Imagens de um bosque e de um rio: multiplicidades culturais em práticas educativas
Seção:
Trabalhos apresentados
Narrativas sobre um bosque e um
rio:
multiplicidades culturais em
práticas educativas
Leandro Belinaso Guimarães1;
Priscila
Fernanda Rech2;
Aline
Gevaerd Krelling3
2Bacharel
e Licenciada
em Biologia pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).
Endereço: Rua Gastão Benetti, 485, Centro, São
Miguel do Oeste/SC. CEP 89900-000. Telefone celular: (49)99862455.
E-mail: prirechbio@yahoo.com.br
3Bacharel
e Licenciada
em Biologia pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).
Endereço: Rua Jaú Guedes da Fonseca, 292, Bl. D apto
101, Florianópolis/SC. CEP: 88080-080. Telefone celular:
(48)99741464. Email: li_krelling@yahoo.com.br.
Resumo
O presente artigo articula duas
pesquisas acadêmicas desenvolvidas no âmbito do “Grupo
Tecendo – Educação Ambiental e Estudos
Culturais”. Através dessas duas investigações
pretendemos provocar indagações sobre os modos com os
quais os sujeitos humanos tecem relações com os
diferentes lugares, nos quais se configuram nossas vidas cotidianas.
A primeira pesquisa explanada aqui foi desenvolvida em uma comunidade
rural do Extremo-Oeste de Santa Catarina no decorrer do ano de 2008.
O estudo teve como objetivo central conhecer como os moradores de
Lajeado Taquá teciam relações com um importante
rio regional, o Rio das Antas. O segundo estudo construiu-se num
bosque em meio à cidade, o Bosque Pedro Medeiros. Uma turma de
30 alunos participou de dois encontros em que algumas atividades
pedagógicas foram desenvolvidas e partir delas, pretendíamos
vislumbrar a multiplicidade de olhares e relações
tecidas pelas crianças com
aquele e através
daquele lugar.
Este artigo articula duas
investigações processadas no ano de 2008 no âmbito
do “Grupo Tecendo – Educação Ambiental e
Estudos Culturais”, da Universidade Federal de Santa Catarina
(UFSC). Nele podemos ler uma das principais preocupações
do “Grupo Tecendo”: provocar indagações
sobre os modos com que sujeitos humanos tecem relações
com diferentes lugares, nos quais se configuram os ambientes das
nossas vidas cotidianas.
Temos compreendido que nesse nosso
tempo atual, que alguns autores nomeiam como pós-modernos, a
cultura ocupa uma centralidade com relação aos modos
como vamos significando o mundo e nas maneiras como negociamos e
compomos nossas identidades. Partimos do pressuposto que aprendemos a
nos relacionar com, por exemplo, um bosque ou um rio a partir das
práticas que fomos historicamente tecendo com tais lugares.
Ademais, enxergamos um bosque ou um rio a partir das histórias
que nós mesmos contamos e que estão vinculadas com
aquelas que escutamos. Vamos significando um bosque ou um rio através
das formas como fomos sendo ensinados pelas ações
educativas (escolares ou não) que participamos, pelas formas
como programas televisivos narram rios e bosques espalhados pelo
mundo, pelas histórias literárias que lemos no decorrer
das nossas vidas; enfim, é no âmbito da cultura (dessas
várias práticas instituidoras de significações)
que negociamos os modos como entendemos um bosque ou um rio, entre
outros diversos lugares (GUIMARÃES, 2006).
Além desse aspecto relativo à
forma como entendemos os processos culturais, que enxergamos
assumirem uma dimensão pedagógica já que eles
estão implicados em nos ensinar sobre as coisas do mundo, nós
não podemos deixar de referir os modos como estamos compreendo
o “lugar” das nossas intervenções de
pesquisa em educação ambiental.
Neste texto estão em jogo duas
investigações que buscam ver como sujeitos enxergam e
se relacionam com um rio e com um bosque. Tais lugares são
tomados como múltiplos, ou seja, como atravessados tanto por
histórias locais, como por narrativas globais. Eles são
vistos como lugares abertos e dinâmicos, em movimentação
constante, “lugares-encontro” (MASSEY, 2008), construídos
e reconstruídos pelas relações entre humanos e
não-humanos.
