MULTIPLICADORES DE INFORMAÇÃO SOBRE A QUALIDADE DE ÁGUAS URBANAS: UMA PROPOSTA DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL PARA A BACIA DO CÓRREGO PIRAJUÇARA, REGIÃO METROPOLITANA DE SÃO PAULO, BRASIL
OFICINA SOBRE QUALIDADE DE ÁGUA:
UMA PROPOSTA DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL EM UMA BACIA
HIDROGRÁFICA NA REGIÃO METROPOLITANA DE SÃO
PAULO, BRASIL
Evelyn Loures de GODOI1,2,
Lilian POLAKIEWICZ1, Maria Aparecida Faustino
PIRES1, Nilce ORTIZ1
1Instituto
de Pesquisas Energéticas e Nucleares – Av. Prof. Lineu
Prestes, 2242, Cidade Universitária, São Paulo, SP, CEP
05508000.
2Autora
correspondente, e-mail: evelyngodoi@hotmail.com
RESUMO
O presente trabalho objetivou
apresentar uma proposta de capacitação de
multiplicadores de informação sobre a importância
da água e sua qualidade, a partir da transferência da
informação produzida pela pesquisa limnológica
na foz do Córrego Pirajuçara, por meio do
desenvolvimento de uma oficina com atividades educativas. Os
integrantes do grupo de multiplicadores residem no entorno da bacia
hidrográfica e atuam como agentes de saúde nas
comunidades adjacentes ao córrego. O trabalho foi realizado em
duas campanhas, contemplando atividades de sensibilização,
conscientização e capacitação para as
questões de qualidade de água. A partir do conjunto de
atividades realizadas, os participantes puderam conhecer e
compreender as questões relacionadas à qualidade da
água, tornando-se capazes de transferir as informações
às comunidades onde vivem.
Palavras chave: multiplicadores de
informação; oficina de qualidade da água;
Córrego Pirajuçara.
INTRODUÇÃO
A água é um recurso
indispensável à sobrevivência de todo e qualquer
organismo vivo, além de ser fundamental a todas as atividades
socioeconômicas da população humana, configurando
assim, alto grau de importância nas sociedades atuais. No
entanto, a preocupação real com a qualidade, quantidade
e disponibilidade da água é recente, e atualmente
caracteriza uma crise que ameaça permanentemente a humanidade
(Tundisi, 2005).
A degradação dos
recursos hídricos devido ao despejo crescente de rejeitos nos
corpos de água constitui grave problema, principalmente nas
regiões metropolitanas, onde existe uma importante proximidade
entre os rios, córregos e reservatórios poluídos
e a população (Abessa, 2003; Godoi, 2008).
A crise desencadeada pela preocupação
com a quantidade e qualidade da água faz com que alguns
centros de pesquisa e universidades desenvolvam a temática sob
os mais amplos aspectos, especialmente no que se refere à
qualidade da água de abastecimento público. No entanto,
a maioria dos estudos contempla restritamente a avaliação
física, química e biológica da qualidade da
água, caracterizam o sistema hídrico e/ou apontam uma
estratégia de remediação de impactos e
tratamentos. Poucos estudos consideram a caracterização
social e a atuação junto à comunidade como uma
ferramenta de avaliação e manutenção da
qualidade dos recursos naturais.
O controle da qualidade das águas
urbanas é uma condição indispensável para
a evolução e desenvolvimento das cidades, seja sob o
aspecto socioeconômico ou ainda para a obtenção e
manutenção da qualidade de vida das populações.
A gestão integrada dos recursos
hídricos é uma condição desejável
para que seja possível progredir e sustentar eficientemente as
atividades humanas (Tundisi, 2001). O gerenciamento integrado
contempla as propostas dos administradores, as informações
produzidas nos centros de pesquisa e as percepções e
necessidades das comunidades do entorno da unidade de gerenciamento
do recurso hídrico (bacia hidrográfica), utilizando
como recurso adicional o monitoramento participativo dessas
comunidades.
