
|
|
1.
Atividades Lúdicas
|
24 h/a
|
|
2.
Trilhas Interpretativas
|
24 h/a
|
|
3.
Material Didático em Educação Ambiental
|
24 h/a
|
|
Seminários
|
Carga Horária
|
|
Seminários de Orientação ao
Trabalho de Conclusão de Curso
|
80 h/a
|
È
necessário ressaltar que estas disciplinas e oficinas serão ministradas na
ordem em que foram dispostas acima.
Por
sua vez, os seminários de orientação ao trabalho de conclusão de curso deverão
começar a partir da disciplina metodologia da educação ambiental e coincidirão
com o início do período a ser destinado para a realização de cada projeto de
educação ambiental pelos grupos de alunos pesquisadores.
Tendo
em vista estas considerações, segue um pequeno relato do conteúdo programático
a ser abordado em cada disciplina, oficina e da importância dos seminários de
orientação ao trabalho de conclusão do curso.
A
disciplina Fundamentos da Educação Ambiental constitui-se na base teórica do
curso. Através dela, os alunos do curso poderão compreender, por meio da
socialização de textos, filmes e das discussões empreendidas em sala e em
grupos, que a educação ambiental é muito mais do que simplesmente preparar as
pessoas para cuidar da natureza, ou seja, como
melhor tratá-la sem degradá-la. Pelo contrário. Ela está diretamente
relacionada com a formação do ser humano consciente de seu ambiente,
compreendido como uma articulação e interação entre os três registros ecológicos:
o do homem em sua subjetividade, em suas relações sociais e a natureza.
Nesta
direção, irá buscar uma apropriação crítica das posturas até então
adotadas pela humanidade em termos antropológicos, religiosos, científicos,
políticos, sociais, éticos e econômicos. Herança esta que irá demonstrar as
múltiplas contradições geradas pelo paradigma moderno, ou seja, a destruição
natural, a ruptura das relações sociais e a fragmentação da subjetividade
humana. Portanto, visa analisar, resgatar e reconstruir os valores vigentes,
perdidos ou jamais alcançados pelas posturas adotadas pela humanidade.
A
segunda disciplina Introdução ao Trabalho Científico irá proporcionar aos
alunos uma visão geral do que é conhecimento e da relação entre teoria e prática.
Além disso, irá abordar a diferença existente entre a pesquisa qualitativa e
quantitativa, o processo que envolve a elaboração de um projeto de pesquisa e
os métodos e as técnicas de investigação, coleta e análise de dados.
A
terceira disciplina Teorias do Ensino e Aprendizagem irá contribuir para a
reflexão dos conhecimentos psicológicos para a educação. Neste sentido, vai
possibilitar o conhecimento de diferentes teorias da aprendizagem e a análise
de suas implicações para a prática pedagógica, principalmente, para a
construção de um projeto de educação ambiental.
A
disciplina Metodologia da Educação Ambiental, além de abordar os princípios
metodológicos que envolvem este processo em permanente construção, será
direcionada quase que exclusivamente para uma maior fundamentação teórica da
prática da pesquisa-ação participativa e quais práticas pedagógicas,
fundamentadas nesta modalidade de pesquisa, deverão ser adotadas na implementação
e desenvolvimento de cada projeto.
A
oficina Atividades Lúdicas irá relacionar as brincadeiras de infância com a
promoção de gincanas. Desta maneira, além de estimular o exercício mental e
corporal, através dos jogos, salientará ainda mais alguns princípios metodológicos
como, por exemplo, a da interação e a da cooperação entre os alunos.
A
oficina Trilhas Interpretativas irá abordar a construção de percursos onde os
alvos serão locais de relevância histórica e de beleza natural. Desta forma,
durante cada percurso os alvos terão as suas histórias contadas e, se for o
caso de beleza natural, suas características e importância para biodiversidade
local realçadas.
A
oficina Material Didático em Educação Ambiental demonstrará a infinitude de
materiais e de locais que podem ser utilizados como material didático em educação
ambiental. Assim, esta oficina irá abordar desde a construção do material didático
até a escolha de um local que seja relevante para uma aula passeio.
Já
os seminários de orientação ao trabalho de conclusão de curso serão
dispostos na grade curricular a partir do início da disciplina Metodologia da
Educação Ambiental. Conforme salientado acima, é neste período que também
começará a ser realizado a implementação e o desenvolvimento de cada projeto
de educação ambiental.
No
primeiro seminário de orientação ao trabalho de conclusão de curso, que terá
início antes da implementação e desenvolvimento de cada projeto de educação
ambiental, será priorizada a formação dos grupos de alunos pesquisadores e
ficará decidido onde cada grupo irá atuar: escola; empresa; asilo; etc.
O
segundo seminário de orientação ao trabalho de conclusão de curso será
direcionado para verificar se estes objetivos, definição dos grupos e dos
locais a serem realizados os projetos, foram alcançados.
Se
estes objetivos tiverem sido cumpridos, os docentes do curso deverão orientar,
através de leituras de textos e de conversas com cada grupo de alunos
pesquisadores, como serão as primeiras estratégias de abordagem ao público
alvo de cada projeto.
A
partir da construção destas primeiras estratégias, cada grupo de alunos
pesquisadores juntamente com os envolvidos em cada projeto irão, através de práticas
pedagógicas fundamentadas na pesquisa-ação-participativa, desvendar as suas
realidades imediatas e propor, dentro de determinadas condições, intervenções
nas mesmas. É necessário ressaltar que este processo de reconhecimento, análise
e intervenção, dentro de determinadas condições, em suas realidades
imediatas nunca acaba e vai, cada vez mais, se tornando complexo.
Por
sua vez, os outros seminários serão direcionados para a orientação ao
desenvolvimento de cada projeto de educação ambiental e o último para a
apresentação e entrega dos trabalhos de conclusão de curso.
5.
Conclusão
Os
professores questionados não souberam definir o espaço compreendido por meio
ambiente como o espaço integrativo entre a política, a cultura e a natureza.
Na maioria das respostas, eles apenas salientaram que a relação entre o homem
e o meio ambiente deve ser integrativa. Estas respostas abrem espaço, mais uma
vez, para que se desconfie que as suas concepções de meio ambiente signifiquem
algo fora ou externo aos seres humanos, todas produtos advindo do cogito
cartesiano, ou seja, da cisão cartesiana entre homem e natureza, explícita em
sua máxima: “Penso, logo existo!”. Nesta concepção de ambiente, a educação
ambiental, de uma prática, política, construtora de humanidade, fica reduzida
em práticas isoladas, não políticas, muitas vezes alienadas da realidade
local de cada educando. Portanto,
faz-se necessária uma nova concepção de ambiente que integre tanto os
aspectos naturais, quanto os aspectos éticos, culturais e, principalmente, políticos.
É com este sentido de ambiente que foi construído um esboço ou sugestão de
como realizar uma proposta crítica para a educação ambiental. Espera-se que
haja, o quanto antes, uma mudança na visão de mundo imperante onde a concepção
de ambiente não seja somente referida como espaço natural, mas que seja
compreendida como espaço da política.
6.
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