Interessa-nos tecer narrativas
escritas e imagéticas, através de dispositivos
educativos e/ou por coletas de depoimentos orais, sobre como tais
lugares (no caso desse artigo um rio do Extremo-Oeste de Santa
Catarina e um bosque urbano de Florianópolis) são
narrados por sujeitos que vivem no seu entorno.
Consideramos tais práticas
investigativas que criam narrativas sobre diferentes lugares,
invenções de uma educação ambiental que
pretende mostrar os vários fios que estão em jogo nas
tramas que vão compondo, recompondo, desfazendo, construindo,
desfigurando um ambiente. Nossa pretensão é emaranhar
os sujeitos das nossas investigações (e nós
mesmos) nessa rede que vamos tecendo.
Feitas estas considerações
de caráter mais introdutório, passamos, agora, a
comentar brevemente cada uma das pesquisas aqui anunciadas.
Narrativas de desertos repletos de
vidas, de verdes e de histórias

“O serpentear das águas
do Rio das Antas...”
A pesquisa que aqui brevemente
contaremos (intitulada Vidas
em torno de um rio: narrativas sobre desertos e saberes)
foi realizada, por uma das co-autoras deste artigo, em uma comunidade
rural do Extremo-Oeste de Santa Catarina no decorrer do ano de 2008.
O estudo teve como objetivo central conhecer como os moradores de
Lajeado Taquá, a comunidade-alvo da investigação,
teciam relações com um importante rio regional, o Rio
das Antas. Para tanto, foram colhidos dezesseis depoimentos orais de
homens, mulheres, jovens e adultos daquela localidade. Nesses
depoimentos (conversas “informais” que foram gravadas), a
partir dos quais tecemos as narrativas que balizaram a pesquisa,
emergiram histórias de como os moradores relacionavam-se com o
rio em tempos passados e no presente e, também, saberes sobre
os peixes, as plantas, as doenças e suas curas, a poluição
das águas, a ecologia. Entre as histórias e os saberes
que os moradores narravam e que nós escrituramos (o que
significa dizer que, enquanto pesquisadores, tivemos participação
ativa na construção dessas histórias) imagens de
desertos emergiam nas cenas que se iam compondo.
Uma questão nos assombrou logo
no início da pesquisa: como uma região para nós
tão bonita, tão verdejante, tão repleta de
vidas, podia ser narrada, pelos próprios moradores, com tantas
marcas de abandono? Parecia, até mesmo, um cenário de
deserto que se compunha! E isso para nós era surpreendente,
pois estava ali bem próximo às casas que visitamos o
caudaloso Rio das Antas. E era sobre as relações desses
moradores com esse rio a questão central da nossa
investigação.
A
desertificação, segundo aprendemos com Nancy Mangabeira
Unger (2001), pode ser entendida não somente como um processo
biofísico decorrente de uma incisiva ação humana
(ou não) sobre um ambiente “natural”, que
provocaria, por exemplo, a poluição e escassez das
águas, a mortandade e o desaparecimento de peixes e de outros
seres vivos. A desertificação pode também se
referir a uma forma de relação desencantada (porque
muito racionalizada e objetiva) entre os humanos e os não-humanos.
Em Taquá, parece
haver vários desertos compondo aquele cenário
narrativo. Além da água do rio estar diminuindo e os
peixes estarem escassos, os sujeitos daquela localidade estão
envelhecendo e tornando-se raros. Neste sentido, parece, inclusive,
que uma aridez nas relações afetivas e sociais está
se configurando. Os moradores (agora poucos e idosos em um lugar que
já foi também preenchido por crianças – os
mais jovens parecem, agora, só vir passar as férias por
lá) já não pescam mais no rio, não se
banham em suas corredeiras, não brincam em suas águas,
não se aproximam muito de suas margens – ações
que preenchiam os tempos passados dos sujeitos de Taquá. Além
disso, e segundo alguns depoentes, outrora os moradores eram mais
próximos entre eles mesmos (apesar da distância das
propriedades), pois os encontros eram mais freqüentes.