A participação da
comunidade no gerenciamento da bacia hidrográfica pode ser
considerada como uma eficiente ferramenta de administração
regional, além de contribuir para a melhoria da qualidade de
vida da população devido à valoração
do seu meio ambiente (Tundisi, 2001). No entanto, a população
desconhece aspectos básicos para atuar no gerenciamento dos
recursos hídricos por falta de informação. Desta
forma, a proposta de uma atividade que vise suprir a carência
de informações, fica caracterizada como uma importante
iniciativa de desenvolvimento social.
Neste sentido, o presente trabalho
objetivou apresentar uma proposta de oficina para a capacitação
de multiplicadores de informação sobre a importância
da água, sua qualidade e sua importância ambiental, a
partir de uma pesquisa limnológica aos integrantes da
comunidade do entorno da bacia hidrográfica do Córrego
Pirajuçara.
A BACIA HIDROGRÁFICA DO
CÓRREGO PIRAJUÇARA
A bacia hidrográfica do Córrego
Pirajuçara, afluente pela margem esquerda do Rio Pinheiros,
possui aproximadamente 18,5 km de extensão, está
localizada no setor oeste da Região Metropolitana da Grande
São Paulo e abrange uma área aproximada de 73,1 km2.
De acordo com o aspecto político-administrativo, a bacia esta
localizada na Região Metropolitana de São Paulo (RMSP),
nos municípios de São Paulo, nas subprefeituras de
Campo Limpo e Butantã e nos municípios de Taboão
da Serra e Embu (Beduschi e Silva, 2008).
Atualmente o córrego tem
apresentado aumento de ocupação irregular em suas
margens em alguns de seus trechos (Meira, 2007), tendo como
conseqüência direta os prejuízos diversos à
população nos períodos chuvosos. Segundo
Beduschi e Silva (2008) a paisagem do Córrego Pirajuçara
é bastante modificada e impactada por ações
antrópicas, como a ocupação irregular e
desordenada da bacia, em trechos dos municípios de Taboão
da Serra, Embu e São Paulo, contribuindo para degradação
da qualidade da água do córrego, devido ao mau uso e
falta de gerenciamento da bacia. Os eventos de enchente levaram ao
aumento de atenção sobre a bacia pela população
e autoridades, resultando em obras de construção civil
como a canalização do córrego e a construção
de “piscinões”, empregadas como um mecanismo de
solução, que nos dias atuais não atendem mais as
necessidades do entorno.
A BACIA DO CÓRREGO
PIRAJUÇARA COMO AMBIENTE DE PROMOÇÃO DA EDUCAÇÃO
AMBIENTAL
O presente trabalho tem origem em um
projeto de pesquisa que contempla o monitoramento da qualidade da
água da foz do Córrego Pirajuçara, FIG. 1,
desenvolvido no Centro de Química e Meio Ambiente (CQMA) do
Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (IPEN). A
partir das informações obtidas na pesquisa limnológica
propôs-se uma atividade de educação ambiental,
para que se tornasse real a integração entre pesquisa e
comunidade.
A proposta de integração
visou o desenvolvimento de uma oficina para a capacitação
de integrantes da comunidade residente no entorno da bacia do Córrego
Pirajuçara para a multiplicação de informações
sobre os problemas sócio-ambientais resultantes da má
qualidade das águas nas regiões intensamente
urbanizadas.
O público envolvido no trabalho
consistiu no grupo de Agentes de Saúde, participante das
atividades do Projeto Bacias Irmãs do Instituto Ecoar para
Cidadania. Os integrantes do grupo residem no entorno da bacia
hidrográfica do Córrego Pirajuçara, e atuam como
agentes de saúde nas comunidades adjacentes ao córrego,
assistindo a população em questões de saúde.
Devido à função social que exercem, os
integrantes do grupo são caracterizados como multiplicadores
potenciais de informação.

FIGURA
1 – Córrego Pirajuçara próximo à
foz.
ATIVIDADES EDUCATIVAS PARA A
CAPACITAÇÃO
Para a capacitação dos
multiplicadores as atividades educativas foram realizadas em duas
campanhas, abaixo descritas:
1ª Campanha
A primeira atividade educativa
consistiu na apresentação da palestra “O Córrego
Pirajuçara”, em agosto de 2007, com duração
de 1 hora e 30 minutos, realizada no CEU Campo Limpo – Centro
de Educação Unificada localizado no bairro do Campo
Limpo. A palestra visou fornecer informações e assim
contextualizar os participantes sobre as questões relacionadas
ao Córrego Pirajuçara, como a localização,
a caracterização sócio-administrativa, a
condição da água e a pesquisa científica
envolvendo o córrego. Para a realização da
palestra foi utilizado o projetor de imagens e tela de projeção
para a exibição da apresentação digital.