Por todas estas narrações
sobre um lugar em aparente diluição, que argumentamos
que as narrativas que colhemos nos falam de desertos, nos mostram
como, de repente, o rio ficou distante, longe, embora tão
fisicamente próximo (os moradores tiram a água de
consumo diário de poços que passaram a ser instalados
paulatinamente nas casas que permaneceram). Apesar desse estado
latente de desertos (de águas, de peixes, de humanos, de
relações sociais), também passível de ser
ilustrado pelas muitas casas abandonadas na localidade, pela escola
trancada e silenciada, pela invasão da capoeira no lugar da
mata, tivemos algumas surpresas.
Havia muitos saberes articulados nas
narrativas que fomos construindo a partir das falas dos moradores.
Encontramos no entorno daquela aparente aridez, sabedorias que não
imaginamos que pudessem estar tão presentes nas falas daqueles
sujeitos. Muitos articulavam saberes ecológicos em suas
avaliações sobre o ambiente em Taquá. Talvez, em
razão da mediação pedagógica que tiveram
pela atuação de organismos oficiais que os ensinaram,
entre outras coisas, sobre ecologia. Porém, em jogo estão
também os saberes da experiência tecidos em anos de
úmidas vivências com um rio e seus peixes. Vimos,
inclusive, práticas de curas a partir das plantas, saberes que
dotam de vivacidade e importância o cotidiano daqueles
sujeitos. São as memórias dos ribeirinhos, seus saberes
tão repletos de ecologias, suas profundas alianças com
o lugar em que vivem que o dotam não apenas como narrativas de
desertos, mas, também, e paradoxalmente talvez, de vidas e de
saberes.
Tecendo
encontros e experiências em uma prática educativa

Num bosque em meio à cidade
construiu-se a segunda pesquisa que contaremos aqui (intitulada Um
Bosque com vida: encontros e experiências através da
educação ambiental),
realizada por uma das co-autoras deste artigo, no ano de 2008. O
Bosque Pedro Medeiros (lugar da pesquisa) é uma área
verde de lazer pública, localizada na parte continental do
município de Florianópolis. Aberto ao público em
março de 2002, esse espaço contempla uma área
remanescente de Mata Atlântica de 10.000 m2,
uma antiga edificação luso-brasileira construída
no século XIX e alguns equipamentos de lazer. O Bosque é
permeado de marcações humanas: as trilhas são
varridas diariamente, apresentando-se impecavelmente “limpas”;
há a introdução de espécies “exóticas”,
tanto animais quanto vegetais; ao longo de seus caminhos é
possível observar as construções urbanas que
sufocam o seu espaço; os sons caóticos da cidade
misturam-se ao canto dos pássaros. Esse território
configura-se assim, como uma paisagem, um produto histórico
resultante das interações estabelecidas entre nós
seres humanos e o mundo natural (SERRÃO-NEUMANN, 2007).
Para desenvolver a pesquisa
convidamos uma turma de 30 alunos do terceiro ano do ensino
fundamental do CEPAJO – Centro Educacional Padre Jordan, para
participar de dois momentos de encontros pedagógicos no
Bosque. Algumas atividades educativas foram planejadas para esses
dois dias e pretendíamos, a partir delas, vislumbrar a
multiplicidade de olhares e relações tecidas pelas
crianças com aquele
e através daquele
lugar (o Bosque). A partir das falas das crianças, da
atmosfera que permeava os encontros, das emoções
sentidas e da própria seqüência cronológica
dos fatos ocorridos, confeccionamos um diário, a partir do
qual foram pensados os principais pontos de análise da
pesquisa.
Apesar de termos uma intencionalidade
(ver como os sujeitos enxergam e se relacionam com o Bosque) que
perpassava as atividades desenvolvidas, não pretendíamos
controlá-las nem reduzi-las a momentos meramente informativos.
Pretendíamos deixá-las abertas, possibilitando outras
experiências que iam além da intencionalidade. Segundo
Jorge Larrosa (2002) a experiência é o que nos acontece,
e para que algo nos aconteça uma ruptura se faz necessária.
É preciso parar: para pensar, sentir, ouvir, olhar, encontrar
a si e ao outro, imaginar, inventar...
Não nos cabe avaliar (e nem
nos é possível) as experiências vividas por cada
um, pois a experiência é algo singular (embora sempre
permeada pela cultura). Desejamos apenas analisar as questões
que foram mais recorrentemente enunciadas pelas crianças no
decorrer das atividades pedagógicas por nós
construídas. Através delas é que buscamos
responder nossa pergunta central: como as crianças enxergavam
o Bosque e, portanto, que relações com aquele lugar
elas se permitiam tecer.
Entre as várias questões
analisadas no estudo destacamos a penetrabilidade de artefatos
midiáticos nos modos como as crianças enunciavam a
paisagem do Bosque. Partindo do pressuposto de que esses artefatos
assumem uma dimensão pedagógica a nos ensinar sobre o
mundo, ficou explícita sua participação no modo
como as crianças narram os elementos constitutivos daquele
lugar. Por exemplo, estava em jogo nas falas das crianças uma
confusão de fronteiras entre o que seria uma espécie
exótica e outra nativa (dualidade tomada de forma tão
naturalizada por nós biólogos e professores de ciências
e biologia). Para as crianças não interessava que as
galinhas e coelhos presentes no Bosque (introduzidos propositalmente
pelos gestores do mesmo) não eram espécies nativas da
Mata Atlântica. A elas interessava, simplesmente, ver e tocar
os animais. Elas inclusive perguntavam por animais (que pensavam
poder existir no Bosque) que costumeiramente são “encontrados”
nos desenhos e filmes cinematográficos. O próprio
Bosque apresenta uma paisagem tão modificada, com a quase
ausência total de suas características “naturais”
(se é que possamos dizer que há algum lugar – por
mais recôndito que seja – sem qualquer marcação
humana), que não é mais possível separar com
facilidade o que seria exótico do que seria nativo. Nesse
nosso tempo atual, o próximo de nós pode ser algo
fisicamente muito distante e o distante algo que não reparamos
estar bem ao nosso lado.
Há muitos outros aspectos a
serem discutidos nessa nossa pesquisa, mas nosso intuito neste curto
texto foi apenas apresentar um pouco os modos como temos produzido
nossas investigações no campo da educação
ambiental no âmbito do “Grupo Tecendo”. Destacamos
que compreender os modos como vemos e narramos os lugares cotidianos
da nossa existência é algo muito importante para
indagarmos como tais lugares foram se transformando e para nos
perguntarmos pelos modos pelos quais os desejamos seguir construindo
e reconstruindo.
Referências Bibliográficas
GUIMARÃES, Leandro Belinaso. “A
natureza na arena cultural”, Jornal
A Página,
Portugal, número 155, ano 15, abril/2006, página 7.
Disponível em:
<http://www.apagina.pt/arquivo/Artigo.asp?ID=4517>.
Acesso em: 05 de março de 2009.
LARROSA, Jorge. “Notas sobre a
experiência e o saber da experiência”, Revista
Brasileira de Educação,
Rio de Janeiro, número 19, jan/abr/2002, páginas 20-28.
MASSEY, Doreen. Pelo
espaço: uma nova política da espacialidade.
Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2008.
SERRÃO-NEUMANN, Silvia Maria.
Para além dos
domínios da mata: estratégias de preservação
de fragmentos florestais no Brasil
(Santa Genebra, Campinas, SP). São Paulo: Annablume, 2007.
UNGER, Nancy Mangabeira. Da
foz à nascente: o recado do rio.
São Paulo: Cortez; Campinas: Editora da Unicamp, 2001.
Apresentação
O presente artigo articula duas
pesquisas acadêmicas que pretendem provocar indagações
sobre os modos com os quais os sujeitos humanos tecem relações
com os diferentes lugares, nos quais se configuram nossas vidas
cotidianas.