A estratégia adotada para a seqüência da palestra
foi exposição oral, visual e debate. Ao término
da palestra foi realizada uma avaliação oral sobre o
entendimento e aproveitamento das informações
discutidas.
2ª Campanha
Nesta campanha foi realizada a oficina
“Medidas de qualidade de água urbana – O Córrego
Pirajuçara”, com caráter informativo, prático
e avaliativo, em setembro de 2007, com duração 3 horas,
onde foi realizada a capacitação dos multiplicadores.
Para esta atividade foi organizada uma apostila com a abordagem
teórica da temática, contendo as instruções
sobre os processos de monitoramento, qualidade da água e
legislação relacionada, e ainda atividade de
interpretação para a parte prática. Esta
atividade dividiu-se em duas etapas:
Etapa 1
Consistiu na atividade de campo,
desenvolvida no ponto próximo a foz no trecho localizado
dentro da Cidade Universitária, onde os participantes da
oficina acompanharam o procedimento de amostragem realizado para a
análise da qualidade da água, conforme o monitoramento
realizado no córrego. Os procedimentos realizados foram:
coleta da água da superfície, medidas de qualidade de
campo com sonda multi-paramêtro (condutividade, oxigênio
dissolvido, pH, temperatura da água e sólidos totais);
troca de amostrador cerâmico (dispositivo desenvolvido pelo
projeto de pesquisa); sensibilização em relação
ao aspecto organoléptico (cor e odor) e visual do córrego.
Etapa 2
A segunda etapa consistiu na visita ao
laboratório de análise de água do Centro de
Química e Meio Ambiente – CQMA do Instituto de Pesquisas
Energéticas e Nucleares – IPEN, na participação
da palestra “Medidas de qualidade de água urbana”,
observação da análise da qualidade da água
amostrada na etapa 1 e na interpretação dos resultados.
Ao final da oficina foi feita uma
avaliação escrita, contendo 3 perguntas objetivas sobre
a opinião dos participantes em relação à:
1) Desenvolvimento geral da oficina; 2) Desenvolvimento das palestras
apresentadas durante a oficina; 3) Recursos utilizados para o
desenvolvimento das atividades.
AVALIAÇÃO DAS
ATIVIDADES EDUCATIVAS
Na primeira campanha, durante a
apresentação da palestra de caráter informativo,
estavam presentes 12 Agentes de Saúde e 3 colaboradores. A
palestra abordou aspectos referentes à localização,
características político-administrativas e descreveu a
pesquisa desenvolvida no Córrego Pirajuçara. Durante
toda a apresentação os participantes estiveram ativos,
questionando e expondo suas opiniões em relação
à temática da apresentação. A maior parte
das colocações feitas pelas Agentes de Saúde
referia-se ao mau aspecto da água do córrego e às
experiências próprias em relação à
situação do córrego, onde as integrantes
perceberam a carência de informações sobre a
importância da água nas comunidades onde atuam. A
indignação demonstrada pelos participantes frente às
informações sobre a condição do córrego
apresentadas na palestra era esperada, uma vez que o Córrego
Pirajuçara é resultado de elevadas quantidades de
esgotos e efluentes descartados diariamente, representa hoje um
típico corpo de água urbano, degradado, de aspecto e
odor degradáveis, que causa repulsa a aqueles que estão
no seu entorno.
Na segunda campanha, correspondente a
oficina “Medidas de qualidade de água urbana – O
Córrego Pirajuçara”, estavam presentes 21
participantes, dentre Agentes de Saúde participantes da
primeira campanha e colaboradores (coordenadores, estagiários
e convidados).
Durante a etapa 1, realizada em campo,
os participantes puderam acompanhar a coleta da água, medidas
de qualidade e troca do material cerâmico. Apesar de a
atividade ter contemplado apenas a observação, pelos
participantes, do procedimento de amostragem de água, eles
puderam participar com questionamentos e colocações em
relação aos procedimentos e ao estado da qualidade da
água do córrego.
Na etapa 2, realizada no CQMA, os
participantes visitaram o laboratório de análise de
água, onde foi possível integrar a comunidade
(representada pelas Agentes) e pesquisa científica. No
laboratório os participantes puderam conhecer os materiais
utilizados em pesquisa científica, seu emprego e
funcionamento. A visita a um laboratório de pesquisa é
importante na capacitação de multiplicadores, pois
torna concreta algumas das informações expostas em
palestras, além de ilustrar a forma como as informações
científicas são obtidas. Após a visita, foi
realizada a palestra e a prática de alguns procedimentos de
análise de qualidade de água. A palestra visou fixar as
informações obtidas na atividade de campo e subsidiar a
atividade prática. Os procedimentos realizados durante a
apresentação foram: análise da turbidez,
temperatura da água e de sólidos sedimentáveis.
Estes procedimentos foram eleitos pela praticidade e agilidade na
execução, bem como pela fácil correlação
com alguns fatores ambientais conhecidos pelos participantes. A
apresentação interativa possibilitou aos participantes
a introdução sobre as bases teóricas sobre
qualidade da água, procedimentos e legislação.
Os resultados das análises e medidas de qualidade da água
do córrego foram expostos e os participantes puderam
preenchê-los na apostila da oficina, a fim de responder as
questões de interpretação sobre a qualidade da
água, referente a atividade prática. Os participantes
interagiram e discutiram as questões, chegando à
interpretação dos resultados da análise da água,
que foram comparados, no que possível, com a legislação
de classificação das águas - Resolução
nº. 357 do Conselho Nacional do Meio Ambiente - CONAMA (Brasil,
2005).
As respostas dadas às perguntas
da apostila, bem como a conclusão da interpretação
da qualidade da água, revelaram que houve o aproveitamento das
informações transmitidas sobre a temática
“qualidade da água”, pois além de haver
interação entre os participantes e os palestrantes,
houve a interpretação dos resultados em concordância
com as bases teóricas e ainda experiências particulares
dos participantes.
A opinião dos participantes em
relação à atividade foi avaliada por meio das
questões objetivas e os resultados estão expressos na
FIG. 2. A primeira pergunta referiu-se ao desenvolvimento geral da
oficina, todos os 21 participantes presentes opinaram e 95,24%
declararam que o desenvolvimento geral foi bom. A pergunta seguinte
tratou do desenvolvimento das palestras apresentadas durante a
oficina, dentre os 21 participantes 20 opinaram, deste total apenas
4,76% declararam que as palestras foram confusas. A reposta sobre os
recursos utilizados foi dada por todos os participantes, sendo 90%
das opiniões favoráveis, descrevendo que os recursos
utilizados foram suficientes para a atividade.

FIGURA 2 – Representação
gráfica das opiniões dos participantes da oficina
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A partir do conjunto de atividades
realizadas, os participantes puderam conhecer e compreender as
questões relacionadas à qualidade da água,
tornando-se capazes de transferir as informações às
comunidades onde atuam, de forma a instruí-las sobre a
importância da boa qualidade da água.
Os resultados positivos observados na
avaliação final descrevem que a atividade apresentou
boa aceitação e compreensão dos participantes.
Observando a interpretação da qualidade da água
a partir dos dados obtidos no dia da oficina constata-se que os
participantes têm condição de participar de um
programa de monitoramento participativo, pois são capazes de
reconhecer a importância dos parâmetros ambientais e o
impacto que a alteração destes pode causar ao meio
ambiente e a qualidade de vida.
Atuar na capacitação da
comunidade para que esta possa participar do gerenciamento dos
recursos hídricos e de seu entorno, é de fundamental
importância na construção de uma sociedade
organizada e preparada para perceber os problemas coletivos e
questionar as necessidades, além de apontar soluções
para o bem comum, atuando como um agente transformador da sua
realidade.
AGRADECIMENTOS
Gostaríamos de agradecer o
Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares pela
possibilidade de desenvolver este trabalho, à Fundação
de Amparo à Pesquisa de São Paulo pelo suporte
financeiro e ao Projeto Bacias Irmãs e Instituto Ecoar para
Cidadania pela parceria no desenvolvimento deste.
REFERÊNCIAS
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